Do lado de dentro e de fora da corda: marcando toca e não virando moita no Campo Grande, na Barra e na Praça Castro Alves.
Passei o carnaval de 1990 em Salvador. Trabalhando. E me divertindo. Muito. Eu era o diretor de produção da Metavídeo, produtora que o jornalista Roberto Feith manteve funcionando até perceber objetivamente que vender livros era mais fácil do que fazer filmes. O filme que a Metavídeo estava fazendo naquele verão era o documentário “Folia na Bahia”, obviamente, sobre o carnaval baiano. Cabia a mim cuidar do orçamento, da logística da equipe, comida, transporte, hospedagem, etc. Em Salvador. No carnaval.

A ideia de Belisário Franca, diretor do filme, era mostrar o cotidiano de foliões de diferentes blocos e trios, de diferentes classes sociais e de diferentes bairros da cidade. Belisário Franca não é exatamente uma simpatia, mas é um diretor que entende tudo do riscado e que deixa muito claro para a equipe o que ele pretende fazer e o que precisa para isto. E ele precisava de muita coisa. Primeira missão: negociar com o bloco afro Muzenza, na época um dos mais populares de Salvador, para que pudéssemos acompanhar e filmar o desfile deles. Fui ao encontro de Barabadá, o presidente do bloco. Expliquei o que era o filme e o que queríamos. Eu estava me sentindo um tycoon da indústria cinematográfica, mesmo sendo apenas um simples produtor chinelo de um documentário de baixo orçamento. Vai ter axé? Barabadá perguntou. Axé? Sim, axé. Com axé, você filma. Sem axé, não. Quanto é o axé? Acertamos o valor. Agora que tem axé, vocês podem filmar


Segunda missão: Filhos de Gandhy. A sede do mais famoso afoxé da Bahia, ficava em um velho casarão no Pelourinho, bem perto da Casa de Jorge Amado. Para desfilar, os integrantes do grupo precisavam estar com as mensalidades em dia. Naquele dia o casarão estava apinhado de gente tentando resolver os penduras e eu levei quase meia hora para subir os três lances de escada e chegar na sala do presidente do afoxé. Que horas são meu branco? Era a primeira vez que me chamavam de branco, não pejorativamente, mas de fato, eu era o único branco ali naquela sala. Formalidades acertadas, agora era arranjar nosso personagem.

No térreo havia uma espécie de salão de beleza improvisado, onde um bando de marmanjos, velhos e jovens ajeitavam seus turbantes brancos para o desfile. Era uma cena bonita de ver. Tinha uma figura com uma longa cabeleira dread, que achei que poderia ser um bom personagem para o documentário. É o Waldir, me disse o presidente, com um estranho sorriso no rosto. Waldir, venha cá! (Mais uns dias na Bahia e eu também começaria a falar no imperativo). Conversei com Waldir. Ele me contou um pouco de sua vida. De folião. Expliquei o trabalho, que ele seria filmado em três momentos diferentes: 1-se preparando para o carnaval, 2-no bloco durante o carnaval 3-depois do carnaval, em um dia normal de sua vida.
Naquela mesma tarde filmamos o primeiro momento em um casarão que estava quase desabando ao lado da sede do Gandhy. O casarão serviu como cenário para a “casa do Waldir” no filme. As “Filhas de Gandhy” estavam ensaiando ali e era uma cena mais linda ainda de se ver. Enquanto a equipe filmava, eu fiquei na varanda, conversando com o presidente, que para passar o tempo, me explicava a movimentação na rua: aquela ali vai encontrar o amante. Aquele lá tá matando o serviço. Aquele outro lá ta fugindo da polícia. Aquele russo ali, tá vendo? tá bebendo escondido da filha. A praça do Pelourinho parecia uma pequena paróquia de interior.



O desfile do Ganhdy seria no domingo e marquei de encontrar o Waldir às duas da tarde na escadaria da Casa de Jorge Amado. Tudo beleza? Tudo beleza. No domingo, duas em ponto estávamos lá, na escadaria da Casa de Jorge Amado. Junto com mais 5 mil homens de turbante branco. Centenas deles, com cabelos rastafári. E o Waldir??? Comecei a procurar o Waldir. Nada do cara. Os minutos foram passando, o afoxé já estava pronto para sair do Pelourinho e começar seu desfile. Fabiano! Cadê o Waldir? Tô procurando. O Gandhy parte devagar, a equipe começa a filmar, a nossa Kombi parte também no meio da massa, e eu no meio de tudo, cheio de alfazema na cara, entre a Kombi e a massa, junto com Iansã, Iemanjá, chama Xangô, Oxóssi também, todo mundo desceu pra ver o Filhos de Gandhy. Belisário me via e gritava: Fabiano, porra, cadê o Waldir???? Fabiano seu fela, cadê o Waldir???? Lá pelas tantas eu liguei o foda-se, continuei procurando o Waldir, mas resolvi aproveitar o mercador, cavaleiro de Bagdá, oh filhos de Obá, meu pai do céu na terra é carnaval, e também desci pra ver de verdade os Filhos de Gandhy. O desfile acabou e os milhares de Filhos de Gandhy se dispersaram pelas ruas da cidade.


Nossa equipe tinha um segurança, Toinho, que era uma espécie de rei em Salvador. Conhecia a cidade inteira, todos os cantos, todas as figuras, era amigo das patricinhas loirinhas do circuito Ondina-Barra, das estrelas da música baiana, de cariocas e paulistas e pra minha sorte, de figuras como o Waldir. Percorremos o bairro da Liberdade até sei lá que horas da noite atrás dele. Encontramos. Ufa! Waldir, então amanhã nos vemos às 14 horas na portaria do Hotel da Bahia pra filmarmos contigo. Combinado? Combinado. O carro pode vir te buscar. Precisa não, pode deixar, amanhã duas em ponto tô lá.
No início da década de 90, se você estivesse na zona sul do Rio de Janeiro durante o carnaval, poderia pensar que nem era carnaval. Tirando a Banda de Ipanema, o Simpatia é Quase Amor e o Suvaco do Cristo, a cidade depois do túnel Rebouças sentido Lagoa, ficava numa relax, numa tranquila, numa boa. Em Salvador, ao contrário, a cidade vivia (vive ainda) e respirava carnaval às 24 horas do dia. Ficamos hospedados no Hotel da Bahia, que naquele tempo ainda era da Varig. Ele fica no Campo Grande, epicentro do carnaval baiano e o mesmo lugar onde Moraes Moreira não marcava toca. Bastava descer do quarto e o carnaval já estava acontecendo na calçada.

Ao longo do dia víamos gente pelas ruas com roupa do Apaches, do Ara Ketu, do Gandhy. Waldir chegou. As duas em ponto, como combinado. Com uma roupa do… Ilê Aiyê. Waldir, cadê a roupa do Gandhy??? Encontrei um brother no caminho e troquei com ele, aí eu saio no Ilê mais tarde. Agi rápido. Parei um cara na rua, aluguei sua roupa do Gandhy por algumas horas, reuni mais uns cinco ou seis foliões que estavam de turbante azul e branco e foi assim que o Waldir apareceu no filme, em closes e planos fechados inseridos depois na montagem esperta do Sergio Mekler.



O roteiro e a pesquisa de Folia na Bahia foi de Hermano Vianna. Ele já tinha as suas antenas ligadas nas coisas que estavam acontecendo e nas que estavam para acontecer. O Superoutro do Edgar Navarro. O começo da transformação dos afoxés e dos blocos afros em movimentos culturais de massa e ao mesmo tempo em uma indústria de entretenimento. O renascimento do samba de roda. Vimos o Gera Samba, tocando para meia dúzia de gente num coreto de praça. Um renascimento que naquele momento, era completamente ignorado pela mídia e pelo público.
O sucesso daquele carnaval foi Meia Lua Inteira. O Candeal ainda era uma promessa, Luiz Caldas ainda fazia sucesso mas não reinava mais absoluto. Eu gostei mesmo foi de ouvir Sarajane cantando Abre a roda morena e do Gerônimo cantando Abra a boca e feche os Olhos. O grupo de Gerônimo era disparado o mais bacana, um carnaval com sotaque caribenho.
Durante uma semana filmamos das duas da tarde até meia noite, uma da manhã, aproximadamemte. Eu dividia o quarto com o fotógrafo, Paulo Violeta, que assim como eu, fumava, bebia e saía pra folia quando o trabalho acabava. Hermano Vianna dividia o quarto com meu amigo de fé, irmão camarada Reynaldo Zangrandi, que era o assistente de câmera. Os dois não saíam pra farra. Hermano ficava lendo o Seminário de Lacan. O meu amigo de fé, irmão camarada, exausto, tentava ler o ensaio sobre fotografia da Susan Sontag. No carnaval da Bahia…Até hoje rio-me disto.
Suplício foi acompanhar o Chiclete com Banana. Ouvir o teclado Yamaha ser castigado junto com o refrão de Se Liga Brasil, Eu sou Brasileiro, me dava calafrios. Me fazia lembrar com simpatia do Flávio Cavalcanti, que quebrava os discos que não gostava ao vivo e em preto e branco em seu programa…
Folia na Bahia foi apresentado pela Regina Casé e serviu de certa forma, como um piloto do Programa Legal, também apresentado pela Regina Casé e exibido na Globo. O programa era cheio de novidades estéticas e narrativas e Belisário ganhou prêmio de melhor série documental em Havana. Hermano atualizava, na tv e logo depois, nos discos que fez na série cartografia musical brasileira, o trabalho feito por Mário de Andrade, nos anos 30. E isto era muito legal.
Por outro lado, o que me incomodava pacas, é que a partir daquele momento tudo passou a ser legal! Regina Casé, mesmo que involuntariamente, estava se transformado numa Marcia de Windsor pós tudo. Pagodinho romântico? Legal! Sertanejo universitário? Legal!


Naquele mesmo ano voltamos pra Salvador durante a época da micareta, para filmar as cenas cotidianas dos personagens, entre elas, do Waldir trabalhando. Mas Waldir estava sem trabalho. Arrumei um emprego de frentista pra ele num posto de gasolina na Praia Vermelha. Quando íamos começar a gravar, dois caras gritaram da calçada: Olha lá, olha só…É o Waldir!! Trabalhando!!! Nunca ví isto!


No início dos anos 2000 passei outro carnaval na Bahia, desta vez, para fazer um institucional do Camarote do Gil, o Expresso 2222. Meu cumpadre Luis Marcelo Mendes era um dos bambas da Tecnopo, que cuidava da identidade visual do Expresso e me colocou na jogada. Trabalho bem mais tranquilo, entrevistar personalidades de todos os naipes, de todos os estilos e de todas as turmas que estavam por lá para se ver e para serem vistos. O lance era filmar políticos, empresários e artistas confraternizando na folia. Mostrar a alegria dos funcionários convidados pelas empresas patrocinadoras, o gerente do cartão de crédito, da cerveja, etc, etc. Jorge Mautner e Vanessa Camargo. Arto Lindsay e Marcos Mion. Todos juntos e mixturados na legalidade e na bacanidade.
Pra minha sorte, tive o privilégio de trabalhar com Arlete Soares, fotógrafa maravilhosa, gigante, ninja, que durante anos tocou a editora Corrupio, que publicava a obra de Pierre Verger. Manjam aquele disco de 72 do Chico & Caetano gravado ao vivo na Bahia? Sabe de quem são as fotos que estão na capa e na contracapa? Pois é, dona Arlete.
Passei a maior parte deste carnaval do outro lado da corda. O carnaval baiano, como de hábito, já tinha mudado. Gerônimo despontou no Farol às quatro da tarde. Veio acompanhado de sua banda e de dezenas de velhas senhoras baianas. Lindas demais. Cantando sambas lindos demais. Quase ninguém foi pra varanda do camarote mais disputado do circuito Ondina-Barra pra assistir. Perderam.
No mais, Axé para todos nós! O axé da alma e o axé do Barabadá, aquele do faz-me rir. Assinem Na Corda Bamba! Apenas 10 axés mensais! Quinta que vem tem mais. Amor, Love, Axé!
PS: Não tenho nenhuma imagem ou link para Folia na Bahia. Tinha uma fita vhs que se perdeu entre tantas mudanças de vida e de folia. Waldir, mais uma vez, não vai aparecer. Se alguém tiver, ou foto do Waldir, ou uma cópia de Folia na Bahia, manda pra corda!

LINKS BAMBAS PARA FOLIÕES DE TODOS OS NAIPES!
Quem quiser conferir o trabalho do diretor Belisário Franca, o site de sua produtora é: https://www.giros.com.br
Lula Buarque de Hollanda também retratou o Filhos de Ganhdy em dobradinha com Gilberto Gil. Aqui tem uma palhinha:
Mais do que nunca, precisamos fortalecer, apoiar e prestigiar o trabalho do IPHAN. A página do IPHAN Pelourinho: http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/35/
O SUPEROUTRO! Edgar Navarro! E Bertrand Duarte! Cinema de invenção, de provocação e diversão. Obrigatório. Em breve nestas páginas, uma super entrevista que fiz com Navarro em 2019 e uma aventura com Bertrand Duarte. O link tem restrições de idade, e só pode ser visto direto no youtube.
José Araripe é outro cineasta que joga em várias posições (é designer, ilustrador, diretor de arte, artista plástico, músico) e que começou praticamente junto no cinema com Edgar Navarro nos anos 70. Araripe tem um longa muito bacana chamado ESSES MOÇOS:
Mas a história de Araripe que me diverte mesmo é seu episódio no filme “Três Histórias da Bahia” de 1999. O argumento é simplesmente sensacional: uma banda baiana de hard rock faz um pacto com o diabo. Eles querem o sucesso. O diabo vai dar. Mas em troca, eles vão ter que tocar axé!
A História é relativamente conhecida: Capitães de Areia, livro que Jorge Amado escreveu em 1937, fez muito sucesso na Europa e principalmente na Rússia. É o livro de cabeceira do camarada Putin, que aprendeu nas páginas escritas pelo baiano, que quando a luta é inevitável, ataque primeiro! O filme teve uma versão americana, filmada em 1969, que também fez muito sucesso na antiga URSS. Aqui tem um link curto do youtube, mostrando uma cena de Eliana Pittman com Guilherme Lamounier:
A música de Dorival Caymmi “Canção da Partida”, que está no filme fez tanto sucesso na Rússia, que existem dezenas de versões dela na língua de Maiakovski. No link vai uma delas:
Em 2011 Cecília Amado atualizou o Capitães de Areia. No link o trailer:
No final dos anos 30, Mário de Andrade, apesar de andar com uma rapaziada catita e legal, andava numa mais ou menos. Tinha brigado com Oswald, perdido em 32 e seu trabalho com os modernistas cariocas no IPHAN e no Ministério de Capanema estava na corda bamba. Voltou pra São Paulo e com o apoio do prefeito Flavio Prado, organizou uma Missão de Pesquisas Folclóricas que percorreu diversos estados do Norte e Nordeste, fotografando, filmando e gravando dezenas de manifestações culturais e religiosas, quase todas elas em processo ou de transformação ou de desaparecimento. O fato destas viagens terem sido feitas e de grande parte deste material existir é um verdadeiro milagre. O SESC e o Centro Cultural São Paulo lançaram uma caixa com todo o material gravado. Vale procurar a caixa nas boas livrarias do ramo. Aqui um link de uma gravação da Nau Catarineta na Paraíba.
Quem quiser conhecer o trabalho feito no final da década de 90 por Hermano Vianna, a Cartografia Musical Brasileira, aí vai uma página:
https://discografia.discosdobrasil.com.br/discos/cartografia-musical-brasileira-mapi
E o trabalho da fotógrafa Arlete Soares pode ser conferido em seu instagram: https://www.instagram.com/acervoarletesoares/
e pra encerrar, duas “espetacularidades” do carnaval de 1990:
Domingo tem playlist! Axé!
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