na corda bamba # 185 edição especial de 3º aniversário cheia de bacanidades e obscenidades

De vez em quando eu me pergunto por que insisto nesta barca, já que o dinheiro é curto, o trabalho é insano e ninguém está apontando uma arma contra o meu pescoço e dizendo: escreva ou morra! Sobram, então, teimosia, vaidade, (in)sanidade e claro, algum prazer. ### Nesta edição de terceiro ano balançando nas redes: Uma entrevista com Rafaela Simonato Citron, arquiteta brasileira radicada na Inglaterra, que incomoda alguns colegas de profissão, principalmente aqueles que rezam na cartilha de um passado imaginário perfeito, onde o mundo era branco, europeu, e onde o povão sabia o seu lugar. ### Uma análise superficial sobre Uma Batalha após a Outra e The Lowdown, nova série com Ethan Hawke, interpretando um escritor na corda bamba (fodido), dono de um sebo decadente, mas lúcido o bastante para perceber as tretas que rolam na alta sociedade de Tulsa, uma espécie de Cuiabá-Goiânia-Ribeirão Preto americana. ### Três playlists! Uma para dançar, outra pra namorar ou sofrer e uma última para brigar. Tem Antonio Carlos & Jocafi, Quincy Jones, Al Green, Cat Power, Gal Costa, Leci Brandão, Pio Lobato, Air, The Rolling Stones, Afroito, Beck, Bob Dylan, Joy Crookes e muitos outros nomes supimpas de ontem, anteontem e de amanhã. ### Como sempre, links para livros, filmes, vídeos sublimes, vídeos fofinhos e vídeos escrotinhos. ### A ilustração da capa, feita sem IA pelo choque de monstro Allan Sieber, não mostra minha atual pança e nem meus cabelos brancos. O resto é verdade. ### Na Corda Bamba, o blog de esquerda mais destrambelhado da nação está na rede. Aos amigos, conhecidos e desconhecidos que já estão por aqui, meus sinceros agradecimentos. Assinem nos botões vermelhos lá de baixo ou apoiem com qualquer valor na chave pix fabpmaciel@gmail.com Saravá!

revista de arquitetura 1935

A ficha caiu durante as filmagens de Quando o Brasil era Moderno,
entre o final de 2018 e 2021. O país tinha voltado quase um século no tempo. Alguém lá em cima, alguém muito perverso e sem nenhum senso de humor, pegou o botão de rewind e resetou o país em 1935, uma época onde ninguém tinha vergonha de ser nazi-fascista. Uma parte significativa da intelectualidade brasileira (eugenista e racista) se orgulhava de apoiar o integralismo, a versão local dos seguidores de Hitler e Mussolini. Todos cacarejavam o anauê: médicos, sanitaristas, engenheiros, escritores, poetas, educadores, religiosos e…arquitetos. Tudo estava em disputa: a educação, a arte, o pensamento e também o estilo dos prédios públicos que precisavam ser construídos. A briga não era só por mercado, sobre qual escritório ia pegar a obra. A briga era por um projeto de país. Muita gente boa achou que eu estava forçando a barra ao trazer para o presente estas disputas entre os arquitetos modernistas e os conservadores galinhas verdes do século 20. Peguei um controle remoto imaginário e fiquei um bom tempo brincando de ir e voltar do passado para o presente. Impossível não fazer as associações. Um exemplo: Em 2020 Trump baixou um decreto tornando obrigatório a arquitetura neoclássica nos novos prédios públicos americanos. Psicopatas gostam muito de colunas greco-romanas.

Por aqui, embalados pelo golpe contra Dilma, pela farsa da Lava Jato e com as bençãos da grande imprensa, os novos galinhas verdes perderam completamente a vergonha de ser e de viver em sociedade. Eles voltaram a soltar penas e a flanar pelas ruas, os velhos animais da floresta, em versão 4.0, programada para destruir tudo do pouco de civilização e igualdade que se conquistou no país nas duas últimas décadas. A prisão do capetão não foi o suficiente para desanimar a turma. 2026 é ano de eleição. A direita não tem candidato. O mercado não tem candidato. O agro não tem candidato. A grande imprensa não tem candidato. O cavalo deles é estragado de nascimento. Mas a briga vai ser de foice porque as forças do mal farão de tudo para impedir um novo governo Lula. E o que a arquitetura tem a ver com esta porra toda? Bem, se todas as múmias protonazis ressurgiram, porque não ressurgiriam também os ectoplasmas de Arquimedes Memória? Eu acho que gosto se discute e acho que novamente estamos disputando um projeto de vida, um projeto de sociedade. E o projeto da direita, tanto de sociedade, quanto estético é torpe, vil, elitista, fascista, retrógrado, equivocado e beira o ridículo. Alô, alô Camboriú, alô alô Tatuapé e Faria Lima também.

almoço festivo do partido nazista em porto alegre. foto: fgv cpdoc

Em 2025 Quando o Brasil era Moderno estreou nos cinemas, passou em dois festivais importantes e foi exibido em algumas faculdades de arquitetura do país, graças aos esforços de abnegados arquitetos-professores. Mas o debate ficou restrito à estes espaços. Um dia encontrei no instagram uma postagem que me chamou a atenção pelo título: O fascismo contra o modernismo. Uma fala certeira, precisa. Virei fã e passei a acompanhar os vídeos e comentários da Rafaela Simonato Citron na rede. Ela consegue de forma muito clara e elegante, colocar no chinelo todos os argumentos dos operadores de BIM da cafonalha direitosa. Começo agradecendo a Rafaela, pela entrevista e por suas postagens esclarecedoras.

Qual foi a sua primeira postagem que viralizou? Foi em janeiro de 2025, o Fascismo contra o Modernismo, que em apenas 3 dias teve 500 mil visualizações e 1200 comentários. Aí me ameaçaram de processo, um monte de gente veio encher o saco, eu arquivei. Não tinha noção do buraco que eu tava me metendo. Às vezes eu fico louca para fazer um react e tal, mas eu fico pensando se vale a dor de cabeça, porque essa gente é ruim. Existem grupos de zap onde as pessoas gastam tempo, entre outras coisas, me xingando. Postei novamente em novembro e fixei na página.

Por que esta fixação dos conservadores com o estilo neoclássico? Aqui na Inglaterra tem um filósofo conservador, o Roger Scruton que lançou, já tem uns 15 anos, um documentário chamado Why Beauty Mattters (Porque a beleza importa)…Ele defende a ideia de que o modernismo acabou com a beleza. Hitler também pensava assim, os nazistas criaram o termo arte degenerada…Mas eu não sabia que existia este movimento no Brasil, eu descobri isto ano passado, quando vi uma série do Brasil Paralelo, O Fim da Beleza…Os conservadores ficam nesta nostalgia de um passado estilizado, imaginando inclusive, que neste passado as coisas eram mais organizadas…

Um embate entre ordem e caos com uma discussão estética do que é beleza…como se o moderno negasse a ordem e a beleza. O neoclássico passa muito esta impressão do poder associado ao passado. O neoclástico como um ideal de beleza civilizatória e o modernismo como uma profanação desse processo civilizador. É. Eles acham, que o modernismo veio com essa ideia deliberada de fazer o feio, que não era mais para ser bonito, que o feio era proposital. É o que eles falam nas redes sociais. O Trump insiste muito que o modernismo é coisa de estrangeiro. Mas quem disse que o neoclássico nasceu nos Estados Unidos?

Os americanos chamam até hoje a arquitetura moderna de “estilo internacional” Esse ódio ao modernismo tem muito a ver com o fato de que pela primeira vez na história da arquitetura foram projetadas habitações para a classe operária. Não tinha isso antes, nenhum outro estilo fez isso. E obviamente, os pobres nunca moraram em casas neoclássicas.

detalhe do conjunto operário de realengo, projeto de carlos frederico ferreira 1940. foto: fgv

Não tem muito tempo, eu vi uma arquiteta no instagram vendendo seu peixe. Ela começou falando que não gostava da arquitetura do Niemeyer, com a velha cantilena da não funcionalidade, etc. Deixei rolando porque estava curioso de ver como aquilo ia terminar. E terminou com a moça dizendo que praticava uma “arquitetura afetiva”, com ela mostrando uma casa que ela projetou para uma família num condomínio. A casa era um cenário de Inglaterra século 17. 18, sei lá, com um chafariz com estátuas gregas no jardim…Poderia ser a casa do deputado Van Hatten ou da Júlia Zanatta, pessoas super afetivas... É aquela coisa casa de vó. Mas nem toda avó tinha uma casa assim,né? Aliás,quase nenhuma… O que é afetivo para uma pessoa, não vai ser pro outro. Muitos arquitetos que me seguem, me escrevem dizendo que eles não conseguem falar nada, porque precisam do cliente. E aí eles não conseguem nem se posicionar politicamente nem nada, porque eles precisam agradar todo mundo…As pessoas pedem, os arquitetos fazem. Eu não sei se a gente tem tanto poder assim, para ir contra o neoliberalismo. Tem essa galera mais conservadora, tradicionalista, de extrema direita, que tá querendo construir tudo neoclássico. E tem também os neoliberais, que estão super tomando conta do urbanismo, que estão dentro das prefeituras, mexendo em plano diretor, eliminando regras em lotes privados pra deixar o mercado construir o que quiser. Eu realmente não sei o que podemos fazer no meio disso.

arquitetura afetiva, nárnia, pomerânia, 2026

São Paulo, Maceió, Porto Alegre, são algumas cidades onde a trinca formada por prefeitos obtusos-vereadores toscos-mercado imobiliário venal, faz o que pode e o que não pode para modificar planos diretores e derrubar gabaritos. Além da privatização e terceirização do espaço urbano e público. Mas se quisermos ficar somente na estética, a arquitetura que esta trinca promove é péssima. Eu acho que em muitos casos não tem nem arquiteto nessas arquiteturas…Tem essa questão dos índices urbanísticos. Tem que ter tanto de recuo, tem que ter tanto de coeficiente de aproveitamento, uma matemática que qualquer um pega e já sabe a forma que aquele prédio vai ter. E aí os neoliberais, o mercado ficam lutando contra as regras, como se as regras fossem erradas. Eu acho exatamente o contrário. Que deveríamos ter muito mais regras e muito mais controle. Aqui em Londres, por exemplo, existe muito mais controle. Eles analisam fachadas, analisam materiais da fachada. Isso não existe no Brasil.

o matinal, jornal independente gaúcho, 29-01-26

Bem, a atual prefeitura de São Paulo libera a construção até de prédios sem janelas. Ou finge que não vê a irregularidade e deixa a obra avançar e o prédio subir. Dia destes, o Nabil Bonduki denunciou um prédio totalmente irregular, sem ventilação, sem janela… Eu vi!

Eu queria aproveitar este gancho. Considerando que a grande imprensa normalmente é aliada destas administrações conservadoras; que muitas vezes o jornal é praticamente o diário oficial do prefeito e que a imprensa também apoia o mercado imobiliário, já que são bons anunciantes…o debate tá migrando do jornal pra rede, pro instagram. Como você percebeu que seus vídeos estavam dialogando com o público? Por enquanto ainda é uma conversa para arquitetos, mas que está começando a sair desse nicho. Hoje eu postei sobre um caso em Carazinho, de um prédio lindo, moderno, que foi demolido para se construir um galpão. Esta postagem gerou uma conversa com moradores da cidade. Eu não concordo com a máxima, de que no Brasil as pessoas não valorizam o que é antigo. Sempre que eu falo de algum prédio que vai ser ou que foi demolido, eu leio coisas como, “ah, não deveriam destruir”… As pessoas querem preservar, mas elas não sabem que isto é possível. Elas aceitam o fato de que se o terreno é privado, não é possível fazer nada. E essa questão do terreno privado, do eu faço o que eu quero, é um super problema. Inclusive, é pra isto que existe o plano diretor, as regras urbanísticas, tombamentos. Por isto que o tombamento é tão importante no Brasil, porque ele é a única coisa que de fato consegue interferir na propriedade privada. E voltando ao debate, arquitetura e urbanismo afetam todo mundo. Todo mundo vive na cidade e quer ver a cidade bonita, quer poder andar na cidade com segurança e tal. Então, eu tento falar com todas as pessoas, tento falar com todo mundo mesmo.

Um amigo, professor de arquitetura, me disse uma vez: Fabiano, na escola a gente não fala em arquitetura feia ou bonita, a gente fala de boa e de má arquitetura. Ok, mas eu acho que gosto se discute sim. Acho que a estética tem ideologia e tem conexões com status quo, poder, etc. Você mostrou uma rua em Carazinho, como era, como está hoje em dia. Não é só a arquitetura, é o banner na loja, a fachada tomada por um painel de plástico, a gente tem um conjunto de feiuras…Sim, não existe nenhum alinhamento, cada um faz uma coisa…Na faculdade se aprende a começar sempre de fora para dentro, né? A analisar tudo, o bairro, o fluxo, a gente aprende a analisar tudo para chegar no terreno e propor alguma coisa. E depois de formados, quando a gente vai pro mercado, nós esquecemos desse processo…Tem aquele terreninho, mas não se olha pro lado, não se tenta alinhar com o que tem ao lado.

Mas o que fazer quando as pessoas que estão no poder tem um senso estético pavoroso? Não que eu ache que todos ou tudo tenha que ter um padrão de gosto sofisticado, não é isso que eu tô querendo dizer. Eu acho que é falta de repertório também. Inclusive essa galera que tá dizendo que é para voltar a construir neoclássico, acho que isto também é falta de repertório, que elas não conhecem uma boa arquitetura contemporânea, que não é essas casas clínicas que estão fazendo em todo lugar. E a classe média segue a onda. E se os políticos tem mau gosto, isto não pode ser uma decisão só dos políticos. O sistema todo de aprovação de projeto no Brasil é muito falho, os políticos querem mudar, deixar tudo mais rápido, tem que ser rápido, aprovar em duas semanas. Aí nunca vai ter qualidade arquitetônica.

Isso tem a ver com ensino de arquitetura? Eu acho que não. Você já viu um post rolando por aí, dizendo que tem uma ditadura modernista nas faculdades? Que os professores obrigam os alunos a fazer edifícios modernos, que os professores não aceitam arquiteturas que não sejam modernas. Tem uma confusão enorme assim, sabe? A gente vive nesse século aqui, né? Não tem sentido imitar o passado. Então não tem essa de eu vou aprender a projetar no estilo neoclássico, vou aprender a projetar eclético, nem no moderno. Na verdade, o moderno tem uma explicação porque os meus professores e os professores deles, viveram o movimento moderno. Eles cresceram nessa época. Mas a gente não aprende a projetar num estilo.

Eu soube de um estudante que ficou revoltado porque seu projeto para um memorial contra a escravidão africana foi reprovado. O projeto era cheio de colunas gregas… Exato. Aí eles pegam essa história e dizem que existe uma ditadura modernista. Fazer por fazer, porque acha bonito, não é uma justificativa, né? A gente tem que justificar projeto durante a faculdade inteira. O que a gente mais tem que fazer é justificar as nossas escolhas. E eu duvido que alguém tenha uma justificativa boa para projetar alguma coisa no estilo neoclássico, a não ser que tenha um contexto para isso.

A arquitetura greco-goiana… Os perfis mais de extrema direita que citam Olavo de Carvalho, que amam o Trump, eles também criticam essa arquitetura greco-goiana. Tem um conflito interno no movimento. Eles falam muito que a beleza é objetivo, que o belo vai ter proporção, simetria, blá blá, blá, mas quase tudo tá sempre fora de proporção. E eles não conseguem nem perceber que muitas edificações modernas possuem esses mesmos princípios. E aí essa galera do greco goiano, eles pegam uns elementos, a coluna, o frontão, mas não usam nada dessas proporções, né? Então esse é o greco goiano. Acho que surgiu por causa da casa do Gustavo Lima, né? Que parece uma Havan.

um jeito véio careca de construir e consumir

Onde eu quero chegar: que argumentos estes escritórios de arquitetura utilizam para justificar seu peixe. O que eles cantam para defender as colunas e os frontões. O sócio de um destes escritórios ficou furioso porque você chamou o trabalho dele de fascista. É aquela turma de sempre, não somos fascistas, mas só votamos e andamos com eles…Me contrataram para montar um curso sobre patrimônio, para vender numa plataforma privada. Eu não conhecia o dono da plataforma e aceitei. Aí eu comecei a conferir os outros cursos que a plataforma oferecia. Curso de história negando a ditadura. Curso criticando a universidade pública. Eu reconheci o discurso fascista rapidinho e pulei fora. Mas ele seguiu negando que sua plataforma tinha um discurso político! Mas vamos voltar pra justificativa da arquitetura deles: Eles partem dizendo que as casas estão ficando todas iguais. Essa crítica que todo mundo tem. Aí eles tentam ir para a questão do patrimônio. Mas eles não estão defendendo patrimônio. Porque não existe preservação de técnicas construtivas, não tem regionalismo, tudo é construído com equipamentos e técnicas contemporâneas. Não tem nada, é só um passadismo com ornamentos do lado de fora. E aí volta o discurso que o modernismo acabou com tudo, porque o modernismo odiava a tradição, que temos que voltar ao que era antes do modernismo.

Mas o que que eles estão propondo pro lugar? Uma mesmice neoclássica. Eles estão propondo casinha de condomínio. É isso que eles estão propondo. Eles não têm uma proposta para habitação social, eles não têm proposta para edifícios institucionais e tal. Todos esses perfis estão vendendo casinha de condomínio, continua sendo casa de condomínio. E para mim, realmente tanto faz que casa vai estar lá dentro, se é neoclássica, se é eclética, se é castelinho, qualquer coisa dentro do condomínio, porque não faz parte da cidade aquilo, né? Eles não têm proposta para cidade.

Mas pensando na arquitetura social, a arquitetura do Minha Casa Minha Vida também é de lascar… É engraçado porque eles falam que as casas tem que ter cara de casa, que tem que ter telhadinho. Tem um monte de casa do Minha Casa, Minha Vida que é assim. Tem cara de casa: janelinha, porta e telhadinho, né?

Me incomoda mais o conceito: o espaço espremido, sem um pensamento urbanístico. É que o foco é numa tipologia só, que é a tipologia que o mercado entrega. Não é diversificado, né? A gente não vê edifício sendo convertido, os centros históricos abandonados aí pelo Brasil. Tanto potencial para reutilizar para habitação. Não existem linhas de crédito para isso, nem programas que atendam a isso.

Não está na hora dos arquitetos entrarem nesta briga? Eu acho que sim. Esses dias eu soube de um dado chocante aqui do Reino Unido: No pós- guerra, 60% dos arquitetos trabalharam para o governo fazendo habitação social. A gente nunca teve nada parecido com isto no Brasil. Hoje, existe quando muito, um arquiteto concursado que tem que aprovar um projeto, que muitas vezes é obrigado a aprovar o projeto, ele não tem voz nenhuma. Todo mundo está muito amarrado, né? Então, sim, a gente precisa fazer alguma coisa, mas eu não sei exatamente o quê. Por enquanto, tô achando que falar sobre isso com as pessoas nas redes pode ajudar. Essas redes tem que servir pra alguma coisa. Eu fico pensando: será que eu preciso dessa porcaria? De vez em quando eu fico com impressão de que a gente tá baixando o nível da discussão para ficar discutindo estas bobagens de neoclássico…blá, blá,blá…

Tem uma confusão que é uma questão de estilo e uma questão de tempo, né? Porque isso já tava lá no debate do neocolonial. E essa foi a questão do Lúcio Costa, quando ele percebeu que o neocolonial era um embuste estético porque era um embuste com aquele tempo. Ele percebeu que aquilo não tinha sentido. Até que ponto a gente vai ficar replicando disneylândias temáticas? Eu peguei ranço da palavra estilo por causa disso, porque arquitetura não é estilo. As pessoas falam como se tivessem um catálogo de estilos pra apresentar pro cliente. Não é isso! Os estilos são períodos da história. Eles tiveram motivos para acontecer. Interesses políticos, culturais, sociais, etc. O colonial veio de Portugal, depois quando a família real se mudou pro Brasil, ela quis quis acabar com a imagem de Brasil colonial porque era império. Então trouxeram a Missão Francesa. Enfim, tem um contexto por trás das coisas.

Conta um pouco da sua vida. Eu nasci em Carazinho, fui fazer faculdade em Floripa, na UFSC. E comecei a trabalhar antes de me formar, no restauro da Catedral de Florianópolis e outras igrejas da cidade. Em 2010 eu fui pra Itália para fazer o mestrado em preservação do patrimônio no Politécnico de Milão. De lá fui pra Inglaterra e consegui emprego como arquiteta em Birmingham, para trabalhar no restauro de um monastério medieval. Fiquei 3 anos, em 2015 voltei pro Brasil, fui dar aula numa faculdade em Passo Fundo e fiz meu doutorado na FAU-USP. Em 2020 eu e meu marido voltamos pra Londres, onde eu terminei meu doutorado, sobre reuso de edifícios industriais para fins habitacionais. Estudei casos de Porto Alegre, Rio, Recife e Londres. No Brasil as fábricas são demolidas. Ou viram shopping. Eu trabalho com restauro de igrejas. Restauro e ampliações de igrejas. São antigas, algumas são medievais, outras são neogóticas e tal. E às vezes tem uma discussão, será que aqui a gente faz algo mais contemporâneo ou mais tradicional ? E quando a gente tá falando sobre tradição, está falando do material que aquela igreja foi construída. O tradicional tem muito a ver com as técnicas construtivas. Não é só fachada.

Você consegue ser otimista com relação à arquitetura? Eu não sei. Hoje eu tô num dia… eu tô puta com aquela história do prédio de Carazinho. E aí eu fico me sentindo muito frustrada. E como eu trabalho aqui num sistema completamente diferente, onde os vizinhos podem reclamar e ser contra a instalação de um ar condicionado do lado da janela deles, sabe? Eles podem abrir a questão no site da prefeitura e durante 28 dias fica uma plaquinha na rua avisando, incentivando as pessoas ir lá comentar. Mas geralmente eu sou uma pessoa otimista. Mas eu acho, que é um trabalho de formiguinha.

Continue com ele!

detalhe da revista de engenharia editada por carmen portinho no rio, nos anos 30. reparem que já existia a preocupação com planejamento urbano,

Porque assistir “The Lowdown e “Uma Batalha após a Outra”

Tem uma montanha de clichês: galã maldito, levemente junkie, dono de um negócio que não dá dinheiro, casamento falido, a filha adolescente querendo atenção, a mulher trocando ele por um dentista, pois a filha adolescente, além de atenção, também precisa de uma casa que funcione com rotina. Mais: ele tem uma assistente indígena, que convoca dois conhecidos de uma gangue (ex-presidiários, levemente atrapalhados, totalmente sem noção) para fazer segurança do sebo, já que credores e ofendidos costumam aparecer para quebrar janelas. Mais ainda: uma garçonete veterena, poeta. Um café onde pipocam escritores e onde um x9 do bem aparece pra sondar o nosso herói. Um milionário cowboy, que passou a vida no armário é encontrado morto. Suicídio. Nosso herói vai na casa, para tentar comprar a biblioteca do sujeito. Percebe que tem boi na linha. Aposta em crime e começa a meter a mão na cumbuca. E por aí a trama segue ao longo de 8 episódios, alguns deles com grandes momentos. A abertura do penúltimo foi descrita assim no google:

A cena de abertura do episódio 7 de The Lowdown (“Tulsa Turnaround”) apresenta uma sequência paralela perturbadora que destaca temas de injustiça racial e poder. Nela, um candidato a governador, Donald Washberg, em uma espécie de “cosplay de Will Rogers”, encena uma reconstituição da Corrida pela Terra de 1889 com crianças brancas, justaposta ao Pastor Mark pregando sobre a ressegregação racial.

O sublime da cena é que ela mostra de maneira muito didática, como milícias racistas estão se organizando disfarçadas de igrejas. Como estes grupos de caipiras fanáticos e intolerantes se associam com políticos tradicionais para abolir os direitos civis de minorias negras e indígenas. Dá pra colocar tudo no mesmo saco, aqui e lá: ICE, klan, agro, até mesmo o chupetinha e sua turma caminhando de Paracatu até Brasília. Pena que em Oklahoma não exista o Cacique Cobra Coral.

Chase Infinity em Uma Batalha Após a Outra

The Lowdown dialoga com Uma Batalha após a Outra. Ambos tratam alegoricamente, os Estados Unidos da era Trump. Os dois galãs interpretam heróis tortos, idealistas e junkies. Os dois apostaram na desconstrução, no anti-Rambo. Eles são sentimentais, desajeitados e estão muito longe da persona fodão macho alfa pau duro. Em Uma Batalha após a Outra quem fica de pau duro, mesmo com uma arma apontada pra sua cabeça é Sean Penn, o vilão racista apaixonado pela guerrilheira negra. Tem Benício del Toro como sensei chicano, o único no meio do caminho entre tudo, todos e todes. E tem Teyana Taylor! É difícil classificar este filme: Tem ação, sexo, porradaria, humor, tragédia, drama, distopia, tudo embalado em uma montagem afiada e uma edição de som/trilha sonora espetacular. A trilha tá sempre em descompasso com a situação, o que torna tudo muito mais interessante. Tem uma cena com Dirty Work do Steele Dan que já virou inesquecível. Esta dificuldade de enquadrar o filme tem a ver com o livro Vineland, de Thomas Pynchon, que inspirou o filme. Nunca li nada deste escritor, que é considerado um dos picas das galáxias da língua inglesa no século XX. Um cara que mistura Joyce, geração beat, quadrinhos, contracultura sem nenhum compromisso com a realidade. Não sei o que a crítica achou do filme. Eu acho que é cinema. Ultimamente, isto anda difícil de encontrar.

obscenidades! cenas fortes! tirem as crianças da sala!

churrasco na casa de daniel vorcaro durante a pandemia: tarciso, o presidente do banco central independente Roberto Campos Neto, o dono de um banco que faliu e Ciro Nogueira.

iotti

LINKS! LINKS! E MAIS LINKS!

Sigam a Rafaela no intagram: @rafa_arqurbuk

A Folha de São Paulo

fez uma matéria sobre o estado das coisas. O repórter entrevistou a Rafaela. Mas como a Folha é um jornal “isento” a matéria desandou. Ok, o cara é obrigado, em nome da “isenção” a ouvir os dois lados.

Sempre que eu leio a palavra polarização no jornal, eu tenho vontade de tomar uma dose de 51 e um duende morre em Blumenau.

Um link para o ridículo:

IBAT, Instituto Brasileiro de Arquitetura Tradicional

raiz, arte afro-brasileira contemporânea segue fazendo bonito no canal curta:

E finalmente a estreia da segunda temporada de Arte Brasileira Quadro a Quadro, inspirada no livro de Rafael Cardoso, com direção de Marcos Guttmann e deste que vos escreve.

the lowdown

uma batalha após a outra

cena inesquecível:

o livro que inspirou o filme:

ralph towner, que partiu recentemente

NIZAN meus ovos. a melhor publicidade brasileira não precisa nem de cannes e nem de faria lima

3 playlists que começam saudando Iemanjá.

Música pra dançar, pular, correr, fazer ginástica, fugir da polícia, dirigiri, ouvir de fone no metrô, ônibus ou avião. Pra namorar, trepar, foder, dormir agarrado, fumar um cigarro. Pra acordar e ir brigar com o chefe, xingar o síndico, mandar bozista tomar no cu. Música pra se inspirar, pra relaxar, refletir, esquecer, sonhar, escapar. Pra ficar triste, rir, chorar, mandar pra mulher, pro amigo, pro filho, pra mãe e pra puta que o pariu. Música de primeira, música de quinta, de segunda e de domingo.

#159 para dançar e correr com Leci Brandão, Antonio Carlos e Jocafi, Trio Mocotó, Quincy Jones, African Music Machine, Tim Maia, Willie Bobo, The Style Council, Pigeon, The B-52′, Ssing Ssing, Fernanda Abreu, Akala, M.B.T’s, Cal Tjader, The Champs, Ricardo Richie Ray, Incredible Bongo Band, Kool & The Gang, Steve Watson, Jam Band 80, Alceu Valença e Lia de Itamaracá, Nubiyan Twist, Thomas Dolby, DJ Dolores, Pio Lobato e Jorge Benjor.

#160 para trepar ou sofrer com Gal Costa, Paco de Lucia, The Gaturs, Air, Hélène Sio (dica do Rica Guimarães), Clarice Falcão, Al Green, Maria Luisa Jobim, Beck, Bob Dylan,The James Hunter Six, Momoko Gil, Cat Power, Santana, Ashford & Simpson, Zezé Motta, The Manhattans, The Rolling Stones, Rod Stewart, Caetano Veloso e Tom Veloso, Angela Castro, Dexter Wansel, Crosby,Stills,Nash&Young, Papooz, Afroito, Roundella, Eric Bibb, The Cramps, Louis Armstrong & Ella Fitzgerald, The Main Ingredient, Bette Midler, Rose Murphy, Bibiana Petek, Perla, Mahmundi, D’angelo, Bonnie Raitt, Dusty Springfield, The Beach Boys, Steely Dan, Eddie Hazel, Portugal The Man, Dr.John, Rogério Skylab e Tim Maia.

hélène sio flechada por cupidos vorazes
casal cheio de amor pra dar
a estrada do sol leva até assunção

#161 para brigar e lutar com Mestre Marne, Wando, Jorge Benjor, The Temptations, Nina Simone, Eugene McDaniels, Mick Jagger, Cream, Elza Soares, Michael Kiwanuka, Junior Parker, Os Originais do Samba, Madness, CAN, Egg,Tony Joe White, Letta Mbulu, Pouya Ehsaei, Damon Locks, T-Bone Walker, Geoff & Maria Muldaur, The Who, Claudio Marcelo, Junio Barreto, Sérgio Ricardo, Bob Dylan, Edu Neves, Aerosmith, Primal Scream, New Age Steppers, Dexys Midnight Runner, Marconi Notari, Erykah Badu, Carlos Lyra, Portugal, The Man, Patti Smith, Bruce Springsteen, Gueto.

e as playlists!