na corda bamba e quando o brasil era moderno

Nos anos noventa fiz um documentário sobre o arquiteto Oscar Niemeyer. Um filme de admirador, filme tributo, assumidamente de defesa da arquitetura dele e do personagem que Oscar inventou para ele mesmo, com suas frases gauche na vida repetidas exaustivamente, independente de quem o estivesse entrevistando. Naquela época, o nome Niemeyer parecia estar ligado a um futuro esquecido, um moderno envelhecido, tão ultrapassado quanto uma calça pantalona e tão anacrônico quanto uma máquina de escrever. Pra completar, o velho era comunista, outro anacronismo naqueles tempos de perestroika e glasnost. Nem mesmo o status de gênio da raça impedia que em qualquer mesa de boteco Niemeyer fosse achincalhado como uma Geni expulsa do paraíso da revista Vogue. Qualquer decorador da Casa Cor ou até um pintor de paredes do Jardim Pernambuco era mais elogiado do que o Oscar. E do mesmo modo que ele tinha suas máximas prontas pra explicar seu trabalho, as hordas também tinham as suas mínimas para avacalhar seus projetos: “bonito, mas muito caro”, “bonito, mas pouco funcional”, “ele faz esculturas e não arquitetura”, “ele devia ter parado em “Brasília”…Falar mal de Niemeyer era tão clichê quanto dizer que francês não toma banho ou que suecos são suicidas. Nem o MAC, inaugurado um pouco antes escapava: não serve como museu, tem carpete, etc, etc. Para ser cool, hype e âpitudeite você tinha que ser um edifício espelhado no começo da Rio Branco, como o RB1, que foi capa da Revista de Domingo. O Rio de Janeiro tinha, para a glória dos iogues do jóquei, um pós-moderno pra chamar de seu. No entanto, qualquer gringo, de hugo boss ou birkenstock, qualquer gringa de unhas laranjas que desembarcava na cidade, todos corriam pra visitar o Capanema e a Casa das Canoas.

a equipe com oscar no mac

No início dos anos 2000 o arquiteto Lauro Cavalcanti organizou a exposição Quando o Brasil era Moderno, que fez uma retrospectiva do trabalho de Oscar, de Lucio Costa e de outros tantos arquitetos pra lá de talentosos daquela geração. Com os desenhos do pavilhão do Brasil na Feira de Nova Iorque, com rabiscos e maquetes do MAM, do Pedregulho, da ABI e do Fundão. Estes arquitetos, junto com outros artistas, intelectuais, educadores e pensadores, tentaram transformar o país entre os anos 30 e os anos 60 do século XX. Naquela exposição eu percebi que o assunto -a tentativa de uma categoria profissional, independente da pretensão e da soberba, querer transformar um país- merecia outro filme.

palácio capanema, rio de janeiro

Até porque, os arquitetos tinham quase conseguido. É difícil imaginar qual setor da vida cotidiana brasileira que não foi afetado pela tentativa de transformação conduzida por eles: escolas, hospitais, teatros, ginásios, fábricas, museus, casas populares e mansões, edifícios públicos e palácios, galerias comerciais, restaurantes e outras centenas de tipos de prédios foram construídos com projetos modernos, criados por arquitetos modernos nas cidades grandes e também nas cidades pequenas de um país da periferia do mundo moderno. Quase um milagre.

irmãos roberto, ed.julio de barros barreto, rio
escola milton campos, niemeyer, belo horizonte

O historiador Sérgio Buarque de Holanda dizia que o Brasil é uma procissão de milagres. Até poucos anos atrás, ainda era possível acreditar que o país pudesse, de algum modo, ser moderno. Atualmente estamos precisando de muitas procissões e de uma infinidade de milagres. Não para que o país fique moderno, mas para impedir que ele se transforme de vez em um país do passado.

conjunto pedregulho
painel de burle-marx no conjunto pedregulho
painel de portinari no conjunto pedregulho

Como quase tudo na minha vida demora pra acontecer, entre a ideia e a captação da grana para executar, as filmagens deste documentário começaram em outubro de 2018, apenas uma semana antes das eleições presidenciais. Marco Oliveira, o Markão, que foi junto com o Jacques Cheuíche, o fotógrafo de A Vida é um Sopro, também estava comigo na empreitada. E estava sorrindo de orelha a orelha com as lentes Zeiss que o Nuno conseguiu incluir no orçamento. Mas as lentes alugadas para deixar o filme mais bonito só estavam servindo para mostrar com mais nitidez o abandono dos prédios que eu queria filmar. Em quase todas as cidades incluídas no roteiro. Em Brasília, na praça dos Três Poderes os palácios estavam cercados por grades de proteção, o prédio do Supremo tinha um detector de metais gigante na varanda principal e a grama crescia desordenada no meio do concreto. Ao longo de todo eixo monumental, o clima era de fim de feira. E quando o chefe da segurança do Palácio do Planalto, que tinha me contado como os filhos tinham se formado e a família prosperado nos governos petistas me contou em quem iria votar, eu percebi que nada do que eu pretendia contar no meu filme importava. No domingo seguinte, na Savassi em Belo Horizonte, eu não dormi com o barulho dos carros que comemoravam a vitória dos milicianos do condomínio Vivendas. Aquele parecia ser o pior momento para se falar em modernidade. Ou sobre um projeto de futuro. Pior ainda, um projeto de futuro que tinha acontecido no passado. E quando o presente tá uma porcaria, o jeito às vezes, é voltar pro passado.

missões e o domínio sobre o futuro e sobre o passado
quartel general do exército, niemeyer, brasília

Entre novembro de 2018 e fevereiro de 2019 entrevistei arquitetos, historiadores, urbanistas, sociólogos, educadores, jornalistas, artistas, e antropólogos em Brasília, Belo Horizonte, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Cataguases e São Paulo. Aproveitei mais dois outros trabalhos feitos ao longo de 2019 para fazer imagens também em Diamantina, Ouro Preto, Curitiba, Salvador, Belém e Recife. Ao longo daquele ano fui percebendo que a história que queria contar ia muito além de uma vitória de um grupo que defendia um estilo arquitetônico sobre outro. Não era um embate entre quem gosta de fachada limpa contra quem prefere ornamentos por todos os lados. Quanto mais eu me aprofundava na história das disputas travadas nos anos 20-30, mais eu concluía que o presente estava se repetindo, com novos atores e também com os velhos de sempre. E que tudo que foi disputado logo depois da Revolução de 30 no Gabinete de Gustavo Capanema (por 11 anos, o ministro da Educação e Saúde de Getúlio Vargas) estava novamente em disputa.

brasília

Nos anos 30 havia uma luta entre arquitetos modernos, neocoloniais e ecléticos. É claro que era uma luta por mercado. Generalizando, os modernos estavam associados à esquerda, a arte de vanguarda, as novas formas de se pensar o país através de Gilberto Freyre, Sergio Buarque, da antropofagia de Oswald de Andrade, das pinturas de Tarsila, Anita, Di e Portinari, do trabalho de pesquisas regionais de Mário de Andrade e, mais importante, à Escola Nova de Anísio Teixeira e outros educadores progressistas. Os neocoloniais, associados às velhas oligarquias, ao coronelismo, com um nativismo reacionário e com a maior parte de seus defensores filiados e trocando beijos de língua com os galinhas verdes integralistas. Os ecléticos eram uma espécie de partido novo ou de psdb das artes. Nem lá nem cá e na hora do vamos ver, tal como hoje, se alinhavam com os babaovos do Plínio Salgado. O resumo é tosco, mas era por aí. E o que estava em pauta era um projeto para o país. Um projeto estético, cultural, social e político. Na educação, pode-se dizer que os católicos conservadores venceram as principais batalhas. Na arquitetura (o futuro) e no comando do Patrimônio Histórico (o passado), os arquitetos modernos venceram. E se alguém tem alguma dúvida sobre o nível dos embates, procurem ler os jornais da época. Eles estão quase todos disponíveis no site da Biblioteca Nacional. Vocês vão encontrar desde manifestos assinados por Warchavchik, quanto artigos acusando o prédio da ABI de ser um prédio sem alma, um edifício deformador do caráter nacional (escrito por um assumido simpatizante nazista da família Konder de Santa Catarina).

hospital sara, glauco campello, brasília
ceasa, fayet, eladio dieste, c.e.comas, carlos araújo porto alegre

Se a comparação com o passado ainda parece forçada, vale uma pequena e rápida retrospectiva do que aconteceu por aqui nos últimos anos: O governo da primeira mulher que presidiu o Brasil foi derrubado por um golpe, um golpe que teve o apoio das mesmas forças que derrubaram Vargas, que tentaram derrubar JK, que derrubaram Jango e que apoiaram a ditadura militar. As mesmas famílias, as mesmas empresas, os mesmos jornais. O único presidente do Brasil que não nasceu em uma família ligada às oligarquias, foi acusado sem provas e passou 580 dias na prisão. O Ministério da Cultura foi extinto e se cogitou vender o Palácio Capanema. O IPHAN foi esvaziado e dirigido por pessoas que sabiam tanto sobre o patrimônio histórico quanto eu sei sobre física quântica. Se nos anos 30, os pensadores da Escola Nova tinham como adversários os intelectuais da direita católica, hoje, os cretinos do Escola Sem Partido fazem os intelectuais da direita católica parecerem príncipes iluministas. Sigo aqui com um trecho do depoimento de Carlos Berriel, professor de história literária da Unicamp, feito para o filme:

A burguesia do café moderna, ela tinha um projeto nacional, de ter o Brasil pra ela, e mesmo torpe, isso era um projeto. A atual, ela não quer o Brasil pra si, ela quer ser sócia das potências internacionais que exploram o Brasil. Então ela não é capaz de nada, ela não pode ter nenhuma manifestação ideológica que não seja baixo clero. É uma burguesia de terceira categoria, não tem projeto. Ela só existe como rapina.

E pra quem ainda acha pouco, o ex-chefe do ex-presidente milciano, o ex-presidente americano lançou em 2020 o plano “Fazendo os Prédios Federais Belos Outra Vez”. O belo significava que os novos projetos deveriam ser todos como no passado. Ou seja, neoclássicos. A medida foi suspensa por Joe Biden.

casa modernista, gregori warchavchik

Em fevereiro de 2019, pedimos autorização para filmar na Casa Modernista da rua Santa Cruz em São Paulo. A autorização não foi dada. A casa estava sem dono. Nem a secretaria municipal e nem a estadual queriam administrá-la. Patrimônio, hoje, é sinônimo de encrenca. Fizemos as imagens da casa com o celular. A casa, símbolo do vanguardismo das elites paulistas, estava vazia. Atualmente os agentes municipais e estaduais seguem batendo cabeça, querendo colocar o museu da casa brasileira dentro da casa modernista. É quase como querer colocar uma caravela dentro de um fenemê.

E ali naquela casa, vazia, mal-cuidada, naquele dia de sol e chuva, eu tentava entender como e porque o Brasil deixou de ser moderno, deixou de ser vanguarda, deixou até de tentar ser moderno. Então comecei a listar os motivos que me levaram a fazer este filme. Lembrei dos carros JK da infância, do álbum de figurinhas ufanista mostrando Brasília como uma cidade dos Jetsons. Lembrei das casas das amigas de minha mãe, cheias de móveis pesados, pratos de porcelana, galos portugueses, naturezas mortas, e santos de todos os tipos. Minha mãe, se vivesse nos anos 30, provavelmente seria adepta do neocolonial. Mas antes que vocês pensem que este filme tem alguma motivação psicanalítica, esqueçam.  Eu quis fazer este filme, porque mesmo sem saber o que era, sempre achei a arquitetura moderna brasileira surpreendente, porque aprendi a gostar de Oswald, Mario, Di, Portinari, Volpi, Drummond, Graciliano, Bandeira, os Irmãos Campos, a bossa nova, os discos e as capas dos discos da Elenco, o cinema novo, tropicalismo e quase todos os ismos vanguardeiros ou não que pipocaram na minha frente.

Mas todos estes gostos não resolviam o principal dilema do meu filme: o Brasil jamais foi moderno. Ou melhor, o Brasil nunca se livrou do passado. Nunca resolveu questões básicas já resolvidas por nações modernas: erradicação do analfabetismo, saneamento básico para todos, equilíbrio na distribuição de renda, habitação e transporte público relativamente dignos para a classe trabalhadora, etc, etc. Não adianta ter uma Pampulha num país que ainda não resolveu nem Canudos.

casa modernista da rua santa cruz, sp
mosteiro nossa senhora das graças, francisco bolonha, bh
ginásio de guarulhos, vilanova artigas

E tudo estava novamente sendo colocado em jogo, de forma mais pesada, e com inimigos muito, mas muito mais toscos e perigosos. A pergunta era, quando o Brasil esqueceu o modernismo e optou pelo burrismo?

O tempo ia passando e eu ia adiando a entrega do corte final. Aí veio a pandemia, aí eu descobri novos autores, novas visões tanto do passado quanto do presente e teimei que precisava entrevistar também estas pessoas, que precisava filmar mais alguns prédios que estavam em reforma, que tinha encontrado um novo ensaio sobre a semana de 22 e outro que demolia 32, mais outro que ressuscitava 45, tudo servia como desculpa para um único motivo: eu não queria de modo nenhum terminar e entregar este filme com o país sendo governado pelos milicianos do vivendas. Algo me dizia que eu tinha que esperar o fim deste período horroroso, onde fomos governados por pessoas que representam um Brasil ligado ao passado. Não à um passado idílico e nostálgico. Mas à um passado autoritário, repressor e tremendamente incompetente. Estas pessoas estão por hora, afastadas. Mas o Brasil sempre consegue nos surpreender. Para o melhor, e para o muito pior.

hotel em cataguases

No final das contas, eu entrevistei tanta gente, tratei de tantos assuntos, encontrei tantas imagens, fotografias e arquivos, que quando eu vi, estava com uma série praticamente montada. E com um corte de 9 horas de duração que viraram 90 minutos por exigência dos distribuidores. Um dia eu ainda vou ter um momento de Escorel e vou conseguir fazer um filme de 3 horas. Por enquanto, estes 90 me parecem um curtinha. Que venha a série. Abaixo, a lista da turma da pesada que foi entrevistada:

em belo horizonte: gustavo pena e paulo henrique alonso,

em berlim: rafael cardoso

em brasília: claudio queiroz, danilo matoso macedo e josé carlos coutinho,

em campinas: carlos berriel

em cataguases: henrique frade e joaquim branco

em porto alegre: carlos eduardo comas, ivan mizogushi, juremir machado, moacyr moojen marques e sergio moacyr marques,

no rio de janeiro: aline lopes de lacerda, ana maria magalhães, augusto ivan, fred coelho, glauco campello, helena bomeny, humberto kzure, ítalo campofiorito, jayme zettel, joaquim redig, laurent vidal, lauro cavalcanti, lucia lippi, luciano figueiredo, maria elisa costa, maria helena salomon e maurício lissovsky

em salvador: carlos teixeira

e em são paulo: abílio guerra, alecsandra matias, ana paula koury, ana paula simioni, angelo bucci, anne marie sumner, carlos lemos, ciro pirondi, cristiano mascaro, guilherme wisnik, marcio kogan, nabil bonduki, paulo mendes da rocha, pedro mendes da rocha, rafic farah, raul juste lores, renato anelli, rosana paulino e weber lopes

maria elisa costa
lauro cavalcanti
paulo mendes da rocha
carlos lemos
ana paula koury
renato anelli
maria helena salomon

Agradeço muito a toda esta turma. e reproduzo aqui um as palavras de Maurício Lissovsky, que vão encerrar o filme. Maurício partiu muito antes da hora, e sabia que até a mais delirante utopia é sempre necessária:  

Existe uma tendência de a gente relacionar a utopia com coisas impossíveis e irrealizáveis, mas a utopia é uma referência, a utopia é um cenário de referência, é uma espécie de norte, ou de linha da qual você vai se aproximando de alguma maneira. Eu acho que isto não se deve abrir mão, de modo nenhum.  Eu acho que a gente teve belos projetos modernos, a gente tem alguns sonhos modernos, alguns deles eu acho que permanecem válidos até hoje, o sonho da educação pública, por exemplo, se você pensar nela, que talvez seja o projeto moderno mais importante, o sonho da educação pública tal como ele é formulado por Anisio Teixeira, é um projeto incrível, estamos devendo isto até hoje, devemos renunciar à isto? Acho que não devemos renunciar à isto. Devemos renunciar à modernidade do que este projeto ainda representa hoje no Brasil? Então eu acho que em alguns momentos, estes sonhos modernos que surgem, eu acho que eles tem ainda não só um apelo, mas eu acho que eles tem ainda uma dimensão política e pública que deve ser afirmada. E outros, vão pro museu. Outros são coisas que ficam no museu, que serão um dia contempladas, serão um dia compreendidas, nos ajudam a compreender o passado e tudo, mas acho que elas já não nos dão uma resposta pro presente, tal como pareceram dar naquele momento, uma resposta para aquele momento.

maurício lissvsky

É isto macacada! Na corda bamba completa quase 40 dias sem novos assinantes, um recorde nunca antes alcançado na história deste país que se faz com homens, livros e para nosso azar, com uma penca de boçais também! fiquem na corda! PAZ para todos e PIX, pra quem quiser fazer é no meu email: fabpmaciel@gmail.com

LINKS! LINKS E MAIS LINKS!

a vida é um sopro no canal curta: https://canalcurta.tv.br/filme/?name=niemeyer_a_vida_e_um_sopro

cartaz alemão de a vida é um sopro

moderno e brasileiro, livro do lauro cavalcanti:

este texto, publicado em portugal, dá uma dimensão de como o maurício lissovsky era foda: https://www.dnoticias.pt/2022/8/29/325895-mauricio-lissovsky-um-legado-maior-do-que-o-mundo/

livro fundamental, sobre o prédio do ministério da educação, escrito pelo italiano-argentino-cubano roberto segre

https://vitruvius.com.br/pesquisa/bookshelf/book/1389

a obra secreta, filme argentino de ficção, sobre a única casa projetada por le corbusier construída na américa latina:

https://www.archdaily.com.br/br/888515/a-obra-secreta-filme-narra-o-que-teria-acontecido-se-le-corbusier-tivesse-visitado-a-casa-curutchet

e o site da hemeroteca digital brasileira, onde se pode acessar milhares de documentos, jornais, fotos, etc, etc:

Hemeroteca Digital

Uma resposta a “na corda bamba e quando o brasil era moderno”

  1. Avatar de Cássia Zanon

    Baita texto! E quando vemos o “curta”?

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