Meu avô Antônio era um calabrês de poucas palavras e as poucas que saiam de sua boca, metade eram palavrões, que ele cuspia parte em italiano, parte em gauchês. Não dava a mínima para a aparência, vestia-se com coletes velhos poídos, calças largas e sapatos furados. Passava boa parte do dia resmungando, outra parte mexendo na horta que tinha nos fundos de sua casa – a casa era grande mesmo – e algumas de minhas melhores lembranças na vida são de comer queijo, salame e carne quase crua, com as mãos, sem me preocupar com os bons modos ou sem algum adulto por perto para enquadrar. O salame era cortado com o mesmo canivete que ele usava pra picar o fumo que ele jogava no cachimbo…posso dizer que por mais que minha mãe tenha se esforçado, a concorrência era muito desleal. Meu avô contava sempre a mesma piada, variando só os protagonistas. Num domingo era o Jeca Tatu, noutro o Bocage. Quando O Bem Amado entrou no ar, ele incorporou o Zeca Diabo (que ele também chamava de Zeca Valente) na galeria. Eu tinha uma pequena vitrola azul e ficava ouvindo o compacto dos Beatles (I call your name) e ele entrava no quarto: Imbecile! Tu non capisce niente, estos merda ton te xingando i tu non sabe… As 5 da tarde, na hora do chá, minha vó Jandira fritava um bife na manteiga, o bife era devorado e o sanguinho que sobrava no prato era virado como se fosse suco de uva…Nesta mesma casa num natal eu e meus primos Marco e Marcelo quebramos a cama da minha tia Coda, pulando e cantando o papel tá caro, caro pra xuxu, como eu vou fazer, pra limpar meu cu e o papai noel sentado no barril mandando todo mundo pra puta que o pariu…outro esporte favorito era jogar coquinho de butiá nos ônibus que passavam…

Meu avô Jerônimo fumava Minister e me levava pro Olímpico pra ver o Grêmio jogar. O primeiro foi um Grêmio 1 x Botafogo 1 com Ancheta e Everaldo de um lado e Paulo Cesar Caju e Jairzinho do outro. Na volta pra casa, eu fechava os olhos e via uma multidão de azul piscar na minha cabeça…Minha vó Maria era quase sempre só sorrisos e na casa dela tinha sempre Coca-Cola e salada de batata só com batata e maionese, sem a detestável maçã que algumas almas sebosas colocavam pra estragar a parada.

Minha mãe me levava pro cinema, O Judoka, Aristogatas, Robinson Crusoe e eu me borrei de medo com os cadáveres no navio naufragado. No verão a gente ia pra Arroio Teixeira, uma praia no litoral gaúcho, meus pais brigavam sempre na hora de escolher o caminho: meu pai queria meter o fusca na praia, economizar uma hora no tempo, mesmo correndo o risco de atolar. Minha mãe preferia ir pela estrada de terra, lenta, longa, demorada, mas certeira. Não por acaso o nome da cidade era Terra de Areia. Eu caminhava sozinho pela praia, caminhava mesmo, muito, uma vez caminhei tanto que quando vi já estava num trecho sem casas, com quase ninguém na praia..de longe vi alguma coisa estranha na areia…era um homem morto…

Esta praia tinha cenários que hoje seriam impossíveis…Tinha dunas. Tinha carros de boi com bois que tinham chifres gigantescos, um tipo de gado que não se encontra mais. As calçadas das ruas eram de grama. As casas eram quase todas de madeira. Uma casa se sobrressaía: tinha conchas e estrelas do mar em toda a fachada. Tinha vendedor de casquinha (biju) e de puxa-puxa. Uma vez um desconhecido me entregou um sapo com uma cordinha amarrada de presente. Foi o momento supremo daquele verão, quando entrei no restaurante lotado do hotel, todo contente com o sapo amarrado no barbante.

Eu jogava futebol (mais ou menos) andava de bicicleta, jogava tênis, ping-pong, tentava tocar piano, não conseguia de jeito nenhum tocar violão (que o meu primo Marco tocava), andava de skate bandeirantes, depois romesnaide, ia pro clube do Comércio, pro baile do mingau e dançava música lenta com os braços esticados. Brigava e desbrigrava com minha irmã Carolyne (até hoje). Tinha uma calça boca de sino com um detalhe em V cheio de estrelas. Era cabeludo mas todos os meus amigos eram cabeludos também.

Resumão: eu nasci e cresci numa família totalmente classe média no sul do Brasil entre os anos 60 e 70. Foi uma infância de Roberto Carlos na tv e na vitrola no natal, de novela das 6, das 7, das 8 e das 10. De Abbot e Costello, Lancelot Link, Herculoides, Urso do Cabelo Duro, Shazam e Xerife e Vila Sésamo em casa e Silvio Santos, Trapalhões, Fantástico e Chacrinha na casa de vôs e vós. De Muppets, Waltons, Baretta. De desfiles na semana da pátria. Sussurros no almoço de família. Do sequestro do Carlinhos, do terremoto na Nicarágua, do fim da guerra do Vietnam, dos incêndios do Joelma e do Andraus, da meningite, da monareta e da caloi 10. Do racionamento de gasolina, da hora do brasil em todas as rádios. Do autorama que eu nunca ganhei, da tv colorida que só chegou na minha casa em 77 junto com o primeiro título do gauchão que vi o Grêmio ganhar. De tios e tias: Francisco, Denise, Tida, Paulo, Dudu, Gênio, Nelcinda, Nilo, Rocco, Rosina. Seu Francisco e Dona Cármina fizeram o que puderam. Salve eles, salve salve tios e tias também. Aquela velha história, agora que tenho os meus, sei o tamanho da bagaça. Mas o que eu quero mesmo, e não vejo a hora, é de ensinar a versão quinta série do jingle bells pra eles.
É isto aí macacada. Quinta dia 17, na Moldura Minuto Vila Mariana, (morgado de mateus 175) as 18h tem o lançamento dos desenhos e colagens que fiz com o Antonio e com o Vicente. São os seres imaginários e extraordinários da Rua Santo Irineu. Quem estiver em São Paulo, apareça. Quem não estiver ou não puder aparecer, mas quer adquirir uma bacanuda peça que vai deixar a parede da sua casa muito mais sofisiticada, chique, descontraída, raipe e âpitudeite, escreva para @fabpmaciel no instagram.
No mais, na corda bamba segue precisando de você! Assine nos botões vermelhos lá de baixo, ou faça um pix de qualquer valor, qualquer valor mesmo para a chave fabpmaciel@gmail.com
Lembre-se: candidato bom é candidato que não privatiza serviço essencial. não vote em quem entrega o seu anel para a enel.
na capa: 9 batatas alegres e 1 ranzinza, uma obra da FAVA
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