na corda bamba 183 conversa com jessé souza sobre  imperialismo, jornalismo e outras cafonices

Foi pelas redes que conheci o trabalho de Jessé Souza. Gosto dos títulos de seus livros, bombásticos, na mesma escola do historiador Hélio Silva e muito longe dos idiotas da objetividade: A tolice da inteligência brasileira: ou como o país se deixa manipular pela elite, A Elite do Atraso: Da Escravidão à Lava Jato, A radiografia do Golpe: Entenda como e por que você foi enganado, Como o racismo criou o Brasil. Em suas postagens e comentários, Jessé alerta para o ululante, para a verdade que a mídia sempre se recusa a mostrar. Assim que a pilantragem sacramentou o golpe contra Dilma, pediu demissão do cargo de presidente do IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas) e foi cuidar da vida. Em sua análise sobre a estrutura de classes do patropi, ele coloca a elite dos proprietários e a ralé dos novos escravos nas duas extremidades. No meio a classe-média e a classe dos batalhadores, uma turma heterogênea que abriga precarizados, empreendedores e gente como eu, com um pé na medianeira e outro na cova rasa. Alguém contesta? Não tenho tarimba pra defender todas as teses sociológicas que o Jessé defende. Ele faz críticas pesadas à diversas vacas sagradas da inteligência brasileira em pontos em que eu só arranho a casca. Mas num país onde quem faz a biografia do patrão é rei e quem critíca a mídia é cafona, então, tô junto com ele na cafonice. Seu livro novo Por que a esquerda morreu, e o que devemos fazer para ressuscitá-la é uma bela radiografia do momento boco-moco que estamos vivendo. Como diria o Ibrahim Sued, ademã e vamos em frente. Abaixo, a entrevista com Jessé. Mais embaixo, uma sessão de psicanálise jornalística. E mais embaixo ainda, os links e a sensacional playlist de Na Corda Bamba. E não se esqueça: você pode assinar este blog super-ponto chic-sofisticado-cool-hype-é uma brasa mora nos botões vermelhos lá de baixo ou apoiar com qualquer valor na chave pix fabpmaciel@maciel.com

E antes de tudo, os sinceros agradecimentos aos amigos que seguem por aqui como o Miguel Pachá, Daniel Tucci, Mariana Rodrigues e Salvatore Vicari e aos que acabaram de chegar junto na corda: Lucio Agra, Renato Silva e Rosana Paulino. A imagem da capa é uma litografia de Robert Rauschenberg, people for the american way, feita em 1991. Não se esqueçam: mesmo com toda a muquiranagem destes tempos, bolso está na Papudinha.

Saravá!

rádio rebelde, cuba, 2004, foto: fabiano maciel

FM: Jessé, o imperialismo é cafona? É, o imperialismo é uma doença, é uma desgraça, né? O imperialismo associado umbilicalmente ao capitalismo, as relações imperialistas, evitam que se tenha paz universal, que se tenha respeito pelos outros seres humanos, ou seja, todos os sonhos criados pela parte boa da civilização ocidental. Para mim é o principal problema. E a gente nunca mais tocou nessas coisas. Isso foi o tema principal para a derrubada de Jango: a remessa de lucro. Nem foi a reforma agrária, foi a remessa de lucros que fez os Estados Unidos decidirem intervir. Ou seja, era um tema considerado fundamental naquela época, Getúlio Vargas, Brizola, Jango, etc. Depois isso foi esquecido, foi naturalizado e a gente se naturalizou como servo, como colonizado.

Jessé Souza fala e gesticula.

FM: O que é mais perigoso: o imperialismo cafona ou a nossa imprensa cafona? A imprensa é o principal empecílho à democracia no Brasil, muito especialmente nos últimos 100 anos. É uma imprensa privada na mão da mesma elite, da elite que saqueia todo mundo e que usa a imprensa como o seu poder simbólico, como a sua forma de exercer a violência simbólica sobre o povo. Basicamente imbecilizando o povo, imbecilizando tanto a classe média quanto os pobres. Ela não toca em nenhuma questão efetivamente importante, não contribui para o debate público porque não há opiniões que se contradigam. E se você não tem opiniões que se contradigam, você não pode montar sua própria opinião.

FM: Onde que a esquerda errou,  já que sempre tentam colocar a culpa na esquerda… Eu acho que a esquerda ela tem fracassos sim. E é incrível porque eu pus esse título (Por que a esquerda morreu) e esse título não tá vendendo tanto e tem muita gente reclamando com o fato, como se eu estivesse performaticamente acabando com a esquerda.  Eu  deveria ter pensado nisso, né? Ou seja, os seres humanos evitam as coisas que lhe são… poxa, eu tô querendo dizer que a gente tem que fazer uma discussão, cassete! Entende? A gente precisa compreender o que tá acontecendo. No fundo você tem aí uma vingança dos super ricos, que eu procuro descrever no livro. Uma estratégia tão bem sucedida que deixou a esquerda impotente. A gente tava conversando sobre a imprensa. Aonde tá na esquerda brasileira a pauta de se ter um sistema público de mídia? Em nenhum lugar. Nunca houve nenhuma política, nunca houve nenhuma proposta. Se você é de esquerda e você não faz uma proposta em relação a isso, você é no mínimo burro, né? Era isso que você deveria estar fazendo em primeiro lugar, qualquer outra coisa é secundária. Então eu acho que é uma esquerda capenga, que não se pensa, não se autocritica, não no sentido que a burguesia quer que haja autocrítica, isso é bobagem, né? Falta orientação, objetivo, quem são os inimigos a serem derrotados, entende? A esquerda normalmente está na defensiva, mas o fato de estar na defensiva não significa que você não possa  ir tentando convencer o povo. Para mim, sem o esclarecimento popular não existe esquerda.

FM: Na Itália tem o L’Unità, na França o Libération,  eu digo sempre que a nossa intelectualidade sofre uma síndrome de Estocolmo, ela não consegue se libertar da Folha de São Paulo, do Globo ou dos jornalões da direita. E todas as tentativas, as poucas tentativas de se ter um jornal de oposição no Brasil fracassaram, tirando os jornais alternativos na década de 70 e a Última Hora porque o Getúlio bancou a briga. É extremamente defensável que você tenha várias opiniões e tal. Mas por que ter opinião só do capital ? O trabalho tinha que ter uma opinião também, por exemplo. E aí você pergunta: “Ah, não tem mais nada, não tem mais sindicalismo, não tem mais teologia da libertação…” Claro, deixou-se que durante 30 anos a opinião da própria elite fosse a única considerada nesse país, em todos os lugares, né? Como poderia ser diferente? O quadro é muito complicado e a esquerda, ela não apenas não tem os meios, a mídia, jornais, rádios, etc. Mas isso não significa nada sem uma ideia para para ser veiculada nesses veículos. Para que você vai fazer uma televisão se você não tem uma ideia do que você quer tornar palatável pro público, percebe? Os seres humanos precisam ter compreensão sobre o que é a vida. De onde ele vem, quem ele é, para onde ele vai. E quem oferece o esclarecimento para estas questões? Nossos intelectuais. Mas 90% dos nossos intelectuais são elitistas. Repaginam o racismo fingindo que são críticos sociais. Isso que me dá raiva…

Você precisa ter uma ideia, normalmente é a identidade nacional que dá esse mapa para as pessoas. Antes eram as religiões, hoje em dia, a identidade nacional. Quem foi que construiu a identidade nacional vigente até hoje? Sérgio Buarque. Ele deu tudo que elite de São Paulo e a classe média branca precisava para discriminar os mesmos que eram discriminados antes pelo racismo, sem precisar utilizar a palavra raça. É isso que ele fez. Ele usou a cultura. Mas a cultura vai ser dos pretos, dos mestiços e ela vai ter o mesmo papel que o racismo teve. E aí o PT, imagina: a sala do PT na Perseu Abramo é Sérgio Buarque. Se confunde ideia e pessoa o tempo inteiro no nosso país, que é uma das nossas doenças, entendeu? Mas porque ele assinou lá em 1980 a ata de fundação do PT aí ele vira um cara de esquerda e isso é de uma babaquice inominável. O que importa são as ideias e as ideias que ele montou que  legitimam a cultura de golpe de estado há 100 anos. É a mesma coisa. Se tem um líder popular que chega ao poder pelo sufrágio universal, aí você junta a sua própria imprensa e diz: “Olha, esse cara é corrupto. Foi eleito por corrupto, porque ele já tinha dito que o povo era corrupto, né?

raízes do brasil na berlinda

FM: Quando você diz isso do Sérgio, você tá falando, por exemplo, do Raízes do Brasil, do trecho do homem cordial, daquela coisa do brasileiro ser dado ao compadrismo e das relações familiares, a família como um clã, onde dentro desse clã tudo seria permitido? Você acha que quando o  Sérgio apontou isso, ele estava abençoando como uma boa característica e não fazendo uma crítica? Óbvio que não. O que eu tô querendo dizer é que o argumento dele é uma bobagem completa, é uma fraude. O povo inteiro, 220 milhões de pessoas acreditam até hoje nessa bobagem. Mas isso não faz com que ela seja verdadeira. Uma vez a revista Cult fez uma pergunta a 30 intelectuais de todas as tendências: Qual é o grande problema do Brasil? Todos eles, inclusive gente de esquerda que eu admiro, responderam: A confusão entre o público e o privado. No Brasil reina a confusão entre o público e o privado. Aí eu te pergunto Fabiano: Onde é que isto não acontece?  O que é o capitalismo, senão a privatização do que é público em todos os lugares, em todas as épocas? Este conceito  imbecilizou as pessoas. Antes elas eram racialmente menores. Agora, elas são moralmente menores. É uma ideia que legitima o imperialismo, a dominação. Claro, se você reduz o cara a merda, a esgoto e tal, ele não vai reagir, não vai ter capacidade de reação. E o Sérgio conseguiu convencer que aqui existe um povo de ladrões inconfiáveis e que você tem outros povos que são honestos, obviamente ele estava se referindo ao povo norte-americano, porque eles não separam o mundo entre amigos e inimigos. Eu morei 15 anos fora do Brasil e nunca vi ninguém, em nenhum país não separar o mundo entre amigos e inimigos, porra! Mas somos tão imbecilizados, que começamos a achar que existem seres humanos especiais e tal, morais, honestos, inteligentes, bonitos e tal.

FM: Essas comparações entre os Estados Unidos e o Brasil, entre a colonização protestante e a católica, com o sangue latino do português como um sangue ruim, de uma raça inferior. o Viana Moog escreveu Bandeirantes e Pioneiros… O Viana faz uma crítica a isso. A gente sempre teve americanistas, tinha o Partido Republicano Paulista, que defendia que o Brasil tinha que se tornar como os Estados Unidos, ser liberal, ter poder local. O que era o poder local naquela época? Era o poder do senhor de terra e gente. O termo americanismo sempre foi uma grande obsessão dos pensadores brasileiros. Eu não conheço nenhum que não tenha feito uma comparação implícita ou explícita com os Estados Unidos. Gilberto Freire, Sérgio Buarque, Viana Moog que você citou… E você monta essa ideia que São Paulo vai se aproveitar, vai se legitimar. A única elite que realmente importa entre nós é a elite de São Paulo. O resto é bobagem. Porque ela se construiu como elite. Como ela se construiu como elite? Ela construiu fundações, instituições, para que isso acontecesse. O Instituto Histórico Geográfico de São Paulo, 1894, foi montado para quê? Para pegar o bandeirante matador de índios e transformá-lo em quê? No protestante ascético e asséptico americano. O cara da iniciativa, do trabalho, que não precisa do estado. Ou seja, uma fraude de novo, lixo cientificamente e politicamente também. Mas isso passou a ser ensinado em São Paulo e o país acreditou em grande medida. Depois esta elite funda a USP em 1934 para continuar o trabalho. Obviamente tem gente legal na USP. Mas ela foi montada para ser uma usina de ideias elitistas.

o americano bonzinho e imperialista domina a cafona ilha de cuba

FM: A USP foi fundada com campanha promovida pela família Mesquita, para formar dirigentes depois da derrota de 32. Foi um projeto pensado e muito bem sucedido, porque quarenta e tantos anos depois eles elegeram o presidente que iria vingar o vovô derrotado. Se você pensar, eles fizeram todos, porque a ideia que eles vão construir vai estar dentro da cabeça dos seus inimigos também. O PT entra como partido da ética na política, lembra disso? Nos anos 90 o PT pegou o veneno que a elite construiu. Esse tema da corrupção é uma idiotice. Ele não tem menor sentido. Ele é só para humilhar o povo, as lideranças populares, estigmatizar o Estado e a política. Quem define o que é corrupção entre entre nós nunca foi um juiz, um tribunal, um processo com contraditório. Nunca, jamais. Foi sempre o quê? A mídia, a imprensa da própria elite que tá dando o golpe, que escandaliza e diz que aquela pessoa é corrupta e tal. O tema da corrupção é o nosso calcanhar de Aquiles.

são paulo, anos 30. foto de claude lévy-strauss, instituto moreira salles

FM: É onde a classe média sempre embarca. Porque no fundo é um acordo racial, aliás, é um acordo racista. Porque quando Sérgio Buarque diz em 36 que o povo inteiro é ladrão, corrupto, inconfiável… Ou seja, ele volta a ser a lata de lixo da história. Antes de 1930 era por conta da raça que o país se via como lixo. Aí chega Vargas e monta uma primeira identidade nacional que vai ser inclusiva, a partir da contribuição do negro. Aí você afirma a negritude como o pilar da nossa identidade e ela é africana.

FM: Mas domesticado, com contradições, a era Vargas afirma e nega. Sem dúvida.  Mas ao mesmo tempo isso foi tão importante que interditou o racismo explícito. Ou seja, a partir daí você não pode mais usar a raça como elemento óbvio, ah você é um negro de merda e tal…Tem um anúncio do Diário de Pernambuco, é de 1910, 1913, de um sujeito procurando empregada doméstica. Sabe o que diz o texto? “Eu tô procurando uma negrinha para os serviços de casa e que não tenha ainda esquecido como é que se tira leite de pau”. Isso é racismo explícito, né? Só idiotas acham que racismo explícito é melhor do que esse, que é envergonhado. Enfim, Getúlio vai interditar esse racismo explícito, vai criar com isso o racismo cordial brasileiro, e isto vai implicar o quê? Que a elite precisou inventar uma nova coisa para botar esse povo no lixo, porque o voto dele não pode valer. A elite precisa  ter o comando do estado. Sem o comando do estado, a elite não organiza o saque da população, o roubo, E como você vai garantir a posse do estado? Você tem que criar um estigma que não pode mais ser racial, que vai ser cultural. Você vai dizer então que é um povo corrupto. Já a classe média branca que não tem acesso ao estado diretamente, ela quer o quê? Ela quer monopolizar o capital cultural legítimo dos bons empregos. Para isso, ela não pode ter a concorrência dos mestiços, pretos e pobres embaixo dela. Existe um bloco de poder no nosso país racista, amalgamada pelo racismo, que é entre a elite que rouba todo mundo e a classe média branca que organiza esse assalto para o resto da população. E aí quem é tido como corrupto, quem é? É o preto, o mestiço e o pobre. Então você finge que tem sufrágio universal, finge que tem democracia, mas ela nunca vinga, Porque você tem esse dispositivo na mão.

FM: Mas você não acha que comparado com a elite que temos hoje, essa elite uspiana do café, ela ainda tinha um verniz humanista, davam alguma importância pra cultura. A elite de hoje tá pouco se lixando para qualquer resquício dessas conquistas. Eu acho que a elite brasileira foi canalha o tempo todo. Agora, efetivamente há uma diferença entre a elite do capitalismo industrial, que ficou até 1990 aqui no poder, para a elite financeira. A fração industrial da burguesia ela é a mais racional entre os capitalistas. Por quê? Pra produzir alguma coisa, você tem que vender. Para você vender, precisa ter gente que possa comprar. É a única fração que pensa a longo prazo. As outras são todas de curto prazo. Eu  quero o meu agora e tal. A financeira tem só o ladrão. Há uma degradação do poder com o capitalismo financeiro, até porque é tudo é tudo mentira, né? Ele precisa de uma imprensa amiga. A dívida pública, por exemplo. Que porra de dívida pública é essa? Alguém já fez alguma auditoria? Getúlio fez e descobriu que 60% dos títulos eram fraudados. Você tem alguma dúvida de que 90% da nossa dívida não é fraude?  É tudo roubo. É crime organizado.  O capitalismo financeiro tá montado num grande esquema de corrupção e evasão de rendas de um planeta inteiro. Não importa se o dinheiro é lícito ou ilícito. Isso vai depois entrar pro capital financeiro americano.  Para isso você precisa ter a imprensa, comprar a imprensa, comprar cultura, etc.

debret, família brasileira no rio de janeiro, 1839

FM: Você tá se desenvolvendo junto com o Renato Barbieri a série Como o racismo moldou o Brasil? A gente ainda não se livrou da escravidão e nem de Canudos. Canudos é exatamente o que acontece a cada dia em todas as favelas desse país. Aquela chacina lá do Rio de Janeiro, qual é a diferença dela para Canudos? Nenhuma. Eu acho a discussão sobre racismo entre nós pobre. Porque ela é toda montada a partir desse identitarismo neoliberal americano. Para compreender como o racismo funciona a gente precisa ver as máscaras dele. Ninguém define racismo. O que é racismo? Qual é o mecanismo? O que eu aprendi é que racismo é a desumanização do outro. Você só consegue dominar alguém quando você  o convence de que ele é inferior. Quando ele não acredita mais nisso, ele já não é o oprimido, ele já tá lutando pela sua libertação. A crítica que eu faço é ao identitarismo neoliberal, aquele que é baseado na ascensão pessoal de alguns poucos negros e de algumas poucas mulheres para ocupar os lugares dos homens brancos. Esse tipo de identitarismo é uma fraude, ele está dizendo para o negro que tá ali na favela, olha, você tá  aí porque você deu mole…olha o teu irmão aqui. Como se a única separação fosse branco, preto, homem e mulher e não houvesse mais rico e pobre.

família brasileira, anos 70

FM: Fale um pouco da tua história, família, etc. Eu nasci em Natal, sou sou filho de uma retirante e o meu pai era sargento do exército. Um tio, irmão da minha mãe, ficou rico e de algum modo ajudou a família. Mas a gente sempre teve altos e baixos, principalmente mais tarde, em São Paulo, com meu pai desempregado. Não cheguei a passar fome, mas cheguei perto disso. Meu pai sempre lia muito. Eu peguei o hábito de leitura com ele. Nós éramos muito próximos e com 8 anos eu tava lendo livros que ninguém me obrigava a ler. Eu não era bom aluno na escola, mas eu lia muito em casa. Então, meu pai me deu o principal. E a minha mãe, que sempre foi uma mulher muito corajosa, determinada e tudo. Meus pais, apesar de todas as dificuldades, foram exemplos magníficos para mim.

FM: Ainda é possível ainda ser otimista? Eu não sei quanto tempo isso vai demorar, mas obviamente o que nos aguarda é uma sociedade não democrática, autoritária e tal. Tivemos a juventude mais inteligente de todas as épocas depois da Segunda Guerra Mundial, porque se universalizou a educação de alta qualidade e se criou uma mídia pública. E foi essa geração que construiu tudo que a gente tente hoje, libertação das mulheres, ambientalismo, anti-imperialismo. Não tem uma luta que não tenha sido construída por essa geração que viveu até a década de 70. Então os super ricos pensaram, a gente tem que se livrar desse pessoal. O nosso inimigo não é mais o comunismo. O nosso são os nossos filhos. É isso que os capitalistas pensavam. Então vamos imbecilizar esse povo. Vamos transformar essa gente em um bando de imbecis que vão se odiar mutuamente e a gente vai ficar cada vez mais rico. Esse é o mundo que vivemos hoje.

baby bye´bye, abraços na mãe e no pai

jornalismo, interpretação de sonhos e psicanálise freudiana na mesa do guimas: o caso de merval e o bilal presidencial

Aquela foi uma madrugada tensa para o imortal presidente da Academia Brasileira de Letras. Ele acordou 4 vezes com o travesseiro molhado de suor e o pijama encharcado no peito. Não conseguia tirar de sua mente a imagem do presidente Lula vestindo apenas uma sunga e andando feliz pelas areias escaldantes da restinga da Marambaia. Quanto mais pensava no volume presidencial, mais o sono lhe fugia. A sunga era uma questão política e estética nacional! Era um atentado ao bom gosto helênico ocidental. Uma demonstração de odorico, uma matacobramostraopauísse sem limites. Como diria sua amiga Mariliz, era uma cafonice. A sunga voava por sua mente sem dar descanso. Tentou os recursos de mindfulness que aprendeu com a Renata Vasconcellos, mas quanto mais esforço fazia para se desconectar da cena, mais confusa a sua mente ficava. Os sinônimos para o mau-gosto metalúrgico surgiam como os riscos no papel de um eletroencefalograma: xangai, boco-moco, brega, jacu, chinelão e se misturavam com os números das pesquisas que apontavam a vitória do barbudo em qualquer cenário. No meio dos números, o rosto frankestônico esburacado do ciou Tarcisio, que não subia nem com peeling e nem com boquete de urna. Lembrava de Flávio, o parvo, e de Michelle, a porcina da papudinha…Do fantasma do Banco Master, da água batendo na bunda do Moro e da água batendo gostosinha e suave nos pés do presidente…Lembrou que sua amiga Vera tinha rodado no Roda Viva e, impotente, tomou mais algumas pílulas de Zolpidem. Mas antes do efeito bater, pensou que

a vida dos jornalistas lavajatistas é mesmo uma roda viva

e Vera não fez verão, pois como Merval bem sabe, pra direita não existe meio termo, nem meio quilo e nem meia sola. Ou se é ou não se é. Ou não é cpisa de velosos. E no fim, sua grande aliada na babação ao enxadrista de Maringá rodou viva. Ou não. Por sorte, as bolinhas começaram a fazer efeito e o acadêmico bocejou aliviado com a pesquisa que o site de seu brother in arms Pedrinho Margarina estava prestes a lança naquela manhã. Uma pesquisa feita

de meio de olho, de meio de furico,

daquelas que os números saem a dedo da terceira olhota e onde qualquer ser mediano pode interpretar sem meia culpa nenhuma qualquer número com meio ponto pra cima ou meio ponto pra baixo, afinal, no jornalismo de meias medidas e meias verdades, tudo acaba com cu no meio e o meio fica demi-bombê pega na mentira, igual a reportagem do Brasil Paralelo. Curiosamente, naquela noite, Merval leu que

Von Daniken tinha ido pro espaço

o 171 dos deuses astronautas foi um dos primeiros grandes cascateiros da era da comunicação de massa. Os bigodes mervalinos não conseguiam deixar de admirar a capacidade daquele suíço de vender teorias tortas como se fossem verdades absolutas. Daniken fez durante uma década o que seus colegas do jornalismo econômico fazem diariamente. Vendem mentiras como se fossem verdades. E assim, Merval, cheio de mágoa e melancolia, mas sem mea culpa, finalmente conseguiu dormir, na posição em que Napoleão perdeu a guerra.

manchetes edificantes da morolândia

Homem faz música no Paraná xingando a irmã, canta composição tocando violão próximo à casa dela, e caso acaba na polícia (em Apucarana) via G1

De acordo com o boletim de ocorrência, os dois irmãos moram em casas que estão no mesmo quintal. Primeiro, os dois acionaram a PM para resolver uma briga motivada pelo som alto que o homem estava ouvindo. Na ocasião, eles optaram por não ter representação e os policiais militares deixaram o local. Entretanto, na segunda ocorrência, a PM voltou ao endereço às 21h25 porque a irmã relatou que estava sofrendo injúria – quando algo ofende a dignidade da pessoa. Consta na declaração que o homem pegou um violão e passou a cantar a música que inventou. A letra, conforme a PM, possuía xingamentos contra a mulher e supostos relacionamentos que ela teve. A PM confeccionou um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO) – registro de uma infração considerada de menor potencial ofensivo – e os irmãos foram liberados.

a solitária de erexim e o trilheiro do paraná

Me bateu uma tremenda melancolia lendo as notícias sobre a gaúcha que foi pro aeroporto de Erexim esperar o Brad Pitt. Não consegui rir dos memes, e saibam, eu consigo separar as merdas, mas neste caso não rolou. Só consegui ver solidão, desamparo e tristeza. Fiquei pensando na relação dela com o filho, na chatice que deve ser segurar a onda de uma vidinha ordinária…Diferente da façanha extraordinária do trilheiro perdido nas matas paranaenses. O que não faz um guri de 19 anos pra dar um psirico. Se deu mal, juvenal, a moça não queria nada contigo, deu um perdido e ficou horas dando entrevistas com cara de sonsa, sem perceber a gravidade da jogada, onde caso desse merda, ela seria a primeira suspeita. É claro que não era, pra sorte de todos e pro azar dos produtores de true crime. No fim da aventura, Tomaz aprendeu que é mais fácil sobreviver na selva do que dar uma birimbada na mata.

manuel carlos se foi e o leblon foi antes dele

Fui durante quase dez anos um lebloniano. Não por méritos próprios, mas estava lá. Sem ser de lá. Foi no tempo em que parte da classe média conseguia frequentar a ilha da fantasia. Ainda tinha a Cobal, o Chico trabalhava no Bracarense, o Luna ainda não tinha fechado e o Jobi era tão marginal que as meninas do Real Astória só entravam ali acompanhadas ou pra comprar cigarros. De dia era fácil cruzar com Alceu Valença, Geraldo Azevedo, João Ubaldo e outras figuras. De vez em quando rolava uma conversa furada. Aos poucos o bairro foi mudando. O Polis Sucos parou de fazer o Popaye Burger e o Geraldo, o melhor balconista, foi montar seu boteco em Copa. O Luna, o Real Astória, a padaria Rio Lisboa e a Pizzaria Guanabara fecharam. A Cobal foi fechada e sobrou o Jobi reformado. Aquele bar que era um território de todos foi sendo tomado por hordas pré-bozozóicas, com a migração de boa parte dos pleibas do Clipper e com a visita no final de semana de deserdados ressentidos pela gentrificação. Ainda era um bairro onde todos conheciam o dono da papelaria, a gerente do banco, o jornaleiro, o flanelinha. Parei de bater ponto quando entrou na moda tomar café da manhã no Talho Capixaba. O Leblon do Manoel Carlos eu não frequentei. Vi pouco e de longe. Sei que era cheio de Helenas e que músicos e professores públicos conseguiam viver bem por lá. Eu só lembro é da paródia do Casseta & Planeta, com Reinaldo Figueiredo imitando o Tony Ramos.

stranger things comprova que a música que era boa nos anos 80 segue sendo boa. e a que era ruim também.

Quando a série estreou eu não embarquei. Aproveitei o interesse dos meninos e maratonei com o botão de fast-forward. É uma espécie de Goonies-Gremlins-ET-Rambo juntos e mixturados. Podia ter durado 2 temporadas. A personagem da 11 é mesmo incrível e o final não me incomodou. Pouca gente sabe, mas os soviéticos tinham mesmo dentro da KGB um departamento do que eles chamavam de psicotrônica, onde investigavam o poder da mente, a telepatia e outras paranormalidades. Que falta que faz um pai de santo e uns bons despachos naquelas encruzilhadas.

LINKS! LINKS! E MAIS LINKS!

leiam:

Raiz: Arte Afro-Brasileira Contemporânea, série que dirigi com a curadoria de Rosana Paulino segue no Canal Curta! Esta semana com o episódio do choque de monstro Ayrson Heráclito.

um vídeo de gatinhos fofinhos

jazz cubano moderno:

socorro!

jorge benjor, assim como muita gente boa leu eram os deuses astronautas.

Errare Humanum Est. no vídeo, a versão de Leandro Léo:

costello & chet:

fagner e rey

Meu amigo de fé, super irmão camarada Reynaldo Zangrandi foi no programa do Mion. É uma história pra lá de bacanuda. No começo dos anos 70, Reynaldo pai conheceu na praia uma turma de jovens músicos cearenses, todos duros e tentando a sorte na cidade do Rio de Janeiro. E assim começou uma amizade regada a saraus com o pessoal do Ceará no apartamento do Zangrandi no Arpoador. Meu amigo Rey e seu irmão Flávio eram guris, sete, seis anos, davam boa noite pro Raimundo e pro Belchior e iam dormir. Seu Reynaldo subiu muito antes do que deveria. Mas deixou junto com a dona Cássia uma dupla de amigos da pesada.

https://globoplay.globo.com/v/14160030/

carmen costa canta casinha na marambaia

mulheres recauchutadas:

na playlist # 157

um dos top lords do calipso
les rita pavone
marta del grande

Uma corda que abre com sabiá melancolia na semana em que Luisa Sonsa resolveu cantar a bossa. A francesa Francoise Hardy canta Chico e Tom. Logo depois tem Roberta Flack e Donny Hattaway num duo sofrência soul e pra acabar com o melê, entra a Duquesa mandando um papo reto pra enquadrar qualquer caozeiro romântico. Tem disco novo de Totonho e os Cabra. O bamba da Paraíba quando aparece é sempre com muita chinfra e muita bacanidade. Bob Weir em dose dupla nesta corda, porque o cara subiu e porque ele foi junto com Jerry Garcia, a voz do Grateful Dead. Dobradinha rockarolla com Sister Rosetta Tharpe e Junior Welles, e depois clube do balanço com João Selva, Seu Jorge e Almaz, Djavan, The Style Council (faixa que ficou de fora de Cafe Bleu), a espetacular Ana Frango Elétrico, o supremo Curtis Mayfield, o bom de groove Carlos Dafé e Rikas, um banda de jovens bons moços que fazem boas versões de rifs setentistas. No caso, last train to london, da Electric Light Orchestra. O baile segue com Da Lata, o português Bruno Pernadas, o novaiorquino e dominicano Charlie Chimi, o baianíssimo Gordurinha pegando a barca da Cantareira e o septeto de funk-high life inglês Kokoroko. Avante com Lord Invader, uma das vozes do calipso da ilha de Trinidad e que fez sucesso com rum e coca-cola nos clubes americanos dos anos 50. Música nova de David Byrne e a descoberta da semana, a italiana Marta del Grandi que não perde tempo com lesco-lesco e nem com a farinha do desprezo que Jards Macalé cantou e decantou, a ponto de virar adjetivo pra turma do Les Rita Pavone, e uma sequência fora de ordem, desordenada e empanada na farinha do ecletismo: Labi Siffre, Hermeto Pascoal, Marion Rampal, Képa, Sérgio Sampaio, Steve Miller Band, Moraes Moreira, Jonas Sá, Roberto Carlos, os alemães da Die Stern, Os Fonsecas, Lucy Rose, O Terno, Dry Cleaning e a japonesa-australiana Elle Shimada. Mudança de giro com Julie Driscol e Brian Auger, Azimuth, um bis da Ana Frango Elétrico, a versão do autor de Tenho Sede, Dominguinhos (junto com Anastácia)é muito menos melancólica que a de Gil, e esta é a beleza do negócio, Dominguinhos não se aperreava. Gil quando quer, nos faz chorar. E chorem com Black Pumas, sequem as lagrimas com o bis de The Style Council, Curtis Mayfield e embarquem no trem dos Electric Prunes, no psicodelismo andino do Traffic Sound, e na viagem cósmica de Grateful Dead. Uma vinheta de Ana Frango Elétrico e na curva dos cem metros finais a inglesa Stacey Kent ataca de Pixinguinha e Braguinha com Carinhoso. Na corda Bamba é paz e amor. Mas gosta de mandar uma galerinha ralar nas ostras. LOVE!

elle shimada
gordurinha sofrendo na cantareira

e a playlist!