O motorista parou o ônibus, levantou e fez um rápido discurso agradecendo aos passageiros “vocês trabalhadores e trabalhadoras que todos os dias pegam esta linha, minha vida não existe sem vocês”. Foi ovacionado pela imensa maioria de mulheres que naquele horário, 17h, tinham deixado o trabalho no final da Luis Góis e subido no apertado 4716-10 Tamanduateí até o Metrô Santa Cruz. De lá, elas se dividem em direção aos 4 cantos da cidade. São Paulo também é transe em trânsito. Como não dirijo, pego ônibus e metrô pra buscar os filhos na escola. Coloco os fones no ouvido, eles criam uma barreira ilusória de invisibilidade e distanciamento. É com ela que brinco um voyeurismo chinfrim e encontro tipos como o Sr.Miyagi Corintiano.


Nesta hora do dia o telefone quase nunca toca, as mensagens não chegam, ou se chegam, eu empurro a resposta pra mais tarde, tô na rua, ligo em 15, é nesta hora do dia que eu esqueço das contas, dos projetos, que eu lembro que tem 3 dias que descobriram que o flávio, aquele que é um merda, divide escritório com o careca do INSS e que até agora nem o Globo, nem a Folha e nem o Estadão deram destaque…É nestas horas que eu lembro que ainda tem gente boa que leva a imprensa à sério, que chama os colegas pra eventos e simpósios, como se a obtusidade fosse apenas uma questão de opinião, ah mas é do jogo democrático….
É no ônibus que eu lembro que o Grêmio perdeu de virada pro Vasco, em casa, e que, como eu já sabia, o 3×1 no Grenal foi o máximo que este time mocorongo, treinado por um mocorongo, presidido por um mocorongo e patrocinado por um careca escroto vai conseguir em 2026. A segundona tá logo ali, sem escalas.
De vez em quando aproveito pra terminar um filme ou episódio de série. “Honey, Não!” tem as ótimas Margareth Quailey e Aubrey Plaza no elenco e a direção de Ethan Coen. Tá tudo muito bom, tá tudo muito bem, mas o final não é muito diferente dos 5 mil filmes e séries de psicopatas americanos que pipocam nas telas. Vivemos um momento generoso para com os psicopatas. Uma policial gay pode ser psicopata. Uma alemã gay casada com imigrante pode ser lider da nova direita. E psicopatas ganham filmes e presidências. E duram muito. Como muitas séries. No Escuro tem seus momentos. A jovem cega obsessiva que fode com tudo só pra descobrir quem matou seu melhor amigo, um adolescente negro que fazia avião no beco e origamis no quarto. Chega de psicopatas.


E pra quem quer encarar outras praias: Arte Brasileira Quadro a Quadro, série que fiz junto com os chapas Marcos Guttmann e Rafael Cardoso. A segunda temporada tá passando no Arte 1. Dia destes me deparei com o Lucas Bambozzi na tv, falando sobre o Antonio Dias, a Iole, o Hélio, o Quase Cinema.


No mais, andar de ônibus, ouvir música, ver filmes. A arte não paga as contas, mas ajuda a aturar os arrombados. Na Corda Bamba fica por aqui, avante macacada!
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antes de acabar, meu amigo Vicente Duque Estrada mandou:
E se evidências de tecnologia antiga estiverem escondidas na poeira da Lua? O próximo grande avanço na busca por inteligência extraterrestre pode vir não de um radiotelescópio, mas de um microscópio. Um novo estudo liderado pelo Dr. Lewis Pinault, cientista afiliado ao Instituto SETI, propõe a busca por partículas microscópicas projetadas no regolito lunar — minúsculas e duráveis tecnoassinaturas que poderiam potencialmente sobreviver muito tempo depois do desaparecimento das civilizações que as criaram. A Lua pode ser um lugar especialmente propício para essa busca. Sem atmosfera, água corrente ou geologia ativa para apagar o material antigo, sua superfície vem acumulando poeira de todo o Sistema Solar e do espaço interestelar há bilhões de anos. Os pesquisadores estimam que examinar cerca de um metro cúbico de regolito lunar usando microscopia moderna, espectroscopia, tomografia e imagens assistidas por IA poderia começar a estabelecer limites significativos sobre a quantidade de material artificial durável que civilizações tecnológicas podem ter produzido ao longo da história da Via Láctea. Nenhum artefato alienígena foi encontrado. Em vez disso, o estudo apresenta uma estrutura prática para a busca por essas assinaturas — e futuras amostras lunares poderão dar aos cientistas a oportunidade de testar a ideia.
Se tudo der errado, a gente procura o regolito!
Abaixo, a espetacular, a sensacional, incrível e fodona playlist # 184
Chuva, frio e apreensão. Recorro ao Bill Evans pedindo tranquilidade num disco que se chama Você tem que acreditar na primavera. Seguirei acreditando.

#Novidades: DeFalla tocando Arnaldo Batista/ Thunderbird tocando Arnaldo Batista/Boogarins tocando Arnaldo Batista/ Pedra Relógio tocando Arnaldo Batista. Discos novos de Kiko Dinucci, Black Pantera, Aaron Frazer e Raquel Dimantas faz o pop mais bacaninha do momento.
#Descobertas: Leenalchi é a música coreana que me interessa. A que não interessa tá no Rock in Rio. Azar do Rock in Rio. Sulaf é uma cantora e compositora do Sudão. Ela também não está no Rock in Rio. A dupla Curtiss Maldoon e a banda Joy of Cookin também não estão, porque eles encerraram a carreira folk no início dos anos 70.
#Reouvindo: Sonho 70 de Egberto Gismonti. Roberto Menescal deu entrevista no Roda Viva desta semana. Falou de divas, de Elis, Gal, Angela Ro Ro. Em seu segundo álbum, Egberto Gismonti, pode fazer o que quis, graças às bençãos de Menescal, então diretor de produção da Phillips. É tão bom que não resisti e coloquei 3 faixas nesta edição.
#Native Harrow é uma dupla folk x pop que descobri há uns dois anos atrás. Não deve estar fácil pra eles, que resolveram abandonar a Flecha Nativa e seguir com seus nomes de batismo: Devin Tuel & Stephen Harms. Devin canta bonito, um tanto solene, mas vale.
#Eu duvido que o Márcio Pinheiro saiba que o sax arrasador de Slave, minha faixa favorita de Tattoo You, seja de ninguém mais, ninguém menos que Sonny Rollins! O choque de monstro foi convidado por Charlie Watts, que antes, teve que convencer a banda. O próprio Sonny só topou a parada depois de ouvir o sábio conselho de Lucille, sua esposa e empresária. No estúdio, Mick Jagger perguntou como ele queria trabalhar. Rollins pediu pra Mick ficar dançando e foi improvisando, controlando a intensidade do sopro conforme o remelexo da pedra. Sonny também tocou em waiting on a friend. Anos depois, ouvindo a música no rádio, esqueceu de sua canja e ficou admirado: que belo solo de sax. Quem será que fez?
# Revi nesta semana Something Wild, Totalmente Selvagem, filme que fica cada vez melhor com o passar do tempo. No meio dos anos 80, tudo que eu queria era fazer cinema como Jonathan Demme e Jim Jarmusch. A trilha tem muita coisa bacanuda, e pra esta 184 eu separei os jamaicanos Fabulous Five, Big Youth e Yellowman + o high-life remixado do nigeriano Sonny Okosun.
#E ainda: Trio Mocotó, Afrika Bambaataa, Dom Um Romão, Foli Griô Orquestra com Lenine, Hugh Masekela, Chris Kenner, Plas Johnson, Ghost Funk Orchestra, Ella Thompsom, Burt Bacharach, Los Espiritus, Graveola, The Kinks, TR/ST, Love Apple, Hermanos Gutiérrez, Trio 3D, Eddie Boyd, John Lurie, Biggabush, The Doors, Metá Metá, Fagner, Mandala e Peter Gabriel.

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