Me deixa no seu radar, disse a moça que passava por mim na pista do Ibirapuera, conversando no seu celular, caminhando e cantando no modo fitness & business, vem, vamos embora que esperar não é saber, quem sabe faz papo reto e negocia em qualquer hora, e agora são 14 horas de uma quarta-feira ensolarada na cidade de São Paulo, a moça segue e a caravana passa, cruzo com um batalhão de modelos altas, maquiadoras, camareiras e trabalhadores do mundo da moda de todos os gêneros que circulam pelo pavilhão da Bienal. Me deixa no seu radar, liga pra mim, não se esqueça de mim, não desapareça, eu tô por aqui e preciso faturar… Sigo a dica do Renato Anelli e vou conferir a OCA vazia, o vigia me libera por alguns minutos, tiro umas fotos e brinco de testar o som. A OCA vazia é uma nave cheia de eco. A OCA vazia é uma igreja em estado puro, algum santo iria gostar de baixar por lá. Saio e cruzo com um casal de ciclistas americanos. A moça canta But we’re never gonna survive unless we get a little crazy… Correr deve ser bom. Mas eu tô fora. Otto Lara Resende conversando com Nelson Rodrigues, Nelson, o que você acha do cooper? Ridículo. Você não corre? Não. Eu caminho. Caminhar no parque numa quarta-feira é como ir à praia em dia de semana. Mesmo que a trabalho. Na parede de fora do Museu Afro-Brasil me deparo com um alvo gigante, lembro da moça pedindo pra ficar no radar, entro e descubro as pinturas de Aurelino dos Santos e se eu fosse botar uma banca num chutômetro estilístico eu ia dizer que a parada é construtivista de sobe e desce ladeira na hora do engarrafamento. Junto com Aurelino estão as esculturas de outro soteropolitano, o Rommulo Vieira, que é louco a ponto de morar em Porto Alegre. Tem gente que corre e tem gente que corre risco. Tem gente que pede pra ficar no radar e tem gente que vira alvo. Eu caminho em museu. Numa quarta-feira de abril e agora já é maio.


É tudo abril e maio: O golpe da redentora das almas sebosas do Brasil foi num primeiro de abril. Em 25 de abril de 1974, os portugueses foram pra rua e fizeram uma das revoluções mais lindas da história. Derrubaram uma ditadura bolorenta, arcaica e violenta. Portugal tinha na época a maior taxa de mortalidade infantil e a maior porcentagem de analfabetos na Europa. A democracia fez muito bem ao país, apesar das turbulências. Agora, cretinos da direita portuguesa (cretino e direitista é pleonasmo) querem negar as conquistas da Revolução dos Cravos. Negar é estratégia. Mentir é estratégia. Em maio de 68 os estudantes franceses foram pras ruas, os operários não foram pras fábricas e, de um dia para o outro, o país deixou de funcionar. Terminou do jeito que começou, rápido. E os filhos e netos do maio de 68 são, em boa parte, os cuzões neoliberais e reaças que governam o mundo agora. No final de abril de 1975 os vietcongs tomaram Saigon, expulsaram os americanos do país, uniram o sul e o norte e acabaram com uma guerra que já durava décadas. Hoje, o Vietnam do partido socialista é uma das economias que mais crescem no planeta. Lula andou por lá fechando negócios da china e vamos exportar carne dos agrogolpistas e aviões da Embraer.

Em abril de 1945, a resistência italiana executou Mussolini, que foi enforcado e teve o seu cadáver dependurado em praça pública, no que seria um recado para os fascistas. Hoje, vergonhosamente, o fascismo ressurge na bota, liderada por uma primeira ministra cabeça de meloni, uma xenófoba carola do pau oco, adepta da trinca deus, pátria e família. Também em abril de 1945, o exército vermelho soviético tomou Berlim e liquidou com a Alemanha nazista. Hitler queimou os bigodes, se matou, e apesar de tudo, volta a ter adeptos na chucrutelândia. Com esta turma, não existe futuro, só distopia. Pode ser uma distopia melancólica, que frequenta buracos negros e que brinca com o tempo e com o espaço, como em Interestelar. Ou uma distopia portenha, com neve caindo sobre Buenos Aires e insetos gigantes destruindo tudo. O criador da série, Héctor Germán Oesterheld foi sequestrado por militares argentinos e seu corpo nunca foi encontrado. Suas quatro filhas também:
Beatriz foi a primeira a desaparecer, em meados de 1976. Tinha apenas 19 anos. A única que teve o corpo recuperado… Em seguida, Diana, grávida de quatro meses (e mãe de um menino, Fernando), sequestrada, junto com o parceiro, Raúl, em San Miguel de Tucumán. Marina, também gestante, seria a próxima, em novembro daquele ano. E, finalmente, Estela. Casada, tinha um filho de três anos de idade. Foi levada por agentes do Estado no final de 1977. Todas, militantes dos montoneros.


Não existe memória, não existe passado, não existe história. Tudo é negação. E esquecimento. Collor foi condenado, mas passa bem. Negue o seu amor e o seu carinho, diga que já não me quer, negue que você já me esqueceu. Pergunte pra sua tia que votou nelle e que logo depois perdeu tudo na poupança. Existe o negacionismo científico e existe o dickvigarístico. É o nego tudo e vem cá meu nego. Pedro Bial, por exemplo. É vigarístico raiz, de sapato vulcabrás engraxado no Instituto Millenium. Tem tempo que brinca de negar a história, já tentou dizer que 64 não foi golpe, que a ditadura foi ditabranda e que o impitiman não foi impitiman. Mas o Bial é um sujeito legal e no Brasil todo mundo vive e morre e passa bem. Nos convescotes dos 60 anos da Globo ele entrevistou a Regina Duarte. A namoradinha do Brasil, a Malu Mulher, a Porcina, a mãe da Maria de Fátima, quem diria, acabou no Irajá miliciano e de lá nunca mais saiu. Palmas para ela, que segundo o Bial, agora é “censurada” pela esquerda. Peraí pilantra! Censurada como? Ela tá proibida de falar bobagem? Uma salva de palmas para o grande poeta de ar condicionado, provável futuro colega de farda, fardão, cuecão de dormir da Academia, junto com Miriam e Merval -este não baba ovo, mas raspa bigode no saco. Miriam Leitão na Academia…Faz sentido. A casa já teve Celso Furtado. Mas a Leitão deve baixar por lá com o espírito cadavérico de outro smegma ectoplasmante: Roberto Campos. Miriam sempre bateu palminha pro mercado e também bateu forte a periquita pro impitiman e pra morolândia. O filhoco escreveu um livro babando os ovos até murchar do seu Sérjo. Miriam foi tão obtusa em sua defesa da economia de mercado, que a gente até esquece que ela sofreu os diabos com a ditadura militar. É a memória…Mas no Brasil todo mundo morre e passa bem. Tem os que não babam pra ninguém, tipo o Edy Starr, que morreu passando muito mal. E tem a Nana Caymmi, que cantava tão bonito que todo mundo finge que ela não desafinou juntinho da república de curitiba. A Nana fecha a playlist 121 de Na Corda Bamba. Quem abre é Charlie Parker, um sujeito que era tão rápido e tão à frente de seu tempo que quase ninguém dava conta de o acompanhar. Junto com uma turma de bambas (Thelonious Monk, Dizzy Gillespie, Bud Powell, Max Roach e outros) inventou o be bop. E o jazz nunca mais foi o mesmo. Charlie Parker morreu passando mal. Era tão selvagem que de vez em quando, pra faturar um qualquer, gravava standards acompanhado de uma orquestra de cordas. April em Paris. Depois que a guerra acabou Paris deixou de ser preto e branco e os americanos inventaram a Paris em tecnicolor. Abril em Paris é a música para estes dias de sol sem frio. Mesmo que já seja maio. E mesmo que não seja em Paris. Os meus foram na Dutra, entre São Paulo e Rio. April in São José dos Campos, Guaratinguetá, Taubaté, Aparecida, Resende, Volta Redonda. Na Corda Bamba edição #150, com a playlist #121 está na rede. Quem quiser assinar este blog outono-inverno-primavera-verão descassetado, é só chegar nos botões vermelhos lá de baixo ou fazer um pix de qualquer valor, eu disse de qualquer valor mesmo para a chave fabpmaciel@gmail.com Colaborem porque eu preciso muito de dinheiro pra comprar uma camisa vermelha da seleção brasileira pra passear pelo bairro.

A capa desta edição mostra um trabalho do Aurelino dos Santos no Museu Afro-Brasil. Semana passada, por motivos de força maior, e de trabalhos que pagam as contas, a corda não saiu, mas na próxima semana, edição dupla pra compensar a falha.
Paz! Amor! Saúde! Dinheiro na conta! Saravá!
LINKS! LINKS! E MAIS LINKS!
a revolução dos cravos com glauber rocha entrevistando o povo na rua e perguntando coisas como: o senhor está disposto a lutar até a morte?
soldados soviéticos em berlim:
a queda de saigon:
o eternauta no plano crítico:
o eternauta no blog da boitempo:
interestelar, dez anos depois. trailer:
Na playlist #121:

Começando com Charlie Parker barbarizando em April in Paris. # Nana Caymmi, que cantou sambas e boleros, que fez um disco foda com Cesar Camargo Mariano, que fez outro só de Dolores Duran e outro só de Tito Madi. Nana que cantou Milton como poucas. Até mais…# A moça nasceu em Hamburgo, numa família de origem turca. O som é pop e é de primeira. Derya Yildirim. A dica é do choque de monstro Luis Marcelo Mendes # O novo single de Stereolab # Mantra com Jorge Mautner, mantra total com The Congos, no começo parece um reggae qualquer, um minuto depois já estamos hipnotizados. # Alceu Valença e o papagaio do futuro # Negro Léo canta o artista é o cavalo do cão, do espetáculo Avenida Paulista, de Felipe Hirsh # Edy Star ataca com cover dos Stones. # Um Bob Dylan de um disco que todos dizem ser o pior dele. Não existe disco pior de mr. Dylan. # impossível ficar infeliz ouvindo Jalen Ngonda # Fossa com Shawn Lee, psicodelia com os Leif’s, a primeira banda de um tal de Pepeu Gomes e balacos com Dr.John, Antonio Carlos e Jocafi, The Rolling Stones e Herbie Hancock # Minecraft se passa em Idaho e como não poderia deixar de ser, rola os bifescumtutu mandando ver em My Private Idaho # Balanço com Scissor Sisters, barulho coom Soopasoul, Dread Zeppelin e Sunflower Bean. # romance com Durand Jones & The Indications # Festa com Negadeza # Reflexão com Marcio Nigro e André Abujamra e Do Re Mi # Barulho diferente com Peter Gordon, funk com Josiel Konrad, falação e tensão com Radio Trip.

E mais: The Gilbertos, Stinky Boys, Dan Auerbach, Yoko Ono, Emma-Jean Thacray, The Folk Bitch Trio, Tom Zé, Tiago Araripe, João Gomes com Mestrinho e Jota Pê, Natalia Lafourcade, Reyna Tropical, Vovô Bebê, Winton Kelly Trio, Malka, Femi Kuti, uma banda japonesa que não consegui descobrir o nome, Céu, King Kong, Zé Ramalho, Warren Zevon, Neil Young, Izo Fitzroy, Seal, The Stranglers, Rosin de Palo, Sheila E, Elton Medeiros com Mariana de Moraes e Zé Renato, Nego Alvaro, Hermeto Pascoal. Tá bom?

E a playlist #121!

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