na corda bamba entrevista toco lenzi, o bom selvagem da motocicleta. e da bicicleta, do catamarã, do paraquedas, do riquixá e do que mais for preciso para dar uma volta ao mundo.

Em agosto de 2019 Toco Lenzi deixou o Brasil para dar um pulinho de moto no Quirguistão. Já ouviram falar? Aquele país cuja capital é Bisqueque e que segundo a Wikipedia, o nome deriva da palavra de língua quirguiz para denominar uma manteigueira onde o povo deste país da Ásia Central fermenta o leite de égua…ou seja, meu amigo Toco Lenzi está dando uma volta ao mundo para tomar uma pinga feita de leite de égua na antiga  República Socialista Soviética Quirguiz! Sopa no mel para quem já atravessou o Saara caminhando, deu a volta ao mundo acompanhando o Amyr Klink, foi ao Vale do Javari com Sidney Possuelo, deu um rolê de caiaque pelo Alasca e cruzou o Brasil e a América do Sul dezenas de vezes. Toco foi o produtor de campo da série Transamazônica, uma estrada para o Passado, que dirigi junto com o Jorge Bodanzky. Em poucos dias de viagem já estava claro para mim, que nem em mil reencarnações espirituais eu conseguiria chegar perto da calma e da paciência que este paulistano da Pompeia têm para resolver problemas. E problemas sempre acontecem em qualquer viagem. Hoje fico com vergonha quando lembro da minha ranhetice, da minha pressa de querer fazer tudo correndo, da rabugice que não serve para nada, a não ser tornar chato o que é pra ser uma grande aventura. Toco Lenzi é o único amigo que tenho que posta mensagens como esta no facebook: Mudou-se para Ko Lanta Yai Krabi, Tailândia. Ou para Bandar Seri Begawan, Brunei. Provavelmente amanhã ele já estará no Laos. Com vocês, Toco Lenzi, da Pompéia para o mundo. Mas antes, lembro a todos: NA CORDA BAMBA segue em campanha: Apoios de qualquer valor podem ser feitos no pix: fabpmaciel@gmail.com ou assinando o blog nos botões vermelhos lá embaixo, nas opções mensal (10 reais) e anual (100 reais). Divirtam-se!

o bom selvagem da motocicleta

A minha conversa com Toco para a Corda começou no final de maio deste ano. Portanto, em maio, eu perguntei pra ele: Onde você está agora? Eu estou em Kalimantan, na selva de Borneu, na parte indonésia, na casa do último sultão, que caiu em 1949. A casa aí do fundo era a casa do sultão.

na frente da casa do último sultão em conversa de bamba

Eu vi um trecho de um vídeo seu, cruzando o Saara, que eu gostei muito. Você olha pra câmera, depois de informar para as pessoas onde você está e diz: Por quê eu estou fazendo esta viagem, eu não sei. Pra quê eu estou fazendo isto, eu não tenho a menor ideia. Como você começou a viajar pelo mundo? Eu comecei a viajar cedo, com 13 anos. Sozinho. Viajei pra Bolívia, Peru, e com 14, 15 anos eu já vendia aquelas chompas, aquelas malhas bolivianas. Eu ia até a Bolívia buscar e vendia. Estudava no Objetivo em São Paulo, e fazia 8, 10 viagens por ano. Vendia tudo! Ia até La Paz e voltava de trem e de ônibus, trazendo uns 200 casacos…

camelô boliviano
camelô boliviano 2

Peraí, os teus pais deixavam você dar um rolê sozinho até a Bolívia com 13, 14 anos de idade? Eu sou o terceiro filho, minha mãe tinha 42 anos quando eu nasci, era muito evoluída para seu tempo, sempre trabalhou e foi independente. Um amigo meu ia pro Machu Picchu e meus pais tiraram o passaporte pra mim, que vinha com um carimbo escrito: autorizado viajar desacompanhado dos pais. Este carimbo abriu as portas do mundo pra mim. E com as viagens pra Bolívia, eu comecei a ter uma independência dos meus pais, a ter o meu dinheiro. Então entre os 15 e 16 eu viajei por toda a América do Sul e com 18 pra 19 eu migrei pros Estados Unidos. Lá trabalhei de pedreiro, fazia roofing and siding a lateral e o telhado das casas. Com 21 anos eu voltei pro Brasil e comecei a fotografar e a preparar as minhas viagens pra África

passaporte liberado para viajar desacompanhado

Que parte da África? Em 1988 eu cruzei de bicicleta da Nigéria até Burkina Fasso, passando pelo Benin, Togo, Gana e a Costa do Marfim. Foram 4 meses, eu tinha 20 poucos anos de idade naquela época. No final da viagem, quando eu percebi que estava nas portas do Saara, eu disse pra mim mesmo que ainda voltaria para percorrer aquele deserto. Dois anos depois eu construí um carro a vela, um tipo de wind-car, parecido com aqueles que os gaúchos usam na Praia do Cassino. Levei este carrinho pro Saara, pra atravessar a Argélia em 1992. Foi uma epopeia, a Argélia em guerra, um puta trabalho de logística pra entrar no país, enfim, eu consegui colocar esse carro na Argélia. Quando terminou a viagem, eu olhei novamente pro Saara e disse: vou atravessar isto a pé!

o carro vela

Eu gosto muito de táxis e de aeroportos..E de caminhar nas ruas da Vila Mariana… Como você começou a trabalhar com televisão? Eu sempre estava tentando arrumar dinheiro, tentando formas diferentes de ganhar dinheiro. Como eu conhecia a África, eu montei um grupo pra atravessar da Costa do Marfim até o Benin, de bicicleta. E então eu fazia uma grana, continuava viajando e um desses caras que participaram, o Lineu Palaia, era dono da Conecta, uma das grandes produtoras de SP naquele tempo. E ele abraçou os meus projetos, meus e do meu ex-sócio, Renato Castanho. Eu nunca tinha feito um programa de tv, eu não sabia nem o que era um roteiro, mas eu tinha muita imagem de viagem. Aí eu praticamente fui morar na Conecta, comecei a viver o universo de televisão, aprender o que era edição, produção. E assim eu passei quase 20 anos viajando pelo mundo, fazendo documentários como diretor de fotografia, cinegrafista, produtor de campo, motorista do carro, eu e o Renato a gente fazia tudo, resolvia toda uma história…Só pro Canal AXN foram quase 20 documentários, fomos pro Alaska, Vietnam…

no paraty com amyr

Mais fácil que cruzar a Av.Brasil na hora do rush (qualquer Av.Brasil, a do Rio e a de Sp) Depois eu fiz uma volta ao mundo com o Amyr Klink, eu fui o cinegrafista desta história. E quando eu fiz 40 anos, como eu ia mesmo ter a crise dos 40 anos, eu resolvi fazer a viagem dos 40 aos 50 logo, resolver as duas crises ao mesmo tempo. Abri um mapa da África, vi a capital da Mauritânia, Nuaquexote, nunca tinha ido pra lá, era um país que ainda tinha nômades cruzando o deserto, e do outro lado está Tunís e o Mediterrâneo e aí nasceu, não foi sonho, não foi nada, eu olhei e falei, eu vou fazer esta viagem! Minhas viagens não nascem de sonhos. Este negócio de sonho não rola muito comigo não. Eu sinto, eu tenho o instinto e falo, eu vou atravessar isto a pé! E aí eu começo a pirar, a pesquisar a melhor forma de fazer o percurso. Nesta viagem eu resolvi ir puxando uma espécie de charrete. Eu construí um riquixá. E comecei uma viagem super maluca, porque são seis mil quilômetros cara! Isto em 2005. Fui pelo Cabo Verde, pelo Senegal, consegui o visto, coloquei todas as tralhas num carro funerário, um trampo fodido. Mas quando eu entrei na Mauritânia, me veio uma sensação de bem estar e eu falei: UAU! Este lugar é a minha casa! Ou a minha segunda casa, ou já foi a minha casa, sei lá.

o rabecão
o riquixá pode ser um carrinho de sorvete

E que xote rolou em Nuaquexote? (Eu nunca perco estas oportunidades) Em Nuaquexote, quando eu tava montando o carrinho num camping, eu ouvi uma voz de alguém falando português de Portugal. Eu me apresentei, o cara era o João Pereira, outro apaixonado pela África, que vivia na Mauritânia. Ele me perguntou o que eu tava fazendo ali, eu disse que ia atravessar o deserto com minha charrete. E quando ele viu aquele carrinho mambembe que eu tinha, ele disse, você tá louco! Mas não era tão mambembe assim: tinha painel solar, tinha reserva pra 40 litros de água, uma mini-biblioteca…e ele me falou, não faz a viagem direto, faz em etapas, começa no norte em Atar e volta, porque você desce, vem da montanha. Concordei e em menos de um minuto mudei todo o meu roteiro. Ele me arrumou uma carona, eu levei toda a tralha, montei o carrinho e vim puxando de volta, 500 km de Atar até Nuaquexote…No outro ano eu voltei, aí eu já não tinha grana, porque na real, eu nunca tenho grana pra fazer estas doideiras e ninguém quer patrocinar um velho, gordinho e careca, e eu também não tenho saco pra ficar dando retorno, ficar colocando broche, boné de patrocinador, tô fora. Então eu fazia uma grana e torrava por lá mesmo.

dromedários

Eu sempre desconfiei das pessoas que viajam pelo mundo com o carro e a roupa toda adesivada, falando em liberdade e ecologia com o patrocínio de um banco ou de uma petroquímica. Não existe almoço grátis. Eu não tenho almoço grátis mesmo. Eu me viro, eu tenho 57 anos, estou cheio de próteses, eu fiz uma vaquinha pra esta minha última viagem. Eu acabo vendendo o meu exemplo, para as pessoas pararem de reclamar e saírem pro mundo. A pandemia deixou todo mundo louco…No mais, os meus números são super fáceis. Eu tenho 600 dólares por mês. É isto que eu tenho que gastar por mês. Seja em lugar barato ou lugar caro. Eu durmo em camping e aqui no sul da Ásia, como é barato eu durmo em hotel. E quando não dá, eu durmo em barraca. Não tenho patrocínio nenhum. Na pandemia eu comecei a dar videoaulas pro Brasil, isto me deu uma certa folga, eu montei no meu site uma pauta das várias expedições e muitas escolas adotaram. No Timor houve um furacão, eu trabalhei pra ONU. Mas é modo econômico o tempo todo, por exemplo, aqui em Bornéu tem uma viagem incrível, de três dias pra ver os orangotangos, mas a viagem custa 600 dólares, ou seja, em 3 dias o que eu tenho pra gastar no mês. Eu não vou. Vou tentar ver os orangotangos na Malásia.

Vamos voltar pro Saara… Eu resolvi levar um grupo de brasileiros pra andar lá. E aí eu levei 11 caras pra atravessar 200 km do Saara, a galera pirou…eles voltaram e eu segui…nessa segunda viagem eu tive que comprar alguns dromedários, não dava pra usar a charretinha. Foram 3 meses viajando com cameleiros, e tinha junto o Saleh, que era o meu guia, um membro da Frente Polisário , uma figura, um saharaui. Ele lutou contra o Marrocos, falava super bem espanhol e tinha estudado em Cuba…

atravessamos o deserto do saara, o sol estava quente e queimou a nossa cara
com o guia Saleh

Depois eu voltei pra uma terceira etapa, e a Al Qaeda tava atacando e sequestrando turistas nesta região entre o Mali e a Mauritânia. E eu tava proibido de atravessar. Levei mais um grupo e depois disto segui na minha viagem. Não tinha como atravessar de dromedário e o Saleh deu a ideia de atravessar por uma rota que ele usava pra contrabandear cigarros. Entramos nesta rota proibida, que na verdade ficava em território da Argélia, onde vive grande parte dos 200 mil saharauis. Eles vivem em acampamentos de refugiados na Argélia, esperando uma resolução da ONU para poder voltar pro antigo Saara Espanhol. Eu estava seguindo a minha caminhada, sempre em direção norte-noroeste, eu tinha que um dia, de alguma maneira, chegar em Túnis..

a quinta divisão da frente polisário

Então eu ia andando e o Saleh ia no carro atrás, junto de um cara que era barbeiro, mas que eu contratei para ser cozinheiro. Eu andava 20, 25 km por dia. Um dia, no meio do caminho, no meio do nada, apareceu uma pick-up e dela saíram dois caras da Frente Polisário, um deles com uma mão de alicate. Eu expliquei no meu francês macarrônico, que era brasileiro, que estava cruzando o deserto a pé, que era um simpatizante da causa deles. Eles não quiseram nem saber, prenderam a gente.

a tenda prisão
prisioneiro polisário

Nos levaram pra um lugar mais isolado ainda, chamado de Poço da Lua. Foi a primeira vez que eu fiquei com a boca seca de verdade..Eu pensava, nossa, tô tomando uma cana aqui…Depois de um tempo, o Saleh explicou o que estava acontecendo: eles pegaram os nossos passaportes e foram consultar o governo da Argélia pra decidir o que fazer conosco. Xiii..eu tava sem visto pra entrar na Argélia e até para ir para um campo de refugiados Saharaui precisava de visto. Ficamos em cana esperando por alguns dias. Não fomos maltratados, nos davam comida, água…até que chegou a resposta das autoridades argelinas. A gente tinha que voltar para a Mauritânia.

caminhando e andando

Apareceu um cara da Frente Polisário, um sujeito culto, começou a conversar comigo, e ele entendeu que eu estava ali num projeto pessoal de atravessar o Saara a pé, que eu não tinha nada contra eles ou vínculo com algum grupo político pró Marrocos. Este cara me deu um crachá, eu nunca guardo nada, mas este crachá eu guardo até hoje na minha casa em São Paulo. Ele falou: você é nosso convidado pra festa de comemoração da independência do Saara Ocidental, vai ter uma festa em outro lugar e você vai ser levado pra lá..Quando eu vi, eu tava no meio de um desfile militar, comemorando a independência de um país que é reconhecido somente por poucos países…

a parada da independência

Quando a festa acabou veio uma viatura para nos escoltar de volta até a Mauritânia. O nosso carro de apoio era todo quebrado, todo amarrado com cordas,tudo lá é consertado com corda, África é assim, todo mundo dá um jeito..O nosso carro andava a 20 por hora e os caras da Polisário estavam com um Toyotão..No final do segundo dia eles não aguentavam mais acompanhar a nossa lerdeza. Falaram que tinham que ir num posto abastecer…O Saleh falou pra mim, olha, onde eles vão abastecer, estes caras só vão voltar amanhã, eles não voltam hoje mesmo. Vamos embora agora. Esperamos um tempo e fizemos uma fuga à 20 por hora, por uma montanha fora da rota. Nunca passei tanto medo, dirigindo à noite com farol desligado, Ficamos dois dias escondidos numa montanha, parados esperando pra ver se alguma patrulha ia aparecer. Ninguém apareceu e nós seguimos a nossa viagem.

camelódromo

É esta viagem que a Eliane Brum participou de uma etapa? Sim, ela fez o começo na Mauritânia, antes de começar a caminhada a pé. Ela ficou 20 dias conosco.

Reproduzo aqui um trecho do texto de Eliane Brum:

Ainda sem abrir a boca, o homem agora desfardado e cheiroso tornou-se nosso motorista e nos carregou Mauritânia adentro, por uma estrada de longos espaços vazios intercalados por tendas brancas, camelos, cabras, beduínos. A rodovia era de asfalto, provavelmente chinês, como quase tudo que está sendo construído por lá. O homem fazia um bico para melhorar o salário. Juntou o útil ao agradável. Eu disse, nocauteada pela nuvem de perfume: “Tem mulher. Ele vai a Nouakchott encontrar a amante”. Tinha. E descobrimos da pior forma. Em vez de nos levar ao albergue, como havia sido combinado, ele parou na garagem da capital mauritana, onde ficam todos os carros à espera de serem contratados. Anunciou que deveríamos pegar um táxi. Toco retrucou que não havia sido esse o acerto. O militar se explicou: “Não posso levar vocês. Tenho um rendez-vous”. Toco então incorporou a Scarlett O’Hara, naquela cena antológica de E o vento levou… Em vez de “Nunca mais passarei fome!”
diante da paisagem devastada do sul dos Estados Unidos arrasado pela guerra civil, Toco berrou no deserto, assustando as cabras que comiam papelão ali perto e juntando gente: “Então eu vou a pé!”. E me mandou sair do carro – eu e os 130 quilos de bagagem. O militar constrangeu-se diante do grupo de curiosos. A imagem pública para um seguidor de Maomé é muito importante. Cedeu. “Eu vou levar vocês até o albergue”. Toco, porém, estava possuído. Berrou mais uma vez: “Vou a pé!”. O militar repetiu que nos levaria. Toco então me mandou correr para dentro do carro.
Eu e os 130 quilos de bagagem. Nosso Don Juan foi lamentando o rendez-vous a perigo até o albergue. Toco me explicou que se há algo que une a humanidade – sejam cristãos, judeus ou muçulmanos – é um profundo medo de loucos. Em momentos periclitantes, portanto, você deve sacar o maluco que mora em
você para que tudo se resolva a seu favor. Sabedoria toquiana que não vou esquecer.

Quando fizemos o Transamazônica, eu fiquei impressionado com o mapeamento que você fez da estrada. (vale explicar aqui: ao longo de toda a estrada a gente lia que no km x havia um ótimo lugar pra comer peixe, que no km y a gente ia gastar 1 dia pra percorrer 100 km porque a estrada está uma merda, que no km z tem a tia Nenê que faz uma comidinha bacana..) Durante uns 5 ou 6 anos eu gravei o Rali dos Sertões pro AXN, e no rali as equipes recebem as planilhas, as rotas do dia a dia, e quando o João Roni me chamou pra fazer a Transamazônica eu falei pra ele, eu não posso mais ser cinegrafista, eu ando perdendo o foco…pra que mais tem vaga? Produtor de campo, ele respondeu. Porra me dá isso aí, eu quero. Então eu fui com o Guilherme Valiengo, (que foi o assistente de direção da série) fazer o mapeamento da estrada inteira. Eu ficava no odômetro e o Gui ia escrevendo. Saída de Cabedelo do posto X, zera o odômetro. Km 05, lugar legal, posto de gasolina, a gente ia pontuando as coisas legais que tinha pelo caminho, onde tinha hotel, etc. E cada cidade que a gente saía a gente zerava o odômetro e assim foi durante quatro mil e duzentos km até Lábrea. De noite eu passava tudo isto pra uma planilha de excel. Quando você e o Jorge vieram pra gravar, a gente já tinha tudo aquilo mastigado. Eu acho que no final eu rodei uns 15 mil km de Transamazônica, porque foram duas viagens completas. E o planilhamento ajudou.

planilha amazônica 1

Você explicou mas não me convenceu de como um sujeito deixa de ser fotógrafo para virar produtor de campo. Os equipamentos mudaram, veio uma turma nova arrebentando, filmando muito bem, os cachês foram ficando cada vez menores, o que eu fazia todo mundo fazia…quando eu voltei do Saara eu fui fazer um trabalho acompanhando o exército no terremoto do Haiti. Foi difícil pra caramba. Voltei pro Brasil e fui acompanhar um grupo em uma expedição. Me contrataram para filmar eles de moto, e um dos caras do grupo sofreu um acidente e morreu, morreu comigo tentando socorrê-lo, fazendo massagem cardíaca. Aí eu acho que o meu anjo da guarda falou chega! E a única forma de parar esse cara é arrebentando ele. Sofri um acidente em São Paulo, um acidente violento, uma outra moto me pegou, faltava um mês pra levar outro grupo pro Saara, pra fazer a outra etapa…Eu sofri o acidente e quando acordei e vi uma amiga minha do meu lado eu pensei, ih deu ruim, morri… Foram três cirurgias em dois anos, tira prótese, troca prótese… Meus pais estavam envelhecendo e eu tinha que começar a cuidar deles junto com minha irmã. E neste tempo, eu estava fazendo tudo que que eu nunca quis fazer na vida: Ser administrador-empresário de uma produtora pequena, cuidar da burocracia, pagar impostos. E o problema não é pagar imposto. O problema é saber como pagar. Resumo: acidente-pais envelhecendo-produtora-burocracia. Em 2018 meu pai faleceu e minha mãe também se foi logo depois.

no peixe frito em algum lugar da transamazônica

Eu fui paraquedista, eu velejei, eu já fiz uma porrada de coisa. Eu não sou de nenhuma tribo e sou de todas. E eu não sou um cara que tem grana. Então no dia 12 de março de 2019, dia do meu aniversário, um casal de amigos que estava no Quirguistão me ligou. Porque você não vem nos visitar. Eu abri o mapa, Quirguistão, onde é isto??? Eu dormi agitado e no dia 13 eu olhei pra minha irmã e disse pra ela: vou voltar pra estrada. É o único lugar que eu sei sobreviver, onde eu sei me virar, eu praticamente nasci na estrada, então eu vou pro Quirguistão. E eu vou de moto pela Oceania. Saí do Brasil, fui pra Argentina, consegui enviar a moto pra Austrália, rodei toda a Austrália, até que começou a pandemia. Dormi num camping por sete meses esperando o visto pro Timor, fui pro Timor Leste, fiquei dois anos morando no Timor, quando abriu a fronteira eu fiz uma viagem pela Europa com a minha irmã. Nos encontamos em Portugal, compramos um motorhome e viajamos…Voltei pro Timor e agora estou na Indonésia. Seguindo pro Quirguistão. Resumindo: eu tô on the road, há praticamente 40 anos. São 70 países…

praia no timor

Neste momento eu tô em Kalimantan, Bornéu…minha moto quebrou em Java, quando o conserto ficar pronto eu sigo subindo pra Malásia, vou ao Brunei, pode ser que eu deixe a moto no Brueni e dê um pulo nas Filipinas, que é rápido, depois eu me mando pra Kuala Lumpur, sigo pra Tailândia, Laos e aí eu cruzo a China. Vai ter um trâmite gigantesco pra atravessar a China…e os meus amigos já não estão mais no Quirguistão.

Ilha de Ko Lanta, sul da Thailandia

A pandemia me pegou na Austrália e depois no Timor, mas o país se fechou e eu praticamente não vi nada de pandemia aqui. Fiquei no melhor lugar do mundo, numa casa na praia de Areia Branca, e só fui usar uma máscara quando fui vacinar a primeira dose. O Timor tem um povo incrível, que resistiu à colonização portuguesa, que resistiu aos japoneses durante a segunda guerra, que lutou contra a Indonésia durante 20 anos, e que conseguiu tirar a Indonésia de lá.

pra viajar no cosmos não precisa gasolina, pra chegar no quirguistão sim

Tu nunca casou não? Nunca! Fiquei junto com uma namorada três meses direto e vi que isto de morar junto e ver todo dia é coisa de louco, preferi viver outras loucuras. E com 40 anos fiz vasectomia.

É isto turma. Esta semana foi da pesada, com muita gente chegando junto da corda: Maria Helena Salomon, João Rocha, Carmen Molinari, Bruno Pettinelli, Adolfo Lachtermacher, Gabriela Alves, Diana Coll, Cristina Carvalho, Carolina Murad, Paula Machado, Laís Rodrigues, Daniel Tucci,Tatiana Altberg, Ana Carolina Oliveira, Maria Lucia Rangel, Flavio Zettel, Silvio Vasconcellos, Selene San Martin, Sonia Nunes, Raul Mourão, Eduardo Guedes, Beth Guimarães Rocha, Aline Lopes Lacerda, Chico Cunha, Cristiana “Kiki” Garcia, Flavia Grimm, Guto Miranda, Humberto Bassanelo, Juliana Pacheco, Leonardo Ribeiro, Lucas Gotto, Luciana Freitas, Marilda Donatelli e Piero Mancini.

Super obrigado mesmo!

LINKS, LINKS E MAIS LINKS!

o site do toco: https://www.tocolenzi.com/work

o quirguistão misterioso:

o que fazer no quirguistão

fotos de bisqueque

vendeu muito e ainda vale ser lido: paraty do amyr klink

tamara klink, filha de amyr, está viajando sozinha da França para a Groenlândia. por aqui dá pra acompanhar sua aventura.

um trecho da entrevista de sydney possuelo no roda viva

transamazônica, uma estrada para o passado, no hbo

e o trailer:

sobre a frente polisário:

outro amigo, samir abujamra, também se aventurou pelo antigo saara espanhol e acompanhou a luta da frente polisário:

o trailer de o deserto do deserto, de samir abujamra

tinariwen: banda de nômades tuaregues que fazem um som da pesada:

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