Plantão de Polícia acaba de chegar no streaming da Globoplay e eu passei a última noite emburacando os 10 primeiros episódios.
No final dos anos 70, a TV Globo acabou com a novela das 10 e pra não deixar buraco na grade, resolveu investir em séries nacionais, quase nos mesmos moldes das concorrentes americanas. Começou com Ciranda Cirandinha, que tinha uma pegada “jovem”, foi criada, vejam só, por Paulo Mendes Campos e era escrita por Luis Carlos Maciel e Domingos de Oliveira. Quatro jovens interpretados por Lucélia Santos, Jorge Fernando, Denise Bandeira e Fábio Jr., dividiam as contas e as aflições da vida num momento em que o sonho hippie já tinha ido pras picas. Dos 15 episódios gravados, somente 7 foram ao ar. Os restantes foram gongados pela censura. Na sequência veio a ótima Carga Pesada, da ala dos comunistas do dr. Roberto Marinho: Gianfrancesco Guarnieri e Ferreira Gullar, Malu Mulher, do Doc Comparato e do lebloniano Manuel Carlos e finalmente, a minha favorita: Plantão de Polícia, a série que tinha um pouco de tudo das outras -luta de classes e questões sociais, de gênero e identidade- mas com dois cavalos de vantagem no páreo: era a única que tinha Hugo Carvana como ator principal e Jorge ainda Ben como autor da música de abertura, e vale lembrar que Carga Pesada tinha Gonzagão e Gonzaguinha no tema.

Revendo agora, consigo entender o que me fazia estar às 22h de uma sexta-feira na frente da televisão, além do fato de eu ter na época, apenas 14 anos e portanto, sair pra beber, fumar maconha e vomitar ainda não estava liberado. Apesar disto, eu já achava o Carvana muito mais transgressor e outsider que os jovens da Ciranda. Ele levava pra telinha um pouco de seu alter-ego cinematográfico de Se Segura Malandro. Era o jornalista old-school, o cara criado antes do diploma, do carro com ar condicionado e do restaurante com comida afetiva. Tinha recebido das mãos de Nelson Rodrigues, por mérito, socos levados e serviços prestados, a medalha de lata de anti-idiota da objetividade. Vascaíno, gostava de botequim fuleiro, de cozido, de bolero e samba canção. Circulava por toda cidade, qualquer lugar lhe servia e podia ser encontrado na arquibancada do jóquei fazendo uma fezinha. No clube do jóquei, só entrava se fosse pra investigar treta cometida por algum sócio milionário. Por instinto, ele desconfiava de quem tinha muito dinheiro.

Eu não sabia nada disto, era cria do Baretta, mas já achava que gente como Waldomiro, que incomodava, só poderia ser do bem. Nem sei dizer se ele era adepto do novo-jornalismo, acho que não e provavelmente, o personagem se lixava pra estas coisas.
Os roteiristas da série eram da pesada. Aguinaldo Silva – antes da fama como novelista, convocado justamente por sua experiência como repórter policial, Antonio Carlos Fontoura, Doc Comparato e Leopoldo Serran, que creio, é o autor deste off narrado por Carvana no começo do nono episódio:
O Rio de Janeiro tem várias delegacias de polícia e em cada uma delas, dezenas de casos surgem todos os dias. Existe no entanto, um período do dia que vai das 08 às 10 da manhã, em que as ocorrências parecem mortas, vocês sabem como é que é. A confusão da noite anterior acabou e a do dia que entra, ainda não começou. É nessa hora, em todas as repartições, que o cafezinho assume o poder. Mas, dizem os livros de história, que foi por uma calmaria que o Brasil foi descoberto. Por isso, é preciso ter sempre alguém de olho aberto nessas horas mortas. Porque na profissão de repórter policial, a coisa acontece assim: quem bobeia, dança!

Waldomiro tá minha galeria de anti-herois românticos, aqueles que são derrotados pelas mudanças, que são engolidos pela grande história, consumidos por transformações que nunca trazem melhorias. Ken Parker e Corto Maltese estão nesta turma. Não se trata de nostalgia, passadismo e nem saudosismo. É experiência, pressentimento e desencanto. O Rio de Janeiro de é sol, é sal é sul não existia mais em 1979. E o subúrbio já não era mais pacato.
Nesta madrugada, fiquei com a impressão de que Serra, o editor “moderno” importado de São Paulo (interpretado por Marcos Paulo), nem era tão vilão assim. Era um proto-coxa pré-sapatênis, um tipo que pouco tempo depois seria visto às pencas procurando bananas caramelizadas na Barão de Limeira ou na Irineu Marinho. Serra hoje se sentiria muito bem entregando um prêmio de gente que faz a diferença ou jantando com banqueiros e empreendedores sociais. Poderia comandar um talk-show onde entrevistaria artistas do período, diria que a ditadura nem foi tão dura assim, que as privatizações de FHC foram benéficas pro país e que o impitiman de Dilma não foi golpe. Escorregando um pouco mais, ele poderia ser companheiro da atual Malu Mulher em alguma revista ruralista.
Os outros coadjuvantes da série eram ótimos: Denise Bandeira -também da Cirandinha e dos filmes do Carvana – era Bebel, a foca, começando a vida na selvageria da redação enfumaçada. Em 2003 deu uma entrevista contando que muitas gravações aconteceram com a equipe no meio de blitz e tiroteios de verdade. Pra minha tristeza, ela resolveu ficar só como roteirista e parou de atuar. Lutero Luiz, fazia um fotógrafo olho no lance, mas hipocondríaco demais, Procópio Mariano era o motorista gente boa da Rural. Também era sambista e macumbeiro, fazendo a conexão perfeita entre Copacabana, Cinelândia e Madureira. Juan Daniel era o jornaleiro galego anti-franquista da esquina, leitor fiel e principal ombudsman das matérias de Pena. Completavam o elenco vários atores que só apareciam na tv ou no cinema fazendo papeis subalternos, de policiais ou bandidos, putas ou domésticas: José Dumont, Anselmo Vasconcelos, Maria Alves, Maria Gladys, Zeni Pereira, Julcileia Teles, Vinícius Salvatori, José Prata…
Waldomiro era machista? Olhando com os olhos de hoje, certamente sim. Muito. Mas olhar pro passado só com o presente, sempre dá ruim. Hoje, Waldomiro estaria morto, queimado num microondas assim como aconteceu com Tim Lopes. A pobreza e a violência de 1979 não é a mesma de 2026. Muita coisa mudou e nada se transformou. Tudo mudou e seguimos na mesma. Boa parte daquela pauta nos jogaria agora diretamente para questões de classe, gênero, raça…e para a maldita questão identitária.
Confesso que ainda não sei exatamente como lidar com isto. Mas tenho algumas certezas: Quase sempre, quem reclama da pauta identitária, é gente branca como eu. Quase sempre, é homem, 40,50,60+ de classe média pra cima, como eu. E mesmo dentro da esquerda, o tema é complicado. Luis Felipe Miguel escreveu um texto esta semana, críticando o identitarismo, que está matando a universidade, etc, etc. Ele detalhou as acusações que foram feitas contra um professor inglês, que se matou após ser acusado de plágio. O professor era negro. Mais uma vez, o que me deixa com o pé atrás, é que Luis Felipe Miguel, tão sabedor dos detalhes do caso de Jason Arday e tão defensor da punição ao plágio, seja de quem for, não dedicou uma linha ao caso de Gláucia Lidiane da Silva, da UFRN. Ela acusa, com caminhões de provas e evidências, um professor da Universidade Miguel Hernández de Elche (Espanha) de copiar descaradamente um método criado por ela. Gláucia, vejam só, é negra. Também me causa espanto que a turma que se diz contra o identitarismo, usa sempre os casos mais pilantras como exemplo…Parecem até os caras da UDR, que só usam exemplos trouxas pra condenar o MST.

Voltando pro jornalismo: Mariliz Pereira Jorge, na carona da entrevista de Wagner Moura, também escreveu um texto desancando o identitarismo. Não entendeu nada. E desafiou a esquerda, chamando na chincha pra contestar Wagner Moura.
Mariliz poderia fazer par com Serra na redação da Folha Popular, ajudando o editor-chefe a “modernizar” o jornal. Foi ela que num programa de tv declarou cheia de razão, que a esquerda usava expressões ultrapassadas e anacrônicas, desconectadas da realidade como abaixo o imperialismo…Que coisa mais cafona, em pleno século 21 usar este discurso de imperialismo…Isto não existe mais, nem o imperialismo e nem este lance de abaixo imperialismo…Mariliz era debatedora do Mynews e do Meio….No meio do meio tinha uma cascata que foi derretida pelos fatos. Trump e Rubio deixaram Mariliz mais ultrapassada que embalagem de Leite de Rosas…
Mariliz joga no mesmo time da Malu, da Miriam, da Vera e da Sadi, que são colegas do Merval, da Cora… Enquanto esta turma, de marilizes e de cezartrallis for maioria nos telejornais e nas redações dos jornalões -que estão em plena campanha pra impedir a nova vitória de Lula – eu vou seguir não lendo, não ouvindo e pouco me lixando pro que escrevem. Não faz diferença, mas pelo menos, não me emputeço.
Haddad segue dando entrevistas para todos os canais de rádio e tv, em todos eles, é fuzilado por perguntas cretinas feitas por clones de mariliz ou por bozóides penteados e barbados no estilo super chique da academia greco-goiana de letras e penteados. Haddad deixa todas as chapinhas sem argumentos, mas a turma do gumex, a gente sabe, tá se lixando pra isto.
Vou seguir fingindo que estou lendo uma reportagem do Waldomiro Pena na Folha Popular.
Tá circulando nas redes sociais uma onda de dizer o que é chique de verdade. Entro no jogo por aqui:
Chique é ter Hugo Carvana no elenco/ Cafona é ter apoio à lava-jato no currículo…Chique é país que tem Jorge Benjor/ Cafona é gente que se acha chique e apoia bolsonarista/ Chique é não escrever mundo polarizado/ cafona é dizer que é isento / Chique mesmo e moralmente obrigatório, é apoiar a causa palestina/ cafona mesmo, é ser obtuso e apoiar o sionismo de Nethanyahu / Chique de verdade, é votar 13.
curiosidades:
*Muitos anos depois tive a sorte de encontrar o Carvana (apenas uma vez), de conhecer a Martha Alencar e de trabalhar, mesmo que rapidamente, com a Cacala, a Rita e o Júlio. Também trabalhei com o Antonio Carlos Fontoura e reconheci no roll final, vários nomes como João Paulo Carvalho e Faya. A Denise Bandeira, nunca sequer vi andando na rua…Uma lástima!
*A abertura de Plantão de Polícia tinha uma versão instrumental enxuta da música de Jorge Ben, com arranjo blaxploitation (piano fender rhodes e naipe de metais), uma linguagem gráfica de primeira, com fotografias -granuladas e com cores saturadas- de cenas policiais, isto muito antes de law & order, e a fonte courier-news datilografada assinando. No encerramento subiam os créditos e a versão de Jorge com violão, muito apito e muita cuíca. Ele cantava Waldomiro mora no bairro de Ipanema…Quando o disco Salve Simpatia saiu, no final daquele mesmo ano, ele corrigiu pra mora no bairro do Flamengo. Ipanema já estava dominada por Sérgio Dourado e não era pro bico do Waldomiro.
ouça a música, clique aqui. e a letra:
Esta é a história
De Waldomiro Pena
O cândido, o último repórter policial romântico
Salve Waldomiro Pena
O cândido
Waldomiro anda muito preocupado
Com as idéias de seu editor
Que querendo modernizar o jornal
Cerra e esquece o romantismo
Que ele criou
E ele conquistou
Waldomiro Pena
Mora no bairro do Flamengo
Num quarto e sala displicente e decorado
Onde depois da matinal
Média e pão com manteiga
Num boteco da esquina
Às pressas manda botar na conta
E se manda para o jornal
A folha popular, a sua glória nacional
Bate o ponto, pega uma velha perua e com a sua gangue cai nas ruas
Bate o ponto, pega uma velha perua e com a sua gangue cai nas ruas
Transando com gente de todo tipo e espécie
Como por exemplo, camelôs, policiais
Bicheiros, sambistas, otários e marginais
Waldomiro Pena
Topa toda hora
Com lances incríveis e perigosos
Sem perder o seu humor
Heroico e romântico
Salve Waldomiro Pena
O cândido
Salve Waldomiro Pena
O cândido
Waldomiro Pena
(Waldomiro)
Waldomiro Pena (uh, uh, uh, uh, uh)
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