na corda bamba edição sessenta neles que 17 anos até que ficou barato.

Diz a lenda que no ano de 1510 em Florença, DF aconteceu a primeira edição do concurso de miss linguiça toscana do cerrado, que foi vencido por Zambella Conge, que ficou famosa por declarar que seu prato preferido era pirex, que sonhava com um mundo livre do comunismo e que seu livro preferido era o pequeno príncipe das trevinhas, de Nicolau Exuperi y Ceci. Diz a lenda que ela só ganhou o troféu porque era sobrinha de um juiz de Londrina, o enxadrista do terno preto e estrategista de bingo de paróquia Sergio Savonarola. Parece que foi aí que começou a tragédia no fundo do mar e também parece que foi hoje que começamos a fazer o que nunca fizemos: mandar golpistas pro lugar que eles merecem. Na Corda Bamba 60 está na área com memórias baratas, pero limpinhas.

misteriosamente o badauê surgiu
sua expressão cultural o povo aplaudiu

Soube dia destes da partida de Alberto Magno. Em 1986 ele foi o único cara que teve a coragem de me contratar como estagiário em sua produtora. Beto era filho do Jece Valadão e foi criado dentro de sets de cinema. A produtora dele, que era considerada pequena na época, tinha estúdio, carpintaria, sala de câmera, moviola, um pequeno refeitório e vivia da publicidade que o Beto fazia muito bem, fez um antológico, acho que do Café Pelé, onde o Anselmo Vasconcellos caía no sono enquanto pilotava um avião e era salvo com o café que “pingava” em sua boca quando o avião já estava prestes a se espatifar. Depois de ouvir uns 50 nãos em praticamente todas as produtoras do Rio de Janeiro, fui parar em São Cristóvão, onde fui recebido pelo César Cavalcanti na Sunlight. Por acaso, eu tava, como agora, com um pé machucado. O César me perguntou: você quer mesmo este trabalho? Então aparece aqui amanhã as 18h que nós vamos pra Cabo Frio fazer um teste para um comercial. No outro dia eu estava lá na hora marcada e o César me deu uma pequena aula básica tik tok ao vivo do que eu ia precisar saber e, principalmente, carregar. A função primordial de um estagiário, além de não ser um peso morto, é carregar algum peso. Ele foi explicando: Isto é um praticável, isto é uma três tabelas (um caixote que no cinema tem este nome metido, mas que serve pra muita coisa no set) esta é a caixa de produção com fita crepe, cordas, pilhas, band-aid… esta é uma garrafa térmica com café, o isopor com gelo você tem que encher com os copos de água. Você tem uma caneta? Quem está na produção não pode jamais estar sem caneta, lápis e papel. Isto é um sun-gun HMI, é muito pesado e caro pacas, vem da Alemanha, muito cuidado, não deixa cair. Aproveita e coloca na kombi. Eu tentava decorar os nomes, três tabelas, sun-gun, praticável, fica de stand-by, nunca tinha ouvido a expressão, mas deu pra entender que era pra ficar como escoteiro sempre alerta e não esquece de pegar as barracas de praia, que é como os cariocas chamam o guarda-sol. Duas horas mais tarde a kombi partiu com nada mais nada menos que Dib Lufti, Dutra (um veterano assistente de câmera), César, Beto e eu, todos guiados por Deus e conduzidos pela Vera Jorjão, uma motorista cujo apelido dispensava explicações. E eu fui charlando como um guri de 20 anos animado, destilando todo o meu conhecimento de cineclubista, embora não tivesse a menor ideia de quem fosse o Dib…Chegamos em Cabo Frio, o equipamento começou a ser montado e só então me explicaram que era para filmar o nascer do sol e que aquelas imagens seriam utilizadas depois como fundo numa tela de rear-projection num comercial do bronzeador Sol de Verão. Entre meia-noite e 4 da manhã o pequeno circo foi montado, o Beto pedia alguma coisa eu ia mancando e correndo pra pegar na kombi, a Vera Jorjão, solidária se antecipava e pra eu não passar vergonha, me mostrava o que eu tinha que pegar. Tudo pronto, só restava esperar o sol aparecer no horizonte para o Dib rodar a câmera e quando deu 5.30 uma chuva fina começou a cair, o Dutra recolheu seu equipamento, todos foram se abrigar na kombi menos eu que tive que desmontar o circo e recolocá-lo na kombi e às 5.45 a chuva fina virou uma chuva forte pra cassete e o Beto simpático gritava não vai molhar a barraca de praia seu molenga! O dia clareou, Dib fez umas imagens da chuva com a Ikegami e e fui o único que voltou para o Rio de Janeiro ensopado. Também fui o único que não ganhou carona atá a porta de casa e eu pensei comigo, tá bom seus filhos da puta, se o teste da farinha foi este, tá tudo certo.

comercial pra marca italiana ferré. alberto magno é o cara grande de camisa xadrez. eu tô ali do lado dele, fazendo não sei o que…

Eu morava perto da entrada do Dona Marta e o César Cavalcanti no Humaitá, então aproveitava a carona pra cruzar o Rebouças e foi assim que passei alguns meses praticamente morando na Sunlight. O meu trabalho não tinha absolutamente nada de glamoroso. Aprendi com o César a fazer uma planilha de produção em folha quadriculada, a usar lapiseira número 9, a fazer orçamentos, textos de cartas pedindo autorização pra isto, liberação de rua para aquilo, ligação festiva com a Light, desde já agradeço, atenciosamente, estou à disposição para dirimir quaisquer dúvidas, como explicado, temos muita urgência e tudo era sempre muito urgente. Chico Torturra que era da família e era um dos caras do Canal 100 me deu umas belas aulas sobre lentes e virou um amigo de idas ao Maracanã quando tinha Grêmio e Fluminense. Beto costumava estourar o orçamento e pagava um filme com o próximo. Não era de economizar e só trabalhava com bambas: Guerrinha, Afonso Beato, Mario Carneiro, Vitor Raposeiro no som, entre outros. Neste comercial do Sol de Verão, chamou a Denise Stoklos pra coreografar os movimentos da modelo na beira de uma areia escaldante cenográfica no estúdio. E eu aprendia um pouco de orelhada no set, quando dava tempo, porque a minha rotina era basicamente ir no Adegão Português comprar garrafas de Casal Garcia, percorrer as lojas de material de construção, de azulejos, tintas e madeiras para cotar os preços de tudo que o diretor de arte pedia pros cenários. Então eu caminhava pelo Campo de São Cristóvão e arredores, em busca de carrapetas, bitolas e outras bagaças, pensando que porra que eu tava fazendo na vida, já que eu mudei pro Rio pra trabalhar com cinema e não para saber onde se compra o metro de filó que está mais em conta, onde o galão de suvinil azul chroma key está mais barato ou onde a lixa de papel de parede está em promoção.

rua bela em são cristóvão chicago trás dos montes foto da página do facebook https://www.facebook.com/SaoCristovaoRJ/photos

Mesmo o que seria considerado o lado bom da festa para um moleque no meio dos anos oitenta, nunca era tão bom assim. De vez em quando podia ver ao vivo algumas modelos que saíam nas páginas da Playboy e da Ele &Ela, mas até isto era absolutamente relativo e eu era o estagiário pp. Teve um comercial para uma bala italiana, acho que era caramelle flogoral, dez moças com os peitos de fora, montadas cada uma numa mobilete com o nome do caramelo estampado no farol, numa estrada que também não lembro bem, acho que era em Búzios, numa segunda pela manhã bem cedo, e apesar do apoio da polícia rodoviária pra interromper o trânsito, era eu que estava com o rádio que recebia o ok pra liberar a pista, então só via bem de longe aquela peitaria toda, enquanto ouvia bem de perto motoristas apressados me mandando enfiar o walk-talkie no rabo… No final do primeiro mês de trabalho fui conversar com o Beto Magno pra saber quanto que ia ganhar, ele me olhou, ganhar? tá maluco, tchê? Sim, ganhar. E quanto tu quer ganhar? Eu gasto tanto no aluguel, luz, super e eu não trabalho só pra pagar conta. Nem lembro qual o valor pedi. Mas ele me olhou e disse ok. E ainda tirou onda, tem que ter dinheiro pra tu comprar a Bizz. Em 1986 eu lia a Bizz. Pensando bem, acho que não foi um mal começo. Muito obrigado Beto Magno e muito obrigado César Cavalcanti, acho que deu pra aprender alguma coisa. E naquele ano, a Sunlight ajudou na campanha do Gabeira e eu passei o abraço da Lagoa carregando o pesado sun-gun hmi pela Lagoa inteira. Apesar de tudo, eu não era tão besta assim, tanto que votei no Darcy Ribeiro. A ciranda verdejante tirou os votos do PDT, mas naquele ano de plano cruzado o pmdb faturou tudo e o eleito foi o nome dele é tapume Moreira Franco. A conta veio logo depois das eleições e em janeiro a inflação já tinha voltado.

sifusqueria vila mariana 2023 foto: fabiano maciel

Pra encerrar, um texto idiotinha, posto que é meu, escrito no ano passado e publicado no supremo do fb. Coloco aqui porque vi uma parada parecida no porta dos fundos, embora uma coisa seja uma coisa e outra coisa seja outra coisa:

grupo de zap pauliceio desvairado

Ma-então qual vai ser hoje à noite?

Fe-abriu um restaurante temático bem interessante na Vila Mariana, um lance medieval

Pri-tipo castelos na Escócia?

Fe-Não, tipo masmorras na Romênia.

Ba-Sério? Como é o nome?

Fe-Torturaria São Nicolau.

Pe-Ah esse lance sadomasoquista já era.

Fe-Eu ainda curto levar uma sova de vez em quando…

Pe-Ah então pra isso eu sou muito mais ir na Pirocaria São Benedito em Pinheiros.

Fe-Por que? Lá eles porram mais leve?

Pe-Esporram! Primeiro porque é só gebara de responsa. Segundo porque é tudo street fighter com pós graduação na USP.

Lu-Tá de sacanagem…

Pe-É sério, a última vez que fui lá levei umas bifas dum cara que tinha feito uma tese muito louca sobre o cancelamento no Egito antigo.

La-Não tem nada mais leve, tipo uma punheteria?

Te-Eu ainda não fui na Punheteria São Jerônimo…eles tem umas cabines temáticas, a Ro foi semana passada e disse que tava rolando uma bronha temática, só rock bb anos 80. Ursinho Blau blau

Fe-Eu já fui, é tipo uma festa ploc só que com mamadeira de piroca

El-Eu tô mais num clima regional lusitano, a Sifuderia…

Gu-Ah, mas pra pastel de cabelo tem a Buceteria de Fátima na Consolação.

Li-Vocês são tudo uns arrombados. Eu vou é na Vomitaria Coreana que abriu no Bom Retiro..

Lu-

Li-

Le-

Lo-

La-

Fe-

Pe-

Ci-bem, eu vou numa pizzaria aqui na esquina de casa mesmo.

That´s all folks, valeu macacada, 17 anos não é nada perto do que eles queriam fazer com a gente…Avante e super obrigado pela chegada na corda do mestre ninja e parceiro de algumas empreitadas Tárik de Souza e também de Teodoro da Rocha. PAZ!

a foto da capa eu fiz em 2010, na capital do calcio florentino

LINKS! LINKS! E MAIS LINKS

jece valadão era ator-personagem-cafajeste em tempo integral sem distinção de vida e obra. mas era do ramo, e trabalhava com os diretores dos cinemas pensante, delirante e rebolante.

escorel na piauí sobre dib lufti:

https://piaui.folha.uol.com.br/dib-lutfi-interacao-perfeita/

o próprio dib falando sobre seu trabalho:

um documentário feito pela tv alemã em 1967 sobre o cinema novo:

sobre rear projection:

nunca, jamais e nunca mais depois dele, o futebol foi tão lindamente filmado. quem viu viu. o cinejornal obrigatório no cinema era insuportável mas quando começava as primeiras notas do piano de waldir calmon, as palmas e os urros começavam. era o futebol do canal 100 e era uma decepção quando o cinejornal era do primo carbonari, pois aí era só chapa branca.

um botafogo 3×0 em cima do flamengo

o tema do canal 100 com waldir calmon

e mais uma vez a piauí fazendo as homenagens certas, no caso, para chico torturra:

https://piaui.folha.uol.com.br/materia/o-homem-do-futebol-arte/

em 1986 o Pavilhão de São Cristóvão ainda tinha cobertura.

https://www.archdaily.com.br/br/765444/classicos-da-arquitetura-pavilhao-de-sao-cristovao-sergio-bernardes?fbclid=IwAR01LQZ8-yVypqKyb9yQljifE9qWgYio_HYAZwrF0gtUw_VZgzNc_W41M7o

duas séries imperdíveis no Canal Curta:

Alma em Madeira, dirigido por Barbara Heckler e roteiros de Laura Artigas. O episódio sobre Fernanda Barretto particularmente me cativou, pela singeleza e pela despretensão da moça.

Companhias do Teatro Brasileiro é outra série danada de boa de ver. O episódio sobre Walter Pinto salvou uma manhã de domingo modorrenta. Aqui, o diretor (e ator) Roberto Bomtempo, fala sobre ela:

uma descoberta sensacional: o raio que o parta paraense

https://www.instagram.com/rederaioqueoparta/

o bamba do choro e do samba e do outros ritmos henrique cazes mandou avisar:

o choro reinventa a roda

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