Jesus die for somebody sins but not mine e o meu parco inglês de aulas no Fisk e de canções dos Beatles foi suficiente pra compreender que a igreja estava levando um pipoco. As palavras saiam bêbadas, alongadas, como num recital de poesia junkie e a moça não se parecia com nenhum cantora que eu já tivesse ouvido. Era acompanhada só por um piano de notas econômicas…People say “beware!, But I don’t care… the words are just, rules and regulations to me, entrava o baixo discreto, a bateria e duas guitarras numa levada country… I’m movin’ in this here atmosphere, well, anything’s allowed, o andamento começava a acelerar, o que era country virava rock… Here she comes, Walkin’ down the street, Here she comes, Comin’ through my door…acelerava mais ainda, com piano honky-tonk She whispered to me, she told me her name e a voz que cantava agora gritava And her name is, and her name is, and her name is, and her name is g-l-o-r-I-a G-l-ó-r-i-a, glória, g-l-ó-r-i-a, glória G-l-o-r-i-a, gloria, g-l-o-r-i-a, gloria e o que era rock ficou punk e nesta altura eu já estava pulando sozinho no quarto, batendo no teto, incomodando a vizinha juíza que só gostava da Nana Caymmi, aquela moça era fúria, adrenalina e catarse num combo transe que encerrarava em súplica… And the tower bells chime, ding dong they chime Jesus died for somebody’s sins but not mine…
A faixa seguinte era um reggae.
Quando coloquei Horses de Patti Smith pra tocar na vitrola, a revista Pop já tinha anunciado Radio Ethiopia, ela já tinha gravado outro álbum chamado “Páscoa” e mais um outro cujo título, “Wave” era uma homenagem ao papa João Paulo I, que tinha morrido misteriosamente enquanto ela estava no estúdio. Naquele momento eu não sabia nada de sua vida com Mapplethorpe no Hotel Chelsea, nada sobre o CBGB e nem sabia que Gloria era uma canção do Van Morrison. Muita tempo se passou, ela parou de cantar, voltou a cantar, publicou livros, alguns deles saíram por aqui e fizeram algum sucesso – Só Meninos – ela veio ao Brasil algumas vezes e, ao contrário de muito punk atitude que hoje baba o piercing pra trumpóides, ela se manteve fiel. A ela mesma.
Dia destes li que Patti Smith se encontrou com o Papa Leão algum número que ainda não consegui guardar, pra mim é o papa americano, que só agora tá começando a revelar como vai conduzir seu rebanho. A punk e o papa. Lembrei da música dos Engenheiros, chata, como quase tudo deles, mas esta letra tem mesmo uma boa sacada. Não é nada disto, pensei comigo, todo mundo vai se perguntar porque aquela ex-punk rebelde está cantando ao lado do líder de uma das mais conservadoras instituições do planeta, e o fato é que isto não importa. Nem quem ela foi, nem o que o Papa é. Talvez porque pelo andar da carruagem, até um papa americano é algo mais “transgressor” do que boa parte dos regentes planetários. No mínimo, uma garantia de bom senso.
Mas quando o banzo bate, eu tasco um Rolando Lero, ou um Baltazar da Rocha na escolinha. Ou revejo “Três Obás de Xangô“, documentário de Sérgio Machado que trata da grande amizade entre Jorge Amado, Dorival Caymmi e Carybé, e de como o trio ajudou a criar uma identidade para a Bahia. O filme é muito sagaz em definir esta troca. A Bahia alimentou e se alimentou do trio. O filme nos obriga a algumas conclusões ululantes. A primeira: O terreiro de candomblé é a nossa maior conquista enquanto civilização. O Brasil só vai funcionar mesmo quando assumir que pode e deve ser um grande terreirão. Ecumênico, putanheiro e tolerante. A segunda quem afirma é Jorge Amado, com a experiência de uma Teresa Batista cansada de guerra: Só o amor importa.
Puta que o pariu, levou a vida pra descobrir isto que o Nelson, o Eça e até Jesus, aquele que morreu por nossos pecados já sabiam desde sempre.
Mas o Amado dizia que até o combate deveria ser feito com amor. Não sei se eu vou conseguir. Vou tentar. Pode ser que saio algo como:
NÃO QUER VACINAR, MEU IRMÃO AMADO, QUE TAL IR FARMAR UMA AURA NO CAJU?
ou
FLAVINHO…com todo amor, com todo carinho…vai tomar no teu cuzinho (perdão jorgeamado, perdão jesus) seu bozóide safado,quer dizer, amado.
Eu juro que tentei. Mas sou mesmo um pecador. Na Corda Bamba tá na rede. Agora em dose dupla, aqui no word press e no substack. Assinem por aqui, assinem por lá, mas assinem! Hoje foi dia dos pais, eu ganhei diploma dos guris (que estão na catequese, lembrem-se, o ecumenismo, e por sorte, com franciscanos) e por uma destas ironias da vida, eu que passei décadas mandando diploma de dia das mães pra minha e pras mamães amigas, agora recebe dois. Meu pai Francisco, que já se foi iria mesmo gostar de ver os guris crescendo. A foto da capa desta edição mostra meu pai de palhaço, em algum momento dos anos 60. Abaixo, um dos diplomas.
Saravá!

Mais lá embaixo tem a playlist #180 com patti smith (claro), a nova do maurício pereira, que me ajuda a entender a cidade de são paulo, e mais: mpb-4, cid campos, young marble giants, black sabbath, dion & the belmonts – com uma versão cheia de iê-iê-iê pro berimbau do baden e do vinícius, dolly parton, marcos valle, stephane grapelli, stephan stills, lorena moura (fiquem atentos!) stones cantando amy winehouse, strokes com disco novo (e bom!) e mais uma penca de bambas.
O oráculo recomenda eu vender mais o meu peixe: RAIZ: ARTE AFRO-BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA, série que dirigi com curadoria da Rosana Paulino venceu o prêmio de melhor produção categoria artes no 4º CURTA! Festival. O premio foi dado por um jurí mega classudo: Marieta Severo, Adriana Rattes, o crítico Paulo Sérgio Duarte e o jornalista da FSP Marcos Augusto Gonçalves. Clique aqui para conferir os episódios:
trailer dos 3 obás de xangô:
e a playlist # 180!

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