entre passeatas, óperas malandras e sovacos cabeludos
Em 1980 eu tinha 15 anos e me tinha em altíssima conta. Alternava lances de extrema sagacidade com outros de tremenda ingenuidade. Um dia de precocidade e maturidade, outro de babaquice total e absoluta. Em princípio, é para isto que serve ter 15 anos. Eu fingia saber de muitas coisas e, na verdade, entendia muito pouco sobre quase tudo. Mas a minha petulância enganava bem. E a minha marra, quando funcionava, me empurrava para frente. Mesmo que aos trancos e barrancos. O problema é que, de certa forma, eu segui tocando a vida deste jeito ao longo das 4 décadas seguintes.
Em 1980 o Brasil tinha um general como presidente. Era um tosco de opereta, um sujeito que ficou famoso por dizer frases como: “Prefiro cheiro de cavalos ao cheiro do povo” ou “Quando estou com vontade de bater em alguém, é sinal de que estou melhorando”. Em 1980, João Figueiredo resolveu fazer uma média com seu vizinho e convidou o general Jorge Videla para reinaugurar pessoalmente a praça Argentina em Porto Alegre.
Em 1980 o presidente do Brasil se deu mal em Porto Alegre. A praça Argentina ficava (fica ainda) perto do campus da UFRGS, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E perto da Casa do Estudante onde também funcionava o bandejão. Os estudantes fecharam a rua, cercaram a praça e impediram a chegada da comitiva oficial. A polícia mandou reforços, cavalaria, choque, etc. Os brigadianos foram recebidos com ovos, laranjas e pedras de gelo, arremessados das janelas do prédio da Casa do Estudante.
Os secundaristas também tinham sido convocados e eu era um secundarista. Estudava no Nossa Senhora das Dores, um colégio de padres lassalistas. Padres muito conservadores. O Theddy Correa do “Nenhum de Nós”, que ainda não existia, era o presidente do grêmio estudantil. Era um gentleman, que não entrava em nenhuma dividida com os padres e muito menos frequentava passeatas (roqueiro brasileiro nunca foge…ao script). Eu era o vice. E claro, estava lá na praça Argentina enquanto os amigos dorenses sonhavam com astronautas e Camilas.

Eu lembro que a polícia cercou o prédio da Casa do Estudante e todos que estavam lá dentro não podiam sair. Quem saísse ia em cana. Em algum momento da noite o Nei Lisboa subiu numa mesa e improvisou um show no RU. No dia seguinte, não lembro como, seu Francisco, meu pai, foi me buscar na porta. São lembranças difusas. Talvez o show improvisado do Nei Lisboa tenha sido em outra quebradeira. Mas eu lembro bem de outras coisas.

Eu estudava inglês no Fisk, e não era exatamente um bom aluno. O professor de vez em quando puxava conversa com a turma, sobre o país, a economia, a conjuntura, a inflação, a censura… O professor sacou logo quem dava trela nas charlas e numa destas me convidou pra ir na casa dele. Se alguém pensou em comunista comendo criança, pode esquecer. O apartamento do Adeli Sell, na escadaria da Duque era atulhado de livros e de exemplares do jornal O Trabalho. O Adeli Sell estava ali recrutando mais uma jovem alma para atuar nas fileiras do trotskismo. Para ser mais exato, na OSI, uma dissidência trotskista da Quarta Internacional.

E então, eu que fingia saber sobre muitos assuntos, agora fingia também saber muito sobre a história do marxismo e passava as tardes de sábado em um grupo de estudos onde se discutia os motivos que levaram as forças produtivas do capitalismo a pararem de crescer. Este era um tema muito caro ao grupo, pois os hereges da Convergência Socialista afirmavam que as forças produtivas do capitalismo não tinham parado de crescer. Eu, que ainda estava na fase de ler a História da Riqueza do Homem, do Leo Huberman, destaque na estante de economia do meu pai, achava aquelas tardes de sábado uma total perda de tempo. Sem falar que quase sempre não entendia bulhufas. O movimento estudantil se dividia em dezenas de grupos, que brigavam entre si desde os tempos em que Moisés atravessou o Mar Vermelho. Quem viu A Vida de Brian, do Monty Python sabe do que estou falando.

Confesso que tinha uma enorme simpatia pelos “Posadistas”, outra facção da Quarta Internacional, mais holística e esotérica. Os posadistas acreditavam em OVNIS e seres extraterrestres. Também acreditavam que os ETs, sendo seres superiores, já tinham realizado a revolução socialista em seus planetas de origem. Portanto, agora, deveríamos contar com o internacionalismo e, por que não, com o interplanetarismo dos ETs comunistas, que viriam para a Terra nos ajudar a fazer a Revolução. Os “Posadistas” brasileiros se concentravam, não por acaso, em Brasília, nas proximidades dos aeroportos de discos voadores de Alto Paraíso.

Como um bom filho da classe média, eu não trabalhava, claro. A graça é que um dos meus únicos trabalhos era distribuir os exemplares do… “Trabalho” nas portas de escolas e fábricas. O jornal apoiava o Sindicato Solidariedade, que estava causando um tremendo furdúncio na Polônia. Um dia meu avô, um simpatizante discreto do Partidão, me olhou sério e disparou: vocês são umas bestas! Estes caras são traidores do comunismo. É o Papa que está por trás disto junto com os americanos. Muito em breve a Polônia não vai mais ser comunista. Não deu outra. Sempre que o Lech Walesa aparecia na tevê, seu Jerônimo fazia questão de me lembrar: eu te disse, eu te disse!

Mas tinha muita festa. E as festas da Libelu eram sempre as mais alucinadas. A Libelu incomodava. A direita. E a esquerda também. Mino Carta não entendeu nada e colocou na capa da Isto É: “Libelu, o Charme da Esquerda adolescente.” E eu era um desorientado e alucinado adolescente trotskista da Libelu. Graças a Deus. Festas e passeatas. Um dia prenderam o Adeli Sell. Fizemos uma passeata e passamos em frente ao Fisk. Em outra passeata, contra a energia nuclear, vi com total perplexidade um grupo de atores que acompanhava o protesto vestidos com trapos e besuntados de gosmas e sangue falso. Mas o motivo real do embasbacamento é que o grupo percorreu muitas quadras se arrastando pelo chão sujo da Rua da Praia. Era o Oi Nóis Aqui Traveiz provavelmente a trupe teatral mais subversiva que já vi. Até hoje.

Eu passava as tardes lendo ou fazendo nada no prédio da Casa do Estudante. Numa delas, encontro uma moça linda, de cabelos loiros, compridos e cacheados, as bochechas rosadas, os olhos grandes e azuis, que eu tinha visto toda esfarrapada na passeata, e que por sorte, não tinha sido infectada pela radioatividade imaginária e nem por uma muito possível e real leptospirose. Puxei papo e comecei falando de teatro, caprichando na embromation e perguntando pra guria se ela queria ir comigo assistir a Ópera do Malandro que estava sendo encenada no Teatro Leopoldina. Com a Marieta Severo! Não curto teatro burguês, respondeu ela. Como eu não sabia chongas nem de teatro burguês e muito menos de teatro não burguês, a conversa não avançou. A tarde estava quente, a moça se espreguiçou e de seu sovaco estilo cabeleira altíssima veio uma nuvem quase radiotiva de inhaca braba. Eu com toda a minha finesse e elegância mandei na lata: tu não usa desodorante não? Desodorante é uma ferramenta do capitalismo e da sociedade de consumo para domesticar as mulheres e acabar com a essência do feminino. Tu não sabe que até os anos 20 deste século as mulheres não usavam desodorante? Isto é uma armação da sociedade capitalista.

Fui ver sozinho a Ópera do Malandro. Dormi na peça. Apesar da Marieta. Até hoje escuto o disco. Nunca mais vi a moça do Ói Nóis. A ditadura acabou poucos anos depois. Adeli Sell foi vereador pelo PT por uns três mandatos. Eu já tinha mudado pro Rio, se não, provavelmente teria votado nele. Os Argentinos julgaram, condenaram e prenderam todos os militares que cometeram crimes durante a ditadura. O general Videla, que em 1980 foi impedido pelos estudantes de reinaugurar uma praça em Porto Alegre, teve o fim que merecia: morreu na prisão em Buenos Aires. Aqui no Brasil, enquanto não seguirmos o exemplo de nossos hermanos, que tiveram a coragem de julgar e condenar seus militares, seguiremos tendo uma democracia meia boca, eternamente na corda bamba.
Em 2023, pronto pra completar 58 anos, já não me tenho em altíssima conta e, assim como a nossa democracia, sigo na corda bamba. Não mais em Porto Alegre, mas em São Paulo, com a Miriam, o Antonio e o Vicente, que pro azar deles, são obrigados a lidar com o meu (des)equilíbrio balançante. E nas próximas semanas a onda vai balançar nos filmes obscuros da sessão coruja, em um show dos Paralamas que, por motivos de força maior acabou acontecendo dentro de um circo de verdade e ainda numa viagem repleta de reações alérgicas em Rondônia. Puxem a corda! Love.
LINKS COMENTADOS NESTE POST:
Uma matéria do jornal Zero Hora de Porto Alegre sobre o conflito na Praça Argentina.
Biografia de Trotski
Robert Service faz o serviço completo e me obriga a fazer um trocadilho infame. O professor de história russa na Universidade de Oxford encarou as biografias de Lenin, Trotski e Stalin. Só encarei a do velho trosko, e confesso que nem sei mais avaliar se é correta, parcial, imparcial ou não. Trotski sempre foi sinônimo de polêmica e confusão. Eis aqui algumas de suas façanhas, que não foram poucas: foi ele quem organizou o Exército Vermelho para defender a Revolução dos ataques financiados pelos vizinhos europeus. Ele propôs uma escala rotativa de trabalho, para que ninguém ficasse desempregado. Também defendeu que a revolução deveria se internacionalizar. Exilado, foi morar no México onde namorou a Frida Kahlo e morreu com uma machadada na cabeça, dada por um espanhol que era agente de Stalin. O livro foi publicado no Brasil pela Record, dá pra encontrar nas livrarias ou no site Estante Virtual:
https://www.estantevirtual.com.br/livros/robert-service/trotski-uma-biografia/323209223
A página oficial da Tribo de Atuadores Ói Nois Aqui Traveiz, com a história do grupo, as montagens, os principais projetos, etc
https://www.oinoisaquitraveiz.com.br/
Trailer de “A Vida de Brian”, do grupo inglês Monty Phyton.
O filme mostra a vida de Jesus, quer dizer de Brian, na Jerusalém de 1979, quer dizer, de 19 DB (depois de Brian). Brian comanda a cruzada contra os americanos, quer dizer, contra os romanos. Mas antes de enfrentar os fariseus de Roma, eles precisam lutar contra as 5.347 facções que combatem os romanos. O filme completo está na NETFLIX
Trailer do documentário “Libelu, Abaixo a Ditadura“
Melhor documentário no É Tudo Verdade de 2020, o filme de Diógenes Muniz conta a história do grupo mais anárquico do movimento estudantil. Nos depoimentos a comprovação da lei de Belchior: ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais. Alguns deles, piores dos que os pais. O filme completo está no NOW, Vivo Play, Oi Play, Google Play, iTunes, Apple TV, YouTube Filmes.
Trailer de “Argentina 1985”
Filme obrigatório. Os chatos vão dizer que é cinemão, previsível, etc, etc. Dane-se! Nossos vizinhos fizeram o que nunca ousamos fazer: julgaram, condenaram e prenderam militares e torturadores. Ricardo Darin faz o papel de um dos promotores que conseguiu enquadrar os ditadores, uma espécie de Moro, só que com cérebro e no lado certo da história. O filme concorre ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2023 e está no Amazon Prime.
Trailer do filme “O jovem Karl Marx”
Bom para recomendar para aquele seu primo obtuso que acha que Hitler era socialista ou pra sua tia que se formou em generalidades pela Universidade de Sucupira. Filme bacanudo, entretenimento e conteúdo eu e você, você e eu, juntinhos, e como não poderia deixar de ser, colocando Marx no lugar que sempre será dele ninguém tasca ele chegou primeiro: ainda é e será sempre um dos maiores pensadores da história da humanidade.
PLAYLIST NA CORDA BAMBA ópera do malandro e kurt weill
Um set com parte da Ópera do Malandro e outras malandragens de Chico Buarque. Muitas canções perdidas nas estrelas de Mr. Kurt Weill, o compositor alemão que foi parceiro de Bertold Brecht na Ópera dos Três Vinténs, que inspirou Chico na Ópera do Malandro. Tem A Cor do Som e Frenéticas. Alcione e The Doors. Sting e Tom Waits. Tem música pra acordar e música pra chorar. Acorde com o Hino de Duran e tente não chorar com Lou Reed cantando September Song.
DUAS FAIXAS QUE NÃO ESTÃO NO SPOTFY E QUE NÃO PODEM FICAR DE FORA
Chico Buarque e MPB4 O Malandro
e
Chico Buarque com Moreira da Silva em Doze Anos
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