na corda bamba # 196 levando choques de monstro, fugindo de almas sebosas e + uma playlist chocante

Dois domingos atrás, fim de tarde, pego táxi pra Congonhas. A Rubem Berta tá livre e o trânsito só trava quando chego na curva pra entrar no aeroporto. Tenho uma missão pra fazer, me diz o motorista. Por alguns segundos pensei que ia encarar um monólogo místico-pentecostal. Missão? Tenho que fazer 3 corridas em até 1 hora. Aí bato a meta e ganho uma porcentagem maior em cada viagem. Você viu que o governo apresentou uma proposta pra reduzir a taxa dos aplicativos, do uber e do 99? Nada que vem deste governo presta, na terça nós vamos parar São Paulo…Como não sabia defender a causa, fiquei quieto. O motorista não. Foram 5 minutos de engarrafamento e pregação negacionista. O pequeno empresário está ferrado…Vamos todos para o Paraguai. Segui calado até o desembarque, na hora de descer fiz o L e desejei sucesso ao pequeno empresário que me mandou cuidar da vida…É só o que faço, cabrón. Uma hora depois, já embarcado, sentado no corredor, na 3ª fila, fones nos ouvidos, o dia terminando bem, fecho os olhos pra voar com o Bill Whiters cantando Grandma’s Hands, Clapped in church on Sunday morning, Grandma’s hands, Played the tambourine so well…
Choque de monstro. Um casal retardatário chega com malas, mochilas e sacolas da Gran Cru, casal retirante de capa de revista de decoração. Tive um mau pressentimento. Em apenas 30 segundos o furdunço estava armado. Eu exijo colocar minhas malas no lugar onde vou sentar, eu não viajo sem ver onde minhas malas estão…não vou sair, não vou despachar, eu paguei, esta companhia é péssima…O passageiro do lado reclamou, por favor, a gente quer viajar… o coxildo replicou: Eu pago seu lugar! A mulher sentou em cima da mala, o homem (vestido como coxa, com cara de coxa e corte de cabelo de coxa) ameaçou processo. Um bom samaritano se ofereceu pra colocar a mochila debaixo do banco, outra aceitou colocar a mala duas gavetas atrás, eu liberei o espaço da minha mochila…Sem agradecer ninguém, o casal sentou, ela se atirou nos braços do playmobil, trocaram beijos e carinhos e seguiram triunfantes: a gente tem que exigir nossos direitos…Aí eu achei que já era abuso e mandei pra dupla cara de cu sem pestana: Vocês podiam pelo menos agradecerAgradecer o quê seu idiota! Você é muito mal educado! Agradecer o quê? A comissária chegou junto e me pediu baixinho pra deixar prá lá. Eu recoloquei os fones e voltei pro Bill Whiters. Grandma’s hands, Used to issue out a warning, She’d say “Billy don’t you run so fast!, “Might fall on a piece of glass!, “Might be snakes there in that grass!”

Choque de monstro.

Dois dias depois, no café do hotel em Brasília, a tv mostrou jovens estudantes de direito de uma universidade particular, que foram pegos dando choques elétricos num morador de rua em Belém do Pará. Choque de monstro, a dupla escondeu a cara na delegacia mas as redes mostraram a lataria: as mesmas caras de cu sem pestana do casal barraqueiro do avião.

Dois minutos depois, no mesmo canal, um acidente com um Porsche que bateu na traseira de uma fiorino na avenida Sena Madureira em São Paulo. Choque de monstro. Dizia a reportagem que era uma mulher, a mãe do jovem dono do carro, que estava na direção. Pode ser, mas isto me cheirou a coração materno. Não achei nenhuma foto do pimpolho. Ele provavelmente também tem cara de cu sem pestana. Pensando bem, acho que todos os donos de Porsche no Brasil tem cara de cu sem pestana e deveriam pagar ipva (e iptu) mais caros do que os outros.

choque de realidade

Os dias foram corridos, notícias só no café da manhã: Ramagem foi preso, Ramagem foi solto, o presidente do BRB foi preso, o presidente do BRB continua preso, a Andrea Sadi convocou seu amigo informante americano e fonte de luz mediúnica olavista, ele mesmo, o super Paulo Renato neto do Figueiredo, para presentear os caros assinantes da Globonews com notícias frescas e exclusivas neste disco arranhado que o canal 540 insiste em tocar. O Irã abriu o estreito, o Irã fechou o estreito, Naziniahu bombardeou o Líbano e eu não fui na festa de 60 anos do Beirute, que ainda é o melhor bar de Brasília e nem deu pra ligar pro Piu nem pra Lorena, pro Érico, pra Lara, pra Alessandra e pra Fatah…E devia ter prestado atenção ao aviso que o biscoito da sorte do restaurante de chifa mandou:

Só trabalho e choque de monstro.

Volto pra São Paulo, um dia pra ver a Miriam e o Antonio e o Vicente e pegar um avião pra Maputo, com conexão em Joanesburgo. O vôo atrasou uma hora em Guarulhos e esta uma hora fez falta porque uma moça com cara de cu sem pestana da Air Link não me deixou embarcar. Nem eu, nem Vania, produtora que está nesta jornada junto comigo e nem 6 moçambicanos que também estavam na mesma bagaça. Só amanhã de manhã. E nos jogaram num hotel (não posso reclamar, bom hotel mesmo) mas numa espécie de Alphaville sul-africano.

condomínios fields forever

No meio do caminho entre o aeroporto e o bairro de Sandton tem um condomínio. Tem um condomínio no meio do caminho. Tem um, dois, três, quatro, cinco, dez condomínios, todos de tijolinhos, todos cinzas ou vermelhinhos, todos com muros cinzas e aposto uma latinha de ginger ale que dentro destes condomínios na Marlboro Drive, vivem muitos seres humanos com cara de cu sem pestana. Fui salvo primeiro pela Cindy, depois pela Nancy (é claro que me lembrei do filme), as duas deram um jeito de me tirar daquele Jurerê Botucatu Garden e me despacharam pra Maputo onde cheguei 48 horas depois de ter saído de São Paulo. Desparafusado, pego uma cerveja, depois um café e vejo as notícias: a morte de Luis Brandoni, o fantástico ator argentino de Minha Obra Prima e O Faz Nada, um sujeito que definitivamente não tinha uma cara de cu sem pestana. As picaretagens do Brasil Paralelo num documentário sobre (CONTRA) a escola pública. Os 3 fundadores do Brasil Paralelo são os legítimos caras de cu sem pestana na vida. Podem até servir de logomarca pra ordem mundial dos caras de cu sem pestana (podemos, novo, chega, bibiniazos e trampistas, tudo juntos e mixturados). Aí aparece o editorial do Estadão. É tão chinelo, mas tão chinelo, que vale colocar aqui pros amigos com síndrome de estocolmo, aqueles que ainda acham que a grande imprensa brasileira tem um papel a cumprir.

Não tenho dúvida: o mesquitinha do estadão, é 100 pro cento cara de cu sem pestana! É isto aí rapaziada. Na Corda Bamba edição # 196 tá na rede. E vale lembrar, em breve este blog vai virar revista. Mais embaixo explico como, mais embaixo tem a espetacular playlist 172 e links e mais links. Na foto da capa, deu zebra na South Road.

Saravá!

quem lê na corda bamba nunca fica com cara de cu sem pestana!

na playlist # 172

prefixo cidadão instigado, o ponto de partida. erika ribeiro faz a gente ouvir villa-lobos de uma forma nova. o mundo gira, ainda não acabou e nem tudo já foi feito, gravado, produzido, ouvido. o disco espetacular da erika, que chegou hoje nas redes é a prova disto. # choque foi ouvir elba ramalho em república dos assassinos em 1979. era algo totalmente novo. ave da prata, veio d’água de luis ramalho:um pingo d’água no rosto é uma tristeza, um pingo d’água na rosa é uma belezapra se ver…a moeda tem coroa e cara, o luar também clareia a lama, pode haver o céu na água clara, pode haver um véu na tua fama # no final dos anos 50 um bando de jovens cariocas ouviam abestados os song-books de gershwin e cole porter na voz de ella fitzerald e com os arranjos de nelson riddle. uma década depois alguns destes jovens estavam gravando com nelson riddle, que também resolveu se aventurar pela bossa- de um jeito muzak? easy listening?…vale esta depreciação? claro que não. ele tentou. e batizou de são paulo uma levada carioca. a noite deve ter sido boa. # descoberta: budgie. power trio porradaria total, que correu em paralelo ao black sabbath (eram fãs e apoiadores) deep purple e led. peso sem pretensão e, meljor, sem afetação. tão bacana que coloquei duas faixas seguidas. # uma sequência barulho e batida: angine de poitrine, shit and shine e neu # bhur, agora sem karina e de disco novo. separei duas supimpas: 70 cigarros (porque você não está em casa quando eu chego…acordei com frio, nenhum bilhete mulher, os imãs da geladeira estão sabendo, mas nada me dizem) e voaria, que aparece mais adiante # paul, com linda, já que vi o doc man on the run, que conta como mr. mccartney refez sua vida sem os beatles. tem um momento muito bonito, quando todos saem atirando em linda- ela canta mal, toca mal- e ela nunca quis cantar nem tocar, é admirável como a dupla soube lidar com isto simplesmente porque queriam estar juntos. e assim seguiram até a linda partir. # the lost generation é bacana demais. tão bacana que também coloquei duas faixas de young, tough and terrible, lançado em 72. tem uma versão classe de tired to be alone, que só conhecia com all green. # na última semana começou a circular nas redes um filme em 16mm com o velvet underground numa apresentação ensolarada no texas em 1969. é…pueril. é…solar. mas é o velvet em estado puro # o bonde segue no sapatinho balaco levada na manha, com devon lamarr organ trio, bill whithers, baden powell, ernestine anderson, claudya e uma inacreditável versão mexicana para venus do shocking blue. com vocês: las moskas

Sus ojos eran de cristal/ Su boca, rojo carmesí/Todo su cuerpo era/ El más bello que vi/Qué ojos, oh, cielos, qué ojos/ Yo soy tu Venus/ Me decía y me besaba/ Yo soy tu Venus/ Me decía y me besaba

volta com buhr, adrian sherwood, dubando nightwarres on wax, o bis de the lost generation, waltel branco, les mccan, uma chamada de rádio do disco do nazz, nelson riddle tocando jobim e na curva dos 50 metros, erika ribeiro tocando hermeto e depois villa. cruzando a linha de chegada, cabeça com cabeça, o high-life de nana kwame ampadu e o groove de dorothy ashby inspirado no rubaiyat, a obra poética omar khayyan, que nasceu em 1048, na idade média persa. tramp e bibi não sabem mesmo onde foram meter a cumbuca.

atenção! o link pra playlist tá lá embaixo.

links! links! e mais links!

bill withers!

porsche carrera é uma carreira:

bichos escrotos em belém:

60 anos do Beirute:

https://www.correiobraziliense.com.br/aniversario-de-brasilia/2026/04/7398875-beirute-seis-decadas-como-uma-referencia-da-capital.html

luis brandoni em minha obra prima: (na foto não é ele, atenção!)

weber lopes góes, pra quem não conhece, é um baita historiador, especialista nos temas de racismo e eugenia na nossa elite conservadora. pois ele tá pedindo ajuda:

Olá a todos, tudo bem? Espero que sim. A minha sobrinha fez uma rifa com a finalidade de arrecadar recursos para ir à Universidade! O livro é de autoria do professor Weber Lopes Góes. O ganhador receberá o livro em casa. Gostaria que todos/as ajudassem nessa rifa e divulgasse se possível. Obrigado à todos/as

omar khayyam precisa ser lido:

https://editoraunesp.com.br/blog/classicos-do-catalogo-rubaiyat-de-omar-khayyam

antes da chuva precisa ser revisto:

man on the run:

a playlist # 172: