Jangadas voadoras, expedições científicas fracassadas, cavalos selvagens e casas com jardim em Carajás.

O cara apareceu na produtora numa tarde pra lá de modorrenta e conseguiu vender seu projeto que era muito ambicioso: viajar por praticamente toda a Amazônia Legal Brasileira para fazer uma série de documentários. No final do dia, já com as bençãos de Roberto Feith, o dono da Metavídeo, fomos para o Joia, um boteco na esquina da Jardim Botânico com a Faro, onde um mapa 4 Rodas foi aberto na mesa e as bolachas dos chopes serviram pra marcar os lugares que ele ia me descrevendo: aqui é uma cidade de japoneses, nesta só tem gaúchos, esta é uma reserva dos Gaviões, aqui a Vale tá destruindo tudo, aqui é o melhor lugar pra encontrar onças e aqui tem uma balsa puteiro inacreditável. Quem contava era Sergio Bernardes, o filho. Quem conheceu o pai, mesmo que superficialmente, sabe que o arquiteto Sergio Bernardes, além de gênio visionário, era uma figuraça. Cinco minutos de conversa e já estávamos seduzidos por suas histórias fantásticas. O filho cineasta herdou este talento do pai e também sabia contar histórias fantásticas. E tudo que ele apresentava naquele mapa me parecia fantástico, até porque, nunca tinha ido pra Amazônia.

Junto com o fotógrafo Paulo Santos, fomos para Brasília, pegamos o equipamento no CPCE da UNB e de lá, com a companhia do assistente de câmera André Luis da Cunha, voamos pra Manaus. O André, alguns anos depois, iria se tornar um dos mais disputados fotógrafos do DF. Em Manaus, um grupo de cientistas franceses estava pronto para começar uma expedição em conjunto com cientistas brasileiros e pesquisadores do INPA (Instituto Nacional de Pesquisas Amazônicas). Não era uma expedição qualquer. Os franceses traziam um balão, na verdade, um dirigível que subia até a copa das altíssimas árvores da floresta. Chegando lá no alto, eles desciam do dirigível uma traquitana chamada “jangada voadora”, um conjunto de redes e borrachas infláveis que formavam uma plataforma gigante que eles pousavam delicadamente na copa das árvores. Estar no topo daquelas árvores era, principalmente para os entomologistas, como estar em um planeta jamais visto. Uma oportunidade de ver espécies raras em lugares jamais atingidos. Lembrem-se: drones não existiam. Outro detalhe: os pesquisadores ficavam literalmente na copa das árvores. E para documentar tudo isto, os franceses venderam os direitos para um canal japonês, que tinha uma equipe na expedição.


Mas, parodiando o Barão, havia algo no ar além dos balões de carreira. A equipe francesa agia como se estivesse na França Antártica ou na Argélia antes da independência. Eles tinham feito somente alguns testes de voo com o dirigível, na Guiana Francesa, considerados insuficientes para a aeronáutica brasileira. Para voar aqui, eles precisavam de um ok da Aeronáutica. Um ok que seria dado, após mais alguns testes. Os franceses não esperaram e resolveram voar sem autorização. O INPA tinha um militar que era responsável pela segurança da expedição. O cara ficou puto nas botas. A expedição foi adiada e o equipamento foi recolhido. Em geral, os acordos de expedições internacionais determinam uma igualdade, uma reciprocidade tanto no número e na categoria de pesquisadores. Se há dois botânicos estrangeiros, deve haver dois brasileiros, e assim por diante. Os franceses não estavam respeitando o acordo e isto não se resumia só no número de cientistas. Os brasileiros convocados por eles eram estagiários da USP, que além de tudo, estavam com as diárias atrasadas. Os franceses separaram os barcos, o maior e mais confortável para eles, e o menor, mais lento, apertado e vagaba para a caboclada do bananal. Como tinham vendido os direitos para a televisão japonesa, também estavam pouco se lixando para nós.

Durante quase uma semana passei os dias acompanhando as discussões, as tramitações burocráticas e os desdobramentos das negociações. Embarca, não embarca, sai, não sai. Enquanto isto, eu me divertia vendo ariranhas, peixes-bois e outros bichos do mini zoo do INPA. De noite era Ponta Negra sem prédio, uísque da zona franca e lambada do Betto Douglas e do Beto Barbosa. Sergio Bernardes, que tinha mais o que fazer do que ficar na Ponta Negra ouvindo lambada, servia como mediador entre os bonapartistas e os pindorâmicos, tentando explicar para os franceses que eles estavam pisando no foie gras e que os militares do INPA estavam muito afins de cancelar a expedição e confiscar o equipamento deles. Os franceses seguiam intransigentes, arrogantes e indiferentes, certos de que nada aconteceria. Mas aconteceu. Para minha tristeza, a expedição foi cancelada e os franceses, foram expulsos.

Para não perder a viagem e nem jogar todo o dinheiro fora, Mr. Bob Feith lembrou de um outro projeto da casa, sobre os cavalos selvagens de Roraima. E assim tocamos pra Boa Vista, que em 1989 vivia o auge do garimpo. No site Repórter Brasil em uma matéria recente sobre a cidade, as jornalistas Maria Fernanda Ribeiro e Clara Britto, descrevem assim a cidade naquela época: “Em 1989, a Rua do Ouro saiu nas páginas do jornal The New York Times como um centro de circulação do minério vindo da área indígena Yanomami. Hoje, a via ainda reúne as mesmas fileiras de lojinhas coladas umas às outras, ainda que muitos empresários estejam migrando seus negócios para outras áreas menos visadas da cidade, como as Avenidas Ataíde Teive e Solón Rodrigues Pessoa, a alguns quilômetros dali. As empresas da Rua do Ouro estão há anos na mira da Polícia Federal (PF), conforme mostram relatórios das três principais operações realizadas contra o garimpo na Terra Yanomami desde 2012”.

O aeroporto de Boa Vista era a verdadeira festa do peão garimpeiro, com filas de monomotores, bimotores e outros teco-tecos levantando voo a cada minuto. Entramos em um destes, que nos levou para uma fazenda bem próxima do Monte Roraima, onde ficavam os cavalos selvagens.

A fazenda era no meio de um nada. Um nada meio savana, meio floresta, cortado pela BR-174 que estava interditada porque era época de chuva. O dono da fazenda era um mato-grossense, neto de gaúcho e jovem liderança da UDR local. Ou seja, era tudo, menos um amor de pessoa… E eu passei os dias naquele nada ouvindo piadas de gaúcho, comendo arroz de carreteiro no café da manhã, cagando no mato e sendo devorado por todos os tipos de mosquitos existentes no planeta. O banho no rio salvava, mas não se podia facilitar, era preciso ficar de olho nos jacarés. Num destes mergulhos eu pude comprovar o enorme talento de Sergio Bernardes, que conseguiu dizer para o nosso anfitrião que ele era um filho da puta matador de índio e o filho da puta ouviu tudo sorrindo achando que era elogio.



Na volta eu tive meu primeiro, embora ainda discreto, vislumbre do que era uma rotina garimpeira. Nossa equipe + equipamento não cabia num voo só. O piloto me levou junto com o equipamento até um trecho que não estava alagado da BR-174, pousou na estrada, eu descarreguei o equipamento, ele me perguntou se eu tinha uma fita crepe, eu disse que sim, ele pegou umas tiras e tapou uns buracos na asa! O piloto era paraguaio e tinha um crucifixo de ouro gigante dependurado no peito. Levantou voo e eu fiquei ali, sentado fumando, no meio da estrada, esperando a equipe. Do outro lado da pista, havia um bar, do bar saiu um gordo que pegou a moto e veio conversar. Ele pegou a moto pra andar 10 metros. Tava onde? Na fazenda do…(não lembro o nome do nosso anfitrião filho da puta matador de índio) Tá fazendo o que por aqui? É do Rio de Janeiro, é? É filmagem, é? Respondi tudo calmamente, acendendo um Marlboro atrás do outro. Quer uma cachaça? O avião voltou. No mais, os cavalos eram mesmo selvagens, Sergio fez um belo de um curta-metragem e na volta, gastou tudo o que tinha no bolso em presentes para o seu filho Pedro, que nem sonhava ainda com música e muito menos com marisas e montes. Hoje entendo a cena, e também seria capaz de gastar as cuecas comprando presentes para o Antonio e para o Vicente. Naquela época não, então gastei tudo com garrafas de uísque e de vodka na zona franca. Alguns anos depois eu voltaria pra região, desta vez pra filmar minerador legalizado e com alvará pra fazer crateras enormes em Carajás.

A história da descoberta de Carajás é daquelas que se parecem com as lendas que são melhores que a verdade, mas neste caso não, a verdade é tão surpreendente que virou lenda: Em 1967, um helicóptero que sobrevoava a região precisou fazer um pouso de emergência. Breno dos Santos, um geólogo recém-formado era um dos tripulantes. Do alto ele já tinha percebido que haviam diversas clareiras no meio da floreta. Aproveitou a descida pra conferir como era o solo: “Quando bati o martelo, saiu um negócio avermelhado e vi que não era manganês, era ferro. Pensei caramba, isso tudo aqui é ferro.”



Naquela noite o Galeão estava em festa, o avião da seleção pousava na pista e Romário aparecia com a cara pra fora da janela, com a bandeira do Brasil nas mãos, comemorando a vitória na Copa de 94. No embarque, eu, Xavier de Oliveira, Paulão e Agapito, esperávamos o avião pra Carajás. Aquele foi último ano em que os visitantes ficaram hospedados na vila dos funcionários da Vale, próximo das minas de minério de ferro. O filme, em 16mm, era para passar no ônibus dos visitantes. Enquanto eles viam pela janela do ônibus, o hospital, o cinema, a escola, o zoológico, a casa de hóspedes projetada pelo Henrique Mindlin, onde a princesa Diana dormiu e onde o Sarney adorava despachar, (pensar que Sarney e Lady Di dormiram na mesma cama não quer dizer nada, mas é um daqueles bons pensamentos idiotinhas que tenho aos montes) enquanto o ônibus passava por todos estes lugares, um filme passava na tv do ônibus, sincronizado com o tempo do passeio, mostrando naquela tela tudo que eles estavam vendo ao vivo na janela! A equipe ia ficar uma semana em Carajás, mas só perceberam que a maioria das coisas que a gente precisava filmar não estava funcionando pois era época de férias. Acharam por bem nos deixar por lá, e isto foi a salvação da minha lavoura, que estava seca e eu ganhava por dia. Na primeira semana em Carajás a gente acha tudo super bacana. Na segunda, achamos tudo legal. Na terceira, tudo mais ou menos e na quarta a gente já sonha com o aeroporto.



É o lugar mais parecido com um subúrbio americano de filme que eu já vi no Brasil. Bate Alphaville. E como é organizado, não é lugar pra gente do tipo Vivendas da Barra. Tem ciclovia. Tem ponto de ônibus com horário dos ônibus marcado e os ônibus passam no horário. As casas não são cercadas e quase todas tem jardim com gramado na frente, mas a vila é cercada pra não entrar onça. Tem tudo para que a mineirada consiga passar o ano com conforto e tranquilidade. Mas…caso você resolva brigar com seu vizinho, você estará brigando com um colega da firma. Caso você resolva dar um rolê de carro fora da cidade, é proibido parar na estrada. Pensaram em tudo, mas não pensaram em fazer um motel e nem lembraram que filhos costumam virar adolescentes. Carajás reproduz o mesmo modelo das grandes cidades brasileiras: a elite e a classe média vivendo na parte urbanizada e a turma da faxina, da limpeza, da cozinha, da segurança, vivendo na periferia, no caso, em Parauapebas, que na época não tinha nenhuma rua asfaltada. Voo de helicóptero com Paulão, o fotógrafo gigante, gentil e debochado. O piloto fala: lá embaixo tá Parauapebas. Tirando a minha mãe, só tem puta. Paulão olha pro piloto e manda: você tá aqui em cima, não sabe o que a velha tá fazendo agora lá embaixo. Eu vou te matar seu filho da puta! Mata quando a gente chegar lá embaixo! E dá-lhe Kaoma e Pinduca na seresta do clube!



Semana que vem tem mais nacordabamba, desatando os nós nos garimpos do Cripurizão, na Transamazônica e no Suriname! Paz, amor, beijos e os agradecimentos especiais para Regina Kato, Lu Stifelman e Benedito Tadeu, que se juntaram a esta corda!


LINKS, LINKS E MAIS LINKS!
Sergio Bernardes projetou o pavilhão de São Cristóvão no Rio de Janeiro, os pavilhões de Bruxelas e Volta Redonda e o Hotel Tambaú em João Pessoa. Fez casas incríveis para ele mesmo e para Lota Macedo de Soares, entre muitas outras. Tinha ideias bastante originais sobre urbanismo e projetos muitas vezes incompreendidos. Gustavo Gama Rodrigues e Paulo de Barros fizeram um belo filme sobre seu trabalho em 2014: https://www.youtube.com/watch?v=6o54yJvVyfE
Não é fácil encontrar material sobre o cineasta Sergio Bernardes na rede. Encontrei este blog que ajuda a dar uma dimensão do seu trabalho: http://tamboro.blogspot.com/
André Luis da Cunha, que partiu tem pouco tempo fotografou muitos filmes em Brasília, mas também foi o responsável pela luz de A Última Estrada da Praia, do meu xará e conterrâneo Fabiano Souza: https://www.youtube.com/watch?v=OgmuMCAG2m0
O INPA é uma daquelas instituições que nos dão orgulho e que nos fazem defender o trabalho dos cientistas e pesquisadores brasileiros. Tá ali, junto com a Fiocruz, o Instituto Goeldi em Belém e mais algumas dezenas de instituições, precisando de mais atenção, prestígio, e principalmente, verbas. No link, o site do INPA: https://www.gov.br/inpa/pt-br
Francis Hallé, o botânico que foi expulso do Brasil em 1989, parece que conseguiu algumas décadas mais tarde, no Peru, pousar sua jangada voadora na Amazônia. https://filmow.com/aconteceu-na-floresta-t195333/
A revista da Fapesp tem este pequeno artigo sobre os cavalos selvagens de Roraima: https://revistapesquisa.fapesp.br/cavalo-de-roraima/
O site Repórter Brasil faz jornalismo sem rabo preso na maquininha de débito moderninha e seus repórteres não acham que o agro é pop. No link a matéria sobre o garimpo na área ianomâmi: https://reporterbrasil.org.br/2021/06/compro-tudo-ouro-yanomami-e-vendido-livremente-na-rua-do-ouro-em-boa-vista/
Beto Barbosa era o mais famoso, e tinha umas pilantragens bacanudas, como o canário polivalente https://www.youtube.com/watch?v=aFnFTa2aubI e seu xará Betto Douglas, tinha alguns hits implacáveis como a lambada do galo gago https://www.youtube.com/watch?v=wmfw5pJqGQg e vai cantar mal assim na casa do karaokê https://www.youtube.com/watch?v=VLhs942R7aU
Xavier de Oliveira é um lorde e diretor de um dos mais belos filmes brasileiros de todos os tempos: Marcelo Zona Sul, a estreia do monstro Stepan Nercessian e da linda Françoise Forton nas telas. Este link tem o filme completo: https://www.youtube.com/watch?v=Uwqb4pKoppk
Pinduca! Nunca ouviu? Ouva! Nunca viu? Azar é o seu!
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