na corda bamba 153 em uma jornada pelo estranho, pelo bizarro e pelo inesperado + uma playlist inacreditável.

O programa começava com uma escalada, uma sequência de imagens e um narrador descrevendo o assunto: um homem lutando contra um gorila, uma pulga amestrada dançando, uma corrida de sapos, uma mulher engolindo velas acesas e um velho turco que tinha passado dez anos dentro de uma caverna. Jack Palance, que antes de ser ator, era lutador de box, surgia sorrindo para a câmera: “Este é o ponto de partida para nossa jornada pelo estranho, pelo bizarro e pelo inesperado. Acredite se quiser!” O programa era inspirado nas tiras que o cartunista Robert Ripley publicou por quase 30 anos em centenas de jornais americanos. Ele começou desenhando curiosidades que colecionava em suas viagens pelo mundo. Com o sucesso das tiras, os leitores passaram a enviar histórias, sempre com fotos para comprovar a veracidade do lance. No final dos anos 70 elas saíam no Correio do Povo de Porto Alegre e minha vó Maria separava pra mim, pois em casa meus pais assinavam a deprimente Zero Hora.

acredite se quiser

Quando surgiu esta fuleiragem de mundo digital, comecei uma brincadeira batizada de Nada Supera a Vida Real. Eu simplesmente republicava notícias bizarras que pipocavam nas redes. Histórias pueris, como a do publicitário que matou e queimou o zelador na churrasqueira do prédio, da dentista que por vingança, arrancou todos os dentes do namorado ou da mulher que por ter nome de homem, foi impedida de fazer exames ginecológicos. Depois de um tempo, amigos de todos os cantos começaram a me mandar colaborações e apareciam coisas incríveis, como a da família que resolveu arrumar a casa e encontrou um jabuti que estava sumido há 30 anos (não lembro se o jabuti estava vivo), do homem que não gostou de sua foto como procurado e enviou uma selfie para a polícia, da mulher que ganhou fama por fazer levantamento de peso com a vagina, do professor colombiano acusado de roubar figurinhas dos alunos pra completar seu álbum da copa e do padre que cancelou o casamento no altar, depois de perceber que o noivo tinha um aviso colado no sapato – Socorro! Me tirem daqui!

unicórnio paraibano

Duas histórias magníficas que aconteceram em Salvador: o ladrão que invadiu um ônibus e obrigou os passageiros a cantarem feliz aniversário pra ele. E da fila para exame gratuito de próstata, que de tão grande assustou os vizinhos, que chamaram a polícia pensando que era uma manifestação política. Pense: o sujeito sofre esperando na fila pra levar uma dedada e acaba levando um pau da polícia!

o ex era a amiga e o pai dela era tia dela

Mas aos poucos, estas bizarrices começaram a parecer brincadeira de criança perto das coisas inacreditáveis que estavam rolando no mundo oficial de verdade. A bizarrice estava virando rotina nos lugares onde jamais deveriam sequer ter permissão para serem cogitadas. E elas não tinham graça nenhuma. Não dava pra competir com as notícias da política e economia. No ano passado, pouco antes da tragédia que aconteceu em Porto Alegre, sem imaginar no que aconteceria dias depois, ressuscitei a coluna com duas pérolas: Em Porto Alegre, a chuva impediu que Jesus Cristo fosse crucificado. A outra era a notícia de um conterrâneo trambiqueiro, que descobriu uma brecha na legislação da cidade de Nova Iorque e com isto, conseguiu viver em hotéis sem pagar um tostão por quase cinco anos. O cara era tão tramposo que além de não pagar, virou dono de um hotel! Em novembro do ano passado, ele foi considerado mentalmente incapaz de ser condenado. Sua história poderia ter saído de um romance de John Irving, numa trama que envolve um sujeito nascido na fronteira do Rio Grande do Sul com a Argentina e Uruguai, que vira mórmon, muda para os Estados Unidos, se casa, tem filhos, separa, começa um novo casamento com um homem e com ele passa a perambular pelos hotéis da grande maçã. No final de março de 2024, ainda foi possível rir do Cristo que se salvou por causa da chuva e de se espantar com o bagual que deu calote na terra do Tio Sam. Hoje a parada anda mais ou menos assim:

vacina reborn

Santa Catarina e Rio Grande do Sul estão com os piores índices de cobertura de vacinação no país. Tenho preguiça de tentar explicar os motivos pra esta notícia tão deprimente. Mas deixo um dado: fazem 4 anos que o RS recebe certificado de isento de febre aftosa. Ou seja, a gauchada cuida do seu rebanho, mas a gurizada não toma vacina porque vacinar criança é coisa de esquerdista safado!

o escocês agasalhado

A Secretaria de Comunicação do Rio Grande produziu um documentário sobre as inundações. O governador tem um desejo louco, daqueles de música do Fernando Mendes, de ser presidente do Brasil. Acreditem se quiser, ele acredita que tem chance. Como somos o país onde o impossível acontece, bato na madeira. Leite segue a cartilha do bolicho do Guedes (não há nada que seja público que não possa ser entegue de bandeja pro ralo da privada). É um conhecido apoiador de legislações anti-ambientalistas e pouco fez para evitar a tragédia. Quando o bicho pegou, foi pedir dinheiro pro governo federal (os parceiros privados ajudaram com algumas mariolas e botaram os empregados pra trabalhar). Quase nada fez com a verba que recebeu e ainda reclamou. Sobre o filme: é um institucional meloso, com uma trilha lacrimejante, daquelas de superação de congresso de firma. Não aguentei 5 minutos. O colete do Eduardo aparece pelo menos umas 15 vezes ao longo da jornada (o que consegui contar em fast). Se chama Todos Nós, mas deveria ser Todos Nós Atados. No começo tem uma citação cabeça do Waly Salomão pra dar uma pinta de filme sério: Memória é uma ilha de edição. Sailormoon, quem diria, acabou no Irajá da Praça da Matriz. Tem gente que trabalha pra curar os traumas e pra nunca esquecer as tragédias. E tem gente que trabalha pra fingir que a canoa não virou. Nos links, um curta feito por Roberto Henkin em 1990. É uma pequena obra-prima e já falei dele por aqui. É um documentário. Ao contrário do institucional de pré-campanha do governador. Se chama Memória. Podem crer.

bleybe é calor que provoca arrepio

Esta semana bati boca no facebook, fazia tempo que não acontecia. Tinha certeza de ter feito uma faxina completa e me livrado da ordem cavernista dos rezadores de pneu. Mas cometi a besteira de falar mal de uma vaca sagrada e de duas bestas em processo de canonização: Bono Vox, Zelensky e Nethanyahu. Foi o suficiente pra receber um vendaval de ressentimento, fúria, insulto e catarradas verde musgo de todos os naipes. No começo tentei manter um mínimo de civilidade, depois passei pra ironia e no fim tive que mandar o tradicional vai tomar no cu seu arrombado sionista golpista e etc, etc, etc. Por isso que eu gosto do threads. Lá eu posso bater boca numa relax, pois não conheço ninguém do capivarol e ainda rola aquele block automático.

o roubo do dildo dourado

No mais, bonito mesmo foi a torcida do Vitória da Bahia homenageando Mujica nas arquibancadas do Estádio Centenário em Montevideo. Enquanto isto, ando pela calçada apertada da Nelson Mandela. Na mesa de um bar, uma moça com decote generoso, umbigo de fora e boca caprichada de batom vermelho faz sorrisos e poses insinuantes para o celular da amiga. Gosto destas cenas, gosto de ver as pessoas se fotografando. Meu chapa Marcão comenta: –Aí tu liga no RJ-TV e a apresentadora fala: Jovem morre baleada em Madureira. Lidiane de 22 anos era secretária, estudava administração de empresas e estava noiva. E aparece a foto dela na tela. Meu amigo sorri como um Tião Macalé, os dentes escancarados e continua: Caminhão com 4 toneladas de cimento tomba em cima de um veículo na Rio-Magé. Aparece a foto do casal em Dubai, com os dentes escancarados num sorriso de felicidade total.

O sorriso da felicidade total. Com implante.

viva pepe mujica!

Nada supera a vida real: vereadores da câmara municipal de Florianópolis instituiram o dia do conservadorismo, 29 de abril. Atrás do boi de mamão só não vai o Olavo de Carvalho porque o Olavo, graças, já morreu. # O congresso deixou a boiada passar # As moças da Globonews deram pra elogiar a Micheque.

É tudo verdade.

That’s all folks, é isto aí macacada, podes crer amizade, quem acredita que esta corda vale algum tostão, é só chegar nos botões vermelhos lá embaixo da página ou fazer um pix de qualquer valor na chave fabpmaciel@gmail.com

A imagem da capa desta corda mostra um breguete que serve pra pendurar os pacotes de meias nas lojas. Me lembrei do Rubem Valentim. Acreditem se quiser.

Um muito obrigado por tudo para Sebastião Salgado. E os parachoques pro Kleber Mendonça e pro Wagner Moura, que botaram pra quebrar em Cannes!.

Paz! Amor! E bizarrices inesperadas. Saravá!

LINKS! LINKS! E MAIS LINKS!

o prefixo ribeiro na corda bamba contra a privatização e por tabelinha, contra a escrotidão do jornalismo sapatênis:

Nunca tinha lido nada de Jeferson Tenório. Aproveitei que seu primeiro romance, O Beijo Na Parede estava dando sopa na biblioteca pública Raquel Zangrandi pra conferir. A primeira página é matadora.

acredite se quiser:

acredite se quiser

jack palance em acredite se quiser:

sobre robert ripley:

https://www.pbs.org/wgbh/americanexperience/features/ripley-believe/

memória:

brian eno escreve carta contra os ataques de israel e a microsoft .

https://pitchfork.com/news/brian-eno-criticizes-microsoft-for-support-of-israeli-military/

na playlist # 124

soul sister da soul queen

rita lee abrindo a parada com o futuro me absolve, eu já fui pedra, eu já fui planta eu já fui bicho e como o bicho tá pegando o lance é correr com o can, oh yeah e seguindo com uma vinheta do sambodromo, uma gal deus é amor, um blues arrepiante de mr. lou rawls, eddie e fazendero improvisando com gal e a absolutamente linda e espetacular erma franklin, que vem a ser a irmã mais velha de aretha, que também cantava pra caramba e que largou o showbizz pra ser voluntária e assistente social.

the beatles

joe cocker cantando the beatles

toni tornado, frank zappa & the mothers, the paul butterfield blues band, lara aufranc (super balaco!), roxy music na bbc no programa de john peel e uma sequência barulho e guitarras com the greenhornes, the black keys, pretenders, replicantes, uma vinheta com yellow magic orchestra, los lobos, kurtis knight & the squires e a presença supimpa de jimi hendrix e jackson browne na encruzilhada.

corações e cabelões psicodélicos com bruna alimonda, jupiter apple, os mutantes, rubinho jacobina, maria bethânia, altamirano e lucio maia, karine alexandrino, tatá aeroplano, andré abujamra e banda black rio na curva.

salwa jaradat. ouçam esta moça

bárbara eugênia, afro 70 band, ezra collective, james brown, erma franklin novamente, george benson, wolf alice, the cure, david bowie, slade e jefferson airplane na beira do precipício.

jeff parker, majur, eric almeida, vital farias e can pra fechar a parada!

ouçam lara
e ouçam salwa

e a playlist # 124!