na corda bamba 172 na bossa, na fossa mas sem aquela grande dor. uma entrevista com tárik de souza, um jornalista que nunca desafina.

Em 1970 a Editora Abril colocou nas bancas uma coleção chamada História da Música Popular Brasileira. Eram discos menores que um lp e maiores que um compacto -10 polegadas- que vinham acompanhados por um livro de 12 páginas com textos dos principais críticos e pesquisadores musicais do país. Na primeira edição da série, as capas eram todas pretas. Em 1976 rolou uma nova leva, com as histórias e alguns nomes atualizados e as capas tinham tarjas coloridas. No início dos anos 80, a terceira e última edição, com lps normais e as capas brancas. O que eu posso dizer sobre estas séries? Que elas foram o elo perdido entre as músicas que meus avós e meus pais ouviam com as que a minha geração ouvia. Que foi através destas coleções que eu e muitos amigos tivemos a chance de ouvir faixas de discos que estavam fora de catálogo e que quase nenhuma rádio ousava tocar. Era com estas coleções que a gente ligava lé com cré, que a gente conseguia na prática entender as conexões daquilo que se convencionou chamar de linha evolutiva da música popular brasileira (depois este conceito caiu por terra). Eu era um leitor da revista Pop e fã da Ana Maria Bahiana e do Ezequiel Neves. Um dia, uma colega de escola me emprestou o livro Rostos e Gostos da Música Popular Brasileira de um cara chamado Tárik de Souza. Como eu era leitor de expediente de jornal, eu já sabia que ele colaborava no Coojornal, na Veja e em mais uma penca de publicações. E também sabia que ele era um dos responsáveis pela coleção de discos-livros da Abril. Tudo isto é pra dizer que eu sou um leitor de Tárik de Souza desde que comecei a me entender por gente. Muito tempo depois, já morando no Rio eu alimentava um delírio quixotesco, de fazer um filme sobre meu herói de infância, adolescência, juventude (segue sendo neste começo de velhice) Jorge Ben, que já tinha virado Jorge Benjor. Tárik tinha escrito a melhor matéria sobre ele na Veja, quando o babulina voltou a tocar no rádio com WBrasil. Descolei o telefone dele, liguei, expliquei que queria fazer um filme e ouvi um venha aqui em casa. E foi assim que fui visitar um dos meus jornalistas favoritos, no apartamento dele em Ipanema, numa sala onde passei mal ao ver duas fileiras de estantes com aproximadamente uns 10 metros de extensão, do chão ao teto, repletas de discos. Naquele dia, Tárik me disse que só me convocou porque eu tinha usado as duas palavras mágicas: Jorge Ben. Ele também era um dos devotos doentes da causa. Ele tirou de seu arquivo três pastas com todas as reportagens que tinha sobre Jorge Ben, inclusive a primeira que ele mesmo tinha escrito no final dos anos 60. Entregou na minha mão, eu fui na esquina xerocar e voltei mais tarde pra devolver. O projeto nunca saiu. Forças ocultas e falta de forças trabalharam dicumforça. Mas fizemos juntos o filme Sambalanço, a Bossa que Dança. E agora estamos finalizando Native Brazilian Music, em breve nos cinemas, streamings, e outros. Tárik acabou de lançar um livro novo. João Gilberto e a Insurreição da Bossa Nova pela mesma L&PM do Rostos e Gostos. Eu nem tinha chegado na metade e já liguei pra ele- Caralho…Este livro tá foda! Este é o livro que esclarece vários mistérios, corrige uma série de equívocos, que enterra um monte de clichês e que desmistifica uma penca de lendas com mulas sem cabeças, boitatás e botos cor de rosa sobre o movimento que mudou tudo na música brasileira. Escrevi também pro meu chapa Márcio Pinheiro, que concordou na hora. Então, senhores e senhoras, caros leitores deste blog destrambelhado, com vocês, uma entrevista com o autor da parada, Tárik de Souza, um vascaíno que não usa celular, não fica em cima do muro e nem passa pano em coleguinha cramulhento. Esta edição, vale lembrar, vem com uma playlist cheia de bossa.

a bossa nunca perde a bossa

Se João Gilberto
Tivesse um processo aberto
E fosse nos tribunais
Cobrar direitos autorais
Por todo o samba-canção
Que com a sua gravação
Passou a ser bossa nova
Qualquer juiz de toga
De martelo ou de pistola
Sem um minuto de pausa
Lhe dava ganho de causa

tom zé, em joão nos tribunais

FM: A Bossa Nova é como a Semana de 22, a cada década ela é revisada, recontada, reinterpretada. Talvez a diferença entre uma e outra, é que a bossa não foi um mito construído por historiadores.

TS: Sim, a bossa nova foi um projeto espontâneo de músicos. Grandes músicos, (Alf, Donato, João, Jobim, Newton Mendonça, Moacir Santos, Luís Eça, Cesar Camargo Mariano, Baden Powell, Luís Bonfá, Edison Machado, Dom Um Romão, Tião Netto, Sergio Mendes, Oscar Castro Neves, Menescal, Marcos Valle, Lyra, Luís Carlos Vinhas, Paulo Moura, Dom Salvador, Amilton Godoy, JT Meirelles, Jorge Ben, Eumir Deodato, Bebeto Castilho, Hermeto Pascoal, Airto Moreira, Theo de Barros, Rosinha de Valença, Walter Santos, Tenório Junior, Vera Brasil, Sérgio Ricardo, Tito Madi, Durval Ferreira, Antonio Adolfo, Chico Feitosa e mais) e poetas (Vinicius, Bôscoli, Lula Freire, Aloysio de Oliveira, Paulo Sérgio Valle, Ruy Guerra e mais) e cantores (Sylvia Telles, Nara Leão, Astrud Gilberto, Alaíde Costa, Leny Andrade, Simonal, Elis, Claudette Soares, Dóris Monteiro, Ana Lúcia, Agostinho dos Santos, Dulce Nunes e mais) que reestruturaram a MPB. Foi uma plataforma de lançamentos de experimentos de vanguarda, que andavam dispersos nos predecessores, mas foram agrupados esteticamente na bossa.

oba lá lá

FM: São muitos nomes e cada um jogou individualmente com o estilo. Eu gostei muito como o leque foi aberto no livro, tanto no pré, como na pós bossa nova. É curioso como o apelo nacionalista e a busca de uma música brasileira “pura” sempre foi perseguido. Pixinguinha acabou sendo criticado porque acharam Carinhoso americanizado…

TS: Sempre houve uma bronca contra a influencia estrangeira do momento. Isto se observa desde Pixinguinha, em 1929, até recentemente, o funk Miami Bass que, adaptado com os tambores do candomblé, ganhou cara nativa e foi reexportado de volta para os gringos.

FM: Laurindo de Almeida, ficou na bronca por ter tentado algo antes de todo mundo (e ninguém ter percebido), ou por ter tentado mas não do jeito que o João fez?

TS: Laurindo de Almeida foi pioneiro na ideia de fundir MPB e jazz (e vice-versa). Mas seu projeto “Braziliance”, realizado com três músicos americanos, em 1953, não deu liga, o que Johnny Alf conseguiu quase na mesma época no Brasil, e depois foi espraiado pelo movimento. Claro que ele ficou bolado quando o pessoal da bossa chegou no Carnegie Hall em 1962, nove anos depois, arrombando as portas após a vendagem de um milhão de cópias de “Desafinado” pela dupla de jazzistas Stan Getz & Charlie Byrd. Teve que pegar o bonde acelerando.

antes da bossa sem a batida da bossa

FM: Qual o papel de Johnny Alf no lance? Negro, filho de uma empregada doméstica, gay…E sofisticadíssimo…

TS: O Jobim o apelidou Genialf, com toda razão. Ele é simplesmente o pai da matéria. Conseguiu o ponto de fusão. Donato e João Gilberto chegaram junto, mas ele foi o desbravador.

FM: Afinal, a bossa nova era ou não era elitista

TS: É preciso acabar com essa burrice de passar a régua sociológica na estética, como fez o Tinhorão. Até na chanchada, que era a manifestação mais popular da época, ela foi parar, no filme “Pistoleiro bossa nova”, onde Carlos Lyra cantava “Maria ninguém”. Padeirinho da Mangueira fez uma música sobre a bossa (“Modificado”), o sambista gaúcho Caco Velho lançou um disco chamado “Comendador bossa nova”. O pagode do Fundo de Quintal assimilou inovações da bossa nova, como decantou a madrinha do pedaço, Beth Carvalho. Exemplos didáticos, a partir do mentor Carlos Imperial. Dois de seus pupilos foram barrados na bossa, porque não tinham o ticket estético de entrada. Roberto Carlos, que imitava João Gilberto (Menescal chegou a conversar com ele para procurar um estilo, que afinal, ele encontrou) e Erasmo Carlos, que se queixou a vida inteira de ter sido barrado na porta da bossa por deficiência técnica (mas era um pop/rock de mão cheia). Outro deles entrou pela porta da frente e foi recebido com tapete vermelho: Wilson Simonal, rei do swing e da divisão, filho de uma empregada doméstica como Alf. Assim como o “Babulina” Jorge Ben, (que não era cambono do Imperial, mas também frequentava o Clube da Esquina carioca, “Haddock Lobo esquina com Mattoso”, como cantou mais um da turma Tim Maia, fã da bossa) inventor contumaz, projetado a partir do bunker do Beco das Garrafas. Nenhum deles estudou em Berklee. (Sequer completaram os estudos). Não dá para falar em elitismo, na terra em que outro filho de empregada doméstica, Milton Nascimento, liderou uma das correntes mais refinadas da MPB, a do Clube da Esquina.

bossa nobre e popular

FM: Uma das histórias mais engraçadas é a do protesto contra o protesto. A Bossa batia, apanhava e se batia ao mesmo tempo: Marcos Vale e o protesto contra o protesto.

TS: Ou seja, a tal polarização rachou a bossa no tempo do golpe de 1964. Teve quem ficasse contra a obrigação de dar um recado político nas canções, a turma da “arte pela arte”, também conhecida como corrente do “amor, sorriso e a flor”, uma injustiça com o coautor da música de onde saíram esses versos, Newton Mendonça, que pertencia ao partido comunista. E quem achava que elas eram armas de combate à ditadura, como Vandré que, por isso, debochou no subtítulo de “Caminhando”, com seu “Pra não dizer que não falei das flores”.

sempre no tom

FM: Qual é o segredo, afinal, da batida do João?

TS: É produto de muita elaboração, dias e horas de aperfeiçoamento para que nada soe artificial e pareça que ele está conversando com o ouvinte. Não existe paralelo com João no planeta. É único.

FM: A grande história do livro é a sua entrevista com João Gilberto, a de 71. Como você percebeu que o lance era não disputar com os outros jornalistas? Me lembrei do Gay Talese, que não anotava nada na frente dos entrevistados

TS: Não havia outra saída. Eu estava concorrendo com o pessoal dos jornais diários, escrevendo numa revista semanal. Tinha que conseguir a exclusividade. Obrigado pela comparação com o Gay Talese, autor da genial matéria “Frank Sinatra está resfriado”, em que não entrevistou o cantor.

FM: O inacreditável mesmo é este show de 71 não ter virado disco…

TS: E o tape do programa ainda pegou fogo, segundo disseram. Mas as gravações foram recuperadas por um pesquisador, como digo no livro, e estão na internet.

FM: Se a bossa nova ainda rende assunto, hoje questiona-se o conceito de MPB, que muitos consideram como incapaz de determinar o que seria a música brasileira…como se a MPB fosse um pacote onde tudo que não é samba, choro, forró, coubesse lá dentro…

TS: Quando a bossa incorporou outras influencias ditas mais regionais, especialmente a partir de “Arrastão” e da obra fabulosa de Edu Lobo, o crítico Sylvio Tulio Cardoso (que foi minha grande inspiração) tentou o rótulo mais abrangente MPM (Música Popular Moderna). Mas não colou. MPB ficou sendo o genérico que satisfaz, um balaio onde cabem de Rita Lee à mangue bit e vanguarda paulistana. Até uma parcela do rap (Criolo, Emicida, Marcelo D2) é considerada MPB.

podem me chamar….

FM: Eu gostei muito da seleção de frases que abre o livro, começando com o cramulhão e passando por Sérgio Santanna…

TS Pois é. Achei que o tinhoso tinha que entrar porque calhou do João morrer em seu período de governo e ele dizer aquela frase que o retrata de forma cabal!

FM: Em uma cena de um dos meus filmes prediletos na infância, A Festa do Monstro Maluco, a letra da canção diz:

Like a snowy day in June
Like a new Brazilian tune
Yeah, you’re different–
Yech!
You’re different!
And you know that’s what I like about you!
Ah-ha-ha-ha-ha-ha-ha-ha-ha!

TS: É isso aí: a “new brazilian tune”, a música brasileira virou sinônimo internacional de inovação após a bossa

tárik em algum lugar dos anos 70 com durval e nildé ferreira

E o pato já vai nesta, cantando desafinado alegremente, quém, quém, quém, eu quero é mocotó! ASSINEM NA CORDA BAMBA, nos botões vermelhos lá de baixo, ou apoiem com qualquer valor na chave pix: fabpmaciel@gmail.com

Saravá!

LINKS! LINKS! E MAIS LINKS!

o livro:

e o rostos e gostos na estante virtual:

https://www.estantevirtual.com.br/busca/rostos-e-gostos-da-m%C3%BAsica-popular-brasileira

márcio pinheiro fala do livro do joão no amajazz:

a bossa num conto de sergio sant’anna:

e num livro ultra classudo da soul jazz records & books

a bossa nos estados unidos:

joão, gal e caetano, 1971

joão ao vivo em são paulo 1997

a bossa na festa do peter sellers

e na festa do monstro maluco:

acima, as capas da coleção MPB da abril em suas 3 edições

na playlist # 146:

Bossa para todos os gostos, de todos os tipos: da pré-bossa, da bossa e da pós-bossa, a bossa original e a bossa imitação, a bossa exportação e a bossa tico tico no fubá, que não solta as tiras, não deforma e não tem cheiro. E também algumas que não são bossa, mas usam a palavra, porque afinal de contas, a palavra bossa é cheia de bossa. bryan ferry por exemplo transformou bossa em verbo, mas antes da bossa, até ele sabe, tem o samba: when a samba takes you, out of nowhere mais adiante ele manda: when you bossanova, there is no holding. A bossa é uma brasa, mora?

João Gilberto, Caetano Veloso & Os Mutantes, Dick Farney, Johnny Alf, Tom Zé & Mariana Aydar & Fernanda Takai, Elizeth Cardoso, Gilberto Gil, Julie London, Stereolab, Herbie Mann, Marcos Valle, Quarteto Jobim-Morelembaum, Quarteto do Rio & Roberto Menescal, Baden Powell & Jimmy Pratt, Thelma, Orlandivo, Chico Buarque, Roxy Music, Jorge Benjor, Dizzy Gilespie, Odell Brown, Tom Jobim & Frank Sinatra, Geraldo Vandré, Vince Guaraldi & Bola Sete, Os Cariocas, Chico Feitosa, Nouvelle Vague, Edu Lobo, Eumir Deodato, Ella Fitzgerald, Paul Winter & Carlos Lyra, The Style Council, Astrud Gilberto, Sarah Vaughan, Eydie Gormé, Luiz Bonfá, Gal Costa, Nara Leão, Elvis Presley, Laurindo de Almeida, Quincy Jones, Coleman Hawkins, Cannonball Adderley, Dave Brubeck, Miles Davis & Gil Evans, Trio Irakitan, Tim Maia, Novos Baianos, Stan Getz, Kali Uchis, Pery Ribeiro, Maysa e Walter Wanderley

e a playlist 146!