No meio dos anos 70 mano Caetano lançou dois discos praticamente ao mesmo tempo. Uma metade era Jóia e a outra era Qualquer Coisa. Os discos tinham lado: A e B e a vida, de modo geral, tinha lado também. Era velho ou novo, gordo ou magro, do bem ou do mal, barato ou caro, Grêmio ou Inter, Lennon ou McCartney, Emilinha ou Marlene. Ah, mas e as nuances e os milhares de tons de cinza, dirão os sensatos de repartição…As nuances que se danem! O centro na maioria da vezes não serviu pra nada, inclusive nas vitrolas era apenas o lugar onde a gente colocava o disco. Nos anos 80, junto com a queda do muro de Berlim, os cds apareceram e acabaram com os lados. Mas não com o buraco do meio. O buraco do Raio laser sapatenista é osso! Ele continua por aí, tem até uma turma que frequenta um canal do meio, também conhecida como a turma do não foi golpe. O não foi golpe é meio pai e meio mãe do grande buraco que nos meteram nos últimos anos. O buraco do grupo golpe. Pra nossa sorte, a turma do não foi golpe é que está indo pro buraco. Junto com a turma que tentou dar um golpe. Tá só começando, mas já foi o bastante pra gente poder gritar: Grande Dia!
E logo no começo do carnaval!
O spotify não tem lado nem buraco. E a playlist de hoje, que comemora o começo da descida pro buraco da turma que tentou dar um golpe, vai com uma linha divisória imaginária, uma tordesilha sonora. Até o meio (este tem função e sentido), é lado A, é jóia. Depois é lado b, é qualquer coisa. Pode ser o contrário também. Ou não, como diz o baiano. Saravá! E Boa Folia!
Não canso de repetir: Mais uma vez! Grande Dia!

Se é lado a ou b, se é jóia ou se é qualquer coisa, pouco importa. Uma metade é pra quem não quer saber da folia. A outra é pra quem quer colocar os pés, as mãos e todo o resto na bagunça. A playlist 59 de Na Corda Bamba abre e fecha com Joãozinho da Goméia primeiro com ele indo embora pro sertão e deixando a bola pro argentino Hector Costita, que chegou aqui nos anos 50 e nunca mais voltou pra sua Buenos Aires querida. Le Roi abre seu ótimo disco de 1964, que tem o bamba Edison Machado nas baquetas. Simbora com The Pretty Things, Serge Gainsbourg em dobradinha com Brigitte Bardot e os jovens Alceu Valença e Geraldo Azevedo começando a botar seus blocos na rua.

A barca segue com Aimee Mann, Silvia Tape (descoberta sinistra!), Can pra desaguar no forrobodó oriental de Felipe Gomide, que eu descobri hoje mesmo dando sopa por aqui e acabei de ver que tem participação do chapa Gabriel Levy. Rabeca de lá e de cá, Sierra Farrel, que já deu as caras por aqui,


Nem tente catalogar, rotular, classificar ou enquadrar Kabeaushé, não duvide do suíngue de Dorothy Donegan, nem da voz de Dakota Stanton, não resista à Arlo Parks e a Augusta Barna em sua sangria desatada, o super novo e o super clássico, juntinhos numa sugesta geral. Led Zeppelin marca presença e os experts vão sacar o trocadilho infame. Holly Golightly bisando e Roberta Flack arrebentando com tudo.

Sebastião Tapajós acompanhado de Pedro Santos, também conhecido como Pedro Sorongo, Herbie Mann vai pra Jamaica em Londres acompanhado de Tommy McCook, num disco que tem uma versão de 16 minutos de My Girl. É pra fumar e esquecer do mundo. Hugh Masekela, pra seguir no mood, The Upsetters, Adrian Orange e João Donato pra seguir no mundo encantado de suruma.

Cor de Cinza é uma das músicas mais lindas e mais tristes de Noel Rosa. É uma das músicas mais sombrias da história da música brasileira. Aqui, ela vem na interpretação do Rumo!
Com seu aparecimento
Todo o céu ficou cinzento
E São Pedro zangado
Depois, um carro de praça
Partiu e fez fumaça
Com destino ignorado
Não durou muito a chuva
E eu achei uma luva
Depois que ela desceu
A luva é um documento
Com que provo o esquecimento
Daquela que me esqueceu
Ao ver um carro cinzento
Com a cruz do sofrimento
Bem vermelha na porta
Fugi impressionado
Sem ter perguntado
Se ela estava viva ou morta
A poeira cinzenta
Da dúvida me atormenta
Não sei se ela morreu
A luva é um documento
De pelica e bem cinzento
Que lembra quem me esqueceu
Carmen Costa chorando rios e a parada começa a virar com o carnavalito colombiano do Canelon de Timbiqui. Afroito quer uma casinha branca, Durval Ferreira e Maurício Einhorn pintam na área com Eumir Deodato, o Rumo de novo e o Geraldo que não quer pular carnaval; a Roberta Sá, que eu nem sei mais o que escrever sobre ela, porque ela sempre faz o samba ficar mais bacana e isto também acontece com a Teresa Cristina e por favor, seja breve.

Trinca malandra com Anjos do Inferno, Premeditando o Breque e Germano Matias ainda na ativa. Dobradinha caribe francês-espanhol com Laurel Aitken e Les Leopards, trinca sambalanço com Jadir de Castro, Ed Lincoln e Walter Wanderley. Pra arrematar, Pinduca!

Eu já tinha escolhido o mexe comigo da Baby, antes de ler sobre o barraco apocalíptico dela com Ivete, que mandou bem na resposta macetando geral. Baby virou uma damares carnavalesca, cheia de goiabeiras e jesuses no coração. É chato paca. Mas não importa. Cantando não tem pra quase ninguém. É Baby Consuelo e o que vier, ela traça. Perto da curva dos 200 metros, Jorge Ben cantando seu Salgueiro, Gilberto Gil com as Frenéticas cantando as tietes, Caetano Veloso cantando deus e o diabo e Gal Costa o bater do Tambor. Na reta final time supersônico com Rosinha de Valença, Sérgio Mendes, Beth Carvalho e Joãozinho da Goméia cruzando a linha sem precisar de photochart.

É isto aí macacada. Aproveitem a folia e quem sabe, entre um bloco e outro, entre uma escola e uma cerveja a turma do vivendas não vai em cana. Assine Na Corda Bamba, um blog que tem lado, o esquerdo! É só clicar nos botões vermelhos lá de baixo ou fazer um pix de qualquer valor na chave fabpmaciel@gmail.com
Saravá!
A imagem da capa desta edição é de Marcel Gautherot, e mostra uma cena do carnaval carioca de 1960 (acervo IMS)
LINKS! LINKS! E MAIS LINKS!
O documentário Sambalanço, a Bossa que Dança, que fiz com o ninja Tarik de Souza voltou ao streaming e ganhou uma crítica bacanuda de Carlos Alberto de Mattos:
Na Corda Bamba, o filme completo. Se tem Zé Trindade, eu chego junto:
Na Corda Bamba, novela portuguesa filmada na Madeira. Só chego no trailer:
quando até a folha de são paulo publica dois parágrafos de felicidade:

não tente classificar isto:
A PLAYLIST!

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