Na edição de número#100 de Na Corda Bamba, um pequeno perfil de Augusto Leal, artista e ativista baiano, a playlist 69 com João da Baiana, Clementina de Jesus, Pixinguinha e mais um monte de bambas como Brian Eno, David Bowie, The Kinks, Wander Wildner e Beyoncé.
Ainda: links bacanudos pra você ler, ver, ouvir e colorir.
É incrível pensar que esta bagaça conseguiu chegar em sua centésima edição. Pra mim é incrível mesmo. Chega com um dia de atraso. Mas chega. Comparado com os outros muitos atrasos da minha vida, é nada mesmo. Tanto que ninguém reclamou. Não seja por isto. Em breve Na Corda Bamba será um grande empreendimento comunicativo, capaz de tirar, de preferência com pontapés, o pessoal que faz simpósios com mundos paralelos e de fazer chorar de vergonha a turma que pratica jornalismo com “isenção e imparcialidade”. Saravá que desta turma eu quero distância! Enquanto isto não acontece, não se esqueçam: Divulguem, repliquem, compartilhem e espalhem as palavras bamboleantes e tortas por todos os rincões deste país. Assinem nos botões vermelhos lá de baixo ou apoiem com qualquer valor-qualquer valor mesmo!- na chave pix fabpmaciel@gmail.com
Saravá!

Simões Filho é uma das cidades da região metropolitana de Salvador. No site da prefeitura, cujo slogan é “boa terra, boa gente”, ficamos sabendo que a cidade é considerada um dos mais fortes polos industriais da Bahia, possuindo hoje quase 200 indústrias nos mais diversos seguimentos e um porto natural extremamente protegido a baía de Aratu, importante fator para escoamento de produção das indústrias locais. Até os anos 60 era um distrito na zona rural de Salvador e se chamava Água Comprida. Nos anos 60 foi emancipado e virou município com o nome de um político local, ex-ministro da educação no segundo governo Vargas. Em Simões Filho vive desde que nasceu em 1987, o artista Augusto Leal. No site dele está escrito: Mestre em Artes Visuais pela Universidade Federal da Bahia. Graduado em Desenho Industrial pela mesma instituição. Entende a arte como prática libertadora na medida em que por meio dela consegue compreender e elaborar as questões que lhe atravessam, e fabular novos mundos.
Esta introdução burocrática, mais insossa que relatório de barnabé de letra ó é pra dizer que apesar de ter o sétimo PIB da Bahia, a população da cidade pouco aproveita da estatística e das mais de 200 indústrias. E pra dizer que apesar do texto do site do Augusto Leal parecer ingênuo e utópico, o trabalho dele é foda pra caralho! Nos últimos 5 anos Augusto se concentrou basicamente em pensar sua arte como uma ferramenta para discutir, questionar e debater a cidade em que ele vive. As perguntas que Augusto faz são simples como as frases que ele pintou em vários pontos da cidade: É possível transformar a cidade sem refletir sobre os pensamentos que orientam a sua ordenação? Como pensar novas formas de ocupar e interagir no espaço público? Utopia só tem sentido com prática.
Eu fui parar em Simões Filho por causa da série Raiz, Arte Afro-Brasileira Contemporânea, que estou dirigindo e que tem a curadoria da Rosana Paulino e a produção de Leonardo Dourado e de sua Telenews. Até a estreia no Canal Curta, provavelmente no próximo semestre, eu vou colocar uns pitacos super relevantes por aqui.



O único centro cultural de Simões Filho fica na Praça da Bíblia e foi fechado para reformas em 2014. Desde então, nunca mais foi reaberto. Na mesma praça ficam a Câmara Municipal e o Fórum. A praça foi reformada, ganhou uma fonte e diversas blocos de granito (que mais parecem lápides) com versículos bíblicos gravados. Em 2014, ano em que o centro cultural foi fechado, a pesquisa do Mapas da Violência apontava a cidade como a mais violenta do Brasil, com maior taxa de homicídios para cada 100 mil habitantes.


As ações seguiram com os três atos da Sinfonia do Encontro na Praça da Bíblia. Augusto colocou mudas de árvores nativas da mata atlântica. Jogou sementes de aroeira no concreto (você é aroeira ou bambu?) e demarcou uma zona para trocá-las. Também fez uma fila para o nada, junto com o GIA-Grupo de Interferência Ambiental. Espalhou lambe-lambes convidando a população para visitar as ruínas do centro cultural abandonado e alugou um carro de som reforçando a divulgação. Por fim, colocou uma linha de tijolos no caminho, num ato que chamou de carreto.




De modo geral, a arte contemporânea, seja ela qual e de onde for, carece de senso de humor. Antes que todos peguem os tijolos da praça da bíblia pra jogar por aqui, o que quero dizer é que quase sempre, as obras de arte contemporânea são acompanhadas de uma certa solenidade, de uma densidade que sonega o humor e a ironia, como se o recurso fosse algo que retiraria da obra a sua importância. Como se a mensagem fosse ficar menos eficaz se viesse acompanhada do deboche. Eu penso o contrário.

Nada é mais subversivo que o humor e quando este humor ressignifica linguagens da comunicação de massa (gostaram do ressignifica?) no caso, placas de sinalização, melhor ainda. Em Sinalização Profética, Augusto colocou placas indicando lugares-objetos do desejo, sonhos distantes como um campus da UFBA ou um teatro Municipal na cidade. As placas foram retiradas no mesmo dia.

A sinalização profética serviu de mote pro trabalho que Augusto apresentou na exposição Dos Brasis, uma mostra que já virou histórica e que rolou no SESC Belenzinho em São Paulo (agora ela está no SESC Quitandinha em Petrópolis, no estado do Rio). Placas indicativas sinalizam a presença de outras situações-objetos de desejo, agora no mundo das artes: artista recebendo cachê (a foto foi capa de uma edição da corda em dezembro), diretoria indígena a 500m, diretoria negra a 400m, curador simpático a 200m, patrocinador imparcial a 600m.



Em junho de 2023 Augusto comandou a criação de sua obra mais subversiva: o MASF. Museu de Arte de Simões Filho. O Museu funciona numa escadaria próximo de sua casa. Ela foi pintada e seus muros servem como galeria, onde artistas locais podem expor seus trabalhos. Inspirado na programação de seu primo rico que mora perto da FIESP, o MASF inaugurou com uma proposta conceitual bem amarrada: contar as histórias simõesfilhenses. O MASF transforma um lugar de passagem e transitório em ponto de referência. Procure no gugoolll… As exposições também seguem as normas do mercado: curadoria, assessoria de imprensa, divulgação e vernissagem com comes e bebes. E como esta noite se improvisa, se precisar de banheiro tem a padaria do outro lado da rua, o café expresso da recém inaugurada Cacau Show e a tapioca da barraca do Júnior.




Os idiotas da objetividade vão perguntar: porque ele não sai deste buraco? Porque não faz como a maioria dos brasileiros que nos últimos 100 anos deixaram suas cidades pra estudar e viver nas capitais? Pode ser teimosia. Pode ser preguiça. Mas pode ser obstinação também. A gangorra poder, inventada por Augusto Leal, não sobe nem desce. Ela gira.

Simões Filho é a cidade onde vivia a quilombola e ialorixá Bernadete Pacífico. Ela morreu em agosto de 2023. Tinha 73 anos. Foi morta a tiros. Seis anos depois de seu filho Fábio Gabriel Pacífico dos Santos, o Binho do Quilombo ser assassinado.
…
Na Corda Bamba agradece muito toda turma que de alguma forma apoiou, assinou, divulgou, compartilhou, etc, etc. Muito em breve junto com a Corda, o VTNC, o podcast da corda bamba. A imagem da capa desta edição é minha e foi feita na casa-ateliê de Augusto Leal.
Saravá!
na playlist #69 de na corda bamba:
Gente da Antiga é o disco monumento que Hermínio Bello de Carvalho produziu em 1968 reunindo os bambas João da Baiana, Pixinguinha e Clementina de Jesus. É mais do que um disco. É o encontro da santíssima trindade que abre os trabalhos louvando nosso senhor jesus cristo e a gente de linha de angola, de linha nagô e linha ijexá. A playlist 69 abre e fecha pedindo benção pra esta trinca da pesada. Saravá!
Esta semana Pena Schmidt lançou na sua rede: Chérie de Ali Farka Touré é uma das conexões do funk carioca. Se sim ou se não, Chérie é uma beleza.
O polonês Jan “Ptaszyn” Wróblewski é saxofonista e toca jazz desde os anos 50. Também é um dos mais antigos dejotas em atividade no planeta, na rádio Polskie 3. Seu quinteto fez no começo dos anos 60 esta versão ultra cool para Nanã Imborô de José Prates. Lembra algo?
Jazz com Don Rendell Quintet.
Antonio Carlos & Jocafi: novela puritana, deus nos salve, meu cacho de banana, deus nos salve. Nico Gomez e sua Afro Percussion Inc manda Naci para Bailar. Asha Puthli em um cover balaco de J.J.Cale, Wander Wildner procura um lugar legal pra dançar e se descabelar, um lugar onde tenha cerveja barata, onde as pessoas sejam loucas e super chapadas, um lugar do caralho. Onde toque Bárbara Eugênia, que vai ficar na saída da escola fumando mil cigarros esperando você sair, onde toque, Beck, The Doors, Townes Van Zandt e Otis Redding em dobradinha com Carla Thomas, Bruce Bouillet e um David Bowie inédito com Brian Eno e Nature.
Melt Yourself Down é a blue note de hoje. Emma-Jean Thackray é hoje. Grupo Medusa era parte da música instrumental brasileira independente no começo dos anos 80. Heraldo do Monte do Quarteto Novo era o guitarrista.
Osmar Milito com Quarteto Forma, trilha da novela O Bofe, quando a Globo encomendava as trilhas para compositores como Marcos Valle ou Roberto e Erasmo Carlos. O sol não queima tanto e o mar esconde o pranto.
La locura de Machuca, King Somalie, 1975. La Danza del Vampiro, Sonido Verde de Moyobamba, 1980, Analog Africa é diversão garantida.
Beyoncé canta Beatles. Blackbird. No seu disco country. Country pode ser sublime também. Through the morning, through the night, da dupla Dillard & Gene Clark é a prova. Já rolou na playlist 4 da corda a versão de Robert Plant com Alison Krauss.
Jardim das Acácias é uma das faixas maconhão do segundo disco do Zé Ramalho. Ouvia até cansar, embalado pela guitarra do Pepeu Gomes, enquanto tentava entender a letra: a papoula da terra do fogo, sanguessuga, sedenta de calor...alienigenáaaaa. Até hoje não entendi lhufas. Mas sigo ouvindo.
Alejandro Escovedo, pra seguir na depressive vibration. Keith Richards pra afundar um pouco mais. The Kinks e a vida ordinária e comum do tio Son. Emílio Santiago encerra o bloco da dor, de quem queria queimar as suas cartas, mas o correio não trouxe nenhuma carta. A amargura de tomar café em pé.
Black Heat pra mudar o giro. Bobby Womack pra reunião dançante. Denise Assunção, Sonorado e Pupilo na Selva de Pedra, Rosinha de Valença, Soul Crazy, CK Mann & His Carousel 7, The Mamas & The Papas e Melanie.
Ketty Lester, Bert Jansch e a nova de Paul Weller, northern soul mandando lembranças. The Last Dinner Party é a última sensação dos jantares dançantes e um Neil Young pra dançar abraçadinho.
Na curva dos 150 metros a saxofonista chilena Melissa Aldana, que também é a Blue Note de hoje. Danilo Caymmi e a velha botina, Ava Rocha no movimento dos barcos e o grupo mineiro Constantina.
Na reta dos 100 metros sambando no meio da multidão com Marta Maria, Zélia Duncan, Trio Mocotó, Henry Mancini e Clementina, João da Baiana e Pixinguinha pra fechar tudo mais uma vez.

LINKS! LINKS! E MAIS LINKS!
o site de augusto leal: https://augustoleal.com/
a gangorra horizontal de augusto leal:
sobre a expo dos brasis: https://www.sescsp.org.br/artistas-dos-brasis-arte-e-pensamento-negro/
texto pra lá de bacanudo de Itamar Alves sobre Maurício Valladares no Amajazz: https://amajazz.com.br/2024/04/10/eles-falam-tudo-e-nao-dizem-nada/
aprenda o toque do samba de cabula com luccas xaxará:
o instagram do projeto som da gente, que está mapeando todo o acervo da gravadora som da gente, que lançou o Grupo Medusa nos anos 80: https://www.instagram.com/projetoacervosomdagente/
a chamada para o bofe: “uma sátira de bráulio pedroso ao nosso meio-ambiente, contra a poluição social”
a abertura de charada de stanley donen:
e a playlist #69!

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