na corda bamba crescendo nos anos 70 entre vacas voadoras,claudias,xavieras e cassandras.

Nasci em 1965. Portanto, grande parte do quase tudo que sei da vida foi aprendido ao longo da década de 70. Crescer numa família de classe média nos anos 70 significava entrar a década com o Monteiro Lobato e Edy Lima e terminar com Harold Robbins, Cassandra Rios e Xaviera Hollander. Monteiro Lobato dispensa apresentações. Edy Lima fazia muito sucesso com os livros da Vaca Voadora, e eu recomprei quase todos pro Antonio e pro Vicente. Harold Robbins também não precisa ser apresentado, mas vale dizer que seus livros tinham um grande chamariz na capa, além de casais em poses insinuantes: “Traduzido por Nelson Rodrigues“. Era uma grande cascata, Nelson não traduzia nada, mas o chamariz serviu para que mais tarde eu virasse um leitor fiel do falso tradutor. Xaviera Hollander e Cassandra Rios eram figurinhas fáceis, mesmo que escondidas na cabeceira de meu pais. Xaviera antes de virar celebridade no mundo das artes e do jet-set (nos anos 70, celebridades eram playboys e socialites ricas) rodou o mundo: Nasceu em Surabaya – bem sugestivo, aliás- cresceu na Holanda, casou na África do Sul, descasou, foi pra Nova Iorque e lá abriu um puteiro de luxo que era frequentado por milionários e celebridades. Cassandra Rios não era dona de puteiro, mas escrevia sobre sexo e sobre absolutamente todas as preferências sexuais conhecidas e desconhecidas. Foi a autora mais censurada pela ditadura militar, o que só reforça o óbvio ululante: milicos só gostam de putaria dentro de quartel e de preferência com viagra comprado com dinheiro público. Na década seguinte, com o terreno preparado por Cassandra, era hora de ler a Márcia Denser, que o Paulo Francis elogiava e que organizou uma coletânea de contos eróticos na revista Nova. Muito tempo mais tarde vi o nome dela no facebook e arrisquei um pedido de amizade. Escrevendo assim parece algo muito formal, e de fato foi. Nos últimos 10 anos acompanhei pelas redes o inconformismo e a indignação de Márcia com a cretinice que insistia em reaparecer no país, como se toda a merda feita pelos militares ao longo dos anos 70 não tivesse sido suficiente. E confesso que ficava lisonjeado quando trocava com ela pequenos comentários virtuais. Márcia se foi semana passada e ontem o Ziraldo foi também. Ziraldo foi pra toda vida, e na minha, ele começou com a supermãe, na revista Claudia que minha mãe comprava. Terminei a década com o Pasquim. Quando o Maluquinho apareceu eu já tinha sido abduzido. Vou avançar duas décadas, mas o assunto vai nos trazer de volta novamente pros anos 70. No início dos anos 2000 comprei o cd de um conjunto chamado Os Cobras. O disco se chamava O LP, e tinha nomes com Paulo Moura e Milton Banana. Na primeira audição eu já fiquei siderado pelos solos de piano. Mais tarde, quando conheci o Orlandivo, fiz ele contar no Sambalanço, como um cara que não escrevia música conseguiu ter 4 composições em um disco só de bambas. Orlandivo era gênio. E foi ele que me contou a história da morte de Tenório Júnior, o pianista daquele disco. Num dia feliz em que eu estava gastando dinheiro na Tracks, o vendedor me perguntou se eu não queria ouvir um disco desconhecido de um pianista genial, chamado Tenório Júnior e que finalmente estava sendo relançado. Levei. Tenório tocava com Vinícius de Moraes, que fazia nos anos 70 muito sucesso no Uruguai e na Argentina. Os discos ao vivo destas temporadas também eram vendidos por aqui e alguns pipocavam lá em casa. Numa destas temporadas cisplatinas, os militares tinham dado um golpe na Argentina. Uma noite Tenório, que era amigo de Piazzolla e conhecia bem a cidade, saiu pra comer um sanduíche, foi preso por engano e torturado até a morte. O crime foi abafado lá e cá, afinal, os milicos estavam no comando em quase todo o continente e não pegava bem divulgar que milicos matavam e torturavam pianistas por engano. Fernando Trueba, cineasta que tenho profunda simpatia desde Belle Époque também ouviu Os Cobras. Também ficou louco com o piano de Tenório Jr. Mas ficou tão incomodado com a história de sua morte, que resolveu fazer um documentário sobre ele. Fez em animação, com Mariscal, outro craque, nos desenhos. Ontem assisti Atiraram no Pianista. É uma declaração de amor à nossa música. É a verdade sendo divulgada, contada, esclarecida. É o descanse em paz que foi negado pra família. O que fica do Brasil para o mundo é o que ele tem de melhor: sua música. Me mostre um gringo qualquer que tenha se apaixonado por algum milico que governou o Brasil. Militares servem para poucas coisas e governar ou comandar um país não é uma delas. Nunca foi e nunca será.

Quando a década terminou eu conheci o gordo Miranda, que me apresentou um novo mundo: o mundo dos anos 80. Miranda vai ser homenageado com um evento em Porto Alegre e ganhou uma cerveja ipa. Saúde.

Na corda bamba edição 98 com a playlist 67 está na rede. Em breve, a super edição especial n# 100 e a estreia de VTNC, o podcast da Corda Bamba. Quem quiser e puder, assine a corda nos botões vermelhos desta página ou apoie com qualquer valor na chave pix fabpmaciel@gmail.com

Saravá!

2024,23,22,21,20,19,18! Grêmio campeão gaúcho!

Saravá!

aprendendo que os sonhos são os primeiros a bailar
supermãe sempre
ipa miranda

na playlist#67

Não poderia ser de outro modo. Tenório jr. abre e fecha esta corda. Samadhi, composição dele que está em seu disco solo, acho que o único, que ele lançou em 1964. Saravá tenório jr. !

samadhi pra começar em grande estilo

beyoncé brinca de rádio texas numa improvável dupla com willie nelson sarajah pra quem sabe que seu nelson não passa minuto longe de seu marafo.

ohio players é o nome do novo disco dos black keys. chegou agora mesmo!

muita gente torceu o nariz, muita gente reclamou. eu gostei na época e sigo gostando de seu jorge cantando bowie. acho e seu beijo amargo de jiló uma ótima sacada pra versar quicksand. que que eu vou fazer de mim.

herbie hancock tinha 22 anos em 1962 quando lançou seu primeiro disco solo. desde então, até os dias de hoje, ele sempre viveu no futuro. laurie anderson também. e é absolutamente lindo o jeito como ela susurra zero zero zero…

os anjos do inferno não marcavam touca. eles sabiam que não existe demanda que ogum não possa ganhar. ogum é são jorge nas batalhas da guerra, nas batalhas do amor, quem está com são jorge sempre sai vencedor. eu gosto de anjos do inferno antes de ter ouvido, gosto pelo simples fato deles se chamarem os anjos do inferno, do mesmo modo que já gostava dos demônios da garoa e dos sete diabos antes de ouvir uma nota qualquer deles.

um turbilhão de alegria

tem embolada, tem pífano, tem tambor batendo forte. tem alceu valença e geraldo azevedo no disco obra prima master classe que quanto mais o tempo passa, mais quadrafônico melhora, esperei no planetário o meu amor, ela foi ao analista e aida não voltou. esperei no planetário e essa lua é de gesso ou de isopor.

ontem eu sonhei que estava em moscou dançando um pagode russo na boate cossaco, parecia até um frevo naquele vai ou não vai, entra cossaco, cossaco dança agora, na dança do cossaco não fica cossaco fora e ainda bem que luis gonzaga nasceu e viveu antes da carne de sol afetiva com geleia de siriguela com canela de madagascar. ainda bem que tem jorge du peixe na área. e ainda bem que também tem baiana system pagando tributo para jackson do pandeiro, outro que também viveu antes da carne de sol com macadâmia torrada cheia de amor pra dar. zizi possi bem te vi sonhar um fruto maduro com a cor do som, promessa, jura, segredo e o lance é seguir sonhando.

o cabra tem que ser muito abestado pra desprezar mr.paul mccartney. não se é paul mccartney à toa. long hair lady ele fez pra linda mccartney no disco ram, o segundo dele sem os beatles. na corda de hoje, primeiro a versão twin freaks que ele fez no começo dos anos 2000 com o dj roy kerr e na sequência a original de 1971. sempre em frente com o espetacular, o sensacional e foda pra caralho gil scott-heron na espetacular, sensacional e foda pra caralho gun, de seu álbum reflections que ele fez pra detonar o governo escroto pra caralho de ronald reagan. outro músico ativista, steve reid, baterista que tocou com miles davis, fela kuti e mais uma penca de gente boca, se recusou a lutar no vietnã e puxou dois anos de cana por isto. logo depois vem guru avec mc solaar, le bien, le mal, the good, the bad…

ativismo, poesia e groove

maca mash up ado

é impossível escolher qual disco de david bowie que gosto mais. young americans eu jamais cansei de ouvir e num dos trezentos documentários que já vi sobre bowie, aparecem imagens das gravações, feitas com um time de músicos da pesada – luther vandross, david sanborn antes de virar um sax chato e carlos alomar que até então nunca tinha visto alguém tão branco, translúcido nas palavras dele. o disco foi gravado na filadélfia (bowie queria O SOM DA FILADÉLFIA) e ele embolou o esquizofrênico e segmentada mercado musical americano, onde caipira só ouve caipira, negro só ouve black music e branco só sweet home alabama. era assim nos anos 70 e os relatos são de negros perplexos quando descobriram que aquele cara, além de translúcido, era inglês.

na outra ponta é demais a homenagem malandra das moças da ebony steel band, aos alemons patata do kraftwerk no disco pan machine. e beyoncé resolveu montar no cavalo branco acompanhada de banjos e laçadores. a moça faz de outra forma em 2023, o que ray charles fez em 1962 quando lançou o disco modern sounds in country and western music. vendeu mais que pamonha em rodeio. acho que já rolou aqui e se sim, vale a pena ouvir de novo pony boy com allman brothers band.

kraftwerk batendo lata
o velho de ontem é o mais novo de amanhã

virando tudo com marina silva e seu caótico jazz tropical. detalhe que não conta, mas tem a ver com esta parada bizarra de se tentar enquadrar ou de determinar música por origem, berço, cor e outras pataquadas. marina silva é de rio claro, interior de são paulo e douglas germano, bamba com mestrado e doutorado na vila matilde, faz samba de primeira sem churrasquinho de gato gourmet.

zé rodrix era latino americano, nunca se enganava e queria uma casa no campo pra plantar seus amigos, discos e livros. nas horas vagas ele fazia trilhas sonoras singelas, como esta para o filme o esquadrão da morte dirigido pelo meigo carlos imperial o rei da pilantragem. eu quero uma casa no campo onde eu possa desovar meus inimigos, quebrar seus discos e rasgar seus livros.

jalen ngonda é do balacobaco e este órgão poderia estar em qualquer disco em ritmo de aventura do rei roberto.

marisa rossi é tudo magiclick!

marisa rossi hey hey hey hey now

houve um momento dos anos 60 que uma parte dos jazzistas caiu numa onda jazz para dançar mezzo sapatinho mezzo rebolation, um jazz com um pé no pop e cheio de suíngue. herbie hancock, lee morgan, jackie mclean, horace silver, dave pike, ramsey lewis, freddie hubbard, e muitos mais, pra nossa sorte, se aventuraram na jogada. wayne shorter também não perdeu a chance. idem para a dupla Bobby Hutchinson e Harold Land. ouva bem alto com o fone nos ouvidos.

é marina, é silva, é caótico e tropical

uma casa no campo onde eu possa desovar meus inimigos e ouvir meus discos e ler meus livros

para carlos eduardo lima o mildlife é a salvação da lavoura.

para carlos eduardo lima e para mim também, the high llamas salvam a lavoura desde os anos 90.

rodada praquietar: voz única foto sem calcinha com thiago nassif e ana frango elétrico ++black keys novo++otto agora sim o saci #### marcos valle faz obras primas em modo despretensão leveza maciota que a gente nem percebe quanta coisa bacana cabe em cinco minutos de um balaquinho cosmic wacho cantam a ninfa de la villa &&&& tagore alceu valenceia em paixão revirada no disco novo %%%mallu magalhães tem um céu de abril pra desentristecer com a banda do mar ** nômade orquestra vale da boca seca ###bobbi humphrey enda sua flauta cheia de suíngue e black and blues &&& la belle space children &&& the yardbyrds– a banda que teve nas guitarras jeff beck, jimmy page e eric claptons nas guitarras em you’re a better man ### the style councyl, shout to the top!

em 1984 eu sonhava com esta escadaria

na reta final, cabeça com cabeça na alegria: cyro monteiro e elizeth cardoso, pode falar o que quiser, pode dar pancada, o meu fraco é mulher e se quiser me ver, vá na piedade amanhã… jorge ben malandro que é malandro não bobeia, galileu da galileia quem ama quer casa, quem quer casa quer criança,,, lafayette afro rock band cheia de veneno.

na reta final, cabeça com cabeça na tristeza: the beach boys com disney girls yusuf cat stevens, where do the children play, vinícius cantuária de nova iorque relembra seu rio psicodélico, vinícius de moraes com toquinho e as cores de abril, ser feliz é viver louco de paixão moacyr luz, no disco que henrique cazes lembrou esta semana que está fazendo 30 aniversários, brasil, marajás e mandarins, com letra de aldir blanc. e os cobras, o lp, a versão de nanã com o solo de tenório que conquistou trueba e alguns outros incautos. saravá!

LINKS! LINKS! E MAIS LINKS!

o trailer de atiraram no pianista

texto de elaine guerini sobre atiraram no pianista.

atire no pianista. pulp noir detetive e o que mais você quiser:

seu francois truffautt transformou em filme:

laurie anderson:

os anjos do inferno no filme mexicano pobre corazón:

no facebook: bowie e o promo de right. é de arrepiar: https://www.facebook.com/watch/?v=2054667588132054

faixas alternativas, piratas e outras coisas de young americans:

e a playlist!