na corda bamba 205 # com a filha de ryan, as noivas de pinheiros, o alfaiate do mendonça e a prima da malu.

Uma história mirabolante num país que sempre deu pano pra manga.

Já escrevi sobre isto aqui na Corda: David Lean é um dos meus diretores favoritos: A Ponte do Rio KwaiLawrence da Arábia, Dr. Jivago, Passagem para Índia, A Filha de Ryan. São filmes onde tudo é superlativo: 3 horas ou mais de duração, orçamentos pra lá de generosos, elencos estrelares, locações espetaculares, milhares de figurantes, trilha sonora imponente –Maurice Jarre, quase sempre – e na tela de 70 milímetros, vemos Lean brincar, alternando planos gerais com super closes de seus personagens. Do vasto mundo pro detalhe. A brincadeira não é só estética, ela tem um sentido, pelo menos na minha cabeça, entre a vida pessoal e a Macro História, aquela que sempre passa como um trator por cima dos personagens, que não conseguem, por mais que se esforcem, fugir do destino de uma bomba, guerra, peste ou revolução. Todos os dilemas cotidianos, as paixões, desejos incontroláveis, pequenas disputas domésticas, as picuinhas com vizinhos, as invejas dos parentes, as pequenas causas, acontecem sob o peso de um pelotão do Exército Vermelho, de um bando de beduínos da tribo de Banu al-Harith ou de terroristas do IRA. Ao trair seu bom, gentil e entediante marido com um major inglês, Rosy Ryan pagou todos os pecados de uma pequena vila gelada no litoral da Irlanda. Sua traição conjugal foi a desculpa pra esconder uma traição política. Não existe história, principalmente na Irlanda, sem traição. Rosy foi a Geni da fictícia Kirrary e nos filmes de David Lean, a Grande História, sempre chega pra esculhambar com a vida de todo mundo.

Lembrei disto hoje, vendo na TV o caso das quase 200 noivas paulistanas que ficaram sem vestido de casamento. Um atelier de costura no bairro de Pinheiros -Vintage alguma coisa- deixou as moças ao véu, com todo o resto de fora. Os vestidos custaram em média 40 mil reais e as futuras esposas encontraram a loja vazia, com as portas fechadas. O assunto ainda vai render mais algumas semanas nos tópicos dos trópicos.

Poucos minutos depois, as notícias mudaram das grinaldas para os ternos sob medida, mudaram também de endereço: elas foram de carro blindado com chapa branca, de Pinheiros para os Jardins, onde fica a loja de Vasco Vasconcellos, o alfaiate dos bilionários do Brasil. É lá que empresários, políticos e banqueiros vão quando querem se parecer como um lorde inglês em Savile Row. Entre os frequentadores da alfaiataria do Vasco, clientes como Daniel Vorcaro e o ministro do supremo André Mendonça.

Mas o que as noivas do ateliê Vintage, o alfaiate VV, o Vorcaro e o ministro terrivelmente evangélico têm a ver com David Lean e a Macro História? Em princípio, nada. A história das noivas sem vestido me pareceu uma versão destrambelhada da Roupa Nova do Imperador, produzida pelo Canal Lifetime. Já a do alfaiate que passou a fita métrica no ministro e no banqueiro, me fez lembrar do Alfaiate do Panamáromance de John Le Carré, que também virou filme. Lembrei ainda, da versão matadora de Chico Buarque pra canção de Kurt Weill e Bertold Bretch, onde a cachaça que o malandro não paga no boteco, desencadeia uma série de desfalques em sequência: garçom, dono do botequim, distribuidor, usineiro, banco, importador, até o furdunço bumerangue voltar e pegar pra cristo o malandro pé de chinelo.

E comecei a especular um drama com ramificações em todas as classes e regiões do país, da Oscar Freire a Asa Sul, de Guarulhos à Gama, começando com uma noiva, a Silvinha, que poderia ser prima irmã da Malu GasVar. Outra noiva, a Adriana, seria afilhada do Mendonça e melhor amiga de Elisangela, sobrinha de Vorcaro. Marisa, colega de firma da mulher do filho do Kássio. Ainda, Maria Emilia Matarazzo Reale Whitaker, reitora do Instituto Éter, de formação jurídica e madrinha desconsolada de Antonia de Mello Medeiros Aranha, que desesperada, jogou tudo para o alto e casou em Vegas em cerimônia presidida por um sósia de Ronald Reagan. No meio da confusão, a coitada da Eliete, que trabalhou como uma corna pra realizar o sonho de casar com um vestido instagramável e agora, se a alfândega não implicar com a taxa da blusinha, vai subir no altar com um modelo chinês improvisado da Shoppe. Eliete veio de baixo e sua vida começou a mudar depois que ela conheceu Sálvio Emiliano, ex líder da Mancha Verde que se converteu depois de passar uma temporada em Tremembé. Junto de Sálvio, ela virou assídua dos cultos da Igreja Presbisteriana de Pinheiros, onde André Mendonça é pastor-adjunto de verba.

Pensei em festas adiadas, salões, buffets, hotéis, passagens aéreas, listas de presentes, fotógrafos, cerimonialistas (das alturas e das baixuras), maquiadores, manicures, cabelereiros (ainda se usa esta palavra?), padres, pastores, igrejas, a roupa do padre Leonildo, encomendada em Roma, limusines, helicópteros, decoradores, vjs, doceiras, o show do Alok com feat da Ana Castella que não vai acontecer, das putas e os putos das despedidas de solteiro, as lembrancinhas customizadas (nosso amor começou naquela casa na Riviera, conheci Luisito quando fui comprar meu Cartier Tank) e toda a rede de tranqueiras e serviços que envolvem um casamento padrão top top na pauliceia.

Imaginei Alessandro, o noivo da Suzete, aquele que trabalha no escritório de advocacia que opera junto com outro escritório, que defende uma tia da Michelle em Taguatinga e Gama no DF. No Edvan, tio da Monique, ele, um funcionário da PF em Brasília, fornecedor eventual de informações para o Mendonça e pra GasVar. No Claudinei, afilhado de Mendonça, jovem varão abençoado, agente da PF e marido de Dirce, boleira que perdeu algumas encomendas com o cancelamento dos convescotes. A viagem de Dirce e Claudinei pra Southlake, Texas vai ficar pra 2027 ou 28…

Alessandro, no fim das contas, não ficou de todo desgostoso com o vestido invisível…Era a desculpa que ele precisava pra não gastar dinheiro. Agora não vou ter que aturar meus parentes escrotos de Uberaba enchendo a cara de champanhe às minhas custas... Sandro também não lamentou. Precavido, sabia que a cartada de Mendonça pra foder com Xandão poderia ter troco, e dependendo do tamanho da pica, ele teria que desaparecer por um bom tempo no interior de Goiás. Pra piorar, o parque Castelo no Recreio dos Bandeirantes, onde ele lavou um bom dinheiro, estava com as obras atrasadas e a previsão era inaugurar só em julho de 2027.

Naquela semana, Malu não respondeu as dezenas de mensagens que Silvinha, sua prima-irmã deixou na caixa postal. As duas eram unha e carne, cresceram juntas e dividiam o gosto pela leitura. Foi Malu que fez Silvinha trocar o Manual do Peninha pelo da Madame Mim e Maga Patalójika. Foi Silvinha que levou Malu pra reunião da Amway do Paraíso, onde ela conheceu suas primeiras fontes. Foi com Silvinha que Malu viajou para o Maranhão, onde juntas, defenderam a liberdade e os direitos dos blogueiros do Bumba meu Boi contra o malvado-tirano-ditador-comunista Dino Sáurio. Eu avisei a Silvinha que não se pode confiar em loja que fica em Pinheiros. É Jardins e no máximo Itaim, e olhe lá…

Malu tinha mais o que fazer. Ela e suas colegas, Miriam, Mariliz, Andrea, Vera, Eliane, Renata, seus irmãos de fé Cézar, Joel, Caio, Pedro, todos estavam correndo contra o tempo para atingir as metas ODS (ordens de sabotagem) estabelecidas pelos dirigentes da ABJASFL (Associação Brasileira de Jornais a Serviço da Faria Lima), que por sua vez, estava recebendo ordens diretas da ABRACHERT (Associação Brasileira dos Cheira Rolas do Trump e do Marco Rubio)….

Até o dia 04 de outubro, ela e sua turminha estão incumbidas de uma única missão: costurar, cortar, remendar, alfinetar e se precisar, desaparecer com tudo, principalmente a verdade, pra impedir a reeleição do sapo barbudo…Ela não tem dúvida que Flávio, o príncipe prometido é um horror, mas é com ele que seu chefe pretende sambar na cara da multidão pelos próximos 4 anos. Malu tem arrepios só de pensar na MACRO HISTÓRIA, aquela que carrega junto as urnas eletrônicas dos estados do Nordeste, a turma que luta pelo fim da jornada 6×1, que ela sabe que não vai quebrar nada, mas que dá voto pro inimigo. A única história que ela gosta mesmo, é a que ela ajudava a escrever: Ocultando. Distorcendo. Mentindo.

Esta história só termina no dia 04 de outubro. Lula lá!

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Saravá!

e não se esqueça:

Abaixo o link pra espetacular playlist # 183 de Na Corda Bamba com homenagens a Dolly Parton, Ruben Rada e Tomás Improta (pianista da Outra Banda da Terra), músicas novas de Fernando Moura em dobradinha com Rodrigo Campello, de Tiago Araripe, e também de Marcelo Lobato. Ainda: Martinho da Vila, Gal Costa, The Beatles, Willow, Dave Pike Set, Otis Redding, Ruy Maurity, Miriam Makeba, Pentagle, Nick Drake, MC-5 e muitos outros bambas. Mais ainda: Roberta Sá e Bebel Gilberto no disco homenagem a João Donato.

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