na corda bamba 152 pelé disse love, love, love. eu não. +um batuque pro mujica e outro pro stevie maravilha

Acordo com Antonio tossindo sem parar, levanto, levo ele pra sala, coloco o nebulizador, ligo a tv e Pelé aparece num palanque montado só para ele falar, em um estádio lotado na cidade de Nova Iorque. Please say with me, três vezes, love…love…love! Numa sequência de gols do Cosmos a tosse para e o sono vem.

Dilema de um homem branco de classe média, minimamente educado e quase sexagenário: equilibrar o desencanto, o ceticismo e o pessimismo em relação ao futuro do planeta com alguma esperança, disposição, confiança e a crença de que ainda podemos mudar as coisas, e que meus dois filhos (um de 10 e outro de 7) terão um mundo melhor pela frente, embora no fundo, no fundo, eu ache que o futuro é osso.

exit ou osso

Semana passada falei de sonhos, do filme do Marcelo Gomes e segui sonhando ao longo das noites. Num deles, elefantes gigantes, muito maiores do que qualquer elefante, caminhavam na beira de uma praia, num país qualquer do oriente médio. Quando cheguei mais perto, os elefantes eram de ferro e tinham armaduras dispostas em camadas, como a de antigos guerreiros japoneses.

elefante resgatado em uma praia em bangladesh, 2021

Contei o sonho pra Miriam, que quase sempre consegue decifrar minhas charadas sem me devorar no final. Ela me lembrou que Jung (e a torcida do Flamengo, dos Impérios Romanos, Gregos, Egípcios e também de outros impérios da segunda divisão) acreditava no poder premonitório dos sonhos. Que para ele, além dos sonhos pessoais, existia um tipo de sonho coletivo, hereditário, e que estes sonhos, quase sempre catastróficos, refletiam o estado das coisas.

anselm kiefer, berlim, 2010 foto: fabiano maciel

Ao longo de 1913 Jung teve diversos sonhos apocalípticos. Em agosto de 1914 começou a Primeira Guerra Mundial. Mais tarde ele descobriu que muita gente também estava tendo este tipo de sonho e batizou o lance de inconsciente coletivo. Se a explicação parece torta e simplificada demais, aviso logo aos psicólogos de plantão: isto é o que eu dou conta de entender.

Uma luz intensa, parecendo uma “bola de fogo”, cruzou o céu do Planalto Central no fim da tarde desta quarta-feira (14) e chamou a atenção de moradores de várias regiões do Distrito Federal. O fenômeno foi registrado por moradores de Brazlândia, Gama, Ceilândia e Águas Claras. O clarão também foi visto no interior da Bahia e de Minas Gerais.

O apocalipse não chegou ainda: a agência espacial brasileira acredita em duas hipóteses: um meteoro que se desintegrou ou o lixo espacial de algum satélite.

são paulo sarajevo foto fabiano maciel

Semana passada falei do meu sonho apocalíptico, numa São Paulo bombardeada e do sujeito que me dizia: estamos todos em negação, estamos todos em negação! Fiquei com isto na cabeça e resolvi fazer uma pequena lista de alguns fatos que andam rolando around the world in a day e que todo mundo finge que não:

*israel destruindo gaza e massacrando a população civil * trump transformando os estados unidos numa ditadura fascista *batalhões de nazistas uniformizados no exército ucraniano* o novo chanceler alemão mandou avisar que vai transformar o exército alemão no mais poderoso da Europa.

segurança de museu em berlim brinca de lenin. foto fabiano maciel

Quando eu penso no recado do meu sonho apocalíptico, no tá todo mundo em negação, eu penso imediatamente na grande mídia, naquilo que o mercado inventou agora de chamar de jornalismo profissional. É o jornalismo profissional que entrevista o ex-presidente miliciano e não é capaz de fazer sequer uma pergunta provocadora (uol). É o jornalismo profissional de feministas da daslu, que discutem o tik-tok da janja e não os mais de 30 bi em investimentos que foram negociados (globonews). É no jornalismo profissional que a ida de Lula pra Rússia é considerada uma vergonha (folha e estadão) e também é por lá que se tenta discutir uma saída pra turma do 08 de janeiro (todos eles).

jornalismo profissional foto fabiano maciel

Mais um dilema de um homem branco de classe média, minimamente educado e quase sexagenário: fazer análises sérias e sóbrias sobre a conjuntura, tratar dos temas com leveza e humor, e com isto, conseguir mais leitores e quem sabe, algum cascalho extra? Ou seguir resmungando, xingando tudo e todos que andam pelo lado escuro da força, sem me levar muito à sério e com isto, ficar reduzido aos poucos amigos e conhecidos que ainda conseguem ter paciência pra abrir os links que eu mando?

Foda-se! Seguirei resmungando e xingando.

análises sérias sobre a conjuntura atual. você encontra por aqui

Esta corda já tava quase pronta quando meu cumpadre Luis Marcelo Mendes me mandou a seguinte mensagem: Bach é o percusor da cumbia. Pensei com meus botões: bach e cumbia, só num bach anal, ha ha ha, cabeça de porongo. Aí veio a explicação: “Arpejo (também conhecido como harpejo, da palavra italiana “arpeggio”). Um acorde é composto por três ou mais notas tocadas ao mesmo tempo. No arpejo, as mesmas notas são tocadas em sequência, como numa melodia. É o que a gente ouve no Bach e na cumbia“. Então a playlist 123 chega na rede começando com a suíte número 2 em b menor de Joahann Sebastian Bach e logo depois com seu bebê reborn, a cumbia higuitita de Los Palmeras (Es que ella tiene un bombón asesino, Es que es un bombón suculento) o que só confirma os meus pensamentos pecaminosos.

o encontro de bach com a cumbia foto: fabiano maciel

Pero ainda é melhor pensar besteira do que fazer besteira. São dois boleros pra lá e uma cumbia pra cá. A Frente Cumbiero fez uma versão esperta de Negro Gato do bamba Getúlio Cortês. Yo soy un Negro Gato y vivo en Bogotá, DJ Dolores vive em Recife e neste final de semana chegou em São Paulo pra mostrar seu disco novo, o Enigma do Frevo.

O mistério do samba, o enigma do frevo, de onde vêm o baião? Nossa música é uma sequência de invenções fantásticas, em diferentes lugares e tempos, num toma lá da cá, num vai e volta da periferia pro centro, da roça pra cidade.

Absurdo, o Brasil pode ser um absurdo
Até aí, tudo bem, nada mal
Pode ser um absurdo, mas ele não é surdo
O Brasil tem ouvido musical
Que não é normal

Caetano em love, love, love, 1978. Nesta mesma canção ele também canta:

Na maré da utopia
Banhar todo dia
A beleza do corpo convém
Olha o pulo da jia
Não tendo utopia
Não pia a beleza também
Digo prá ninguém

Meu amor, desejo
Pelo mundo inteiro
Eu vejo
Que não tem quem prove
Pelé disse
Love, love, love

muito é muito pouco

Em 78 isto era utopia. Em 2025 continua sendo. Hoje é universo em desencanto. Alguns amigos me convenceram a encarar Sucessão, uma série da HBO onde quem não é filho da puta, é babaca e quem não é babaca, é cretino. Alguns personagens conseguem ser tudo isto ao mesmo tempo. Não existe absolutamente nenhum boneco-boneca-boneques para desejarmos um final com redenção. Não tem anti-herói nem bandido romântico. Todo mundo é escroto ao longo das 4 temporadas que caberiam em 2. Eu desisti no final da terceira, depois da centésima cena com o elenco subindo num helicóptero.

Melhor mudar de giro e ouvir Stevie Wonder, 75 anos recém completados e para quem mando os meus mais sinceros agradecimentos por todos os discos, pela infinidade de músicas absolutamente fodásticas, que fizeram (e seguirão fazendo enquanto eu estiver por aqui) a minha vida muito mais feliz. Na playlist, uma faixa de seu primeiro lp, quando Little Stevie tinha apenas 12 anos e ainda não se arriscava na cantoria, mas já quebrava tudo no bongô, na bateria e na harmônica. Depois, So What the Fuss do último álbum que ele lançou, no já distante 2005, A Time to Love. A letra serve pros trumposos dias de hoje:

Eu poderia estar dirigindo por um bairro diferente, encontrar um restaurante /Should I be drivin thru a klantown, find a restaurant/ Para comprar alguma comida/To get me some food E alguém diz: Ei cara, nós não atendemos a sua raça/ And someone says: Hey boy, we don’t serve your kind / Que vergonha/ Shame on them /E se nós vivemos em uma democracia e você não usa seu Poder de voto / And if we live in a democracy and you don’t use your Power to vote/ Mesmo sabendo que alguns gostariam de voltar no tempo/ Knowin some would like to turn back the hands of time/ Que vergonha/ Shame on us/ Então, pra quê essa agitação?/ So what the fuss

stevie maravilha 75!

Segue o bonde com Grace Jones no super balaco Pull Up to The Bumper e Julia Mestre com Marina Lima, marinou limou. Quem não dança segura a criança. A vida é mesmo assim, alguém tem que sofrer, e alguém tem que dançar. Alguém tem que morrer e outros a gente tenta esquecer.

O coronel Gomes por exemplo, depois de uma longa temporada em Paris, voltou ao seu feudo de estimação pra refundar a ARENA. Ciroliro já mandou uma bitoca pros calangos milicianos e só tá esperando o São João chegar pra formalizar o casamento na roça. O lenço maragato de Brizola agradece a retirada. A história sempre trata de colocar tudo no lugar. No caso do angu do gomes, segundo as pesquisas, a história tá mandando ele prum oitavo lugar atrás do Olavo já morreu e do Gusttavvo Limma. Na linha do passei a campanha toda procurando tu, procurando tu, procurando tu. Façam suas apostas. Dou-lhe uma, dou-lhe duas e quem acertar ganha um moletom com foto da filha pra usar quando visitar Brasília.

atrás do burrico só não vai quem já morreu. quer apostar?

A nau segue com uma música de Ruben Rada, um dos mestres do candombe uruguaio. A faixa tá no disco do grupo Opa, fundado nos anos 70 em Nova Iorque pelos irmãos Hugo e Oswaldo Fatorusso (dos Shakers). Cuando llegamos decidimos que teníamos que ponernos un nombre para laburar, y surgió Opa, que es una especie de ¡Hola! saludo típicamente uruguayo. O grupo, neste primeiro álbum teve a participação de Airto Moreira. Os irmãos Fatorusso desde os anos 60 trocam figurinhas com músicos brasileiros (já tocaram com Milton, Djavan e muitos outros). Sabem muito mais sobre nós do que nós sobre eles. Azar o nosso.

miriam com antonio na barriga. atlantida, uruguai, 2014

Eu cresci com a ideia de que o Uruguai era aquele país que fez parte do Império, que era a continuação do Pampa, com tudo igual no outro lado da fronteira: pastos, vacas e bombachudos tomando chimarrão. A diferença era Montevideo, muita mais classuda que Porto Alegre. Depois descobri que muito menos dinâmica.

Em 76, vi pela tv o lateral Ramirez sair correndo atrás do Rivelino no final de um 2×1 pra seleção. Riva escapou escorregando de bunda nos degraus do túnel do Maracanã.

Robertinho do Recife cantava no seu Jardim de Infância que não chorou no gol do Uruguai. (não tem no spotify). Eu também não. Eu cantei o Grêmio campeão da Libertadores sobre o Peñarol e os zagueiros da minha vida foram os paisanos Ancheta e De Leon.

um zagueiro, uma garantia

Também na minha infância a palavra tupamaro era sussurada como elogio e gritada como ofensa. Não fica perto daquele guri, o pai é tupamaro! Aquela guria é filha de tupamaros. Portanto, tupamaro pra mim sempre foi sinônimo de gente do bem. Ou de pessoas que lutavam contra militares escroques. Como o Mujica.

o fusca do mujica no desenho de paulo nazareth

O Mujica foi um espanto. Os boca de caçapa do jornalismo “profissional” não conseguem encontrar uma vírgula pra defenestrar o velho. Eles não se aguentam nas cuecas de raiva, as catanhedes e veras não se aguentam no laquê de ódio por ele ter sido o que foi. Pra piorar, era defensor e amigo pessoal de Lula. Os desonestos de plantão estão tentando dizer que ele se adaptou e pregou a conciliação. Sim, mas não cedeu um pingo na sua pauta. Liberou o fumacê, o aborto e colocou o exército pra ajudar na construção de habitações populares.

O bonde segue com Ná Ozetti, numa gravação absurda de tão espetacular, e na sequência Jam da Silva, Imelda May, Stray Cats, Bo Didley, Led Zeppelin, Creedance Clearwater Revival e Jimi Joe, autor desta frase que é pura poesia:

somos como pássaros pousados em fios de alta tensão, evitando a todo custo o choque fatal

Enquanto você dormia tem outras frases incríveis, ouçam com atenção. E como o Jimi Joe é de Porto Alegre, eu aproveito o gancho pra criar um gancho sem gancho, só pra não perder o hábito de xingar o prefeito da cidade e o governador do estado.

O prefeito hoje eu só vou chamar de abostado e vou lembrar que o filho dele foi indiciado junto com mais uma turma, por ter metido a mão numa grana que deveria ter ido pras escolas.

Sobre o governador do Rio Grande do Sul, de vez em quando aparece uma alma desavisada e inocente, tentando vender o peixe de que ele é um cara legal. Não. Ele é um escroque com guardanapo de pano. Já sinalizou que vai apoiar o cara de cratera em SP. Apoiar Tarcisio é como ser sócio-atleta do Esporte Clube Bolsonaro sem Bolsonaro mas com Huck e com o ex presidente do BC independente. Eduardo é malvadinho por opção. Exemplo: um dique que está sendo construído para conter futuras tragédias na cidade de Eldorado do Sul só não contempla as áreas do MST. Lá embaixo tem um link do Matinal, um site que insiste em fazer jornalismo na contramão da chinelagem golpista da rede brasil sul.

agenda: xingar o prefeito. feito/ xingar os governadores da direita. feito/ xingar os jornalistas golpistas. feito/ xingar os ruralistas e o empresariado golpista. ainda não, mas até o final da página eu resolvo.

A barca segue com Goma Laca, Jussara Marçal, Russo Passapuço, Itamar Assumpção, Sueli Costa, Metá-Metá, Iara Rennó, Tom Zé, Guizado, Los Shakers, Blondie, The Who, Pau de Dar em Doido, The Stooges, Quinteto Violado, Fiona Apple, Bloodletters and Badmen, Charlotte Gainsbourg, Norah Jones, B-52′, Wire, Gyedu-Blay Ambolley, Laércio de Freitas, Gene Ammons, Durand Jones, Ruthie Foster, Captain Beefheart, Folk Bitch Trio e Los Índios Tabajaras.

É curioso como uma dupla de brasileiros cantando músicas paraguaias batem na alma de uma jovem moça canadense chamada Jula. Em 2015, quando o pai dela morreu, ela resolveu escutar todos os discos da imensa coleção deixada por ele. Ouvir, comentar e postar. Tá lá embaixo nos links.

O trem segue com Zezé Gonzaga acompanhada do Quinteto de Radamés Gnattali (dica do ninjalino Antonio Manoel Filho, com Vinícius de Moraes tirando onda copeira no Uruguai (acompanhado de Toquinho e Maria Creuza) e depois cantando Antonio Carlos e Jocafi, uma das canções prediletas de mr. Stevie Wonder, Você Abusou. Ainda: Gil canta Stevie Wonder, The Secret Life of Plants e, o bamba Fernando Severo lembrou da jurema de Ruy Maurity (que já rolou na playlist 32) que fez chover e fez relampear. Los Shakers e Ruben Rada fecham esta parada.

A foto da capa é minha, e foi feita em Montevideo em 2014 num dia de sol. Na corda Bamba 152, com a playlist 123 está na rede. Quem quiser assinar este blog cheio de crises existênciais e de pensamentos imperfeitos, é só clicar nos botões vermelhos lá de baixo, ou fazer um pix para a chave fabpmaciel@gmail.com

Paz! Love, Love, Love! Saravá!

LINKS! LINKS! E MAIS LINKS!

A partir desta edição, sempre, mas sempre mesmo, este vídeo com um trecho do Darcy Ribeiro no Roda Viva estará por aqui, pra lembrar que todo privatista é, antes de tudo, um canalha.

o clarão no céu do planalto central e nas alterosoas

luis caldas canta getúlio cortes

frente cumbiero, negro gato:

pelé diz love, love, love!

stevie wonder 13 anos no ed sullivan:

ramirez atrás de rivelino

imelda may não é marcos:

a escrotidão de dudu sapatênis chinelão no rio grande do sul:

https://www.matinaljornalismo.com.br/matinal/reportagem-matinal/dique-previsto-para-eldorado-do-sul-exclui-assentamento-do-mst-com-350-familias/

ná, itamar e bocato:

los indios tabajaras no
soundwavesoffwax

soundcloud rapper turned vinyl vixen

e a playlist 123!