na corda bamba sabe que o sábado é uma ilusão à toa e que eu não sou um rapaz de bem.

muito menos de mal. embora ande de mal a pior neste sábado de lua cheia, redonda brilhante e bitter moon, neste sábado em que o botafogo perdeu de novo para o insuportável atlético paranaense. o botafogo é o líder do brasileiro e isto é fato, não uma ilusão. mas todo bom botafoguense sabe que não se tira chinfra antes do juiz apitar fim de jogo e que não se canta de galo antes do campeonato acabar. esta é a diferença abissal entre o time da estrela solitária e seus rivais locais: o flamengo ganha antes de entrar em campo, o fluminense ganha sem entrar em campo e o vasco, por ser o único grande com sede do lado de lá do túnel que divide a cidade, também é o único que só ganha quando entra em campo com muita fome e muita sede. e no meio da confusão futebolística que a minha casa virou, com um filho querendo ser flamenguista e o outro na dúvida entre ser tricolor paulista ou gremista, o jeito é agradecer pela pernambucana tati quebra pinhata e seu parça alexandre estarem por aqui, por terem um filho botafoguense e por salvarem o sábado no simpático açaí clube.

fortalece o caráter

Em 1966 o cartunista Sampaulo publicou a primeira tira do Sofrenildo, no Correio do Povo, na época o maior jornal do sul do país. Posso dizer que cresci lendo as tiras do personagem que se fode sempre. Ele não é herói, nem anti-herói, ele não tem altos e baixos e a vida dele não anda na corda bamba. Ele simplesmente se dá mal sempre e em qualquer situação. Com Sofrenildo não tem sou brasileiro e não desisto nunca, não tem um dia rico um dia pobre, um dia no poder, um dia chanceler, um dia sem comer, como no rock da segurança do Gil. Com Sofrenildo não rola nem a paciência de .

sofrenildo no espelho
sempre se quebrando

Até o Cândido do Voltaire se dá bem de vez em quando. Julian Sorel no Vermelho e o Negro, Macunaíma, Dick Vigarista, Arturo Brandini, neste samba do crioulo doido interplanetário até um faquir se dá bem de vez em quando. Meu amigo Samir Abujamra costuma imitar seu tio Abu dizendo solene: a vida é uma causa perdida… O Niemeyer gostava de se autodenominar pessimista de carteirinha, “eu tô na linha dos velhos pessimistas”, do inferno são os outros do Sartre, mas também gostava de dizer que apesar de tudo, o filósofo francês sempre andava com moedas no bolso pra dar de esmola. Nunca entendi exatamente a relação entre uma coisa e outra, mas deve ser um pessimismo que rebola entre um café no deux magots e uma esmolada paliativa de esperança, do passe de mágica que a merreca sartreana vai conseguir transformar a água em uma garrafa de bordeaux.

Jack Powers, aka Shri Krishan, imprensado entre camas de pregos. e com um peso pesado de 120kg em cima, em 1971

O foda de ser rapaz de bem de classe média é que nossos dilemas são sempre meio rádio meio televisão. nossos problemas quase sempre são coca-cola fanta, cavalo égua choraminguento, a gente nunca se fode mesmo como o sofrenildo, um pobre coitado, um maldito sofredor, apesar de, se comparadas com a violência e a barbárie de hoje, as tiras do Sampaulo sejam de uma ingenuidade tremenda. embora eu esteja beirando a indigência, ela ainda é uma indigência mediana, longe, muito longe mesmo do pepinal diário vivido pela maioria dos brasileiros. não serve nem como desculpa por eu não ter conseguido escrever a corda na quinta, enquanto tentava encontrar um bote salva vidas para salvar uma penca de coisas, nem lá nem cá quase fiquei como a música do frank zappa: Ship Arriving Too Late to Save a Drowning Witch

então eu digo que resmungar, não resmungarei mais. reclamar, não reclamarei mais. mas nada, mas nada mesmo vai me impedir de mandar pra porra os passapanistas de lira, os indiguinaldos de maduro e os puristas democratas de ciranda cirandinha. agora temos um novo animal na floresta: o polarizador do passado. como polarizar com lulão não dá, na falta de um presente pra polarizar, estão passando o ferro, quer dizer, o pola no velho. pra esta gente urubu e meu louro, getúlio e médici são a mesma coisa.

nem com paciência de jó.

que aliás, era rico.

é isto macacada. a corda anda bem bamba, mas o macaco aqui é, apesar de tudo, um velho otimista. tanto que tem até pix:

fabpmaciel@gmail.com

e eu sou tão otimista que no meio deste caos eu consegui ver, mesmo que parcialmente, e nos horários mais escalafobéticos, duas pequenas belezuras de tanta singeleza e bacanidade, tão bacanas que vou colocar aqui antes dos links, links e mais links:

a série gravador de histórias, apresentada pelo músico baiano gereba, do grupo bendegó, ví o episódio sobre luiz gonzaga e o dia ficou bem mais suave. tá passando no canal arte1 : https://telaviva.com.br/08/12/2022/serie-o-gravador-de-historias-da-tem-dende-producoes-e-exibida-pelo-arte-1/

o documentário kevin, que trata da amizade entre a diretora mineira joana oliveira e a ugandense kevin adweko, aqueles filmes que chegam a dar raiva de tanta simplicidade e boniteza. aquele tipo de documentário que consegue transformar um fato absolutamente banal, (mas nem por isto menos importante e belo) a amizade entre duas amigas em um filme de verdade.

valhe lembrar: bendegó é o nome do meteorito que foi encontrado em 1784 no sertão da bahia, que foi transportado no século seguinte pro museu nacional e que sobreviveu ao incêndio do museu em 2018. a receita é, atenção na corda bamba em momento coach não é gente: paciência de jó e resistência de bendegó!

saldo bancário e leitores não são ilusões!

o bendegó ainda na bahia em 1887

LINKS! LINKS! LINKS E MAIS LINKS!

johnny alf cantando ilusão à toa no banquete dos mendigos:

bitter moon é uma filme pra lá de bacanudo do gênio das almas, mr.roman polanski:

uma pequena amostra do trabalho do Sampaulo, criador do Sofrenildo:

https://sampaulocartunista.blogspot.com/2013/01/sofrenildo-o-eterno-companheiro.html?m=0

gilberto gil e o rock da segurança:

a história de jó no site da bbc: https://www.bbc.com/portuguese/geral-63990039#:~:text=Segundo%20o%20relato%2C%20J%C3%B3%20teria,sete%20filhos%20e%20tr%C3%AAs%20filhas.

Ship Arriving Too Late to Save a Drowning Witch, disco de frank zappa com uma das melhores capas de todos os tempos:

uma matéria sobre kevin, o documentário de joana oliveira:

https://www.em.com.br/app/noticia/cultura/2022/11/03/interna_cultura,1416516/filme-kevin-retrata-23-anos-da-amizade-que-venceu-o-tempo-e-a-distancia.shtml

e o trailer do filme:

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