na corda bamba com as viroses de março fechando o verão e a primeira parte de uma história vaidosa.

São Paulo terra da garoa e das viroses de março fechando o verão, daquelas que derrubam o teu filho, depois teu outro filho e depois volta pro primeiro filho novamente, pra tua mulher e te pega na curva naquela semana que você já não conseguiu fazer nada a não ser passar boa parte dos dias e principalmente das noites entre jatos de rinosoro, nebulizações, panos quentes nos ouvidos, mel pra lá, sai da geladeira, bota uma meia guri, e outras dezenas de ordens descumpridas em sua imensa maioria para minha profunda tristeza e lá bem no fundo, remota satisfação com tanta teimosia. Tudo isto pra dizer que nacordabamba, o único blog de segunda que sai religiosamente toda quinta, desta vez chegou na grande rede na sexta, não por acaso, uma sexta-feira santa.  Dito isto, hey ho!

para o taxista zacarias, o mundo trata melhor quem está de unha feita

Em 1999 meu amigo e compadre Jeb Blount, um chicaguense de trás dos montes, voltou todo animado de sua primeira viagem à Amazônia. Nos encontramos no Joia, um boteco na rua Jardim Botânico esquina com Faro, um bar mais ou menos, o chope nem sempre gelado, aquela pizza ruim que adoramos pedir um pedaço, uma boa varanda e no fim das contas, sempre tudo joia e era por ali que a gente caía. Jeb me mostrou as fotos do garimpo que tinha visitado no Pará e também a matéria que tinha sido publicada no Houston Chronicle. Ele estava contente, sabia que tinha escrito uma boa matéria, e era boa mesmo, começando pelo título: Avon ladies strikes gold in Amazon.

garimpo no sul do pará

Mr.Blount habitualmente escreve sobre economia. Sabe como interpretar a linguagem dos analistas financeiros e dos informativos das empresas. Para mim, o jornalismo econômico só pode ser compreendido com a ajuda dos alquimistas e falo dos alquimistas mesmo, aqueles da música do Jorge Ben, com o Hermes Trismegisto, que com a ponta de um diamante escreveu em uma tábua de esmeralda que o que está no alto, é como o que está embaixo. No jornalismo econômico a lei da alquimia é interpretada mais ou menos assim: se o analista disse que a bolsa vai subir, ela vai cair. Se disse que ela vai parar lá embaixo, podes crer, ela vai subir. É tipo uma lei transcendental de Miriam Leitão, se digo que o juro tem que ser alto, é porque está escrito na tábua que ele sempre teve que ser baixo.

gilvan: do maranhão para o sul do pará

Apesar de ser um liberal nos costumes, naquilo que os americanos consideram um liberal, meu amigo Jeb Blount é um liberal econômico, naquilo que os faria limers consideram como um liberal. Esta informação é pertinente. Ele viajou pro Cripurizão, um garimpo nas margens do rio Cripuri, basicamente para ver de perto a atividade dos garimpeiros e entender como eles faziam a roda do dinheiro girar naqueles confins amazônicos. Mirou nos homens que tiravam ouro dos rios e dos barrancos e encontrou as mulheres que vendiam produtos da Avon, Boticário e outras marcas para, em maioria quase absoluta, os homens que tiravam ouro dos rios e que gastavam uma parte deste ouro comprando produtos destas mulheres, para ficarem mais cheirosos e atraentes para outras mulheres e, não raro, para as mesmas mulheres que vendiam os produtos! E assim girava a roda da economia no garimpo, quase como um ourobouro mordendo seu próprio rabo nem sempre cheio de ouro.

Enquanto eu ouvia os relatos, ia imaginando algumas cenas na minha cabeça: uma dona de casa acorda cedo, prepara o café para o marido e para os filhos, ajuda os filhos a se vestirem, depois o marido e os filhos pedem benção e saem de casa. Uma cena normal e comum de rotina familiar. Marido e filhos fora, casa em silêncio, ela começa a se arrumar. Passa batom, pinta a sobrancelha, coloca uma roupa mais insinuante, pega uma pequena sacola cheia de perfumes, cremes e outros produtos de beleza e sai de casa. Ela desce umas escadas, coloca a sua sacola no banco da frente, pega os remos e desaparece suavemente com sua canoa numa curva do igarapé, para aparecer novamente chegando numa outra casa na beira do rio, pronta para vender seus produtos, ding, dong avon chama, naquelas palafitas onde a campainha é um oh de casa!!!

deisiane remando

Dois anos depois eu estava embarcando para Santarém, onde iría começar as filmagens de VaidadeUm dia depois da queda das Torres Gêmeas. No avião eu pensava: que cazzo de filme eu vou fazer, sobre mulheres que vendem perfumes no fim do mundo, nesta hora em que o mundo está de cabeça pra baixo e não é como na Tábua de Esmeralda? Qualquer assunto que não fosse a nova realidade geopolítica parecia supérfluo e ridículo. Antes de embarcar comprei na livraria do Galeão o Baudolino, vejam só que mané pretensioso, levando o Umberto Eco pro mato, certo de que vai conseguir encarar o tijolão no meio de tanta confusão. Mas o que eu precisava ler, eu li durante o voo. Baudolino conta a história de um homem que se considera o maior mentiroso do mundo. Logo no começo, depois de participar, ser ferido e sobreviver na invasão que Barba Ruiva financiou para os cruzados tomarem Constantinopla, depois de escapar da morte em uma batalha, seu primeiro desejo satisfeito foi fazer uma limpeza de pele. Depois de participar de um fato histórico que preparou o terreno para três séculos depois, quando os otomanos tomaram de vez a cidade e decretaram o fim da idade média, tudo que Baudolino queria era uma sessão de creminho esfoliante na lata! Era tudo o que eu precisava ler. O mundo sempre vai mudar todas as ordens. E em todas elas, sempre vai haver alguém querendo estar com a cara limpa e perfumada. A palavra kosmos significa um mundo organizado e ordenado, em oposição ao caos do universo. Ela originou um verbo grego, kosmeo que significa mais ou menos arrume esta bagunça, mas também significa coloca uns breguetes aí pra dar uma bossa. Ordenar e ornamentar. Kosmeo virou kosmétike, porque o cosmos é uma ordem que realça e exalta a beleza. Manjaram?

a avon viaja de barco pelo tapajós

Esta parada em Santarém, a Pérola do Tapajós, o rio mais lindo do mundo, a cidade do ouro e do muiraquitã, não tinha surgido do nada. Eu tinha chamado um amigo dos tempos de Libelu em Porto Alegre, pra fazer a produção de campo e a pesquisa de personagens. Nuno Godolphin era antropólogo (é ainda, mesmo sem exercer) e tinha coragem suficiente pra encarar sozinho aquelas matas. Foi um dos primeiros fotógrafos do projeto Saúde e Alegria, e depois percorreu os garimpos do sul do Pará, onde adquiriu muita experiência, uma série de perrengues com garimpeiros e algumas malárias. Laís Rodrigues, pesquisadora ninjalina foi com ele pra garimpar personagens pro filme. Em Santarém eles conheceram o Zacarias motorista de táxi e mecânico.

zacarias
laís de cocar pronta pro garimpo
ver o peso foto: nuno godolphin

Zacarias era um dos devotos da Ordem de Kosmeo. Toda semana batia ponto no salão pra fazer as unhas. Gastava uma parte considerável do orçamento da família com cosméticos e produtos de beleza. Pra ele, pra mulher dentista e pra filha que tinha ido estudar em Manaus. Fez questão de mostrar sua casa, apinhada de produtos. Não teve vergonha alguma de ser filmado com a cara branca de creme e confessou seu desejo de ser velado perfumado e de barba feita dentro do caixão.

salão em santarém
domingas e lu: pra vender, tem que caminhar.

Nuno e Laís também conheceram a Domingas e a Lu, irmãs que vendiam seus produtos na periferia de Santarém. No dia da filmagem, elas acordaram bem cedo pra pegar o primeiro ônibus até Jacamim, um bairro com uma pequena comunidade quilombola, a vinte km de Santarém. Elas desceram na estrada, bem na frente da casa de uma cliente. No início dos anos 2000, no catálogo de 50 páginas, eu acho, da Avon, havia uma, talvez duas páginas com modelos negras. Dali, elas entravam num ramal de estrada de terra e caminhavam o resto do dia, batendo nas casinhas ao longo do percurso. Aquele foi um dia longo e de poucas vendas para elas. Um coach hoje diria que Lu e Domingas não deram tudo de si, por isto, fracassaram. Diferente da Ana, a campeã nacional de vendas, que morava num conjunto habitacional em Belém. Ana bancou a faculdade dos filhos e montou a casa só com os prêmios que ganhava como vendedora líder: televisão, forno de micro-ondas, freezer, fogão, geladeira, frigideira, colchão, cobertores (oferecidos para o frio amazônico). Na surdina, a Avon tentou proibir as vendedoras de aparecerem no filme. Detalhe, as vendedoras da Avon não são funcionárias da empresa. Eu tava pouco me lixando se os produtos eram da Avon, da Boticário ou da Chamma Amazônia. Mas acho que a Avon, que se orgulhava das vendas da Ana, não queria ver seus produtos num filme que mostrava eles sendo consumidos por mulheres descalças e homens sem dentes. No fim, conseguimos, depois de muitos telefonemas, e-mails, uma autorização pra filmar uma reunião do time de vendas.

ana em casa com seus troféus
ana em ação still vaidade

Em Santarém também conhecemos a dona de um bar perto de Alter do Chão, um bar muito lindo, numa praia muito linda e com um inesperado teólogo que estava por ali, passando uma temporada no bar e com a dona do bar. Ele me perguntou, você sabe o que significa Vaidade? A palavra? Eu percebi que nunca tinha pensado no significado da palavra. Ele explicou: Vem do latim, Vanitas, que quer dizer ilusório, finito. Ele também me explicou o porque das caveiras na mesa em alguns retratos renascentistas: é porque no fim de tudo, este belo homem, esta bela senhora, eles vão ficar iguais aquela caveirinha ali no canto.

frans hals, retrato de um jovem com uma caveira, 1626

De Santarém fomos de barco, numa viagem de 12 horas, até Santana de Ituqui, um vilarejo nas margens do Tapajós, onde a luz elétrica funcionava até a hora da novela das oito terminar. O plim plim era a senha pra desligar o gerador. Socorro, professora de alfabetização, casada com outro professor e mãe de dois filhos passou a vender Avon pra complementar a renda e pra matar o tédio. A atividade mudou a vida dela, que agora tinha assunto e o que fazer durante a tarde. Ela já tinha treinado uma outra vendedora, uma ex-aluna, que agora, prestes a embarcar pra Belém pro colégio militar, onde se imaginava linda de farda, percorria os igarapés oferecendo os perfumes que conseguia com Socorro. Com Deisiane, eu consegui fazer a cena da canoa,não como o imaginado na mesa do Joia, mas tão bonita quanto.

socorro e deisiane

E os dias em Ituqui passavam na calma e na tranquilidade de um banho de rio no Tapajós. Mas a calma do vilarejo era totalmente aparente. Depois que o gerador era desligado, a cachaça imperava e quem era pacato virava monstro e maridos batiam nas mulheres, e filhas comportadas saiam escondidas e filhos escondidos saíam mais escondidos ainda. Acompanhamos e levamos um grande grupo de moradores em nosso barco para uma festa no vilarejo vizinho, onde o lider comunitário de Santana de Ituqui implorou a todos os seus liderados que se comportassem bem, que evitassem brigas e confusões e pouco menos de uma hora depois da festa começada, foi o proprio líder comunitário de Santana que começou o fuzuê ao disputar uma cadeira com a mulher do líder da comunidade vizinha, e ele não pensou duas vezes antes de dar uma bifa nela, e o marido não pensou uma vez antes de dar uma cadeirada nele e a porrada começou a comer solta e facas e pistolas apareceram e todos nós corremos para o nosso barco, inclusive as jovens adolescentes comportadas e fujonas que estavam aproveitando o ensejo para fazer um momento de capuleto e montéquio no meio do palmeiral tapajônico.

se arrumado pra festa

Indiferentes aos botos e as brigas entre rivais ribeirinhos, a preocupação em andar cheirosão (como Zacarias) e sem sovaqueira (como Domingas) fazia os jornalistas de economia se debruçarem sobre o assunto. O IBGE tinha divulgado os índices de inflação e a alta do preço tinha transformado os produtos de beleza num dos vilões daquele momento. O índice de 7,5% estava quase batendo nos 7,8% estipulados pelo FMI e o governo do príncipe da USP fazia de tudo, inclusive dar beijo de língua pra ficar numa nice com o FMI. Mas a pesquisa do IBGE trazia outros dados interessantes: “O perfume na média do Brasil pesa 0,59 % no orçamento de uma família. O arroz, por exemplo, tem o peso de 0,76 %”. A pesquisa também trazia outro dado impensável, um ranking de vaidade, tipo um brasileirão perfumado, onde o Pará ganhava sempre por pontos corridos. “Na região metropolitana de Belém, uma família gasta, em média, 1,27% do seu orçamento com artigos de perfumaria, enquanto os gastos com arroz ficam em 0,88%. É isso mesmo: no IPCA, perfume pesa mais do que arroz em Belém do Pará.” Estes dados, passados já vinte anos, pouco mudaram. E se mudaram, foi porque mesmo com a crise, a participação dos cosméticos no orçamento familiar até aumentou.

beth cheirosinha

Em Belém, Beth Cheirosinha, que vende garrafadas, perfumes e banhos de cheiro no Ver-o-Peso, explicou: São João Batista batizou Jesus com um banho de cheiro. Banho de cheiro cheiroso. No igarapé ele esfregou muitas ervas cheirosas na água e dava o banho na hora do batismo. E ficou aquela tradição do banho de cheiro, do banho de São João dia 23.

vai levar qual?
garrafinha de garrafada

Hoje não é 23, é sexta-feira santa, páscoa, pessach e eu tô precisando de um banho de cheiro da Beth Cheirosinha e de muito sal grosso pra jogar no corpo. Na quinta que vem eu vou contar como encontramos a Simara, a moça dos dentes de ouro, o muiraquitã deste filme na minha primeira passagem por um garimpo amazônico. Boa páscoa, fiquem em paz, e façam como os coelhinhos, só não precisa ser tão rapidinho. A Corda agradece ao Tagore Pereira, a Ivani Flora e a IsaBosak que se juntaram a ela. Também agradece ao Salvatore Vicari, meu carcamano favorito, que me corrigiu em cima do lance e impediu uma patacoada histórica. No domingo tem uma super-playlist pasqualina, repleta de surpresinhas! Leiam, assinem e divulguem Nacordabamba!

LINKS! LINKS E MAIS LINKS!

vaidade trechos. em breve o filme completo no youtube.

a tábua de esmeralda e o ouro que interessa no site de mr.jorge ben: https://www.vagalume.com.br/jorge-ben-jor/discografia/a-tabua-de-esmeralda.html

se é pra embarcar em lances esotéricos escritos nas estrelas, embarque com quem sabe mesmo da jogada. o mestre intergaláctico chileno alejandro jodorowsky, sabe tudo sobre tarot e cobras que rodam em círculos infinitos:

uma resenha de Baudolino, quando a folha ainda não tinha se transformado num jornal parecido com o personagem de umberto eco, vaidoso e mentiroso: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1509200114.htm

o projeto saúde e alegria é muito bacana e funciona desde 1987 em Santarém: https://saudeealegria.org.br/

você já foi à Alter do Chão? não? então vá! https://pt.wikipedia.org/wiki/Alter_do_Ch%C3%A3o_(Santar%C3%A9m)

o capítulo onde macunaíma encontra o muiraquitã, no livro de Mário de Andrade:

https://pt.wikisource.org/wiki/Macuna%C3%ADma/1928/XV

chama verequete é o filme mais lindo para se entender parte do universo mágico de belém do pará. e seu diretor, Luiz Arnaldo Campos, assim como o Jodorowski, transita muito bem entre estes mundos. no link uma matéria bem comportada sobre os vinte anos do filme: https://agenciabelem.com.br/Noticia/223884/emocoes-e-lembrancas-marcam-a-reexibicao-do-filme-chama-verequete-20-anos-apos-a-estreia

o filme chama verequete!: https://www.youtube.com/watch?v=3DyN3lKgzvg

e um ding, dong da avon:

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