Tarcísio e Milei. Tá na moda falar mal da Argentina. Pero…Dá pra separar as costeletas. Eu gosto do futebol argentino, mas não vou entrar nesta de dizer que Messi é melhor que Pelé. (Nem Maradona foi). Eu encaro a turma da Mooca que sonha em ser Puerto Madero, do mesmo modo como o Hermano Vianna analisa os maranhenses que desejam ser gaúchos e que embarcam nos CTGs espalhados pelo norte-nordeste: como uma tribo de tradição inventada. São argentinos mas poderiam ser punks, carecas ou hippies. Tá certo que todas as tribos possuem dezenas de subdivisões. Hoje temos os roqueiros de cristo, os surfistas de Jesus, as baianas de jeová, os metaleiros da Gestapo, os tatuados do agro… Para um gaúcho, a Argentina (e o Uruguai, que existe pra ter algo entre nós e eles) era aquele país vizinho que roubava nossos cavalos e vacas. Só que no Pampa, todo mundo é babá de vaca. Todo mundo usa bombacha e bebe chimarrão. E todo mundo rouba os cavalos e as vacas de todo mundo, inclusive os uruguaios. A diferença é que os argentinos ficaram muito ricos bem antes da gente, receberam meia Europa, exterminaram com todos os negros e indígenas e se transformaram num povo marrento. Ás vezes com razão. Muitas vezes, sem motivo algum. E com a mesma rapidez que enriqueceram, empobreceram.
Milei é um ridículo de opereta. Tarcisio e seus amigos bolsonaristas também. E como todo cretino de opereta, são incapazes de criar ou construir algo relevante. É só rapina e destruição.
Neste sábado 25 de agosto, o privatizador que governa São Paulo vai receber com pompas e honrarias o atual presidente da Argentina. Tudo que Tarcisio sonha é ser Milei na vida. Vender tudo, como ele vendeu. Entregar tudo, como ele entregou. Destruir tudo, como ambos já estão fazendo. Se for preciso, Tarcisio até deixará crescer umas costeletas por cima de sua cara de cratera, mais esburacada que uma tubulação da SABESP privatizada.
Todo privatizador é, antes de tudo, um arrombado obtuso.
Mas o peixe que o governador, o mercado e a imprensa (paulista e nacional) vendem, é que tudo melhora com a privatização.
Ha ha ha ha.
Os fatos, por mais eufemismo que o Estadão ou a Folha usem, estão falando mais alto. Tarcísio tem o toque de mirdas. Tudo que ele vendeu ou entregou pra iniciativa privada administrar, desandou. A Sabesp, as escolas, hospitais, o zoológico e agora as linhas de trem e metrô da cidade de São Paulo. Não conseguiu ainda, mas tá tentando, privatizar a USP, o Memorial da AL, e se tiver fôlego, todos os equipamentos que se relacionam com arte e cultura. Seu comparsa na prefeitura, também reza na mesma cartilha, e entregou pros amigos legionários, os cemitérios, parques, praças e até o Vale do Anhangabaú. O Anhangabaú não é do povo, nem o céu é do avião. O Anhangabaú é de algum camaradinha do Nunes.
Corrientes, 348, segundo piso ascensor. Só quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João. Amanhã MIlei e Tarcísio poderão cantar o tango Cambalache, que Caetano gravou em 69. Tem um trecho da letra que diz assim:
Hoy resulta que es lo mismo ser derecho que traidor/ Ignorante, sabio, chorro, generoso, estafador/ Todo es igual, nada es mejor/ Lo mismo un burro que un gran profesor!
A letra deste tango foi escrita em 1934, por Enrique Discépolo, que introduziu a crítica social na milonga. Mas se cambalacho der muito na cara, eles podem escolher uma do paulista Alfredo Le Pera, o favorito de Carlos Gardel. Cuesta Abajo, Mi Buenos Aires Querido. A minha favorita é Volver, que termina assim:
Tengo miedo del encuentro
con el pasado que vuelve
a enfrentarse con mi vida.
Tengo miedo de las noches
que, pobladas de recuerdos,
encadenen mi soñar.
Pero el viajero que huye,
tarde o temprano detiene su andar.
Y aunque el olvido que todo destruye,
haya matado mi vieja ilusión,
guarda escondida una esperanza humilde,
que es toda la fortuna de mi corazón.
Conseguem imaginar? Milei e Tarcísio num Anhangabaú vazio e privatizado, cantando um karaokê ojos nos ojos, quiero ver o que usted faz, ao sentir que sin usted jo passo mal demas…Certeiro mesmo era a dupla cantar o samba de João Bosco e letra de Aldir Blanc, Profissionalismo é Isso Aí.
Domingo numa solenidade/Uma otoridade me abraçou/Bati-lhe a carteira, nem notou/Levou meu relógio e eu nem vi/Já não há mais lugar pra amador/Tenteia, tenteia/Com o berro e saliva/Fizemo o pé-de-meia/Ri melhor/Quem ri impune
João e Aldir, por tabelinha, mesmo lá em cima, estão apanhado muito nos últimos dias. Até ontem, eu achava que o único tipo da família Bosco que merecia uns petelecos era o filho metido a pensador de platitudes em programa do gnt.
O sábado já está terminando. Acabo de ler que Milei chegou, deu beijo de língua no Flavio Bolsonaro, ganhou uma patolada do Ipiranga do governador e mandou o Xandão tomar na toba. E tem gente perguntando porque tanta bronca com os hermanos…
No dia 02 de fevereiro de 2023, lembrando de um encontro fracassado entre dois ditadores, um brasileiro e outro argentino em 1980, eu abri o blog Na Corda Bamba com este texto:
Em 1980 eu tinha 15 anos e me tinha em altíssima conta. Tinha e me tinha. Alternava lances de extrema sagacidade com outros de tremenda ingenuidade. Um dia de precocidade e maturidade, outro de babaquice total e absoluta. Em princípio, é para isto que serve ter 15 anos. Eu fingia saber de muitas coisas e, na verdade, entendia muito pouco sobre quase tudo. Mas a minha petulância enganava bem, a minha marra, quando funcionava, impressionava os mais velhos e me empurrava para frente, mesmo que aos trancos e barrancos. O problema é que, de certa forma, eu segui tocando a vida neste modo gangorra ao longo das 4 décadas seguintes. Entre a quinta série e a vida adulta.
dois ditadores trocando abraços e colecionando presos políticos
Em 1980 o Brasil tinha um general como presidente. Era um tosco de opereta, um sujeito que ficou famoso por dizer frases como: “Prefiro cheiro de cavalos ao cheiro do povo” ou “Quando estou com vontade de bater em alguém, é sinal de que estou melhorando”. Em 1980, João Figueiredo resolveu fazer uma média com seu vizinho e convidou o general Jorge Videla para reinaugurar pessoalmente a praça Argentina em Porto Alegre.
Em 1980 o presidente do Brasil se deu mal em Porto Alegre. A praça Argentina ficava (fica ainda) perto do campus da UFRGS, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E perto da Casa do Estudante onde também funcionava o bandejão. Os estudantes fecharam a rua, cercaram a praça e impediram a chegada da comitiva oficial. A polícia mandou reforços, cavalaria, choque, etc. Os brigadianos foram recebidos com ovos, laranjas e pedras de gelo, arremessados das janelas do prédio da Casa do Estudante.
Os secundaristas também tinham sido convocados e eu era um secundarista. Estudava no Nossa Senhora das Dores, um colégio de padres lassalistas. que até onde eu consigo lembrar, eram ultra conservadores. O Theddy Correa do “Nenhum de Nós”, que ainda não existia, era o presidente do grêmio estudantil. Era um gentleman, que não entrava em nenhuma dividida com os padres e muito menos frequentava passeatas (roqueiro brasileiro nunca foge do script e quase sempre foge à luta). Eu era o vice. E claro, estava lá na praça Argentina enquanto os amigos dorenses sonhavam com astronautas e Camilas.
A polícia cercou o prédio da Casa do Estudante. Quem estava dentro não podia sair e quem saía, ia em cana. Em algum momento da noite o Nei Lisboa subiu numa mesa e improvisou um show no RU. No dia seguinte, não lembro como, seu Francisco, meu pai, foi me buscar na porta do bandejão. São lembranças difusas. Talvez o show improvisado do Nei Lisboa tenha sido em outra quebradeira. Mas eu lembro bem de outras coisas.
romanos: go home
Eu estudava inglês no Fisk, e não era exatamente um bom aluno. De vez em quando, o professor jogava verde e puxava conversa com a turma, sobre o país, a economia, a conjuntura, a inflação, a censura… Ele sacou logo quem dava trela nas charlas e numa destas me convidou pra ir na casa dele. Se alguém pensou em comunista comendo criança, pode esquecer. O apartamento do Adeli Sell, na escadaria da Duque era atulhado de livros e de exemplares do jornal O Trabalho. E o Adeli estava era recrutando mais uma jovem alma para atuar nas fileiras do trotskismo. Para ser mais exato, na OSI, uma dissidência da Quarta Internacional.
E então, eu que fingia saber sobre muitos assuntos, agora fingia também saber muito sobre a história do marxismo e passava as tardes de sábado em um grupo de estudos onde se discutia os motivos que levaram as forças produtivas do capitalismo a pararem de crescer. Este era um tema muito caro ao grupo, pois os hereges da Convergência Socialista afirmavam que as forças produtivas do capitalismo não tinham parado de crescer. Eu, que ainda estava na fase de ler a História da Riqueza do Homem, do Leo Huberman, destaque na estante de economia do meu pai, achava aquelas tardes de sábado uma total perda de tempo. Sem falar que quase sempre não entendia bulhufas.
O movimento estudantil se dividia em dezenas de grupos, que brigavam entre si desde os tempos em que Moisés atravessou o Mar Vermelho. Quem viu A Vida de Brian, do Monty Python sabe do que estou falando. Mesmo na Libelu, eu tinha uma simpatia confessa pelos “Posadistas”, outra facção da Quarta Internacional, mais holística e esotérica. Os posadistas acreditavam em OVNIS e seres extraterrestres. Também acreditavam que os ETs, sendo seres superiores, já tinham realizado a revolução socialista em seus planetas de origem. Portanto, agora, deveríamos contar com o internacionalismo e, por que não, com o interplanetarismo dos ETs comunistas, que viriam para a Terra nos ajudar a fazer a Revolução. Os “Posadistas” brasileiros se concentravam, não por acaso, em Brasília, nas proximidades dos aeroportos de discos voadores de Alto Paraíso.
quem não tabalha, distribui O Trabalho
Como um bom filho da classe média, é claro que eu não trabalhava. A graça é que um dos meus únicos trabalhos era distribuir os exemplares do… “Trabalho” nas portas de escolas e fábricas. O jornal apoiava o Sindicato Solidariedade, que estava causando um tremendo furdúncio na Polônia. Um dia meu avô, um simpatizante discreto do Partidão, me olhou sério e disparou: vocês são umas bestas! Estes caras são traidores do comunismo. É o Papa que está por trás disto, junto com os americanos. Muito em breve a Polônia não vai mais ser comunista. Não deu outra. Sempre que o Lech Walesa aparecia na tevê, seu Jerônimo fazia questão de me lembrar: eu te disse, eu te disse!
me bate, me chuta, sou liberdade e luta
Mas tinha muita festa. E as festas da Libelu eram sempre as mais alucinadas. A Libelu incomodava a direita, o centro e a esquerda também. Mino Carta, por exemplo, não entendeu nada e colocou na capa da Isto É: “Libelu, o Charme da Esquerda Adolescente.” E eu era um desorientado e alucinado adolescente trotskista da Libelu. Graças a Deus. Festas e passeatas. Um dia prenderam o Adeli Sell. Fizemos uma passeata e passamos em frente ao Fisk. Em outra passeata, contra a energia nuclear, vi com total perplexidade um grupo de atores que acompanhava o protesto vestidos com trapos e besuntados de gosmas e sangue falso. O motivo real do embasbacamento é que o grupo encarou a marcha como um cortejo fúnebre e os atores percorream dezenas de quadras se arrastando pelo chão sujo da Rua da Praia. Era o Oi Nóis Aqui Traveiz, provavelmente a trupe teatral mais underground e subversiva que já vi até hoje.
ela me olhou nos olhos e disse: não curto teatro burguês.
Eu passava as tardes lendo ou fazendo nada no prédio da Casa do Estudante. Numa delas, conheci uma moça linda, de cabelos loiros, compridos e cacheados, as bochechas rosadas, os olhos grandes e azuis, que eu tinha visto toda esfarrapada na passeata, e que por sorte, não tinha sido infectada pela radioatividade imaginária e nem por uma muito possível e real leptospirose. Puxei papo e comecei falando de teatro, caprichando na embromation e perguntando pra guria se ela queria ir comigo assistir a Ópera do Malandro que estava sendo encenada no Teatro Leopoldina. Com a Marieta Severo! Não curto teatro burguês, respondeu ela. Como eu não sabia chongas nem de teatro burguês e muito menos de teatro não burguês, a conversa não avançou. A tarde estava quente, a moça se espreguiçou e de seu belo sovaco estilo cabeleira altíssima veio uma nuvem radiotiva de inhaca braba. Eu com toda a minha finesse e elegância mandei na lata: Tu não usa desodorante? Desodorante é uma ferramenta do capitalismo e da sociedade de consumo para domesticar as mulheres e acabar com a essência do feminino. Tu não sabe que até os anos 20 deste século as mulheres não usavam desodorante? Isto é uma armação da sociedade capitalista.
Fui sozinho ver a Ópera do Malandro. Dormi na peça. Apesar da Marieta. Apesar de saber a letra de todas as músicas. Até hoje escuto o disco. Nunca mais vi a moça do Ói Nóis. A ditadura acabou poucos anos depois. Adeli Sell foi vereador pelo PT por uns três mandatos. Eu já tinha mudado pro Rio, se não, provavelmente teria votado nele. Os Argentinos julgaram, condenaram e prenderam todos os militares que cometeram crimes durante a ditadura. O general Videla, que em 1980 foi impedido pelos estudantes de reinaugurar uma praça em Porto Alegre, teve o fim que merecia: morreu na prisão em Buenos Aires. Aqui no Brasil, enquanto não seguirmos o exemplo de nossos hermanos, que tiveram a coragem de julgar e condenar seus militares, seguiremos sendo uma democracia meia boca, eternamente na corda bamba.
Em 2023, perto de completar 58 anos, já não me tenho em altíssima conta e, assim como a nossa democracia, sigo na corda bamba. Não mais em Porto Alegre, mas em São Paulo, com a Miriam, o Antonio e o Vicente, que pro azar deles, são obrigados a lidar com o meu (des)equilíbrio balançante. E nas próximas semanas a onda vai balançar nos filmes obscuros da sessão coruja, em um show dos Paralamas que, por motivos de força maior acabou acontecendo dentro de um circo de verdade e ainda numa viagem repleta de reações alérgicas em Rondônia. Puxem a corda! Love.
NA CORDA BAMBA está sendo publicada também no substack. Em breve, a nova edição da revista digital, que segue disponível por aqui. (veja a edição 200). As playlists também estão sendo atualizadas. Hoje, replico a primeira, já que falamos da ópera do malandro, de tangos e de covis. A foto eu fiz no Mercado Público de Porto Alegre em 2010.
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Saravá
Fabiano Maciel
a playlist # 0001!
Um set com parte da Ópera do Malandro e outras malandragens de Chico Buarque. Muitas canções perdidas nas estrelas de Mr. Kurt Weill, o compositor alemão que foi parceiro de Bertold Brecht na Ópera dos Três Vinténs, que inspirou Chico na Ópera do Malandro. Tem A Cor do Som e Frenéticas. Alcione e The Doors. Sting e Tom Waits. Tem música pra acordar e música pra chorar. Acorde com o Hino de Duran e tente não chorar com Lou Reed cantando September Song. E ainda: Sérgio Sampaio, Cida Moreyra, Claudia Barroso (porque dor de corno dá em Berlim, mas também dá em Santa Rita do Passaquatro), Roberto Gava -muito bem acompanhado de Zezé Motta e Skowa, musicando poemas de Brecht, e a obviedade de que canções se lixam para fronteiras nacionalistas: David Bowie, Chet Baker, Totts Thielemans e Louis Armstrong cantam Kurt Weill, Caetano Veloso canta Gardel, assim como a cantora espanhola Estrella Morente. # Duas versões de João Bosco para Profissionalismo é Isso Aí (dele e Aldir Blanc) que podem ornar o convescote do governador da pauliceia com o presidente da pibelândia. Pra encerrar Carmen Miranda dando alento em O Mundo não se Acabou e Chico Buarque soltando os cachorros em Vai Trabalhar Vagabundo. # Importante: toda playlist da corda começa com a vinheta do Cidadão Instigado.

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