na corda bamba 151 sonhos e negações

Nesta semana estreia o filme Criaturas da Mente. O diretor pernambucano Marcelo Gomes percebeu que durante a pandemia, parou de sonhar. Mais tarde resolveu investigar porque. E foi para o Instituto do Cérebro, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, onde o neurocientista Sidarta Ribeiro pesquisa…os sonhos. Também nesta semana, foi ao ar uma das mais fantásticas edições do podcast da Rádio Escafandro: Os segredos Psicodélicos da Jurema Sagrada. Começa contando as origens do Culto da Jurema, uma história cercada de mistérios, segredos, encontros, misturas, perseguições e preconceitos. Uma religião-ou o que vocês queiram chamar- que é a cara do nosso país: indígenas e negros sintetizando rituais católicos e tomando um vinho que dá barato. E como a Escafandro é séria, o tom não é nem de exaltação ou condenação. Da fé vamos para a antropologia, para as narrativas históricas de José de Alencar, Câmara Cascudo e Mário de Andrade, e deles para a ciência, os estudos dos sonhos e para as pesquisas que são feitas no mesmo Instituto do Rio Grande do Norte, onde a substância psicodélica da jurema está sendo testada em tratamentos de depressão e alzheimer. São pesquisas como esta que me levam finalmente a entender o que a Rosana Paulino contou um dia aqui na Corda Bamba: que a chave para a ciência do futuro e para muitas das questões ambientais que nos afligem, estão nas culturas ancestrais brasileiras, na sabedoria dos quilombolas, indígenas, caboclos e ribeirinhos. E assim como o Marcelo Gomes, eu também fiquei muito tempo sem sonhar. Fiquei muito tempo dormindo muito mal ou dormindo quase nada. Ano passado pedi arrego e comecei com o Oxalato de Escitalopram. Ajuda. Oxalá ajuda. Não é do tipo beba chá de juru, beba chá de jurubeba do Gil e Jorge, mas é uma parada que faz dormir, faz querer acordar e faz sonhar. Isto já é muito. Talvez pela quantidade de distopia que tenho visto, esta semana sonhei que estava na Av.Paulista, à noite, e a cidade estava sendo bombardeada. Milhares de pessoas corriam em direção à Av. Consolação (para onde mais?) No final da Paulista, em vez do Riviera, tinha um prédio gigante, estilo Museu do Ipiranga, com vários buracos feitos pelas bombas. Todo mundo estava buscando refúgio lá dentro, e curiosamente, rolava o maior comes e bebes no meio do bombardeio. Um cara parou, pegou um canapé e me disse: estamos todos em negação. Pois é. Aparentemente eu sobrevi à divisão panzer. Mas por via das dúvidas, antes de dormir, fiquei uns 15 minutos em modo escapismo, assistindo um canal no instagram com os melhores momentos do seu Baltazar da Rocha. Que que alho?! Na Corda Bamba edição 151 está na rede, trazendo junto a playlist 122, cheia de bacanidades para ouvir sonhando, pra sonhar dançando, ouvir dormindo e dormir roncando.

maria martins sabia sonhar

Por falar em negação, completou um ano da maior tragédia que já aconteceu no Rio Grande do Sul e em Porto Alegre. Um ano depois, o governador Eduardo Bem Educado e Mal Intencionado Leite Tipuzero, não usou quase nada do dinheiro liberado pelo governo federal para combater novos desastres. O prefeito da capital, Sebastião Vende Tudo por Preço de Banana, o Véio Velho Show de Horror de Melo, foi reeleito, o que só confirma o estado de zumbilândia e negação que muitos vivem na ex-cidade sorriso. O alcaide é um pilantra espertalhão de gabinete toma lá da cá, um lambe saco da pior elite parasita que drena, suga e chupa tudo que pode da cidade. Menos a água da enchente. Um ano depois, só gastou dinheiro em estudos e consultorias. Quando tem consultoria é porque tem treta. Consultoria especializada é me molha a mão que eu fico molhadinho sem muro de contenção. Se o Guaíba encher novamente, a lenga-lenga vai ser a mesma: fizemos tudo que estava ao nosso alcance, mas a força da natureza é inexorável. Na boa. São uns filhos da puta. Nenhum outro adjetivo serve pra esta turma.

centro de porto alegre inundado foto de gilvan rocha agência brasil

No início dos anos 70 meu tio Paulo deixou Porto Alegre, economizou uns pilas no Rio de Janeiro e se mandou para Paris, de onde nunca mais saiu. Casou, teve uma filha, separou, enfim, a normalidade da vida adulta. Durante um tempo, morou numa daquelas cidades sur-Seine, aquelas que só funcionam em línguas estrangeiras, como Carmel by The Sea. Pense em Barueri beira Tietê. Jamais funcionaria, assim como Marginal Pine Resort ou Ipanema Garden by the Sea. Apesar de tudo, pipocam pela Pindorama prédios com nomes pomposos como residencial Versailles Doré ou condomínio Lake Mountain Hill Roof Tower Barbecue Cottage avec Mama tailler une pipe sur Mer. Volto ao meu tio. Depois de meio século, ele elabora mentalmente suas frases em francês, e quando fala, a voz vem numa mistura de rive gauche com Guaíba. É neste sotaque que ele manda suas máximas, sempre na divisória entre o mau humor do Achille Talon e as máximas de sabedoria da indiada da fronteira. No domingo pela manhã nos falamos pelo telefone. Ele estava animado, fazia 20 anos (ou mais) que não vinha ao Brasil, aproveitava aquela onde de matar a saudade de amigos, de carne boa e de feijoada, alegria de velho é comer e sentir dor, enquanto sentimos dor, estamos vivos, me disse ele. Talvez pela atmosfera ninguém nos vence em vibração, talvez pela euforia do portal cósmico que a Lady Gaga abriu nas areias escaldantes (não tenho absolutamente nada a comentar sobre este assunto) ele, que normalmente é ranzinza, estava de bom humor. O Rio de Janeiro amolece mesmo todo mundo, sejam eles gaúchos ou gauleses. E me falava que no fim das contas o que importa é a amizade, e que devemos ser mais tolerantes, e foi aí que eu, apesar do céu azul que fazia no Bois de Santé sur Ipiranga Flux, interrompi e disse um alto lá índio velho! Tolerância de ganso é fuagrávencido em pão mofado. O conceito é muito simples: quando os cretinos estão no comando, eu não sobrevivo. Quando o meu lado está no comando, a vida deles melhora. Então que cazzo de tolerância é esta? Que tolerância teremos com pilantras como o prefeito de Porto Alegre, os negacionistas de vacina e os golpistas do 08 de janeiro? Nenhuma. Abuzanfondelapatrie que atrás vem gente.

porta de sonho

Ônibus lotado, muita gente no ponto, seguro os guris e deixo as velhinhas entrarem primeiro. Um velhinho de cabelos brancos, negro, faz sinal pra eu passar na frente. Ele insiste. Todo mundo entra e tenta achar espaço entre bundas gordas, mochilas e bolsas cheias de tranqueiras. Quando a porta fecha o velhinho me olha e diz: Vai curintians! Apesar de tudo, nestas horas eu gosto de São Paulo.

a negação está nas ruas

Quem se animar e quiser ajudar o encher o pacote de sonho de creme com açúcar, é só assinar o blog nos botões vermelhos da página ou fazer um pix de qualquer valor, qualquer aspirina ou frontal, para a chave fabpmaciel@gmail.com Paz! Saravá!

LINKS! LINKS! E MAIS LINKS!

antes dos sonhos, um sonho: francoise hardy:

o trailer de criaturas da mente

a jurema na rádio escafandro:

a ciência encantada da jurema:

https://www.fosforoeditora.com.br/produto/a-ciencia-encantada-de-jurema-70441

rosana paulino na corda bamba, em 2023:

gilberto gil bebe jurubeba

seu baltazar da rocha:

a inépcia e o corpo mole de eduardo sapatênis

https://www.matinaljornalismo.com.br/matinal/reportagem-matinal/com-65-bilhoes-de-reais-para-obras-de-protecao-contra-cheias-parados-governo-leite-nao-apresentou-projetos/

josé araripe manda avisar:

josé araripe em ação

sérgio moacir marques também avisa:

e aída marques manda avisar também:

https://www.catarse.me/documentario_wasthavastahaunn_universo_imaginario_de_fernando_duval_7756?ref=ctrse_explore_featured

na playlist # 122

Mateus Aleluia não é mais um músico. Não é mais um cantor. Mateus Aleluia é uma entitade. Com disco novo na praça. E se eu uso esta corda pra xingar e blasfemar, também uso ela pra ouvir coisas como o amor nos manda. Mateus abre e fecha esta corda que também tá cheia de gente da pesada: Marco Mattoli, Odair Cabeça de Poeta, Secos & Molhados, Vitor Ramil, David Crosby, Sinéad O´Connor, Ben Sidran, Dr.John, Buffallo Daughter, Goma-Laca com Russo Passapusso, Santrofi, Julia Mestre, Olatunji, Olum, Jorge Mautner, Abelardo Carbono, Fafá de Belém, Flora Purim, Sergio Mendes, The Delegators, Tommy Guerrero, Micky Four, Black Uhuru, Little Feat, Nirvana, Ray Charles, Raul Seixas, Neil Young, Sebastião Tapajós e Pedro Santos, Shipla Anant, Cibo Matto, Bebel Gilberto, Elvis Costello & Burt Bacharach, Mal Waldron, Irakere, Barry Harris Trio, Nana Caimmy, Le Grand Miercoles, Robson Jorge e Lincoln Olivetti, Orlandivo, Sly & The Family Stone, Chico Buarque, Roberta Gomes.

mattoli

e a playlist #122!