na corda bamba 88 (com a playlist 58) – um ano balançando por aqui e por ali.

Meu pai me levou algumas vezes pra ver os barcos saindo pelo Guaíba na Procissão dos Navegantes, que acontece em Porto Alegre todo dia 2 de fevereiro, dia de Iemanjá. A Santa saía da Igreja do Rosário e dava um rolê pelo centro da cidade, que agora se chama centro histórico, mas nesta época era só centro mesmo. Nos anos 2000, quando a área ficou decadente e quando quase todos os escritórios mudaram para os horrendos e cafonas prédios de vidro da Avenida Carlos Gomes, que era muito bonita, cheia de casas modernistas e de outros estilos também -casas que foram quase todas demolidas para abrigar os horrendos e cafonas prédios de vidro- quando só sobrou pobre, cracudo e camelô circulando entre prédios altamente significativos, aí o centro da cidade virou histórico. Bueno: a Santa passeava pelo Centro até o Cais da Mauá, onde o atual prefeito Véio Véio, um negacionista chupinski beijo de língua e mellow melo da turma do vivendas, portador de raios privatizadores e coach não é gente do estado mínimo, pretende fazer uma versão chinela e cafona de Puerto Madero, com shopping e torres gigantes tipo as que fizeram em Recife no Cais Estelita, que gerou um movimento de resistência que mesmo sem ter vencido, fez um barulho danado. Seguindo com o andor: quando a Santa chegava no cais, subiam com ela num barco e de lá, centenas de barcos saiam também, navegando nas águas do rio, lago, estuário e já ouvi dizer que a definição do que é ou não é o Guaíba não é só uma questão geográfica. Parece que dependendo do que for, a lei ambiental muda, e com isto mudam também gabaritos e dependendo do lado que for a balança de geógrafos, geólogos e cientistas de diversos naipes e valores, liberam-se ou não mais áreas para novos puertos maderos chinelos e novas e horrendas torres retorcidas que deixarão a cidade sorriso tal e qual uma dubai chimarrita de burca dos pampas. Quando o centro era só centro, história era a plaquinha na fachada de um prédio público, não lembro qual, colocada pra lembrar que na enchente do Guaíba em 1941 a água chegou até ali e deixou 70 mil desabrigados. Meu vô Jerônimo foi quem me mostrou e quase 90 anos depois, a água voltou a chegar por perto deixando todo mundo molhadinho e sem luz por horas, dias, quase semana, mas a privatização da energia foi um susseçu total segundo o gerente de vendas véio veio. Voltando para antes de tudo, quando a procissão era só uma procissão, os barcos passavam por baixo da Ponte do Rio Guaíba que na época era certeza que era um rio, na mesmo ponte onde o Teixeirinha se jogou no filme das Sete Provas, e não sei exatamente quando, mas acho que depois do bateau mouche bateu um cagaço nas almas burocratas e o movimento dos barcos foi proibido. Dica do curso básico de gestão de abacaxis ISO 15600: Quando não for possível fiscalizar ou proteger alguma parada, proíba a parada. Sem mais para o momento e sem atenciosamente. Então cancelaram os barcos da santa dos Navegantes. Ela foi navegar na rua, carregada pela marujada, pelos remadores do União e do Náutico Gaúcho, pelos bombachudos, pelos macumbeiros, umbandistas, católicos, curiosos, chucrutes, metaleiros, ambulantes, brigadianos, coroinhas, putanheiros, pilantras e o escambau de gente entre o desespero e a crença de dias melhores. A santa navega, mas navega pelas ruas do Centro, seja ele histórico ou não. Em 2009 liberaram a barca e ela voltou a circular nas águas não muito limpas do Guaíba. E é junto com ela que a gente embarca na edição 88, que comemora um ano de Na Corda Bamba.

Saravá!

a procissão dos navegantes em 2004 foto: zh
uma rua do centro “histórico” em 1989
foto: tagore pereira

Meu pai não era um cara religioso. Mas se emocionava com alguns eventos e a procissão era um deles. Minha mãe, apesar de calabresa, batizada, crismada e criada no Sevigné, também nunca foi muito católica. Cresci com ela me levando em benzedeiras, videntes, centros espíritas e casas de umbanda. De vez em quando rolava uma missa. Meu avô, um calabrês de anedota, tosco e resmungão, praguejava sempre que se falava na Virgem Maria. Virgê un cazzo! Enton Cristo veio con un facho de lucce! O resultado é que da missa eu não sabia nem a metade. Mesmo estudando em uma escola católica. Num dia de São Francisco rolou uma missa e na hora de comungar todos os meus colegas entraram na fila e lá fui eu, sem saber o que ia acontecer. Quando chegou na minha vez, o padre colocou a hóstia na minha boca, eu dei uma mordida e depois cuspi a rodela amassada. O mini escândalo dos meus nove anos, a cara de censura, nojinho e reprovação das gurias de bem.

porto alegre, 1989 foto: tagore pereira

No dia seguinte, uma freira bateu na porta da sala, interrompeu a aula e me convocou para maiores esclarecimentos. Cheias de aspas me perguntaram se meus pais costumavam ir na igreja, se rezavam, etc, etc. Eu saquei na hora a jogada, menti descaradamente e pintei a dona Cármina como a rainha da paróquia e meu pai Francisco, um sujeito muito mais preocupado com a volta do Brizola do que com a missa, como um bom samaritano temente ao nosso senhor Jesus Cristo. Contei e isto não era mentira, que de vez em quando alguém batia na porta para entregar um oratório com uma Santa que ficava por uma semana protegendo a nossa casa. Também não menti que com frequência ia no Pão dos Pobres com minha vó Jandira pegar o pão que era bem bom. Fora isto, eu só sabia da versão de piada do padre alemão rezando o missa no roça. Pra não pegar mal, minha mãe me colocou na catequese da escola. E a catequese foi a primeira das muitas coisas que eu comecei e não terminei na minha vida. Depois de algumas aulas, de repetir a blasfêmia do seu Antônio, de indagar do facho de lucce, as próprias freiras desistiram de me converter. Logo depois fui para um colégio de padres, com padres tão reacionários que perto deles, as freiras do Sevigné pareciam Joanas Darcs simpáticas. Vai ver eram mesmo. E com tudo isto, entre a missa e os contrabandos espirituais de minha mãe, acabei virando uma confusão transcendental. Como a música da Tenda dos Milagres: Quem é ateu e vê milagres como eu.

navegantes de terra, ar e mar, foto: jornal do comércio

Não por acaso, a primeira edição de Na Corda Bamba foi pra rede no dia dois de fevereiro de 2023. Porque eu tava me afogando sem bóia, sem colete salva-vidas e sem a porra da capitania dos portos pra ajudar. Porque precisava de uma procissão de milagres. No dia dois de fevereiro de 2024 eu ainda tô precisando de alguns milagres. Mas a cabeça tá fora d’água e eu tô respirando. No dia dois de fevereiro de 2024 eu tava longe de qualquer rio guaíba e de qualquer mar de rio de janeiro. Mas peguei chuva durante 8 horas, na estrada entre Belo Horizonte e São Paulo. De algum modo, veio água pra levar pra longe tudo que precisa ir pra longe.

a rua da praia na enchente de 1941 foto: Museu Joaquim José Felizardo

Avante navegantes do céu, da terra, dos rios, mares e box blindex da sesosbra! Saravá! E a corda seguirá frenética neste fevereiro, mesmo com a folia. Quem quiser e puder assinar, role até os botões vermelhos lá de baixo. Ou faça um pix de qualquer valor para a chave fabpmaciel@gmail.com

A foto de capa desta edição é do cais da mauá antes e depois de tudo, feita pelo shamejay Tagore Pereira

LINKS! LINKS E MAIS LINKS!

a procissão dos navegantes em 1965

iemanjá está na amazon:

teixeirinha e as sete provas pra quem tiver coragem. quem quiser ver só a cena dele pulando no guaíba, ela tá no minuto 23.

anelis assumpção:

Holly Golightly é a personagem da Bonequinha de Luxo do Truman Capote.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Breakfast_at_Tiffany%27s_(livro)

É a Audrey Hepburn no filme:

e é a Holly Golightly, cantora inglesa que foi batizada mesmo com este nome:

A PLAYLIST 58!

Abrindo com Ologundê tocando pra Iemanjá. Com a nova música de Anelis Assumpção e a belezura que é ela cantando “encore un tour”, pela maravilha que é Miriam Makeba, avec Sivuca, cantando Adeus Maria Fulô, pelo pop do Hanson, que Mr.Andrew Downie me convenceu que era bom lá por 2002, e que na semana passada apareceu com a Priscila Rezende, artista plástica mineira que me contou que a banda foi o esse tal de roquenroll no seio de sua família de pai temente à Deus e soldado fiel da Igreja Batista da Lagoinha, onde disco de jovens cabeludos era considerado idolatria, mesmo que os jovens cabeludos da capa fossem inocentes e bons cristãos de Oklahoma.

miriam makeba demais

E segue com Laurie Anderson pegando um ar, com James Brown pegando um trem noturno, Meirelles e os Copa 5 pegando uma sopa no beco da fome, com Jorge Ben pegando o telefone do brotinho, o Mundo Livre tentando pegar a loirinha americana, o cubano Ibrahim Ferrer pegando gosto e a música nova do Carne Doce, querendo pegar nas rádios.

jorge big ben

Adelante com Big Audio Dynamite, Talking Heads, Edu Lobo, João Bosco, Teca & Ricardo, Grace Jones, Ian Dury, Luiz Melodia, Terrestre (do Nortec Collective, de Tijuana, México) e a Norah Jones que sempre faz o mundo ficar melhor.

ian dury que nunca fez sucesso por aqui

Sandina, do mestre dos mares e rios guaíbas e mississipis, Julio Reny, cantada por Jimi Joe:

Sábado todo, eu chorei de mágoa
Minha garota foi pra Manágua
Lutar pela revolução
Lutar pela revolução

Todo mundo vai embora
Todo mundo tem sua hora
Todo mundo vai embora
Todo mundo tem sua hora

Ela me deixou, me trocou
Por um sandinista especialista em granada
Ela me deixou, me trocou
Por um sandinista especialista em granada

Sábado todo, eu chorei de mágoa
Minha garota foi pra Manágua
Lutar pela revolução
Lutar pela revolução

Todo mundo vai embora
Todo mundo tem sua hora
Todo mundo vai embora
Todo mundo tem sua hora

Ela me deixou, me trocou
Por um sandinista especialista em granada
Ela me deixou, me trocou
Por um sandinista especialista em granada

Ela me deixou, me trocou
Por um sandinista especialista em granada
Ela me deixou, me trocou
Por um sandinista especialista em granada
De mão

Uma sequência da pesada com The High Llamas, Holly Golightly, Lenine, Sergiopi e Iggy Pop dum dum boysando.

Outra sequência sagaz e esperta com Frankie Goes to Hollywood, Marc Ribot y los Cubanos Postizos, Kevin Johansen, Doris Monteiro, Julie London, Melody Nelson, Al Green e a espetacular Ana Frango Elétrico.

Jonathan Wilson, Isaac Hayes, Mildred Clark, uma do novo disco de Everything But The Girl, J.J.Cale e Johnny Alf.

holly golightly é mesmo ela mesma

MPB-4, do discaço de 1979, com capa do Millôr e a letra de quem é mesmo? Fato, é uma merda saber o autor de alguma música. Descobri, o Amigo da Onça é de Aldir Blanc e de um tal de Sílvio da Silva Jr.

Salve
Prazer rever você
É, já faz um tempão
Tamos aí
E aqui, no mesmo bar
Muita sorte ou azar
Que cara é essa

E aquele velho amor?
O meu papo mudou
O meu também
Tô firme na poupança
Dá pra ver pela pança
Mas senta
Traz dois sem colarinho

Você se agarra direitinho no passado
E o que há de errado
Eu me dei bem assim
À minha custa ou então de gente igual a mim
Tá me gozando
Eu nunca te fiz mal
Pessoalmente, mas no todo é que eu encuco
Ficou maluco
Precisa se internar

Sei que ando mal, pra variar
Pois é, um pouco mais de humor
Com a fome que eu tou
Nem pense nisso
Pede o de salaminho
Sem bancar o bonzinho

Mas, ora essa, tá me agredindo à beça
Eu não estou pra conversa
Então se manda
Não temos que aturar

Vão querer me encarar
Cai fora ou vou chamar o guarda
Por mim tu chama até o raio que o parta

Ah, mas que falta
Eu tenho pressão alta
Mas quando assalta a quem é pobre, ela não sobe
Não admito meu nome, meu valor
Custa barato em qualquer casa de penhor
É bom lembrar com quem tu tá falando

Tô falando e andando
Já basta
Não topo gente rude
Quem está incomodado que se mude

Conheço meu lugar
Então vá passear
Que ingratidão
Despeita um velho amigo
Esse papo é antigo

Não é possível, você não se comove
Vai tomar teu “Engov”
Teu caso só bordoada cura
Tu é contra abertura
Eu?

Howlin’ Wolf, The Soundtrack Studio Stars (quem?), Los Lobos e a bacanérrima Petra Haden, violinista e cantora americana que fez uma versão do disco do The Who Sell Out. Pra completar, Mavis Staples, que assim como a Norah Jones, sempre faz tudo ficar melhor quando aparece.

Petra vendendo tudo do The Who

Na curva dos cem metros e na reta final: Ismael Silva, Amanda Magalhães, Moacir Santos com Gilberto Gil e o Coral Filhos de Iemanjá pra encerrar a procissão de todos os barcos!

PAZ!