na corda bamba 161 native brazilian music + duas playists bacanudas

Uma edição cascuda de Na Corda Bamba, falando de Quando o Brasil era Moderno que entra em sua sexta-semana em cartaz na cidade de São Paulo e que tem sua trilha sonora chegando nas plataformas de streaming # 02 playlists inéditas. # O teaser de meu novo filme: Native Brazilian Music, um documentário da pesada com um time de bambas mais da pesada ainda. # CinemArquitetura, uma aula online sobre como ver, filmar e pensar o nosso espaço urbano. # O centenário de um jornalão # O novo livro de Stewart Home que eu ainda não li # Na Corda Bamba 161 está na rede. Saravá!

stokowski: maestro e celebridade antes da era das celebridades

Em julho de 1940, Leopold Stokowski, na época, o mais famoso maestro do mundo, escreveu uma carta ao seu amigo Heitor Villa-Lobos. Ele tinha acabado de criar a All-American Youth Orchestra, que a pedido do Departamento de Assuntos Interamericanos, comandado pelo milionário Nelson Rockefeller, iria fazer uma turnê pela América Latina, como parte da Política da Boa Vizinhança, aquela mesma que mandou para cá, pouco tempo depois, Orson Welles, Walt Disney (que aproveitou a vinda pra criar o Zé Carioca), o galã Errol Flynn (que teve sua roupa rasgada por uma fã exaltada em Recife) e a fotógrafa preferida da primeira dama norte-americana, Genevieve Naylor (que logo percebeu que fotografar a Praça 11 era mais interessante do que flanar por Copacabana). Os americanos temiam que o governo Vargas apoiasse a Alemanha nazista, já que boa parte do governo era formado por simpatizantes e ex-galinhas verdes. Com a possibilidade da guerra, Roosevelt abandonou de vez a política do big-stick (mim ter um porrete grande, muito grande mesmo) e apostou as fichas num esquema de sedução pela cultura, o que hoje os analistas políticos e os caras que gostam de escrever bonitinho chamam de soft-power. A Política da Boa Vizinhança não era exatamente bater na porta e pedir um pouco de açúcar emprestado pra fazer bolo. No convescote, depois da churrascada, do charuto baiano e do licor de jabuticaba, os americanos assopravam mansinho no ouvido dos nossos diplomatas: “Olha eu posso te ferrar, mas uma invasão custa caro. Eu prefiro dizer que eu gosto de ti e assim eu meto a mão no que tu tem e que eu preciso. Tu tem borracha, minérios, carnaúba, carne, café e alguns locais bem interessantes que podem servir de base para nossos aviões. Então eu finjo que tenho o maior interesse no teu jeito dengoso e rebolante de ser e, em troca, levo a Carmen Miranda e o Niemeyer pros States e ainda te dou um desconto na Coca-Cola.

Getúlio, que não era trouxa, cozinhou o Delano em banho maria por dois anos, mas antes disto, volto pro Stokowski e sua carta pro Villa. Ele queria gravar um disco com a música brasileira roots: sambas, choros, maxixes e cantos indígenas. Villa respondeu pedindo 500 dólares pra pagar os músicos, Stokowski replicou, sacumé, eu conversei com o embaixador americano no Rio, ele me disse que uma nota de 100 com a cara do Benjamin tá mais do que bom, e como o lance era agradar o bom vizinho rico, Villa aceitou e convocou seu amigo Donga pra organizar a jogada. Donga chamou Pixinguinha e João da Baiana que chamou Cartola e as Pastoras da Mangueira, que bateu a ficha pro Zé Espinguela e pro Zé da Zilda e também chegaram junto no lance o Luis Americano, o Laurindo de Almeida, a dupla Jararaca e Ratinho e a Janir Martins, a única cantora no convés. Na madrugada de sete de agosto, apenas um mês após receber a carta, num estúdio improvisado dentro do navio SS Uruguay, quase 60 faixas foram gravadas, com grande cobertura nos jornais, que se dividiram entre o orgulho e a vergonha de ver o erudito maestro ouvindo música de gente pobre, preta e favelada. Um colunista do Diário de Notícias reclamou que estávamos mostrando nossa face primitiva, selvagem, de gente sem cerimônia e com a mais rudimentar das toaletes

sans façon e sem satisfaçon

Stokowski, fez concertos no Municipal, participou de convescotes, deu uma conferida na batucada e seguiu viagem pro Uruguai, Argentina e México. Na volta, em Nova Iorque, foi recebido pela primeira dama com grande festa. O disco saiu em 1942, com direito a matéria na revista Time e críticas e anúncios em dezenas de jornais. Por aqui, necas. Cartola só foi ouvir a sua primeira gravação em disco, no final dos anos 60, na casa de Lucio Rangel, um dos poucos privilegiados que tinham um exemplar na estante. Em 1987, quando presidia o Museu Villa-Lobos, Turíbio Santos bancou uma edição comemorativa e a história poderia ter parado por aí. Native Brazilian Music, um disco para entendidos, como escreveu Caetano no Araçá Azul. Um disco para estudiosos, pra acadêmicos como Tinhorão ou Zuza Homem de Mello. Mas no início dos anos 2000, uma pesquisadora americana, Daniella Thompson, entrou na jogada e começou a pesquisar tudo que havia de literatura sobre o evento. Dos livros do Roberto Moura, da Marilia Barbosa e do Sérgio Cabral, das matérias nos jornais e ainda, das pistas que outros americanos enviavam para o blog que ela tinha criado. Daniella percebeu que a maioria das matérias falavam em quase 60 faixas gravadas naquela noite. Mas somente 16 foram lançadas em disco. Começou a busca: Onde estavam os fonogramas com as faixas não lançadas? Porque a Sony, detentora do catálogo da Columbia, não se animava em relançar o disco?

Em 2012 Daniella ganhou um novo aliado, o jornalista Cristiano Bastos, que fez uma ótima matéria na Rolling Stone (aqui e nos links lá de baixo), que chegou a comover um adido cultural da embaixada brasileira em Washington, mas o fato é que as ações não deram em nada. A história ganhou novas reportagens, alguns programas de tv e vídeos na internet, mas os fonogramas seguem inéditos e desaparecidos até hoje. Em 2022 intuí que a história rendia um filme e foi assim que comecei uma nova parceria com Tárik de Souza e com a Tv Zero. Daniella Thompson e Cristiano Bastos apoiaram desde o começo e nos links lá de baixo eu coloco o primeiro teaser do que vem por aí. Que se dane a modéstia, eu não tenho dúvida de dizer: tá bom pra caralho!

Para contar esta história, eu e Tárik entrevistamos um super time de especialistas, pesquisadores, críticos, historiadores, cineastas, músicos, etc. E eu agradeço muito a generosidade de todos eles: Ana Maria Mauad, Antônio Nóbrega, Bernardo Oliveira, Biancamaria Binazzi, Camila Fresca, Cristiano Bastos, Daniella Thompson, Eduardo Pontin, Gilberto Porcidônio, Haroldo Costa, Hernani Heffner, Jeb Blount, João Barone, Jom Tob Azulay, Kamille Viola, Manoel Filho, Nei Lopes, Paulo de Tarso, Paulo Malaguti, Pedro Belchior e Roberto Moura.

manoel filho
ana maria mauad
antônio nóbrega
daniella thompson
pedro belchior e laís rodrigues
biancamaria binzazzi
kamille viola

Regravamos algumas das faixas do disco. Geraldinho Magalhães montou uma banda inacreditável com Luis Filipe Lima e Carlos Malta e junto com eles vieram: Adrielle Vieira, Áurea Martins, BNegão, Ilessi, a família maravilhosa da casa Ile Asé Omi Lare Ìyá Sagbá em Duque de Caxias, Jovi Joviniano, Marcelinho Moreira, Marcio Vanderlei, Marcos Suzano, Matheus VK, Negadeza, Nego Álvaro, Nilze Carvalho, Rodrigo Zaidan e Quarteto Theremin (Pedro Lima Juliana Moulin Donna Dona Pedro Moraez) e Thalma de Freitas.

Aproveito por antecipação pra agradecer as pessoas que estão comigo nesta jogada : Tárik de Souza, Roberto Berliner, Leonardo Ribeiro, Marco Oliveira, Tainá Moraes, Laís Rodrigues, Jeb Blount, Fernanda Calábria, Sabrina Garcia, Renato Carlos, Mafê, PH Souza, Julia Tavares, Maria Cândida Kis, Bruno Pettinelli, Toquinho, Cristina Neves, Camila Muhlenberg, Nica Foschesatto, Pedro Savioli, Raquel Cardoso, Alessandra Ramalho, Henrique Campos, Marcelo Pereira, a equipe do Canal Curta e eu sei que tem mais gente e eu vou atualizar a medida em que for lembrando.

Pra encerrar esta pauta (por hoje): 1940-2025 a história se repete e anda de patinete, mas nem sempre com as mesmas pernas. Getúlio e Roosevelt sabiam negociar. Getúlio não abriu as pernas e ganhamos Volta Redonda. Roosevelt hoje seria considerado comunista para a maior parte dos americanos e Getúlio, apesar de conservador, tinha um projeto desenvolvimentista para o Brasil, que só não avançou mais pela tacanhice da nossa elite, principalmente a paulista e a rural. A grande imprensa era escrota em 1940 e segue sendo em 2025. Joeis Pinheiros já existiam em bandos e muitos deles pediam pro Getúlio pegar no telefone, deixa dilson de ser orgulhoso, baixa a bombacha e abre a porteira que o mundo funciona melhor. # Em 2025 jornalista que chama negro de fedorento perde o emprego. Mas logo conseguem outro em outro jornal ou tv. Em 1940 não tinha BRICS e não tinha pix. Mas hoje tem e quem quiser apoiar este blog, pode assinar nos botões vermelhos lá de baixo ou fazer um pix de qualquer valor para a chave: fabpmaciel@gmail.com

marcão
toquinho em ação
tárik e nei lopes

E o lance é aproveitar a maré, aproveitar este momento sensacional em que Geraldo toma café com Ana Maria Braga e que Dona Lu agradece e promete mandar pãezinhos artesanais de volta. O lance é seguir nas ruas e nas redes, cobrando da chinelagem do congresso a taxação dos ricos, o fim da jornada 6×1, a cassação do bananinha e a prisão de toda a canalhada traidora e golpista, porque anistia é o caralho e porque golpista bom é golpista preso.

Saravá! A foto da capa mostra o cigarro Samba, aquele que já vem com molejo.

maria cândida
os meninos do ile asé

tem filme novo pra chegar e tem filme novo nos cinemas. QUANDO O BRASIL ERA MODERNO SEGUE EM CARTAZ EM SÃO PAULO, chegamos lindamente na sexta semana. E tem estreia em Santos e em Cotia!

Vem aí, 16 de agosto, aula-online CinemArquitetura

Uma aula onde falo, entre outras coisas sobre:

*Como o cinema se utiliza do espaço urbano e da arquitetura.
*Como ver-refletir a arquitetura das cidades através do cinema.
*O cinema ficção como inspiração para documentários sobre arquitetura

Na aula vou falar de alguns filmes, entre eles:

Alice nas Cidades, Wim Wenders, 1974 ; A Margem, Ozualdo Candeias, 1967/ Amor Bandido, Bruno Barreto, 1968 / A Vida Provisória, Maurício Gomes Leite, 1968/ Blade Runner, o Caçador de Andróides, Ridley Scott, 1982/ Brasília, Contradições de Uma Cidade Nova. Joaquim Pedro de Andrade, 1967/ Bullitt, Peter Yates, 1968/ Caro Diário, Nanni Moretti, 1993/ Central do Brasil, Walter Salles, 1998 / Cinderela em Paris, Stanley Donen, 1957/ É com este que eu vou, José Carlos Burle, 1948 / Falsa Loura, Carlos Reichenbach, 2007/ Hannah e suas Irmãs, Woody Allen, 1986/ Lance Maior, Sylvio Back, 1968/ Metrópolis, Fritz Lang, 1927/ O conformista, de Bernardo Bertolucci, 1970/ O Homem do Rio, Phillipe de Broca, 1963/ O Homem que copiava, Jorge Furtado, 2003/ São Paulo Sociedade Anônima, Luiz Sérgio Person, 1965/ São Silvestre, Lina Chamie, 2013/ Trocando as Bolas, John Landis, 1983 /Uma Noite sobre a Terra, Jim Jarmusch, 1991

VALOR DA AULA: R$ 80,00
PAGAMENTO VIA PIX: fabpmaciel@gmail.com
(enviar comprovante para o mesmo e-mail)
AULA VIA GOOGLE MEET
GRAVAÇÃO DISPONÍVEL POR 1 MÊS NO YOUTUBE E ENTREGA DE CERTIFICADO.

*duas manchetes inesquecíveis no centenário de O Globo:

100 anos no lado coisa ruim da força

stewart home ataca novamente

Nos anos 90 o escritor e artista inglês escreveu um livro pra lá de inusitado: ASSALTO À CULTURA uma espécie de manual com a história de todos os movimentos, grupos, grupelhos, coletivos e até blocos do eu sozinho das vanguardas artísticas do século 20. Desde os caras que enviavam tijolos todo o natal para um dos mais prestigiados críticos de arte da Inglaterra, aos que jogaram dólares das galerias do pregão da bolsa de Nova Iorque e o outro figura que falsificou um convite para o jantar boca livre do maior evento de arte bretão e distribuiu para uma centena de mendigos. Tirando os eventos bizarros, Home faz uma análise entre a arte revolucionária, a utopia e a quase sempre impossibilidade da primeira chegar na segunda, a não ser por alguns instantes. É um livro absurdamente eurocentrista, mas mesmo assim, vale a pena. Agora, Home lançou um livro novo, FASCIST YOGA. Não me parece ser um livro contra a yoga, acho até que o proprio Home é adepto. O grande lance é mostrar que nem tudo que é zen pode ser zen surfismo:

Graças ao poder de suas origens indianas "místicas", a ioga promete paz, autorrealização e libertação. Mas e se isso for apenas propaganda enganosa? Em Fascist Yoga, Stewart Home desfaz as meias-verdades para revelar uma nova história da origem da prática postural moderna. Começando com o primeiro iogue moderno do mundo – um escapista californiano que adicionou pó mágico hindu a exercícios de circo – esta história revela uma comunidade repleta de vigaristas, ocultistas e supremacistas brancos, empenhados em explorar e recrutar pessoas por meio do exercício. De Aleister Crowley a Ezra Pound e Heinrich Himmler, líderes de seitas e seguidores com lavagem cerebral, celebridades da TV e falsos gurus, a história da ioga envolveu algumas das correntes mais estranhas da humanidade com uma compreensão perigosa do bem-estar.

LINKS! LINKS! E MAIS LINKS!

o primeiro teaser de NATIVE BRAZILIAN MUSIC, o documentário:

o blog de daniella thompson:

https://daniellathompson.com/Texts/Stokowski/Stokowski_Cacado.htm

a matéria de cristiano bastos na rolling stone:

https://rollingstone.com.br/artigo/caca-ao-tesouro/

roberto moura e seu curta com cartola de 1973

dança macabra com leopold stokowski:

orson welles abandona it´s all true:

irmãos marx tocam mamãe eu quero:

# na playlist 132, a trilha original de QUANDO O BRASIL ERA MODERNO, composta por Fernando Moura.

Quando convidei Fernando Moura para compor a música de Quando o Brasil era Moderno, coloquei pra ele um desafio e algumas premissas:
Como fazer uma trilha sonora sobre um tema que está diretamente associado à bossa-nova e à obra de Tom Jobim? E que ao mesmo tempo, dialogasse com as vanguardas do início do século XX, de Debussy à Villa-Lobos e que não deixasse de lado elementos de nossa música afro-brasileira? Só posso dizer que Fernando Moura tirou de letra. E que o filme cresceu e ganhou força graças aos temas, aos climas e acordes que ele criou. Saravá Fernando. Que venham outras trilhas.

na playlist # 133

as faixas originais de native brazilian music não estão no streaming. nesta playlist, algumas das músicas do álbum em outras gravações, outras músicas daquela época, algumas músicas da turma que participou do disco e outras que entraram porque eu achei que valiam a pena.

os ritmistas brasileiros # ilessi # heitor dos prazeres # donga e leci brandão # pixinguinha, clementina de jesus e joão da bahiana # henrique cazes, fernando moura e beto cazes # negadeza # terezinha e linda # jararaca e ratinho # anjos do inferno # goma-laca & karina buhr # martinho da vila # cartola # lucas santtana # candeia & doca da portela # nilze carvalho # teresa cristina # lele benson e marcelinho moreira # nego álvaro # carlos malta # verônica sabino e luis filipe lima # eduardo agni # chris potter # bnegão # alceu valença # antônio nóbrega # darcy da mangueira # ismael silva # clementina de jesus # orlando silva # jovelina pérola negra # carmen miranda # john coltrane # joão pires # afros e afoxés da bahia # bando de macambirra # radamés gnatalli # noel rosa # rumo # saravá jazz bahia # marcos suzano #áurea martins

e as playlists #132 e #133!

https://open.spotify.com/playlist/07oHCdlKUF0oCrc3iR9nwp?si=64eddd935eda4262

https://open.spotify.com/playlist/2cbXi1kbnzRVXQfAcgLIJv?si=baf6b48638984b51