Os versos do ex cabeleira de sansão Tiago Araripe dão o norte da playlist 34, que encerra a semana onde tal e qual um discípulo de coach motivacional, vivenciei um intenso e transformador processo de reinvenção e desconstrução de minha persona enquanto ser vivente neste planeta. Na semana onde a turma da upa diogo de faria se superou e me atribuiu novas significâncias e pertencimentos, finalmente, depois de 10 anos em São Paulo, adquiri o direito de ser um ser humano da raça amarela. Banzai! Viva o SUS e que venha mais uma semana com o dedinho do pé quebrado.

Ê, de noite, ê
De noite até de manhã
Iê, ouvi cantar pra Nanã
A playlist 34 de Na corda bamba abre com o MPB4 cantando Canção de Nanã e quem mais pode se dar ao luxo de fazer uma canção com apenas um verso de 3 linhas e conseguir tamanha boniteza a não ser Dorival Caymmi? O MPB4 lançou em 1972 o disco Cicatrizes, talvez o mais duro e amargo do grupo, embora eu ache o “bons tempos, hein?” disco de 79 já na abertura, tão sombrio quanto.


As belas palavras de Nnenna Ijomah para a bela balada de Thelonious Monk:
Quando você acredita em alguém, você o protege e cuida dele como se fosse um presente que você nunca quer perder ou quebrar. Thelonious se perde em seu amor por ela em “Crepuscule with Nellie”, da palavra francesa para crepúsculo . A balada de Monk, escrita durante a doença de sua esposa e deixada misteriosa para o espectador (ela foi hospitalizada por um distúrbio da tireoide), recua em ritmos deslocados em busca de escalas e acordes dissonantes que não se resolvem completamente. Essas notas parecem perseguir uma resposta que no final não existia.

Hugh Masekela estava começando a voar alto no meio dos anos 60 quando gravou ao vivo o disco The Lasting Impressions of Ooga Booga, com músicas de Herbie Hancock e uma versão impressionante, relaxante e viajante de Mas que Nada de Jorge Ben.

No! No! No! com Dawn Penn é mais uma das dezenas de músicas que conheço graças ao repertório festivo e acachapante de Maurício Valladares, e algumas delas são tão marcantes que a gente lembra até da festa em que ouviu a primeira vez. Esta foi no Planetário da Gávea e se você quer ser um anjo ou se quiser ser uma estrela, ser poeta e tocar um violão, voe junto Emerson, Lake & Palmer em Still You Turn Me On.

A corda de hoje quase abriu com o rei Barreto, com a timbaleira transe de Acid, o disco boogaloo psicodélico que Ray Barreto fez em 1968 e que funciona na minha vida como uma missa macumbeira rebolante. Na sequência tem Toquinho em momento Jorge Ben e Trio Mocotó com Zana; Alceu Valença em momento caboclinho apaixonado como quem vai ao cinema, eu te amo, como quem planta um roçado, como quem sai da cadeia, eu te amo, e o amor é assim mesmo, até para quem perde um amor como o Kevin Johansen ou pra quem fica entre os amigos e os camaradinhas, como o Milton Wright, ou ainda, pra quem está se sentindo muito bem como o Grand Funk Railroad e tão bem como o Tim Maia, que chama pro baile mais tarde.

E a dica vem do ninja Carlos Eduardo Lima das implacáveis novidades do CELULA POP: Iraina Mancini, uma moça que vem de Londres e que não para de rodar por aqui. Ela poderia ser brasileira, indiana, inglesa, americana e acho que ela é um pouco de tudo isto, além de ter sido carregada no colo (literalmente) por David Bowie quando era neném. Ouça Undo the Blue e depois siga na maciota com Citizen Cope que fecha este momento romântico e destrambelhado.

Pio Lobato chega com tudo no Tecno da Saudade, que tá no disco Tecnoguitarradas e em algumas cenas de estrada da Transamazônica, uma Estrada para o Passado (Pio fez a trilha) e naqueles tempos transamazônicos Téo Azevedo dizia que o novo de hoje já é velho aqui. Em tempos menos transamazônicos, na Porto Alegre do começo dos anos 80, numa galeria da Av.Independência ficava a Armação, loja tocada pelo Claudio Siboney, onde a gente encontrava os lançamentos da Lira Paulistana, da Som da Gente e de outros selos independentes que estavam começando a pipocar. Era lá que eu ficava ouvindo o disco vermelho ao vivo do Itamar e os cabelos de sansão do Tiago Araripe, que eu ouvi, ouvi e ouvi até o Araripe sumir do dial. Um belo dia, em 2013, ele apareceu com um disco choque de monstro e perguntando pra todos, como quem não quer nada, A quantas anda você? uma prima reggae xote da abolerada Onde anda Você do Vinícius:
Eu quero saber
A quantas anda você
Se está zen ou deprê
Up to date ou démodé
Eu quero saber
A quantas anda você
Se popular ou privê
Se animada ou blasé
Se está longe, em uma sonda espacial em Marte
Além do que olhos podem ver ê ê
Ou no deserto, esperando a próxima miragem
Sem ter alguém ou pra onde correr ê ê
Ou por aí, em qualquer parte
Vendo a Sessão da Tarde na TV
Eu quero saber
Como está mesmo você
Transparente ou fumê
Rapadura ou glacê
Eu quero saber
Como está mesmo você
Reggae ou MPB
Alta costura ou prêt-à-porter
Se num gôndola bucólica em Veneza
Ou presa no rush, na Marginal Tietê
Se cantando no chuveiro, se achando estrela
Se arriscando em concurso de karaokê
Ou vestida numa casca de banana nanica
Na pista de dança, ao som de Beyoncé
Eu quero saber
A quantas anda você
Se vai de chá ou saquê
Se lê Caras ou Mallarmé
Eu quero saber
Como está mesmo você
Se vai lembrar ou esquecer
A nossa dor, nosso prazer
Eu quero saber
A quantas anda você
Se vai de chá ou saquê
Se lê Caras ou Mallarmé
Eu quero saber
Como está mesmo você
Se vai lembrar ou esquecer
A nossa dor, nosso prazer
Eu quero saber
Eu quero saber
Eu quero saber
Eu quero
Eu quero saber
Eu quero saber
Eu quero saber
Eu quero saber
Eu quero saber
Não por acaso calhou dela fazer dobradinha com Capricorniana, do pernambucano Tagore, que parece conformado em saber que se ela não diz que te ama, é capricorniana! Sei bem como é Tagore…
De capricórnio, ela quer ser do mundo
Ela quer ter de tudo, ela quer ter razão
De vez em quando, quando lhe interessa
Me recebe em festa com satisfação
Na nossa casa, no suor da noite
Num dançar de açoite, me deixa no chão
De madrugada, gata acesa arranha
Com olhar de castanha, dominando o cão
Se não diz que me ama é capricorniana
Não diz que me ama, é capricorniana
Não diz que me ama, não diz que me ama
Não diz que me ama, é capricorniana
É capricorniana
É capricorniana
É capricorniana
É capricorniana
De capricórnio, ela quer ser do mundo
Ela quer ter de tudo, ela quer ter razão
De vez em quando, quando lhe interessa
Me recebe em festa com satisfação
Na nossa casa, no suor da noite
Num dançar de açoite, me deixa no chão
De madrugada, gata acesa arranha
Com olhar de castanha, dominando o cão
Se não diz que me ama é capricorniana
Não diz que me ama, é capricorniana
Não diz que me ama, não diz que me ama
Não diz que me ama, é capricorniana
É capricorniana
É capricorniana
É capricorniana
É capricorniana
E se ferve na cama ela é ariana
Se o ciúme é sina, acho que é taurina
Se perde e se encontra é geminiana
De bom gosto é virgem, perfeita menina
Se a lua é perto, ela é pisciana
Sagitário é doce como tubaína
Se chora por nada é canceriana
Se mora no espelho, ela é leonina
Se é de aquário é dura como um pé de cana
Se de libra, é curva como serpentina
Se o beijo é ferrão, é de escorpião
Se não diz que me ama é capricorniana
Não diz que me ama, é capricorniana
Não diz que me ama, não diz que me ama
Não diz que me ama, é capricorniana
É capricorniana (o quê?)
É capricorniana (será?)
É capricorniana (eita)
É capricorniana
Jacques Higelin volta para a corda e o mr. Zero Guilherme Isnard me contou que o cara só não ficou mais famoso porque a França era pequena demais para ele e Serge Gainsbourg. Avante com o baticum esquisito do Jungle e com uma novidade (para mim) baiana: Rodrigo Campos. Mais avante ainda com Trio Irakitan que nunca sai das minhas playlists desde que me entendo por gente; com Bobby Timmons, Sombrero Luminoso e uma sequência entre a melancolia e fofurice estrelada por Hooded Fang, Fiona Apple, Van Morrison e Marcelo Jeneci, muito bem acompanhado pela Laura Lavieri. Pra tanta fofurice, só mesmo uma bagaceirice pilantra como a de Alípio Martins, e pra tanta bagaceirice, nada como a matreirice de Stanley Turrentine, que faz o bonde seguir com Caetano Veloso em dupla com David Byrne, seguidos cabeça com cabeça por Ed Lincoln e seu órgão espetacular, e como estamos no órgão, vamos de Hammond Grooves, o trio de Daniel Latorre, que toda semana está em algum lugar do planeta. Em frente com Joabê Reis, Sérgio Ricardo, Luiz Henrique, Moby Grape, Syd Barret, Stereolab, The Specials e novamente com Tiago Arararipe em versão asa linda irmãos campos para música de Jimi Hendrix. Adiante com Tony Joe White, com Cyro Monteiro exaltando São Paulo e com Tenório Jr. caindo no embalo.

O juiz olha para o relógio e começa a caminhar devagarinho pro centro do gramado ao som de Nino Rota, dos Pink Martini– que embalam a sucarina total da série napolitana Mina Settembre e da Caterina Valente, que faz uma supimpa conexão ítalia-cuba. Stevie Wonder pra levantar e estourar as pipocas pra Obaluaiê, e a corda fecha com a lindeza total do piano solo (ouçam com atenção, é lindo demais) de Thelonious Monk e com o MPB4 dizendo bom dia, boa tarde e boa noite.

É isto macacada! A CORDA agradece as chegadas de Vinícius Figueiredo, de Tissi Mousinho, do Marco Oliveira, que já estava nela, mas deu um reforço, de Madalena Vaz-Pinto e de Luiz Leitão de Carvalho, parceiro de João Luiz de Albuquerque em algumas aratacas no submundo do posto seis carioca. É isto. PAZ! E AMOR! E FEIJÃO!
NA CORDA BAMBA PRECISA DE VOCÊ: assine nos botões vermelhos lá embaixo ou apoie com qualquer valor no pix: fabpmaciel@gmail.com
A foto da capa foi tirada na exposição Doshin, que está na Japan House da Av.paulista. Abaixo, mais um desenho matador de Vicente de Paula Maciel, que vai fazer 6 anos agora no dia 6!

LINKS! LINKS E MAIS LINKS!
mauro ferreira fez no globo um belo artigo sobre o cicatrizes;
o filme de 1988 sobre thelonious monk:https://www.dmagazine.com/arts-entertainment/2017/10/with-thelonious-monk-straight-no-chaser-bebops-instigator-still-moves/
sobre acid, de ray barreto:
IRAINA NA Célula Pop. Parece que ela curtiu e escreveu pro CEL. É isto que acontece quando a gente não gasta fogo com ximango iate rock. O destino sorri com coisas muito mais bacanudas!
tenório jr. era o pianista de vinícius de moraes (super popular na argentina e no uruguai nos anos 70). numa noite, estava caminhando, próximo do hotel em buenos aires onde estava hospedado, quando foi abordado por militares e levado para um quartel, confundido com algum oposicionista. Em ditaduras, opositores são presos. Lá foi barbaramente torturado. Quando os milicos argentinos perceberam a merda que tinham feito, optaram pela solução barbárie e executaram Tenório. Esta história vergonhosa é contada aqui: https://memoriasdaditadura.org.br/biografias-da-resistencia/francisco-tenorio-jr/
alecsandra matias mandou avisar:

paula delecave mandou avisar que ela veio de cá e que ela está lá, no augusto cabrita em portugal.

ana paula simioni manda avisar:

e paulo scott mandou avisar que em setembro vai rolar na biblioteca são paulo:

E A PLAYLIST!

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