na corda bamba careca de alegria, botando os palhaços pra correr, filosofando em português e uma playlist arrasadora

Se você tem uma ideia incrível, é melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão
(Veloso, Caetano)

O disco Velô chegou nas lojas em janeiro de 1984. O presidente do Brasil era Figueiredo. Na transição lenta e gradual, o general só iria entregar a rapadura ao partido vencedor do colégio eleitoral-o PMDB-um ano depois. Mas aí morreu Neves e a Fafá e os corações de estudantes tiveram que segurar a alça do caixão de Tancredo, um velho queijo meia cura, meio democrata e 100% mineiro, que olhava para um lado e acenava pra outro. O Tancredo dava bom dia pro MR-8 e o Almeida dormia com a velha Arena. Os legados de Tancredo ao Brasil foram o Sarney (culpa dele), uma das raras músicas que não gosto do Milton (culpa mezzo dele) e seu neto Aécio (inocente no fato de ser avô, culpado por indicar o menudo pro seu primeiro cargo público). O legado do Figueiredo foi seu neto, o picareta cheira rola do Tramp que está foragido nos Estados Unidos. Quantos netos escrotos! Pioram de geração em geração. É uma capitania hereditária involutiva, os tetaranetos serão carrapatos. E quico o Caetano tem a ver com tudo isto? Chego lá.

shy moon foto: fabiano maciel

Em setembro de 2025, quarenta anos depois desta bagaça toda, assistimos pela tv o julgamento de um presidente bozogolpista, que chegou ao poder graças a uma grande crise iniciada pelo neto do alteroso, articulada pelo mesmo MDB sem P do alteroso, em conluio com o tucanocupalomo do príncipe dos sociólogos e apoiada por gente como o neto do Figueiredo.

Em 84, Caetano Veloso, abria seu show citando o alemão Heidegger:

“Igualmente incerto permanece se a civilização mundial será em breve subitamente destruída ou se se cristalizará em uma longa duração que não resida em algo permanente, mas que se instale, muito ao contrário, em uma mudança contínua em que o novo é substituído pelo mais novo”. 

De lá pra cá, ele seguiu compondo belas canções, gravando ótimos discos e tirando muita gente pra dançar, politicar e filosofar com ele. Em 40 anos, Caê dançou uma marca com Ciro, um xote com ACM, um choro com Lula, uma valsinha com Mangabeira Unger, um frevo com Jonas, um louvor com o pastor Bretas, um xaxado com Olavo e um maracatu com Ali Kamel. É uma espécie de quasar (pra ficar no disco de 84) atômico, indo em todas as direções sem lenço e sem documento. Não é a metamorfose ambulante do Raul, nem o dançar conforme a música do Don e Ravel. Sei lá o que é. Mas duvido que Caetano estivesse pensando em filósofos fazendo propaganda de cartão de crédito do Bradesco em 1984.

caminho livre na democratas

Eu sei que na França, assim como faz o Caetano aqui no Brasil, filósofos opinam sobre tudo: culinária, consumo, televisão, k-pop, alta-costura, arquitetura, futebol, física quântica, a sobrevivência das baleias e a finitude do ser…Será que algum publicitário francês já pensou em convocar o Luc Ferry pra fazer reclame de financeira?

Carte de crédit? La banque Structuraliste du Nord est la meilleure! Soit tu as quelque chose, soit tu n’es rien.” Fabiano Guanaes, leão de ouro no Bois de Boulogne

Karnal não passa aperto. Entre jantares com Moro e palestras pro pessoal da firma, dificilmente vai precisar usar o cheque especial. Seu parça Pondé também não deve estar precisando. Ele fatura bem bajulando a direita que ainda lê jornal. O chão de estrelas filosóficos tem mais um cometinha, o Cortellinha. Nesta semana entrei numa livraria especializada em livros infantis. Vi na vitrine um livro sobre o Cortella. Cortellinha kids. Lembrei que nesta mesma livraria, poucos anos atrás, uma mulher reclamou que não havia livros cristãos por lá. Nesta semana, perto do Cortellinha, tava o Café com Cristo. Caetano é mesmo um abençoado!

sempre a melhor manchete. nem fiquei triste que o botafogo perdeu

Dia destes eu arrisquei um podcast filosófico, o Elefantes na Neblina. Não sei exatamente o que dizer sobre ele, pensar filosoficamente nunca foi meu forte. Meu forte é pensar besteira. Mas os caras charlavam de coisas interessantes: o papel das big-techs no apocalipse -tem um vídeo circulando nas redes, de uma reunião de Bill Gates e outros manda-chuvas do vale do silício com Tramp. É constrangedor. Para os CEOs, é claro. Assim como o Karnal, os CEOs se “autoajudam-se”. Os elefantinos falaram também de Mountainhead, uma comédia distópica exatamente sobre CEOs de big-techs, que testam seus poderes de demiurgos do planeta. Parece que no filme, pra se divertirem, eles criam uma crise econômica na Argentina. Com o Milei por lá, quem precisa de demiurgos? Ou, desde quando a Argentina precisou de big-techs pra ter crises econômicas?

a rita lee tá na parede e o bolsonaro tá em cana

Ainda sobre as big-techs. O primeiro data center de IA que Tramp está construindo fica em Abilene, cidade do Texas conhecida por seus poços de petróleo e por suas fazendas de gado. Já profetizo o fracasso. Nada que se relacione com inteligência pode florescer em Abilene,Texas. O máximo que pode sair de lá é uma cantora country ou um serial killer maga patalógiko.

abilene, abilane, oh my sweet maryjane

Será que existem filósofos em Abilene? Como eu desativei as permissões do google pra receber notícias via PIG, tenho sido bombardeado por manchetes sobre achados arqueológicos na Turquia, no Egito e outras pedras. Acho curioso pensar em ruínas das civilizações do passado enquanto o presente nos aponta para um futuro onde tudo pode desmoronar. Em Pompéia, os arqueólogos estão descobrindo que muita gente voltou pra cidade, pouco tempo depois da explosão, e que a antiga e vibrante (em todos os sentidos) urbe, virou uma favela-lixão, incapaz de se reerguer. Em outra notícia que recebi, fico sabendo que num mosaico romano encontrado na Sicília, aparece numa relax, numa tranquila, numa boa, um chinelo de dedo. Fui pesquisar e descobri outra notícia bizarra, sobre uma havaiana encontrada no forro do Museu do Ipiranga, uma área que não tinha sofrido mudanças desde a construção do prédio. É a prova cabal de que bandeirantes nunca usaram botas! Bandeirantes andavam descalços! Não tem Atlântida, não tem cidades submersas nem canções de Chico Buarque. Nas ruínas do futuro, o objeto civilizatório será um chinelo de dedo. Consigo imaginar alguém concluindo: Nossos antepassados eram uns tremendos chinelões quatrocentões!

não deforma, não solta as tiras e não tem cheiro

Mas pode ser pior. Vamos imaginar que todos os livros do mundo sejam destruídos, não por um Farenheit 451, mas por uma ressaca da turma do vale, e sobre somente uma biblioteca, que por azar, pertenceu a um tiozinho amarelejo do Alto de Pinheiros. A coleção da revista Oeste, da Veja, do Mieses, Eugenio Gudin, do Brasil Paralelo. E com as obras completas do Olavo já morreu…Causa e consequência. Ação e reação. Quem publicou e faturou uma grana pesada com o beija bunda do Caê foi um neto do ministro Andreazza, uma das estrelas da ditadura militar…Ele publicou vários autores da direita mondronga pela Record, empresa que antes publicava Drummond, Neruda e outros bambas. Quando Olavo fedeu, Andreazzinha disse que ia no banheiro, virou moita, virou toca e foi ser podcaster no Estadão…Onde mais? Agora imaginem que dentro do livro, arqueólogos encontrem uma foto, do Olavo com o Bial. E uma dedicatória: Foi mesmo uma noite mágica.Concordo contigo Bial, 64 não foi golpe. Abraços fraternos. PS: Não esqueça de me chamar pra uma reunião do Instituto Millenium. Mas nunca num dia em que o Paulo Guedes esteja por lá.

uma noite muito especial

Pensem! Pensem! Se estes capivaros já são um estorvo no presente, imaginem a tragédia que será a arqueologia do futuro! Domingo a turma do quartel de viagra foi pra rua. Na Paulista, um velho revoltado com a abstinência do azulito, pegou um garfo e resolveu espetar o Porquinho da Paulista, um dos muitos artistas que se apresentam na avenida nos finais de semana. Uma turma reclamou, outros gritaram, veio a turma do deixa disto, a polícia,etc, etc. Eu me lembrei do Marcelo Rubens Paiva levando uma mochilada na cara no carnaval do baixo Augusta, bem nos cornos de dezenas de foliões. Bem nas fuças de dezenas de foliões. Vem cá… Não tem ninguém da esquerda que flana e samba pela cidade, pra dar um toco nestes felas? Ou teremos sempre que chamar a Gaviões da Fiel pra colocar os patos da FIESP no lugar deles?

Meu amigo Tagore me mandou um livro que foi esquecido mesmo sem o apocalipse. Um livro que certamente não estará na prateleira da casa do Alto de Pinheiros. Fausto Woff. Vulgo Faustin von Wolffenbüttel. Filhote de alemão da fronteira e anti-nazista até morrer.

A corda de hoje é pra comemorar a prisão do bozofela. E pra não esquecer que os outros bozos seguem por aí, os bozogringos, os bozopentecostais, os bozodecristo, os bozodeisrael, os bozoagros e os eternos bozos que habitam as redações da nossa grande imprensa, os bozoeconomistas, os bozocoachs, e os piores: os bozodissimulados…Que ralem todos nas ostras. A corda é pra lembrar que com ou sem filosofia, com ou sem bozo e sua gangue, temos nossas vidas, filhos pra criar, contas pra pagar, gente pra amar, filmes, discos, livros pra ler, ver, ouvir, comidas pra comer, cidades pra conhecer. E muita bobagem pra dizer. E que na real, não queremos passar o tempo todo falando destes arrombados. Eu quero é mostrar pros guris a Debbie Harry no Muppet Show. Quem gosta de Muppet Show não vira nem maga e nem bozo.

Saravá!

Quem quiser assinar a corda, é só chegar nos botões vermelhos lá de baixo. Quem quiser apoiar com qualquer valor a partir de R$ 5,00 a chave pix é fabpmaciel@gmail.com

A foto da capa desta edição mostra um detalhe da obra de Bia Lessa na exposição Anos Luz, no MAM-Rio. Outras fotos em pb mostram que, pelo menos na Domingos de Moraes e na Pracinha da Democratas, tudo segue na mesma. Mas a bolsa subiu, o dollar caiu, o desemprego também…Lula 2026!

o bolo do vicente

curso em bh: é gratuito. inscrevam-se no site https://universoproducao.com.br/inscricoes

na playlist # 139

uma moça finíssima de verdade

Canções da revolução moçambicana, canções de um povo começando sua história como nação soberana e livre do colonialismo em 1975. Canções de independência e de livramento. A dança da mutimba, que os guerrilheiros faziam antes de entrar em ação, gravadas pelos antropólogos-pesquisadores do Smithsonian. No rótulo diz: Inhabitants of Communal Village O.M.M e eu me pergunto se a mutimba ainda dança por lá. Canções psicóticas para quem perdeu a namorada, e o Count Five é sobrinho, filho e irmão de um monte de coisa bacana que aconteceu entre 62-66 na Califórnia. Pra quem estava por lá levando pé na bunda. Desde a era mesozóica que a humanidade leva pé na bunda. Canções proféticas no disco novo do Karnak. Respira fundo que o fim do mundo o profeta Nostradamus errou: desespero mexeu no vespeiro na corda bamba no meio do samba o couro do pandeiro rasgou.

karnak fóssil
pro vicente cantar

Canções para reafirmar a nossa independência, mesmo que torta, mesmo que boicotada por nossa elite chinelona. Cumbia canção para um arrombado que se depender da maioria da nação, do voto do careca, e apesar do voto do fu fux we tramp, nunca mais vai sair de casa ou da cela. Pero no Jair! Dos Hits Medo e Delírio e La Cumbia Artificial e eu me pergunto porque isto não toca no rádio. Canções para pré-adolescentes descobrirem o mundo no mesmo 1975 da revolução moçambicana. Canções entre o pop e o progressivo. Canções carregadas de climas cinematográficos, que mudam de andamento quando menos se espera. School, uma das faixas de Crime of the Century do Supertramp tem tudo isto. Canções abusadas de nossa cantoras mais desatinada, desbocada, exagerada, e escancaradamente romântica. Cantoras abusadas e românticas sempre partem em desassosego. Mas o mal-estar é nosso, porque ela fez o que tinha que ser feito. Muito antes das paradas, muito antes da militância, muito antes da causa, ela já deixava claro pra todo mundo qual era a dela. Como eu gosto de gente assim. Como Angela foi foda! Como ouvi até gastar seu primeiro disco, que além de tudo, tinha os arranjos e o piano de Antônio Adolfo. No verão de 1980 eu tive uma namorada que sabia cantar todas as músicas…Como é bom fazer a festa Ao invés de pela fresta Ver a vida se esvaindo sem viver Já comprei um camarote Sem penetra sem calote Vou sentar e assistir você me ver Você vai suar, vai se derreter Você vai lembrar do que quer esquecer Para de coçar, de se arrepender Abre o coração, faz o sol nascer…Angela foi nossa Janis sem deixar de ser Angela Maria e sem deixar de ser ela mesma.

sonhando em 75
flo & eddie

Canções bem cantadas, bem arranjadas e bem humoradas até quando são levemente tristes. Mark Volman sabia fazer e cantar uma canção pop. Feliz nos Turtles, feliz com Flo & Eddie e feliz fazendo vocais para Frank Zappa e Marc Bolan. Volman viveu feliz, mas partiu sem memória e incapaz de se mexer. A decrepitude é mesmo uma merda. Canções pro Vicente que fez 8 cantar na escola, em casa e no carro. Canções pra ele pedir pra tocar no Som a Pino da Roberta Martinelli, pra ele dizer que é o irmão do Antonio e isto pra ele, é cartão de apresentação, salve salve Roberta, ele sabe o que pede: As Mariposas, do Adoniran Barbosa e sabe cantar toda a letra que diz que As mariposa quando chega o frio Fica dando vorta em vorta da lâmpida pra si isquentá Elas roda, roda, roda e dispois se senta Em cima do prato da lâmpida pra descansá e depois tem Martinho da Vila e Novos Baianos, com plim plim, meu laiáraiá, ensinando pra moçada qual é a hierarquia no terreiro e porque fala o tamborim. Canções de trens, bondes e elevadores descaralhados e descarrilhados. Canções para mandar privatizadores pra casa do caralho. Meu amigo Luis Marcelo Mendes ouvia Rádio Macau em seus dias de lisboeta e provavelmente também subia e descia no elevador da Glória. Eu só dei um rolê rápido por lá em 2013, em dias tenebrosos da troika. No link a fala de uma moça portuguesa com certeza (infame, eu sei) que não deixa sobrar nenhum escudo. Serve em parte, pro lado de cá também. A direita privatista é uma praga universal. Com o bozo em cana, vão apostar as fichas no sub-bozo que governa São Paulo. A fantasia de moderado sensato já foi pras picas e não vai ter jantarzinho romântico com Luciano Huck que resolva. Eles vão ter que gastar muita pomada minancora pra disfarçar a ultrafarma, as fintechs, o pcc, a pedagiaria desenfreada, as escolas militares e outras patifarias…

Little Simz & Obongjayar e a matadora point and Kill

Aliás, esta semana, trem saiu dos trilhos na linha amarela privatizada do metrô sp. Mas o bonde da corda segue se equilibrando com Little Simz & Obongjayar, Anelis Assumpção e Karina Buhr, Chemise, Tabitha Meeks, Jean Durand e Wire. Também segue com uma canção em compasso 5/4 numa versão cantada de Take Five, com Carmen McRae e o quarteto de Dave Brubeck. Canções psicoprogdélicas como A Song For Jeffrey, que saiu no primeiro disco do Jethro Tull em 68. Em 72, com a banda já famosa, rolou um álbum de extras e remixagens, com ótimo nome: Living in the Past. Avante com Quicksilver Messenger Service, Os Brazões, Freddy Trujillo, uma do single novo do Stereolab, canções cubanas com Ry Cooder em dupla com Manuel Galbán e canções pra lembrar do Chile de Allende com Inti-Illimani, canções de novos moçambiques com Lenna Bahule, acmpanhada de um figura com a alcunha de Umberto Echo e depois uma sequência pra dançar com Sandra de Sá, Tim Maia, The Meters (chorei contigo!) Average White Band, Kokoroko, Boncana Maiga, Claudette Soares, Toinho Melodia, El Efecto, Os Inocentes, Bezerra da Silva, Megan Hilty, Father of Peace (que ainda não sei se acho bom ou uma bomba), sshhhhhh e rola um sossego com Ella Fitzgerald & Louis Armstrong, um aboio com Toinho Melodia, uma canção modelo festival com Betinho e voltamos pro balaco com ? & The Mysterians, The Bambi Molesters, Marku Ribas, Dorothy Moore, Nucleus, Tom Browne, Carmen McRae bisando, Esperanza Spalding, Miss Lene (se Ro Ro era desbocada, Miss Lene era da turma da saliência) e baixamos a bola novamente com Tavinho Moura e Fernando Brandt, Criolo, Ceatano Veloso com a participação de Ro Ro na harmônica, Victor Jara, canções para nunca esquecermos do horror do golpe chileno e de todos os golpes, Angela Maria e Angela Ro Ro, o bis do Supertramp, de Flo & Eddie, os futuros amantes do Chico Buarque, já que eu falei dela lá em cima e um coro feminino moçambicano pra fechar a parada. 3 horas e meia pra ouvir ao longo do final de semana. Aproveitem e passem adiante!

LINKS! LINKS! E MAIS LINKS!

a careca do karnal tem débito automático:

a nossa finitude na mesa:

mountainhead:

elefantes na neblina: é só clicar na palavra que chega no link

a havaiana do museu do ipiranga tem a tira presa com um prego:

porquinho da paulista espetado:

count five em ação:

a culpa é da mentalidade portuguesa, mas é também e principalmente, da privatização dona maria castello branco:

isto é sensacional!

e um mundo melhor com debbie harry no muppet show:

e a playlist # 139!