na corda bamba # 187 se acabando na quarta-feira de cinzas

Pedi pro chat gtp escrever textos ao estilo de Joel Pinheiro da Fonseca e de Natália Beauty. O resultado está lá embaixo. Mas já adianto: um passaralho não faria diferença # Wim Wenders precisa tirar o bigodinho e passar um carnaval no Brasil. # O medo do júri na hora do pênalti # John Le Carré não falava groselha sobre arte e política # 1971, uma série foda sobre música boa e ativismo # Acadêmicos de Niterói já entrou pra história do carnaval. Não foi um desfile, foi uma celebração # A direita brasileira detesta alegria e só gosta de sacanagem. Mas em 2026, se quiser gozar, vai ter que ser com o pau dos outros. # uma playlist pra apocalípticos e desintegrados. Na corda bamba está na rede. Assinem o blog mais bom de chinfra deste país. Ou apoiem com qualquer valor na chave pix fabpmaciel@gmail.com Pra quem já assina e apoia, o meu muito obrigado. Saravá!

peguei a foto no site da universal

Não há arte revolucionária sem forma revolucionária. Maiakovski

Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo eu estou aqui. Roberto Carlos

John Le Carré é mais papo firme que Wim Wenders. Fabiano Maciel

Heiner Muller foi um dramaturgo e escritor alemão, considerado o herdeiro de Bertold Brecht. Em tempos de muro e guerra fria, tinha um status especial na Alemanha Oriental e podia circular livremente entre a “Europa Livre” e a “Cortina de Ferro”. Nos anos 80, Gerald Thomas fez uma montagem de “Quarteto” peça que o alemão escreveu inspirado no romance Ligações Perigosas, de Choderlos de Laclos.

Rapaziada: peço desculpas pela quantidade de nomes, sobrenomes e títulos que despejei de largada. Adianto que tudo tem motivo e endereço, não estou pipocando estrelas pra mostrar como sou bom de chinfra. Não li nada do Heiner Muller, jamais vi alguma peça do Gerald Thomas, figura que nunca consegui sacar exatamente em qual busílis ele se penteia.

Mas…

Diferente dos dias de hoje, na segunda metade dos anos 80 a Folha de São Paulo tinha alguma relevância, não era só um ajuntamento de chinelos neoliberecos, tanto que um repórter atento do extinto Folhetim aproveitou a montagem brasileira e entrevistou o dramaturgo alemão. Nunca esqueci de duas frases, que de memória, diziam mais ou menos o seguinte:

-Não é uma tremenda ironia, uma peça de Brecht financiada pelo Instituto Goethe?

-Uma imagem para se pensar seria a do último humanista alemão refletindo na sombra da última árvore da última floresta alemã.

Linde em Schenklengsfeld, uma tilia, considerada uma das árvores mais antigas da alemanha, plantada em 760 dc

Nos anos 80, eu já tinha dado aviso prévio para discussões sobre arte revolucionária-arte por arte, etc. Já tinha aprendido que era possível gostar de Godard e de Gremlins, que os poemas engajados do Ferreira Gullar eram uma bosta – em comparação ao Poema Sujo, fantástico como poesia e como discurso político – que dava pra ouvir Vandré e Miquinhos Amestrados. Que tem hora pra lutar, pra sofrer e pra putear por aí. Ativismo, alteridade, solidariedade, alegria, vuco-vuco e desfrute, tudo cabe no mesmo esqueleto e na mesma alma.

E aí…

Em 1984 eu saí acachapado da sessão de Paris Texas. Na semana seguinte fui novamente ao cinema, pra ouvir a guitarra do Ry Cooder e ver mais uma vez em super close a Nastassja Kinski, musa suprema de todos os tempos. 

vivo sonhando mil horas sem fim

Depois veio Asas do Desejo. Não embarquei. Achei um Ghost cheio de citações.

Em 1989 fui 3 vezes na mesma semana assistir Faça a Coisa Certa. Em Cannes, Spike Lee  perdeu para Steven Sorderbergh e seu Sex Lies and Videotapes, um filme muito bacana.

Mas…

Alguém se lembra dele hoje em dia? Pois em 1989, o presidente do júri do Festival de Cannes, decidiu entregar a palma para um mancebo punheteiro blasé em crise conjugal, ao invés de premiar o furdunço na pizzaria do Salvatore, o racismo na América retratado em apenas um quarteirão do Brooklyn, um filme onde o couro come em todos os sentidos, desde a abertura, uma porrada, com Rosie Perez num rebolation alucinado ao som de Fight The Power do Public Enemy.

Wim Wenders era o presidente do júri de Cannes em 1989.

Nesta época eu já estava de implicância com o alemão, uma implicância idiota, admito. Eu achava que qualquer coisa que ele filmasse, um carro, prédio, copo ou um balcão de bar, tudo se transformava num ícone cultural. Todo fotograma tinha uma densidade, uma subjetividade filosófica. No outro lado do ringue, quando Clint filmava um balcão de bar, ele estava apenas querendo mostrar um balcão de bar. E se o copo no balcão estava vazio  era porque a garçonete estava puta ou porque o sujeito não tinha dinheiro pra tomar mais uma dose.  Não era uma questão filosófica.

Então…

O tempo passou, e, depois de ver Pina, fiz as pazes com o cabra de Dusseldorf. Ano passado revi Paris Texas na tv. Segue uma obra-prima. Com décadas de atraso, assisti Alice nas Cidades filme que me assombra já tem alguns meses.

Nesta semana, aproveitei o carnaval e assisti a série 1971, o ano em que a música mudou o mundo. Saquem o láineapi: Marvin Gaye, Curtis Mayfield, Gil Scott-Heron, Bill Whiters, Sly & The Family Stone, Carole King, CSNY, Elton John, Marc Bolan, The Beatles, Alice Cooper, David Bowie, Bob Marley, Joni Mitchel, James Taylor, Cat Stevens, The Last Poets, Aretha Franklin, The Rolling Stones. Se nada fosse dito nesta série, ela já valeria somente pelo time aí de cima. Música. Muita música.

Os entrevistados, vivos ou mortos, não dão as caras. Só ouvimos suas vozes. Portanto, quem conduz a história são as músicas, os depoimentos em off e um arquivo de imagens tão vasto, que para um documentarista miserável como eu, é uma humilhação ver tanta verba de licenciamento num produto só.

Mas…

O que importa em 1971, não são as músicas e nem os arquivos. É o discurso político. A série é política do primeiro ao último frame. Sim, a turma de 71 não mudou o mundo. Mas, no caso americano, What’s Going On e Ohio ajudaram a assar a batata de Nixon. It’s too late, ajudou muitas mulheres a pedirem o divórcio. E há 55 anos o mundo é um lugar mais bacana por causa da música desta geração e dos discos que eles lançaram.

E…

Como o carnaval é longo, assisti também O Túnel dos Pombos, documentário sobre as memórias de John Le Carré. Ele é o único entrevistado. Ouvimos a voz do diretor fazendo as perguntas. Sou um devorador de livros e filmes de detetive e espionagem. Quem gosta de livros de espionagem, sabe que o ninja do gênero foi John Le Carré. Porque é um tremendo contador de histórias. Porque ele próprio, trabalhou no Serviço Secreto Britânico e só deixou o batente quando o maior agente inglês, na verdade, um agente russo entregou vários nomes pros soviéticos, incluindo o de Le Carré. Que na certidão de nascimento era  David John Moore Cornwell.

É de se esperar que um ex-agente da Rainha seja uma pessoa conservadora. Politicamente, pelo menos. Le Carré não nega isto. Mas isto não o torna um cretino. Suas histórias nunca caíram nos clichês da histeria anticomunista e nem do glamour e nas fodelanças de James Bond. Seus agentes muitas vezes, são burocratas franzinos e enfadonhos. Mesquinhos. Ambiciosos. Traidores. E verdadeiros.

Lá pelo final, o diretor confessa: Estou em dúvida se fui um bom entrevistador, se fiz as perguntas certas, fico com a sensação de que não consegui furar a casca. Carré responde: As pessoas querem pensar que eu sou desonesto, mentiroso, que uso o meu charme como uma armadilha…Dentro da bolha eu observo a realidade e transformo em ficção…O diretor pergunta: Você acha que estava do lado certo? Acredito que sim. Tem certeza? É claro que não.

Enquanto escrevo estas linhas, tenho a mais clara convicção de que minha opinião sobre Wim Wenders ou sobre John Le Carré pouco importa, que ela não vai mudar um pentelho desta história toda.

Mas…

É carnaval. E lá fui eu pro SESC Vila Mariana levar os guris pra se esbaldar na serpentina e na espuma. É a folia que me cabe neste latifúndio e a que eu dou conta no momento. No sábado rolou uma Orquestra de Frevo bacanuda e ontem foi o Samba do Bixiga. Lá pelo final eles mandaram Roberto Carlos, Jesus Cristo em ritmo de pagodão. No mesmo instante o céu mudou de cor, o vento soprou forte, e o anúncio de um vendaval chegou com raios e trovoadas.  No mesmo instante chamei o 99. A avó de um colega do Vicente, uma velha comunista, achou graça e disse que é assim mesmo…tem o frevo, o samba, e tem o rei. Quando a versão sambadinha de Jesus acabou, o sol voltou e não choveu.

Mas eu já tava no táxi.

E aí…                    

Eu fiquei pensando no desfile homenagem-celebração-happening da Acadêmicos de Niterói. Já entrou pra história do samba, pra história do carnaval e pra nossa história política. Foi muito mais do que um desfile, foi muito mais poderoso do que isto. A escola foi rebaixada, claro. Mas assim como o filme do Steven Sorderbergh, daqui a alguns anos, ninguém vai lembrar que a campeã foi a Viradouro. 2026 foi o ano de Lula no carnaval da Bahia, de Pernambuco e no Sambódromo do Rio de Janeiro.

E o que a classe-média conservadora não engole: alegria. O que a elite não engole: arquibancada cantando Lula-lá e sem anistia. A elite brasileira não gosta de alegria, ela só gosta de sacanagem.

Como nestas eleições, estão sem pau pra gozar, já começaram o empata-foda: é propaganda antecipada! Os órfãos de FHC e de Ulisses estão sem ninguém que preste pra chamar de seu. Huck? Moro? Leite? Tarcisio? Zema? Caiado? Ciro? Zero Dois? Não cola. Nenhum cola. Nenhum vale uma mariola. Aí ficam com o dedo no forevis, se rasgando numa baita de uma relva. Ah, mas a economia. A economia vai bem seu abostado! Ah, mas a política externa…É sério que vão tentar mandar esta? E, pra piorar, todas as tentativas de transformar o caso Master numa nova lava-jato estão indo pro brejo. Quanto mais mexem, mais ela bate na bunda do chincheiro que comandava o BC no governo Bozo, aquele que a imprensa vivia pagando pau.  E agora vai bater na bunda dos vazadores de dados da receita…

Desde 2013 a direita tenta empatar a foda do país. É um projeto anti-civilizatório. Vejam o carnaval de rua de São Paulo: um quase nada até Haddad ser prefeito. Cresceu. Já tem turista chegando. E vejam como a dupla minâncora e iznogud trataram a parada…

E aí que eu não fui pra esbórnia. Fui só pro carnavalinho.

Mas…

Pular o carnaval, como todo mundo sabe, é um ato político.

E poético.

E putanheiro.

Pulem ou não, do jeito que quiserem.

taí um bloco de arromba

Este ano a Virgínia pulou e ficou com a periquita de fora. Até a CPI das bets nunca tinha ouvido falar na moça. A história dela daria um belo filme ou livro. Ela sabe vender e se vender. Tem milhares de seguidores e suas empresas de cosméticos e produtos para bebês estão – junto com bancos e companhias telefônicas – entre as campeãs de reclamações no PROCON. Tem que ser muito fodona pra bancar isto. Foi casada com um youtuber, depois com um cantor greco-goiano e agora é a atual madame Vini Jr, que ontem, mais uma vez, foi chamado de macaco em campo. Por um fedelho argentino que num encontro da Gestapo seria enquadrado como gentalha inferior. Zapeando num canal de podreiras, vi que Virginia é o novo sonho de consumo/ business de Luciano Huck. Talvez ele queira ressignificar a moça.

Passei a noite ressignificando tu, ressignificando tu, ressignificando tu!

bet master meeting

Acabei de ler que a cineasta tunisiana Kaouther Ben Hania recusou o prêmio de “melhor filme para a paz “em Berlim, por não concordar com a condecoração no mesmo evento,  de um general do exército israelense. O filme de Bem Hania conta a história de uma menina de 6 anos que morreu em Gaza. A diretora subiu no palco, e falou o que tinha que ser falado: que aceitar o prêmio seria uma contradição inaceitável. Agradeceu, deixou o caneco no palco e se mandou.

Todo mundo sabe que o Festival de Berlim é importante. E que depende do cascalho do governo alemão – a contradição apontada pelo Heiner Muller, morou? ­– pra continuar existindo. Mesmo assim, pegou mal a groselha cheia de platitudes que Wim Wenders mandou na entrevista coletiva, só pra fugir do assunto de Israel.  O “devemos fazer arte e não política” soou mais velho que a discussão da arte engajada. Por aqui, só uns cabeções filosóficos, citadores de Deleuze e Derrida, defenderam.

Então,

Com todo respeito:

Wim Wenders, não seja cuzão.

Ano que vem, venha pro Brasil pular o carnaval.  Vai te fazer bem.

Saravá!

IA THE WORLD, IA THE CHILDREN, IA THE COLUNISTAS DA FOLHA

coloco aqui os primeiros parágrafos dos PROMPTs (é a primeira vez que escrevo isto) do Joel e da Natália.

joel entrou pro bloco da chiquita bacana lá do paraíso fiscal
acho que a natália se saiu melhor do que o joel. já virou rainha da bateria do bloco da faria lima

LINKS! LINKS! E MAIS LINKS!

Heiner Muller:

paris texas:

sexo, mentiras e videotapes:

A abertura de Faça a Coisa Certa:

1971

o túnel de pombos, trailer:

o jardineiro fiel é uma história de john le carré:

a voz de hind rajab, trailer

e a família ungida em concerva:

e a playlist # 163

Um pouco de carnaval, um pouco de 1971, um pouco de 2026. De tudo um pouco e tudo muito giro.

Antonio Adolfo, Acadêmicos de Niterói, George Benson, Eumir Deodato, Pepeu Gomes, Sly & The Family Stone, Shuggie Otis, Stereolab, Brian Jackson com Paulo Santos e Ivan Conti, Roy Ayers, Steele Dan, Laurel Aitken, Peter Tosh, Chico Science, Orlandivo, Homogénica, Tom Waits, The Who, CSN&Y, Alice Cooper, Mundo Livre, Clara Nunes, João Bosco, Flea, Fellini, John Lennon, Dea Matrona, The Rolling Stones, Gil Scott-Heron, Nat Adderley, Curtis Mayfield, Jill Scott, The Deidre Wilson Tabac, Darondo, Yellow Days, Dom Salvador & Abolição, Bobbi Humphrey, João Roberto Kelly, Ivan Conti, Wayne Shorter, Carole King, Mandrill, Lafayette Afro Rock Band, Compost, George Harrison, Ciro Monteiro, A Fantástica Bateria de Padre Miguel e Dona Ivone Lara.

o link pra playlis # 163!