ele sempre teve medo dos pingos da chuva/ e ela sempre teve medo dos raios de sol/ ele sempre teve medo do sol, da chuva, do casamento da raposa com rouxinol alceu valença
Vou cedo pro posto de saúde vacinar contra influenza. Depois compras básicas: leite, pão, queijo, tomate, macarrão, o lanche dos guris, ovos. Pego a caixa com 10, a dúzia já era, tiraram dois ovos e agora vale a dezena, vale o que tá escrito em letras miúdas, Mandrake, num passe de mágica diminuiu a quantidade, o tamanho, o peso, o preço não, são 10 ovos pelo preço de 14 e na embalagem da caixa, uma moça marombada com uma coroa dourada de rainha sorriu pra mim, olhou pra mim, fez tanta coisa pra chamar minha atenção. Quem é? Perguntei pra dona Ana, a veterana funcionária do Horti-Fruti. É a Gracy…Gracyanne Barbosa. Ela tem cara de traveco, cortou o atendente que tava junto com ela. Seu abestado, ela é fisiculturista. Então tá explicado…Ela tava no BBB, não lembra? Não. Diz ela que come 40 ovos por dia. Isto é cascata. É o que ela diz…Sério? É a dieta dela. Em casa abro o computador e digito Graciovos…Gracyanne Barbosa lançou em novembro de 2025 sua própria linha de ovos, a Graciana Ovos fruto de uma parceria com a Iana Alimentos, empresa do “Rei do Ovo” Ricardo Faria, com sede em Minas Gerais. A linha especial inclui opções premium como Jumbo, Caipira e Ômega 3, capitalizando sobre o meme de seu alto consumo diário de ovos. A ação foi vista como uma jogada de marketing genial, transformando a rotina de alimentação da influenciadora em um produto comercializável de alto valor agregado. Descubro que a caixa de 10 ovos com preço de 14, que era a opção mais barata da prateleira do hortifruti e que agora está na geladeira da minha cozinha tem um alto valor agregável… É só um ovo caralho! Com casca, clara e gema. Também descubro que a moça é marombeira profissional, que em 2017 foi acusada pela revista americana Men’s Health de usar pesos falsos em seus vídeos de exercícios. A rainha do ovo não se abalou: “Quem me conhece, sabe as minhas verdades. Não preciso provar nada a ninguém”…Hum…As minhas verdades e não preciso provar nada a ninguém é um mantra desde que o país foi varrido pelo Moronaro…Depois lembrei que o “Rei do Ovo”, parceiro da musa fitness-bbb é aquele empresário catarinense que disse que o trabalhador brasileiro é viciado em bolsa família. Ricardo Faria, o empreendedor que recebeu 71 empréstimos do BNDES, (54 milhões no total) para prosperar e defender o estado mínimo. Estado mínimo meuzovo…

Eu gosto de futebol. Vejo as partidas, inclusive as chatas. Nos últimos 20 anos, jogos chatos são o padrão. Ah, mas a champions…Foda-se a champions! Torço pro Grêmio desde que nasci e pelo Botafogo desde que mudei pro Rio, porque quis fazer parte de uma torcida que me agradava muito. De gente acostumada a perder mais do que ganhar…Mas isto é masoquismo, é opção pela derrota. Porra nenhuma! É outro tipo de amor. Um modo de encarar a vida. Tem gente que quer ganhar mesmo quando perde e tem gente que esquece data de aniversário da mãe, da mulher, dos filhos, de casamento. Eu não sei de cabeça a escalação do time do Grêmio de 77. Nem o de 83, que foi campeão da Libertadores e do Mundial. Nem do Botafogo de 2024, que foi campeão brasileiro e da Libertadores. Eu lembro do nome de boa parte dos jogadores. Lembro de alguns jogos épicos. E lembro de berrar na janela. Mas se não lembro da escalação dos meus times de coração, ainda sei escalar de cabeça esta banda: Alceu Valença (violão e voz), Zé Ramalho da Paraíba (viola e voz) Paulo Lampião Rafael (guitarra) Zé da Flauta (flauta, como diz o nome) Dicinho (baixo) Agrício (percussão) e Israel Semente Proibida (bateria). É a banda de Vivo, segundo álbum de Alceu Valença, lançado em 1976. Naquele momento da década, a Philips tinha a seleção dos craques da MPB no seu elenco: Gil, Gal, Caetano, Bethania, Chico, Elis. A Som Livre tinha a selecinha: Alceu, Geraldo Azevedo, Sá & Guarabyra, Rita Lee, Guilherme Arantes, Moraes Moreira, Luiz Melodia. Como era da Globo, os discos tinham chamadas na tv. E no break da novela, espremido entre o shampoo colorama, a pasta de dente kolinos, as cuecas zorba e das ducha corona um banho de alegria, aparecia um cara cabeludo e barbudo, com as mãos estendidas diretamente pra lente, gritando que se esta vida é um desmantelo me mate que eu sou muito vivo. Vivo! Vivo! Quando o comercial acabava, eu queria ser Alceu Valença, ou pelo menos, ser cabeludo e barbudo como o Alceu Valença. Meu primo tinha o disco e tudo aquilo que a gente pensava que era Jethro Tull era o nordeste que a nossa tacanhice gaúcha não conhecia: pífanos, emboladas, cocos, repentes. Embalado e vendido como rock’n roll. Um dia li na revista Pop que a temporada do show Vou Danado Pra Catende no teatro Tereza Rachel estava sendo um desastre, e que Alceu alugou um carro de som e saiu por Ipanema convocando as massas. Virou o jogo e é esta história que Lírio Ferreira conta no documentário Vivo 76, que tá rolando na edição 2026 do Festival É Tudo Verdade.
Não quero esse dedo
No rosto de Pedro
Nem quero pra Paulo
O peso da cruz
São pontos de vista
De dois olhos cegos
E clara evidência
São pontos de luz

Dois outros filmes imperdíveis que estão no É Tudo Verdade : Retiro, a Casa dos Artistas, de Pedro Bronz e Roberto Berliner – sobre o Retiro dos Artistas no Rio de Janeiro, e Cada um Vive como Pode, de Luis Abramo e Pedro Rossi, sobre a obra do diretor de cinema Fernando Coni Campos, autor de um dos meus filmes preferidos de todos os tempos: Ladrões de Cinema.

Nem Tudo é Verdade-É tudo Verdade. Verdades e Mentiras-F for Fake. Pós Verdade-Pós mentiras. Farsantes,Tramposos,Trambiqueiros e Ilusionistas. Tá tudo por 9.99. Não sei se o rei do ovo vai estar em Porto Alegre junto com a Gracyanne, onde rola nestes dias o Fórum da Liberdade, uma espécie de surubão mundial de empresários golpistas (Luciano Hang é palestrante), servidores de mercado (Paulo Guedes é outro palestrante) e pensadores (cuma?) da extrema direita. Entrei no site e vi que jornalistas negacionistas como Leda Nagle e Alexandre Garcia já foram agraciados com o prêmio “Liberdade de Imprensa”. A edição deste ano tem um mote: O Brasil tem Jeito. É claro que tem, seus Mises von Arrombadens! É só não fazer absolutamente nada do que os palestrantes do Fórum pregam! Se liguem: o faturamento do rei do ovo, do véio da havan e da rainha da gemada nunca foi tão alto. Façam um omelete. E entubem o Lulão 4, o fim da jornada 6×1 e, se tudo der certo, teremos o livramento do bozonarismo em 2026. Fórum da Liberdade Meuzovo!
E chegamos no número mágico, a playlist # 171, dos trambiqueiros, dos farsantes, dos picaretas, dos pilantras, uma playlist cheia de gente que não tem nada a ver com isto.


Cidadão Instigado na largada e 3 faixas de Alceu Valença Vivo 76, só não coloco o disco todo porque aí é sacanagem. Rare Earth e 21 minutos de barulho e balanço. Afrika Bambaata que partiu por estes dias. Meu amigo Carlos Eduardo Lima fez uma bela seleção de seus discos mais importantes (nos links lá embaixo), e eu coloquei duas faixas do meu disco preferido, Matéria Negra se movendo na velocidade da Luz. Depois Trago, Fernanda Abreu, Tulipa Ruiz, Fausto Fawcett e Chelpa Ferro, Mano Brown, Banda Black Rio, Julico, Francois & The Atlas Mountains, Los Destellos, Bria Skonberg, descoberta, uma trumpetista canadense, Carlos Lyra e uma faixa do disco que ele gravou no México, dose dupla de The Dandy Wharols, música nova de Jack White, The Stooges, Johnny Jenkins, Ann Peebles. A compositora e contadora de histórias Stacy Garrop se juntou com o Kronos Quartet para brincar de Mahalia Jackson num disco pra lá de inusitado e belo. E segue o baile com Waldir Calmon, Orquestra Afro-Brasileira (um disco histórico, pouco conhecido), Edu Lobo no disco americano dele, bis de Rare Earth, Tulipa, Fausto Fawcett e Chelpa Ferro e Alceu Valença vivo pra fechar a parada.

A playlist está lá embaixo!
Lembrando que Na Corda Bamba está em campanha para colocar nas redes a revista digital e o podcast VTNC! Apoie como puder, mas apoie! A partir de 5 reais você está ajudando a corda balançar. Pode ser assinando no blog ou com qualquer valor no pix fabpmaciel@gmail.com
Por quê apoiar a revista digital da corda bamba e o podcast VTNC:
Porque a revista vai ser muito bacanuda e terá a colaboração de bambas como Tárik de Souza, Allan Sieber, Kamille Viola, Márcio Pinheiro, Carlos Eduardo Lima, Danilo Matoso e Rafaela Simonato.
Porque Na Corda Bamba e VTNC! serão duas novas fontes para se discutir, pensar e apresentar cultura & arte. Mas com um detalhe muito importante: sem a mediação política conservadora e direitista de nossa grande imprensa.



Um super obrigado pra quem já apoiou a campanha: Miguel Pachá, Tatiana Maia Lins, Renato Silva, Guilherme Vasconcelos, Leonardo Dourado, Lucas Bambozzi, João Costa, Marcio Pinheiro, Fabiano Nascimento, Ivani Flora, André Khedi, Carol Hanashiro, Patricia Bau, Norma Braga, Luciana Stifelman, Nuno Godolphin, Sonia Nunes, Danilo Matoso Macedo, Daniel Sabino, Mariana Filgueiras, Lucia Borges, Daniel Tucci, Andrea Dutra, Tissi Mousinho, Henrique Tartarotti e Fatah Mendonça.
E os super obrigados pra quem segue assinando o blog. Muitos dias eles salvam os dias. E as noites também.
Na capa desta edição: vendem-se ovos, ilha de marajó, pará, 2003. foto: fabiano maciel
LINKS! LINKS! E MAIS LINKS!
antonio nóbrega mandou avisar:

mec livros! é bacana! é grátis! é básico e fundamental! mec livros é vacina pras crianças do brasil não virarem ovos neo-liberais!
lírio ferreira fala de vivo 76:
ladrões de cinema, de fernando coni campos. filme completo. se liguem na abertura. antropofagia em quinta dimensão.
afrika bambaata na célula pop:
james gadson, o baterista de bill whiters e beck (entre outros) partiu. muito obrigado.
silvio césar olhou pra mim:
o artista que só pinta ovos fritos:
https://www.bbc.com/news/articles/crm233381z4o
e a playlist # 171

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