Medo mesmo eu tinha era de ciganos. A estratégia de minha mãe pra que eu e minha irmã parássemos de brigar era infalível: quietos ou deixo os dois no acampamento cigano! A segunda opção era a possibilidade de um ano no colégio interno, mas este ficava longe, em São Leopoldo, enquanto que o acampamento cigano era logo ali, no meio do caminho entre a nossa casa no Menino Deus e a da minha avó, na Glória. Ciganas desdentadas eram tão assustadoras quanto a cara da Helena Blavatsky em página inteira na revista História ou o Triunfo da Morte do Bruegel na Gênios da Pintura que meu pai comprava. Medo também era do disco da Paixão de Cristo que tocava na casa do vizinho, disco onde tudo era assustador: a voz do narrador, a orquestra e a sonoplastia com direito à chuvas e trovoadas, que metem medo até hoje nos gauleses do Asterix, que só temem que o céu caia sobre suas cabeças e eu, como nunca ando de guarda-chuva, só tenho medo de ficar sem nenhum tostão, e se você chegou até aqui, desça já lá nos botões vermelhos e assine este blog mais do que vivo, ou faça um pix de qualquer valor para o email fabpmaciel@gmail.com e ajude um morto vivo à sair de sua tumba. A edição 72 de Na Corda Bamba vai fazer qualquer um se sentir…revigorado. Olho vivo e Saravá!


Medo também era morrer sugado por areia movediça, como qualquer coadjuvante ou vilão pé de chinelo do Jim das Selvas e do Tarzan. Até no Abbott e Costello se morria de areia movediça. Hoje ninguém mais morre nem de areia movediça e nem de mosca tsé-tsé. Aflição era Terra dos Gigantes e medo, medo mesmo era dos canibais da Ilha do Perigo, que me metiam mais medo do que todo o elenco da Hammer reunido. Os filmes da Hammer contavam com atores como Peter Cushing e Cristopher Lee, tinham sempre cenários ultra kitsch e, pra minha felicidade suprema, vilãs malvadas com decotes generosos.

Mas antes de tudo, do decote das noivas do drácula teve a Francesca. Azar de quem cresceu tendo medo da loura do banheiro, eu cresci sonhando com a ruiva filha do dr.Frankenstein, a boneca – boneca de verdade- do meu filme campeão da sessão da tarde: A Festa do Monstro Maluco, que além de reunir Drácula, a Múmia, O Homem Invisível, Dr.Jekyll e Mr.Hyde também tinha uma banda de rock formada por caveiras. Era impossível resistir e impossível de se ter medo. Também não dava pra ter medo da Maga Patalógica e nem da Madame Min, e o manual da dupla antecipou em quase três décadas o que tá rolando agora: bruxas medievais, múmias e vampiros ao lado de sacis, curupiras e da cuca.


1938. É o dia da Festa dos Mortos no México, e Geoffrey Firmin – ex-cônsul britânico, alcoólatra e um homem arruinado – está vivendo o último dia da sua existência. Afundado em bebida enquanto sua ex-mulher e seu meio-irmão tentam, inutilmente, ajudá-lo, o diplomata se vê transformado em uma figura trágica e sofrida. A sua história – imagem da agonizante jornada de um homem em direção ao calvário – tornou-se um livro profético para toda uma geração. Publicado em 1947, À sombra do vulcão é a obra mais conhecida do inglês Malcolm Lowry (1909-1957) e traz inegávais traços autobiográficos.
Este é o resumo da edição da LPM de A Sombra do Vulcão. Antes do livro, eu vi o filme de John Huston, onde o espetacular ator Albert Finney faz o diplomata pinguço e a espetacular atriz Jacqueline Bisset, a sua ex-mulher. Foi com este filme que descobri a festa do dia dos mortos no México. Em 1984 eu troquei a Francesca pela Jacqueline e passei a sonhar com um dois de novembro cheio de caveirinhas.
Em 1986 logo que mudei pro Rio, comecei a fazer um fanzine –Ní– junto com o Luis Marcelo Mendes. O Mojica tava relançando, depois de anos na prateleira da censura, seu filme psicodélico, O Despertar da Besta. E o besta aqui passou o dia com o seu Mojica, com o Francisco Lucchetti e ainda pode tietar um pouco a Ítala Nandi que também tava por lá. O fanzine nunca saiu, a fita com a entrevista do Mojica foi apagada por engano e só restou as fotos que o Nuno Godolphim fez em um dia pra lá de alucinado de 1986. Ou 87. Não lembro de quase nada do filme. Perder a memória é algo que me mete medo.


Quase sempre chove no dia dois de novembro.
Em 2012 eu estava em Milão para filmar um dos episódios da série Todos os Brasileiros do Mundo. Nossos personagens eram prostitutas, drags, travestis e transexuais que viviam na cidade. Por acaso, era dia de Halloween, que na Itália é também véspera do feriado de Todos os Santos. Então o Halloween é um mini carnaval. Fomos para Castelleto Sopra Ticino, uma pequena cidade- pequena mesmo- à 50 km de Milão. Lá, na L’usteria dal Tugnéla, especializada em pizza à metro, Margo, uma paulista, pioneira entre os brasileiros, iria incorporar Marylin Monroe para pais, tios, nonos, nonas e outras pessoas comuns de Sopra Ticino. Pessoas comuns, quase todos vestidas à caráter (caráter de Halloween) e lá eu percebi que: 1-italianos estão se lixando se halloween é italiano ou não, embora em algumas regiões a tradição de colocar abóboras na janela exista há séculos. 2-italianos, apesar de tudo, não se incomodam de ver um show de um travesti brasileiro no restaurante de sua cidade, mesmo que a cidade não seja quase nada e mesmo que o restaurante não seja grandes coisas. Pelo menos naquela noite, a Margo não meteu medo em nenhuma nona ou nono.




Em 2013, já em São Paulo, a campaínha tocou, quando abri a porta, as crianças do prédio estavam todas fantasiadas, pedindo doces. Eu não tinha nada pra oferecer. E nem sabia que era Halloween. Nos anos seguintes não decepcionei a turma. Hoje me assusto com a vizinha que bate na porta e com o cowboy de A Cidade dos Sonhos, mas me assusto mesmo é com o Lira, com o Centrão, com os governadores do Rio Grande do Sul, de Minas, do Rio e de São Paulo. Me assusto com o negacionismo e com o terraplanismo. Com a extrema direita de qualquer lugar, daqui, dos americanos, dos europeus, de Israel… Me assusto com a impossibilidade de paz e me assusto mesmo com Luciano Huck entrevistando historiador de best seller!


Tenho medo, medo não, temor, com a possibilidade do SESC deixar de ser o SESC sem o Danilo Miranda. Tenho medo da burocracia, da alma penada e da alma malvada de todo burocrata. Como nada disto se resolve com mandinga ou com o exorcista do papa, a única saída é lutar contra a obtusidade e jamais, veja bem, jamais votar em candidatos da direita.
É preciso ter uma paciência de múmia paralítica com os burocratas. E com os vampiros do centrão. E se você tem filhos pequenos, leia pra eles As Sete Histórias pra Sacudir o Esqueleto, da escritora e desenhista mineira Angela Lago, que hoje sacode seu esqueleto lá em cima, bem longe de sua Belo Horizonte. Talvez ela venha te assustar dizendo Caioooo! Caioooo! Caioooooo!

Na Corda Bamba agradece muito a chegada de Ana Maria Moreira Cesar e do amigo de Sévigné Sandro Giroldo. Aproveitem o feriado! Rezem por seus mortos. E celebrem seus vivos. PAZ!
a foto da capa desta edição mostra a atriz russa Maria Germanova interpretando uma bruxa na peça O Pássaro Azul, em 1908.

LINKS! LINKS E MAIS LINKS!
areia movediça e tarzan:
Banana Split e um começo de A Ilha do Perigo:
Clássicos da Hammer:
A Festa do Monstro Maluco trailer
A Festa do Monstro Maluco, Francesca!!!
Gale Garnett, que fez a voz da Francesca:
O Manual da Maga e Mim na estante virtual
A Sombra do Vulcão, o livro, em edição de bolso da LPM
A Sombra do Vulcão, trailer:
sobre o despertar da besta:
o despertar da besta trailer:
https://www.primevideo.com/detail/O-Despertar-da-Besta/0OJF4HOMJ3BAC8YR1N6H8NY545
o episódio de TODOS OS BRASILEIROS DO MUNDO gravado na Itália e na Suíça, completo neste link:
E A PLAYLIST!
01-fredi roman árias, danza de la muerte
02-bernard hermann, the murder
03-almôndegas, canção da meia noite
04-sérgio sampaio, filme de terror
05-warren zevon, warewolfes of london
06-donovan, season of the witch
07-the specials, ghost town
08-the cramps, goo goo muck
09-louis armstrong, the skeleton in the closet
10-bezerra da silva, lugar macabro
11-leda moreno, el diablito
12-ozomati, cumbia de los muertos
13-gorillaz, dracula
14-whodini, freaks come out at night
15-cab calloway, st. james infirmary
16-gale garnett, st. james infirmary
17-joão bosco, boca de sapo
18-geraldo azevedo, malaksuma
19-harry belafonte, zombie jamboree
20-mister chivo, frankestein
21-vic mizzy, the adams family main theme
22-wanda jackson, funnel of love
23-the who, boris the spider
24-julieta venegas, mis muertos
25-van halen, running with the devil
26-radiohead, creep
27-jards macalé, cor de cinza
28-frank sinatra, withcraft
29-joão donato e gilberto gil, a bruxa de mentira
30-bessie smith, devil’s gonna git you
31-the rolling stones, simpathy for the devil
32-fleetwood mac, black magic woman
33-alice cooper, teenage frankenstein
34-la bruja de texcoco, té de malvón
35-portishead, glory box
36-andrew gold, spooky, scary skeletons
37-fred schneider, monster
38-ray parker jr., ghostbusters
39-rita lee, bruxa amarela
40-j.b.lenoir, voodoo music
41-vic mizzy, morticia’s theme
42-luhli e lucina, o rato roeu
43-the abigails, satan taps my head
44-nick cave & the bad seed, red right hands
45-deep purple, why didn´t rosemary?
46-atibon, papa legba
47-monsieur periné, la muerte
48-gonzaguinha, chão poeira
49-atibon, vodou maye
50-curimbeiros, quando deu meia-noite
51-bernard herrmann, the curtain

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