Aos 27, Miss Brasil Café equilibra maternidade e trabalho no agro: “É um privilégio”. A frase aparece em destaque na tv do elevador, junto com a foto de Karoline L. sentada entre sacas de café do cerrado mineiro. A loira veste jeans e ostenta orgulhosa a coroa na cabeça junto com a faixa de miss atravessada no peito. Um pouco mais abaixo o logotipo da revista Caras. Vivo num bairro classe-média, moro num prédio classe-média e a maior parte dos meus vizinhos são profissionais liberais -ainda se usa isto?- aposentados e jovens casais que sei lá por qual motivo, aceitaram colocar monitores de tv dentro dos elevadores. A contrapartida são os avisos de limpeza da caixa d’água e das reuniões de condomínio, que aparecem em letras coloridas, enquanto pipocam notícias sobre esportes, cuidados com o seu pet ou bebê-hoje eles são indissociáveis- blockbusters para toda família e os destaques da área econômica, normalmente alguma frase que eles tiram da Forbes com os dados da última safra de milho. Entre os anunciantes, a Record é a campeã e nos últimos tempos sei quais novelas turcas ou bíblicas estão passando. Eu sou tudo, menos o público alvo, mas tô ligado que no dia 24 estreia Coração de Mãe. Esta semana subi e desci cantarolando Vicente Celestino: “disse um campônio a sua amada, minha idolatrada, diga o que quer, por ti, vou matar, vou roubar, embora tristezas me cause mulher.” Na quinta um dos elevadores quebrou e já estou me sentindo desatualizado.

As aulas voltaram e neste semestre preciso ocupar o tempo dos meus guris pela manhã. Propus algumas atividades lúdicas, entre elas a palavra do dia, uma cabra-cega de dicionário. A animação e a alegria deles são contagiantes: Por que eu tenho que saber o significado desta palavra? Eu nunca vou falar isto na vida! A gente já vai pra escola de tarde! Que bosta! Sério pai? De novo? Vai ser todo dia esta chatice? As palavras que sairam até agora:
evoluir/romper/perpendicularmente/ telejornalismo/lobotomia (esta gerou mais protesto pois na explicação havia incisão, Vicente perguntou o que era e eu falei pra ele procurar no dicionário)/ saprobiose (alguém sabe?) /consulta/ enlamear/ abrigamento/ fanfarronada/ noiva/ justa/ ioga/ A -num dia de muita revolta Antonio apontou pra primeira letra/ destelhar e aba.
Te cuida Piaget!

Eu me divirto tentando encontrar mensagens do divino nas palavras que surgem aleatoriamente, na ilusão de uma sincronicidade cotidiana. Preste atenção nos sonhos, preste atenção nos recados do destino. Se os meninos vão lembrar disto lá na frente, se vão ficar traumatizados e vão discutir isto na terapia, se a prática vai virar piada na mesa do boteco…isto é fichinha perto do projeto de destruição da educação pública que o governador Tarcisio e seu funcionário caracrachá Renato Feder estão propondo para o “estado mais desenvolvido” da nação. A aberração das escolas cívico-militares é apenas um dos mecanismos para o desmantelamento do sistema educacional. Tem vários outros: corte drástico de verba, fechamento de escolas, terceirização de serviços, material didático repleto de erros, mudança no plano de carreira dos professores, a lista é grande. Mas eu insisto aqui: a destruição do ensino público não é só um projeto político. É um projeto estético. Não preciso me aprofundar. Uma foto da dupla é suficiente:

Nos filmes de terror, demônios costumam ter duas caras, a perfeita e a perversa. No caso da dupla aí de cima, não tem antropologia da face gloriosa, não tem disfarce, é só perversão. A feiúra é condição. A mediocridade é opção única. Não tem múltipla escolha e a palavra é: Desinteligência.
Outra palavra aleatória é “medida“. A maior transação do futebol brasileiro foi a contratação de Lucas Paquetá pelo Flamengo. No primeiro jogo ele mostrou seu tamanho: isolou uma bola na cara da gol. É a medida do seu futebolzinho tico-tico, a média com pão e manteiga amareleja. O café é fraco, o pão é murcho e o recheio é margarina. Mas a barca vale milhões de euros.
Tá pensando que tudo é futebol? Tô. Futebol e desinteligência. Túlio Maravilha, craque nos gramados, entulho nas redes com senhora e filha. Tá pensando que tudo é futebol? Vá se arranque da minha janela, assim é tomar a frente do sol…
Vampiros não tomam sol. Vampiros se disfarçam muito bem e sugam o sangue e a alma de paulistas caipiras, gaúchos da fronteira e de negros do Mississipi. Não me importa se Pecadores merece as 14 indicações que recebeu pro Oscar. Me cago nas pelotas pra cerimônia. Mas Pecadores é um baita filme de vampiro. Pouca gente percebeu que é um musical, aliás as melhores cenas, são musicais. E tem Buddy Guy no final. E tem Hailee Steinfeld em vários momentos. E é uma boa metáfora dos tempos atuais. Assim como Uma batalha após a outra. Assim como O Agente Secreto. É quase um acontecimento. Três filmes que não são cinema bunda-mole disputando a estatueta.

Tive poucos encontros com Silvio Da-Rin. São deles as imagens da ditadura militar que usei em A Vida É um Sopro. Durante a pandemia, pesquisando sobre Febrônio, o primeiro serial killer conhecido no país, me deparei com o filme que ele fez, mostrando o monstro assassino já decrépito em um manicômio-prisão. Não li o livro que Silvio fez sobre documentário. Nem sabia da existência. Tive alguns encontros com Isabelle Cabral Campos, que junto de sua PIPA, foi uma das distribuidoras de A Vida é um Sopro. Foi Isabelle que me levou para uma sessão inesquecível do filme no Ponto Cine, o cinema criado por Adailton Medeiros em Guadalupe na zona norte do Rio. Nunca encontrei o Américo Vermelho. Conheci seu trabalho – fotografias de casas, prédios e cenas urbanas – no facebook. Fiquei tão comovido com suas fotos de casas de madeira do sul do Brasil que escrevi pra ele e fiz uma das primeiras entrevistas desta corda. Silvio, Isabelle e Américo se foram e fica aqui o meu muito obrigado.

Continuo em lua de mel com Annie Ernaux. Depois de A Vergonha, parti para O Acontecimento. Como escreve esta mulher! É direta. Econômica. Escreve sobre sua vida, a memória, o tempo, os dramas relembrados: a infância católica numa família operária no pós-guerra. A primeira de sua família a ingressar na universidade. Um aborto que por pouco não virou tragédia, quando abortar ainda era motivo para prisão na França. Annie consegue ao mesmo tempo tratar de luta de classes, sexualidade e dos dilemas da vida neste planeta pós anos 60, que se transformou no mafuá que vivemos hoje. Dizem que ela faz autoficção, um gênero que até bem pouco tempo atrás, eu nem sabia da existência (não li nada do Serge Doubrovski) e quando li os romances do Ricardo Lísias, não me passou pela cabeça enquadrá-los no estilo. A definição wikipedia para o gênero é: Autoficção combina dois estilos, paradoxalmente contraditórios: a de autobiografia e ficção. Um autor pode decidir contar sua vida na terceira pessoa, para modificar os detalhes significativos ou “personagens”, utilizando a ficção a serviço de uma busca… Tem relações paralelas com a não ficção, um gênero inventado por Truman Capote para descrever seu romance A Sangue Frio. Mas eu to puxando esta linha porque assim como sempre relaciono o novo jornalismo ao documentário, acho que todo documentarista deveria ler Annie Ernaux . Não para pensar em estruturas ou fórmulas. Mas para ver se pegamos, mesmo que só passando os dedos nas palavras impressas no papel, a coragem desta escritora. Coragem para não fugir do tema, para não deixar de ir até o final de tudo que incomoda e perturba. Não existe outro modo de transcendência. É pra isto que serve a arte. Além do escapismo, mas a obra dela não tá nesta prateleira. Ela sequer se coloca na da auto-ficção. “Nos meus livros não há auto-ficção. Tudo é biográfico.”


Lendo Annie Ernaux, me lembrei de outra francesa, nascida uma década depois dela, Sophie Cale. Em 2009 ela veio na FLIP e o acontecimento daquela edição foi que Sophie reencontrava nas pedras de Parati seu ex-namorado, o também escritor Grégoire Bouillier. Gregório terminou o namoro entre eles com um email. Sophie transformou este email em um projeto. Convidou 107 mulheres de diferentes idades e profissões para lerem este email, que terminava com a frase Cuide de Você. A obra virou uma performance, exibida na Bienal de Veneza e por aqui, no SESC Pompéia e no Museu de Arte Moderna de Salvador. Gregório achou a obra uma humilhação. Na FLIP o antigo casal participou de uma mesa onde lavaram a roupa suja em público e se reconciliaram. Mais tarde, vi com meus próprios olhos, a dupla sacudindo o esqueleto num rebolation comandado por Dodô Azevedo. No Brasil, até mesmo as artistas conceituais e os escritores lacônicos acabam no rebolation. Por que Annie me fez lembrar de Sophie? Porque Sophie joga suas pedras em outros campos. Onde também é preciso muita coragem. Ela transforma situações banais em experiências artísticas, e estas experiências viram livros, filmes, etc. Certa vez ela encontrou uma agenda de telefone. Antes de devolver o objeto ao dono, um documentarista, ela fez um xerox das páginas. E passou a ligar para as pessoas da agenda, com o objetivo de traçar um perfil do dono daquela agenda. Sophie não conhecia a figura. As entrevistas foram publicadas no jornal Libération durante os meses de agosto e setembro de 1983. Pierre D, o dono da agenda ficou puto nas tamancas e ameaçou processar Madame Calle por invasão de privacidade. Chegaram num acordo onde ele exigiu que uma foto de Sophie nua fosse publicada no jornal. Ela topou.

Sophie Cale me interessa porque suas práticas podem gerar outras formas para possíveis documentários. Isto ainda vai dar corda por aqui.
Por hoje é isto macacada! Lembro que Arte Afro-Brasileira Contemporânea segue em exibição no Canal Curta! e que a segunda temporada de Arte Brasileira Quadro a Quadro já estreou no Canal Arte 1. A foto da capa desta edição é do Américo Vermelho, ele fez para uma exposição chamada Presença Americana no Brasil. Assinem na Corda Bamba nos botões vermelhos lá de baixo ou apoiem com qualquer valor na chave pix fabpmaciel@gmail.com
Saravá!
LINKS! LINKS! E MAIS LINKS!
Caetano Veloso canta Coração Materno de Vicente Celestino:
Meus escritos não resistem à uma revisão gramatical.
Nunca sei onde colocar a crase, a vírgula e pra várias palavras recorro ao dicionário. Detalhe: Não sou educador. Não sou professor. Não estou participando de um projeto de educação. E é aí que está o equívoco de Tarcisio e de seu sócio. Na real, a dupla, sem fazer nada, já é um equívoco.
antropologia da face gloriosa
livro ensaio, livro referência de Arthur Omar, onde a beleza só existe no êxtase, só funciona na celebração. A beleza não está no padrão, a beleza está na ruptura e na imaginação.
vampiros pecadores
o ataque dos monstros caranguejos, de roger corman, 1957
O Príncipe de Fogo, documentário de Silvio Da-Rin
espelho partido, o livro de silvio da-rin sobre documentário
a corda bamba de 2023 com américo vermelho.
o acontecimento

o acontecimento virou filme em 2021
é tempo de curling, o mais zen de todos os esportes.
cyntia motta mandou pra corda:
melodias e canções maravilhosas e pegajosas na playlist # 162
Muitas delas já circularam por aqui, algumas são manjadas, outras pouca gente pescou, por isto vou repetir e insistir. Nesta playlist o lance é a canção, aquela que a gente tem vontade de cantar. A que gruda como chiclete. Façam bom uso. Eu tenho certeza que tá bom demais.

luiz melodia, the heptones, mavis staples, mark lanegan, osmar milito, felt yusuf-cat stevens, native harrow, neil young, anelis assumpção, bárbara eugênia e fernando mendes, cátia de frança, tatá aeroplano, thundercat & tame impala, bill whiters, the beach boys, sopwith camel, rosinha de valença, talking heads, arlo parks, olivia newton-john, miriam makeba, david bowie, zezé motta, bob dylan, gal costa, ella fitzgerald, maria bethânia, elis regina, lucas santtana, zé ramalho, miles caton, elvis costello, lou reed, caetano veloso paulinho da viola, bulbous creation, george harrison, john lennon, gil scott-heron, milton nascimento, terry callier, os mutantes, ramsey lewis, the beatles, ann peebles, mahault, charly garcia y pedro aznar, edu lobo, nei lisboa, flo & eddie, the isley brothers, erasmo carlos, gilberto gil, grace jones, roxy music linton kwesi johnson, céu, velvet underground e amelinha.


a playlist!

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