na corda bamba com alexandre e outros heróis

Alexandre e outros Heróis foi o livro de leitura compartilhada na turma de escola de meu filho. Como ainda não tinha lido, aproveitei e peguei carona. Na primeira página Graciliano Ramos dá uma aula de síntese. Tá tudo ali: onde e quando acontece, quem são os personagens principais, a classe social, a descrição do lugar, a cumplicidade do casal e a indicação de como será a dinâmica das histórias. A graça do Graciliano (perdão senhor) não tá na economia e na clareza, mas no fato de que ele conseguia dizer muito com poucas frases. E síntese nem sempre é sinônimo de beleza ou eficiência. Existem grandes escritores barrocos e exagerados. Na Corda Bamba de hoje trata de alguns personagens clássicos da literatura, de ficção e de não ficção. Fala de grandes mentirosos dos livros e dos filmes. Mentirosos lacônicos, cascateiros objetivos, pilantras papo reto e também enroladores verborrágicos, falastrões folgados, os 171 sâmbadilóvi nas alturas.

Já na primeira história de Alexandre eu lembrei do Pantaleão, personagem de Chico Anysio…Exagerado e cego de um olho, como Alexandre. E também, mentiroso com o consentimento da “conge” (como diz um grande e mentiroso juíz paranaense) no caso, Tertuliana, aquela que virou bordão: É mentira, Terta? Acredito que Chico nunca escondeu a inspiração.

Pantaleão e Terta tinham a companhia de Pedro Bó, um tipo ingênuo e abobalhado que só fazia perguntas bestas. Fez tanto sucesso que virou sinônimo de bocó e ganhou filme: Pedro Bó Caçador de Cangaceiros

Pinóquio, é disparado, o mais famoso mentiroso da literatura. Mente porque é infantil, inseguro, imaturo e incapaz de assumir seus erros. Flávio, aquele que não tem sobrenome, é um bom exemplo de Pinóquio que sai do mundo dos livros e se materaliza de corpo e alma no mundo real de verdade verdadeira onde todos nós vivemos. Ele conta com a ajuda de outros grandes mentirosos, especialistas numa modalidade muito mais sofisticada de mentira, aquela que oculta a verdade. O sobrenome do boneco Flávio foi a primeira coisa que eles ocultaram.

Outro grande mentiroso da literatura foi o Barão de Munchausen, um sujeito que existiu de verdade. De origem nobre, depois que se aposentou como militar, passou o resto de sua vida -quase 40 anos- em sua propriedade na Saxônia, onde reunia os amigos pra contar suas histórias, sempre fantásticas e inverossímeis, dos seus tempos de caserna na Rússia e na Finlândia. Um dos ouvintes fieis das aventuras do Barão era Rudolf Erich Raspe, cientista e intelectual muito famoso e respeitado na época. Raspe tinha sido contratado para cuidar da farta coleção de livros e moedas antigas do Conde de Hesse-Kassel, um acervo que deu origem ao Museu Fridericianum. Ou seja, além de cientista, Raspe era curador, mas um curador que gostava muito de uma farra, de curtir a vida adoidado e de gastar o que não tinha. Endividado, desviou moedas da coleção do conde pra pagar seus credores. Descoberto, se mandou pra Inglaterra, onde conseguiu viver de boa nas margens do Tâmisa, até a notícia dos trambiques chegar por lá. Falido, escreveu As Loucas Aventuras do Barão de Münchhausen, que foi publicado em Londres em 1785. Seguiu à risca o ditado e aumentou dicumforça as lorotas. Mentiu tanto que até o Munchausen (o orginal, o de verdade) achou a versão dele exagerada. Raspe morreu de escarlatina, aquela que junto com a gota e o escorbuto fazem o trio de doenças mortais em livros de pirata e de aventura do século 18. Terry Gilliam do Monty Python transformou o livro em filme e uma das mais importantes mostras de arte contemporânea do planeta, a Documenta, acontece em Kassel, no Museu Fridericianum.

Já conheci alguns brasileiros que são frequentadores da Documenta. Inspirados por Munchausen – ou Rudolf Raspe – votam igual aos seus nobres vovôs: na direita conservadora. Mentem na vanguarda enquanto na retaguarda, seguem fiéis aos antepassados.

João Grilo e Chicó mentiam por necessidade e sobrevivência no Auto da Compadecida, assim como Tom Sawyer, o personagem de Mark Twain, que segundo alguns críticos, mentia também pra chamar atenção. Era o mentiroso alcione, moleque, maroto, travesso, aquele que quando cresce e vai pro cinema, vira um tramposo como o Marcos de Nove Rainhas, um pequeno vigarista como o Mike de Jogos de Emoções, ou um trambiqueiro chulé, como o Januário de Entrei de Gaiato. Filme aliás, que começa na Central do Brasil, com Zé Trindade, Costinha e um jovem Chico Anysio tentando aplicar um golpe num coronel mineiro recém chegado ao Rio pro carnaval. Mal sabiam eles que teriam que enfrentar uma trambiqueira muito mais poderosa: Dercy Gonçalves

diversão garantida

O Gatsy de Scott Fitzgerald mentia sobre seu passado, mas no meio que frequentava, mentir sobre o passado era quase uma obrigação. A paulistada quatrocentona faz isto desde 32 e pouco antes também, quando sentiu necessidade de se afirmar como bandeirante e inventou uma verdade histórica de mentirinha.

A mentira também funciona pra fazer história de verdade. Pelo menos, pra tentar. Nos anos 90, o coronel Carlos Alberto Mena Barreto lançou pela Biblioteca do Exército (por onde mais seria?) A Farsa Ianomâmi, onde afirmava que os indígenas Ianomâmis não existiam enquanto povo, e que a luta pela demarcação do território deles era, na verdade, uma campanha subsidiada por estrangeiros para se infiltrar na Amazônia. Quem leu a orelha deste livro, gostou e decorou algumas linhas, poucas décadas mais tarde virou presidente do Brasil. E quem recomendava a leitura para seus discípulos e admiradores (Bial e Franscisco Bosco, entre eles) era um tal de Olavo de Carvalho, aquele que só não vai atrás do Trio Elétrico beijar o cu do Caetano (como prometido) porque já morreu.

Todos falam que vivemos tempos de pós-verdades. É a pós verdade que permite, por exemplo, que o atual prefeito de Porto Alegre possa colocar a culpa dos alagamentos na cidade nos…meteorologistas! Eu gostei muito do que a cineasta argentina Lucrecia Martel disse recentemente, algo mais ou menos assim: Vivemos tempos complicados, violentos, confusos, mas, curiosamente, muito menos hipócrita. As pessoas mentem abertamente. Sem medo. Sem vergonha nenhuma. E ao mesmo tempo, não escondem mais as suas verdadeiras intenções. Temos que tirar proveito disto.

Trump mente diariamente e não esconde mais suas intenções: quero o petróleo da Venezuela, as terras raras da Bolívia, a América Latina é nosso quintal. Tudo aquilo que era velado, disfarçado de “luta pela manutenção da democracia”, não é mais necessário. Tá liberado escancarar.

Não lembro o nome da jornalista que falou na tv que a palavra imperialismo era ultrapassada. Anacrônica, demodé, cafona…Ser invadido por uma tropa de mariners não me parece nada chique.

Trump mente como Próspero, personagem de Shakespeare em A Tempestade, que mentia pra controlar e manipular o destino de todos. Na literatura, Próspero termina abrindo mão de seus poderes, perdoa seus inimigos e vai cuidar da vida. No mundo de verdade, Trump não abre mão de porra nenhuma, não perdoa ninguém e pode destruir a porra toda.

Um dos livros mais mentirosos da história foi O Protocolo dos Sábios de Sião. Saiu no Brasil nos anos 30, pelas mãos de Gustavo Barroso, um assumido galinha verde antissemita. Hoje, os sionistas de Israel mentem diariamente e não conseguem mais esconder o genocídio e o roubo escancarado do território Palestino.

Semana passada teve debate na tv. Haddad jantou Tarcisio. Em tudo. Em todos os momentos. Apresentou propostas, etc, etc. A manchete da Folha de São Paulo do dia seguinte foi: candidatos ao governo do estado nacionalizam o debate. É mentira terta?

Tá na hora da imprensa brasileira escolher que tipo de mentiroso ela quer ser.

E a gente parar de ser Pedro Bó.

Saravá

A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer” Graciliano Ramos

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A foto da capa eu tirei e mostra o Pinóquio de estimação aqui de casa. E abaixo, o link pra playlist 181 da Corda, que tá sensacional com músicas de um escocês esquecido na poeira dos anos 70, Ian Carr, a versão espetacular de Anitta para Bichos Escrotos, um pouco de Cabeça de Dinossauro, porque afinal, tá fazendo 40 anos e ainda: Ahmad Jamal, The Books, Eddie Harris, Joyce Moreno (disco novo sensacional), Manfredo Fest, Joni Mitchel, Garotas Suecas, Jan Hammer, Thami e muitos outros bambas.



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