na corda bamba com paulo scott

até onde eu me lembro, quem me apresentou o paulo scott foi o allan sieber. eu só conhecia o ainda orangotangos, livro de contos que tinha virado filme pelas mãos de gustavo spolidoro. eu estava sendo apresentado à minha própria cidade de um modo completamente novo. aí comecei a ler o habitante irreal, que começava assim: 1989 se tivesse que resumir seus dias de militante político Paulo diria que foi da idealização completa a um cinismo sem igual e, por fim, à melancolia escapista dos últimos meses.

habitante irreal

Habitante Irreal conta a história de uma adolescente indígena, uma jovem guarani, que vaga na br-116, a estrada que cruza o Brasil de Fortaleza no Ceará até Jaguarão, no Rio Grande do Sul. O que importa aqui não é a história, mas a maneira como ela foi escrita pelo Paulo Scott. Tem uma ótima crítica ao livro feita pelo Sergio Rodrigues, que obviamente, entende muito mais do riscado do que eu. E Sergio consegue explicar com muito mais clareza algumas coisas que eu intuitivamente percebi quando li este livro: que havia um jeito novo, seco, meio desesperançado de encarar a vida e perceber o país. O livro me bateu como uma epifania, quase com a mesma intensidade do morangos mofados, do Caio Fernando Abreu, quando li nos anos 80. Mas o morangos mofados, apesar de toda a bebedeira, de toda a confusão, ainda deixava uma fresta de esperança…

morangos mofados, caio e a brasiliense fazendo escola

Encontrei o Paulo algumas vezes, e o convoquei para um vespeiro, que era participar do roteiro de um longa de ficção, que desde muito tempo já desenvolvia com o Fausto Fawcett. O pouco que ele conseguiu me ajudar foi o bastante pra me fazer baixar a bola geral de meu personagem principal enlouquecido. Em poucas páginas eu tinha dois extremos, o excesso verborrágico poético e transbordante do Fausto e a precisão do Paulo. Um dia esta parada vai seguir adiante. O tempo passou, Paulo lançou outro livro soco na cara, pescoção, dedo no olho, que é o Marrom e Amarelo, que foi traduzido pra sei lá quantos idiomas e lançado em sei lá quantos países. Mandei uma mensagem pra ele, propondo uma conversa aqui pra corda. Ele aceitou, pedindo que eu enviasse as perguntas por escrito. E, para a surpresa deste homem de pouca fé, ele respondeu! Então coloco aqui a entrevista exatamente como ela rolou, com perguntas e respostas, sem broma, sem goma. Depois eu trato de comentar e de estragar. Como sempre.

no jobi em algum momento da década passada foto: fabiano maciel

É uma impressão minha: seus livros trazem sempre um desconforto, uma tensão, mas não é a tensão do livro policial, ou a tensão dos contos do Rubem Fonseca. Tem um pouco de desencanto…isto procede ou estou completamente equivocado?

Minha ideia é tentar contar uma boa história. Todo o resto é consequência. Tendo a tomar como ponto de partida um perfil de personagem que para mim seja interessante (de contradições interessantes) que esteja em uma situação-limite e, de alguma forma, tentando sair dela, tentando se salvar, e daí começo a escrever o conto, a novela ou o romance. Penso que nesse sentido (somando-se à trama em si), a linguagem trabalhada ganha importância porque é pelo seu intermédio que a tensão da narrativa fica mais carregada, mais perturbada (e perturbadora no sentido das expectativas que se possa ter a respeito daquela intimidade que está sendo escrutinada pela narrativa).

No geral, contar histórias que se passam no Brasil é ter de lidar com essa tragédia permanente que é nosso país. Por mais que gostaríamos -em nossa bolha pequeno burguesa- que o país não fosse um permanente cenário de inferno, é impossível, porque a violência, o racismo, a homofobia etc, batem o tempo todo em nossa porta, em nossa janela, em nossa cara.

Meus livros sempre tiveram protagonistas mestiços porque o país é um país não branco (um país que não consegue se olhar no espelho para dizer: eu não sou branco). Isso implica em ter de lidar com esse espaço em permanente construção, um espaço em que a ética da violência prevalece sobre quase todo o resto. A Literatura (se encontrar leitura sensível) tem o poder de projetar uma lente forte que expõe o que, por termos naturalizado o inferno dentro de nós, quase nunca conseguimos enxergar.

Como eu morei até os 20 anos de idade em Porto Alegre, dos 20 aos 48 no Rio e agora já estou com dez anos de São Paulo, eu me sinto à vontade pra falar bem e mal destas 3 cidades. Eu demorei muito tempo pra conseguir fazer as pazes com Porto Alegre. Como é a sua relação com a cidade? Houve uma ruptura, chegou a haver algum estranhamento?

Nunca briguei com Porto Alegre. Antes de ser morador da cidade, sou morador do bairro Partenon, que é periferia em que estão contempladas muitas hierarquias. Quem nasce na periferia aprende a abrir caminho na base do encontrão. Gosto da competição neurótica de Porto Alegre e gosto quando a cidade resolve ser solidária com você (o que é raro, mas quando acontece vem com muita potência).

partenon num passado não tão distante quando se dizia que porto alegre tem carroça

Se você é de Porto Alegre, você tem dois compromissos: falar mal da cidade e não deixar que ninguém que não seja da cidade fale mal dela. Como estou há 15 anos fora de lá, percebo a cidade de outros ângulos. Sinto que perdeu um pouco da efervescência criativa (se compararmos com os anos 1980 e os anos 2000. Mas ainda segue sendo uma cidade muito interessante, muito instigante.

porto alegre av.salgado filho still fabiano maciel

É uma cidade dura. Sendo do Partenon e apaixonado pelo Bom Fim (que ainda é o bairro da cultura, da intelectualidade, um bairro de classe média para classe média alta), sempre soube avaliar bem o quanto eram diferentes esses dois universos. Porto Alegre me estimulou a fazer coisas que talvez eu não tivesse criado, inventado, se vivesse em uma cidade menos neurótica e competitiva.

partenon nos anos 60 foto: memória do bairro partenon porto alegre

Como foi a reação dos leitores gaúchos ao Marrom e Amarelo? Porque existe a velha contemporização, o velho hábito de se colocar panos quentes – acabamos de ver o caso de Bento Gonçalves, onde uma associação de classes colocou a culpa do trabalho escravo nos programas sociais?

Como já havia ocorrido com o Habitante irreal, que é de 2011, a reação foi a melhor possível. O que repercutiu mais criticamente foi uma entrevista de quatro páginas que dei ao jornal Zero Hora. Mas isso muito por conta de reações de leitoras e leitores reacionários, sobretudo do interior, quando falei sobre o racismo sulista e brasileiro e, em algum momento, disse que o governo Jair Messias Bolsonaro seria um desastre para o país.

Porto Alegre sempre foi pródiga em escritores, e agora tem uma nova leva e eu tenho achado bacana o surgimento de nomes como o do José Falero, que faz parte de uma turma de escritores, de artistas que não se criaram na classe média ou nas elites das capitais…o que você acha disto e como você se conecta com isto.

Sim. Tem uma nova leva de nomes incríveis. O Estado do Rio Grande do Sul sempre entrega ótimas novidades. José Falero e Luisa Geisler são autores geniais. E há outros tantos nomes, como: Natalia Borges Polesso, Samir Machado de Machado, Taiasmin Ohnmacht e Luiz Maurício Azevedo (este também como um dos melhores ensaístas que surgiram no Brasil neste século).

Esse acontecer se deve ao trabalho incrível de pessoas que vieram antes (e ainda continuam produzindo com toda potência), como, por exemplo, Luis Antonio de Assis Brasil, Cíntia Moscovich, Luís Augusto Fischer, Maria Helena Weber. A cidade tem isso: as pessoas se leem e, de uma forma ou outra, se apoiam.

Durante muito tempo o RS conseguiu equilibrar o seu eterno dualismo, teve governos do PDT, do PT, Porto Alegre mesmo teve 4 prefeituras seguidas com o PT (fato que jamais aconteceu nos outros estados do sul-sudeste maravilha) como você vê esta super endireitada, e esta imagem que colou no resto do país, da gauchada como sendo racista, reacionária e conservadora.

A vida social avança em ciclos. Este é o momento dos retrógrados. Tem uma elite que nunca engoliu essa conversa de justiça social, de distribuição de renda, de fim da escravidão. E há os lacaios que, mesmo sendo prejudicados pela lógica do sistema, aplaudem essas maluquices propagandeadas pela elite, como foi o caso dessa conversa furada em torno da meritocracia. Este tempo deles, dos que adoram o pensar da extrema-direita, passará. E tomara que as pessoas que não são de extrema-direita tenham aprendido a lição.

Para encerrar, como está sendo, ou como foram as sessões da Ó.LIT – A Orquestra Literária, aí sim, o tipo de evento que mostra a Porto Alegre que, eu, pelo menos, admiro. 

Foi incrível, junte Flavio Flu Santos, Marcelo Fornazier, Laura Leiner e Vasco Piva em um palco e espere a magia acontecer. Não tem erro. Em breve teremos mais aparições da Ó.LIT. Esse tipo de projeto é uma forma de não esquecer que a Literatura é importante, mas não tanto assim, que é arte e sendo arte não pode andar só.

No meu resumo da ópera desta conversa, acrescento poucas coisas. *Ontem um deputado negro foi abordado “aleatoriamente” dentro de um avião antes de embarcar. Na semana passada, uma professora negra foi retirada do voo da gol por se recusar a despachar seu laptop. No final de semana, em Salvador, um repeteco tríplice coroa do carrefour onde um casal negro foi espancado por seguranças. Marrom e Amarelo na veia.

professora samantha barbosa sendo expulsa do avião da gol

*Não conhecia quase nenhum dos novos nomes citados pelo Paulo. Tem o fato de eu não assinar e nem ler mais os grandes jornais, mas eu parei de ler os grandes jornais porque eles deixaram de cumprir um papel que era deles: informar sobre as novidades, da área cultural, principalmente.

*nunca gostei de ctg (o centro de tradição gaúcha), nem de clubes e nem de turmas. mas esta geração e esta turma de porto alegre é mesmo da pesada, de escritores, músicos e de gente fazendo e pensando cinema. e se a postagem de hoje ficou porto alegrense até a medula, é porque não tinha mesmo como ser diferente.

*porto alegre atualmente, pro azar dela, está com um prefeito de lascar o cano, emedebistabolsomouronista, negacionista em saúde, militarista em educação, passador de pano de golpista e baba ovo guediano do mercado, que segundo ele, resolve tudo. se o mundo ficou mais careta, porto alegre ficou mais ainda. mas passa e tem cura. a chinelagem um dia acaba indo embora. ainda bem. deu pra ti véio!

É isto turma. A corda agradece ao Paulo Scott pela entrevista, e ao Murilo Saroldi e ao Afonso Borges pela chegada junto por aqui. Leiam, compartilhem, divulguem, assinem. Vejam como clicando nos botões lá embaixo na página. Quem quiser apoiar também pode fazer pix para fabpmaciel@gmail.com Domingo tem playlist! beijos, abraços e se possível, sossego.

marrom e amarelo

LINKS! LINKS! E MAIS LINKS!

a bio do paulo scott no wikipedia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Paulo_Scott

ainda orangotangos no papo de cinema: https://www.adorocinema.com/filmes/filme-136144/

ainda orangotangos, trailer do filme:

ainda orangotangos, um bom texto sobre o filme: https://www.papodecinema.com.br/filmes/ainda-orangotangos/

a crítica de sérgio rodrigues ao habitante irreal: https://todoprosa.com.br/habitante-irreal-desabou-entre-nos-um-livraco/

quem leu morangos mofados, porcos com asas e bukoswski no início dos anos 80, estava totalmente inserido no contexto: https://www.estantevirtual.com.br/livros/caio-fernando-abreu/morangos-mofados/702559264?livro_usado=1&b_order=preco&gclid=Cj0KCQjwpPKiBhDvARIsACn-gzCBcmDYqxyu6yaSBIvBQcr26olZPMyg6jLTvSWuVqSYTPecJKs1xfQaApWKEALw_wcB

o facebook tem uma página sobre o bairro partenon

sobre a revista teorema, feita por um pessoal de cinema em porto algre, no almanakito da maria do rosário caetano:https://almanakito.wordpress.com/2022/12/14/revista-teorema-lanca-numero-32-sua-ultima-edicao-impressa/

uma entrevista bem bacana com paulo scott neste canal bem bacana também, o tutameia: https://www.youtube.com/watch?v=-WF1D9MZOIg

e outra bem sucinta, onde paulo scott fala sobre colorismo: https://www.youtube.com/watch?v=pLa0NFD9gEA

uma discussão sobre colorismo no canal preto: https://www.youtube.com/watch?v=49URZcM4RCc

um filme sobre o bom fim

fotos do bairro do partenon em porto alegre https://www.google.com/search?q=bairro+da+azenha+em+porto+alegre&rlz=1C1CHBD_pt-PTBR888BR888&sxsrf=APwXEddKIpLV0ZycCr_-L5LSjzc0xPU-Jg:1683828423659&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=2ahUKEwjf67fY7e3-AhUSIbkGHVuIAd4Q_AUoAnoECAIQBA&biw=1093&bih=481&dpr=1

em 2021 aconteceu no partenon o mesmo que aconteceu semana passada em sp: a polícia fechando uma cozinha solidária: https://www.brasildefato.com.br/2021/10/13/cozinha-solidaria-da-azenha-desocupa-espaco-abandonado-em-porto-alegre

a sensacional orquestra literária: https://www.youtube.com/watch?v=51mjX0wQXGA&pp=ygUYZmx1IG9ycXVlc3RyYSBsaXRlcsOhcmlh&pbjreload=102

meu amigo flu, assim como eu, precisa urgentemente de um personal marqueteiro tabajara pra vender seus produtos. se liga flu! http://www.ybmusic.com.br/gravadora_artista.asp?artista_id=Flu

no flu do mundo no iutubi: https://www.youtube.com/watch?v=N0IEVC6Z-H4

o negrinho do pastoreio, a lenda explicada: https://pt.wikipedia.org/wiki/Negrinho_do_Pastoreio

e o pôster do filme https://www.facebook.com/cinemateca.capitolio/photos/a.744449232335245/2868123486634465/

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