no início dos anos 80 eu era um adolescente fazendo em doses nada homeopáticas tudo que um adolescente da minha geração sabia fazer de melhor: merda. muita merda. estudava numa escola insuportável, de padres insuportáveis e apesar dos esforços, não conseguia entender absolutamente nada nem de física e nem de química. nada mesmo. não tirava nem aquela nota seis suficiente pra passar raspando. minha mãe me tirou do colégio insuportável dos padres insuportáveis e me colocou numa escola pública à noite. total erro de estratégia. a escola era vizinha do palácio do governo. vizinha mesmo. a janela da minha sala de aula dava para o final do pátio do piratini, e em noite de churrascada, os brigadianos apareciam com espetos de picanha e costela, que usavam como pretexto pra xavecar as moças, quase todas, vendedoras ou secretárias que trabalhavam no centro de porto alegre enquanto no rádio e na tv, no bolinha e no cassino do chacrinha, a argentina julia graciela comovia o país com precisa-se de moças, boa aparência, pra secretária, tem que ser muito bonita, descontraída e educada…

…e de verdade, a maioria das minhas colegas estavam correndo atrás de um diploma, fazendo aquele esforço fodido, digno e louvável de quem quer ter uma vida e um futuro melhor, enquanto o abostado aqui só queria saber de tomar cerveja, fumar um e agarrar estas moças, que, em sua maioria, preferiam os pés de porco do palácio. até eles, correndo o risco de levar um teco nos cornos, tinham mais chances de garantir dias melhores. no meio do ano, já percebendo que ia dar merda, dona cármina me trocou para o turno da tarde e eu passei raspando. no ano seguinte, troquei de escola, repeti de ano, e resolvi ser “drop out” de segundo grau, coisa que só uma besta quadrada de 17 anos com a cabeça cheia de marafo pode fazer. ficava lendo os morangos mofados, os porcos com asas, o miramar e o cartas na rua, tentando ser fodão como um sam spade ou um marlowe, sonhando com uma namorada igual a lauren bacall ou a gene tierney e o máximo que eu conseguia era ser um meia foda de coturno punk.


mas dona cármina não era tonta. se não vai estudar, vai trabalhar vagabundo! e eu ia trabalhar com o quê? já sei, vou ser produtor de shows! eu tinha um amigo, fernando do vale, um gênio, filósofo, pintor, cineasta, escritor, poeta, iluminador, desenhista, agitador, iconoclasta, não alinhado com nada a não ser com os 10 planetas alinhados em aquário no seu mapa astral, que o faziam ser genial sem conseguir realizar nada e fazer nada a não ser gastar todo dinheiro que conseguia pegar de seu pai, segundo ele, um vendedor de pedras preciosas de origem duvidosa, e foi assim que junto com outro amigo, o vini, fundamos a pipoca moderna e o pai contrabandista de pedras preciosas do fernando gentilmente cedeu uma sala em um prédio no centro de porto alegre, num um prédio dos anos 40, e a nossa sala tinha até porta de vidro igual ao do escritório do marlowe e do sam spade. ser fodinha era mais ou menos isso.
e lá fomos os três, de ônibus para o rio de janeiro, tentar fechar contrato com alguma banda louca o bastante para topar ser contratada por três moleques pra tocar em porto alegre. o resumo da ópera foi mais ou menos assim:
*zé fortes, empresário dos paralamas do sucesso, que tinham lançado seu primeiro lp, acreditou na gente.
*o disco tinha um hit, vital e sua moto. e tinha uma música, pelo menos pra mim, emblemática, química.
*meu pai precisou me emancipar para que eu pudesse assinar o contrato com os paralamas.
*começamos a procurar todos os fornecedores de som, luz, segurança, transporte, os apoios de hotel, alimentação, etc. quase todos nos cobraram muito mais, mas como não tínhamos a menor noção, caímos.
*poucas semanas antes do lance, o teatro onde seria o show cancelou nosso acordo e ficamos sem palco, sem lugar e com a calça arriada. desesperados, apelamos para o circo que estava montado num parque nas margens do rio guaíba.

*uma semana antes do show, o passo do lui, foi lançado.
*quando fomos buscar os paralamas no aeroporto, vendo o trio desembarcar, mais os equipamentos desembarcarem (naquele tempo os aeroportos ainda não eram shopping-centers, a gente podia ir para uma varanda e ver as pessoas chegando ou partindo) percebemos que não ia rolar de táxi.
*desci como um louco pro térreo do aeroporto, parei numa locadora, quero alugar uma kombi. carteira de motorista. não tenho (não tenho até hoje). cartão de crédito. não tenho. (até hoje já perdi as contas de quantos tive e de quantos cancelei) nada feito. sai mais uma vez pelo aeroporto, encontrei um conhecido, perguntei pra ele, tem carteira de motorista? sim. tem cartão de crédito? sim. quer ser motorista dos paralamas do sucesso por dois dias? sim!!! vem comigo…quando herbert, bi, barone e cia saíram no desembarque havia uma bela kombi esperando para levar todos os equipamentos até o hotel.
*no dia do show, o dono do circo pediu mais uma grana, ameaçou fechar o picadeiro, e os manés palhaços fodões tiveram que ceder.
*sugeri que o show começasse com um rolê rápido dos motoclistas do globo da morte do circo, mas o herbert gongou.
*1800 pessoas pagaram pra ver os paralamas do sucesso em sua primeira apresentação em porto alegre.
*não foi o bastante pra fecharmos as contas. ou seja, minha vida profissional já começou no prejuízo, na real, são quase 40 anos no prejuízo!!!
*defalla e urubu rei, banda do gordo miranda, abriram o show. herbert ficou amarradão no som de miranda e descolou pra ele um contrato com a odeon.
*joão barone pisou num cagalhão de elefante. até hoje, ele conta que encarou aquilo como um sinal divino de que teria sorte na carreira.
*os paralamas estavam tão no começo que no dia seguinte do show, o barone foi na minha casa ver o vhs da apresentação!
*seis meses depois, todas as músicas do passo do lui tocavam em todas as rádios do brasil e eles colocaram 20 mil pessoas no gigantinho. mas aí, o contratante era um megablasterempresáriodoshowbizznacional
*minha carreira no rocknrolla ainda teve mais alguns episódios, quase todos fracassados. um dia conto por aqui.
*em 1991 fui assitente de direção de roberto berliner no clip de trac-trac, que ele fez com gringo cardia:
e em 2018 dirigi uma série campo de batalha para a espn brasil, sobre a guerra fria e as copas do mundo. a apresentação foi de joão barone. num papel levemente inspirado em sam spade e philip marlowe! vejam um pequeno teaser que o lucas barreto, que fotografou a série fez:
e agora, paralamas 40 anos, começando giro pelo brasil, com esta beleza de cartaz criado pelos ninjas marcelo pereira e raul mourão!
é isto macacada. thereisnobusinesslikeshowbusiness, mas por enquanto é só linha ocupada. saravá! sigam na corda, leiam, divulguem, compartilhem, assinem e quem quiser pode fazer pix que a corda agradece: fabpmaciel@gmail.com don´t bogart that joint, my friend, pass it over to me!

LINKS, LINKS E MAIS LINKS!
a página de facebook da julia graciela (sim, ela é minha amiga de facebook!) https://www.facebook.com/cantante.graciela
sam spade é o personagem principal de dashiell hammett. qualquer pessoa paranormal deve ler dashiell hammett pelo menos uma vez na vida. https://literaturapolicial.com/tag/sam-spade/
o rosto de sam spade é o rosto de humphrey bogart na versão para cinema de falcão maltês. um trailer tão sensacional quanto o filme:
marlowe é o detetive de raymond chandler. enquanto sam spade chafurdava pelo chinatown de são francisco, marlowe era especialista em apanhar de policiais e de gangsters em los angeles. a diferença é que marlowe no fundo, no fundo, era um romântico sentimental. todos os livros de chandler são sensacionais e obrigatórios. quase todos viraram filme e mais vez, bogart também firmou seu rosto no personagem. https://literaturapolicial.com/2019/06/22/o-investigador-philip-marlowe-e-um-simbolo-da-literatura-noir/
muita gente torce o nariz pra personagem narrando em off, mas isto era mais do que comum no film noir americano dos anos 30-40. blade runner, totalmente inspirado no noir tinha na sua versão dos anos 80. eu gosto. muito. só não funciona como mecanismo de padilhas.
o vini seguiu no ramo e é uma lenda do showbizz gaúcho: https://www.instagram.com/vini.canto/
defalla no hollywood rock de 93:
e um documentário sobre a banda:
e o urubu rei tocando no ocidente em 85, acervo de biba meira:https://www.facebook.com/watch/?v=689025854990140
e pra encerrar: win wenders fez no começo dos anos 80 uma beleza de filme misturando a vida real de dashiell hammett, que na vida real foi detetive da pinkerton, e o personagem sam spade. dizem que wenders brigou o tempo todo com o produtor do filme, um tal de francis ford coppola. com briga ou não, vale muito:

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