Uma playlist cheia de gente velha pra você ouvir nas manhãs de setembro…Um escritor mineiro pra ler sem guarda-chuva. Um time pra ser rebaixado. Um título pra ser protestado.
Old, old old love I hate getting old It happened so fast; where did it go? They don’t see me They just see my age They see that I’m old, they see that I’m so old…I know I look different But I feel the same inside I have the same insecurities That I had when I was a child
Kevin Rowland não gostou de ficar velho. A letra de Old Love é simples, banal, óbvia. Mas vai no ponto. Quando eu era jovem, eu me perguntava Se as pessoas mais velhas se interessam por outras da mesma idade Mas agora que sei a resposta Não quero pensar em mim mesmo em termos de idade. Kevin Rowland está com 73 e acaba de lançar um disco novo com sua banda Dexys Midnight Runners. Se ele chegar aos 90, talvez consiga atingir a síntese zen-ranzinzista do Niemeyer: A velhice é uma merda. Eu tinha 17 em 82 quando ouvi os Midnight Runners na Radio Ipanema. Envelhecer é isto. Ter idade para se vangloriar de ter vivido um tempo que já foi pras picas. Portanto, o Kevin Rowland abre a playlist 185 de Na Corda Bamba, que chega carregada de gente velha e gente nova, gente viva e gente morta. Só não tem Olavo, porque além dele não fazer música e ser um merda -assim como Flávio-, ele já morreu.
O bom é que sempre dá pra descobrir algo novo. Ontem abri a Piauí que encontrei abandonada num balcão da Cinemateca e conheci o meu mais novo herói de infância, melhor, o meu mais novo herói de uma adolescência que não vivi em Belo Horizonte: Sebastião Nunes, poeta, artista gráfico e advogado não praticante. Um poema curtinho dele:
inconfidência mineira: E como todo enforcado que se preza/Tiradentes morreu de pau duríssimo/apaixonado pela pátria amada.
e um poema visual que peguei no site https://www.sebastiaonunes.com.br/

Aos 87, Sebastião está publicando seu primeiro romance. E nas últimas 5 décadas, bancou a publicação de seus livros de poesia com sua própria editora, a Dubolso. A estratégia: escrever pedindo dinheiro para centenas de pessoas. Com a grana que consegue levantar, publica e depois remete o livro pelo correio. Ou seja, vaquinha catarse antes do catarse. Entre seus apoiadores-leitores: Carlos Drummond de Andrade, Valêncio Xavier (como não?), Dalton Trevisan, Clarice Lispector, Rubem Fonseca…O Brasil tem malditos para multidões e multidinhas. Em 2014, logo depois das eleições, escreveu artigo gozando Aécio. Patrãozinho não gostou e ele perdeu o emprego no jornal O Tempo…Vale ler o texto de Fabrício Marques na Piauí e vale mais ainda ler os livros do Sebastião. Meu amigo Lucio Agra, um leitor de apocalípticos e desintegrados, me mandou uma foto dos seus exemplares sebastianos.

David Byrne (74) também está com disco novo, na companhia da Ghost Train Orchestra. Na verdade, o disco saiu ano passado, mas como passar do tempo, ano passado foi ontem à tarde. Olhando pro céu ele canta: Todo mundo ri e todo mundo chora / Todo mundo vive e todo mundo morre / Todo mundo come e todo mundo ama / Todo mundo sabe o que todo mundo faz / Todo mundo passa por mudanças / Por cada complicação / Pelo que você diz com gestos e expressões / Na minha imaginação .
Eu continuo: todo mundo tá cansado, de saco cheio, azucrinado, todo mundo tá no prego, na lama, no drama, Tá todo mundo no zero, puto da vida com a Folha de São Paulo.
Converso com minha irmã. Minha mãe, 87, cansou de andar. Não quer mais fazer fisioterapia. Não quer mais fazer ginástica. Pediu uma cadeira de rodas.
Meus filhos chegam no Mangue e no Mautner pela escola. Chico Science faria 60 este ano. Coco Dub conversa com eles e conversa com o Toc-Instrumental do Tom Zé (89) descobrindo o samba. No táxi o motorista ouve Luiz Bonfá e eu falo pro Antonio e pro Vicente que aquele é um momento único: ouvir Luiz Bonfá em um táxi. Jacarandá tá pro Bonfá assim como Prelude tá pro Eumir, que inclusive, toca no disco com mais estes camaradinhas: Stanley Clarke (baixo elétrico), Ray Barretto (congas), Airto Moreira (percussão), John Tropea (guitarra) e Idris Muhammad (bateria). Bonfá viveu 78 anos, Ray Barreto 77, Idris Muhammad, 75. John Tropea está vivinho com 80, Stanley Clarke, 75 e Airto Moreira com 85 vive no Retiro dos Artistas em Jacarepaguá.
Durante 4 meses de 1976, a Times Square de Nove Iorque foi ocupada por um outdoor gigante que anunciava a chegada de Songs in The Key of Life de Stevie Wonder (76). Posso gastar uns 10 textos escrevendo só sobre este disco e mais uns 50 agradecendo o fato de Stevie Wonder ser Stevie Wonder, que neste momento, viaja pelo mundo na turnê de 50 anos do álbum.

Kátia de França está com 78. Lançou 20 Palavras ao Redor do Sol em 79, caiu no mundo, ficou um tempo sem gravar e nos últimos dez anos retomou a trinca disco, show, estrada. Kátia é paraibana e não tem tempo pra lamúria.
Catherine Ringer, a voz do Les Rita Mitsouko, a banda tecno-cabaret-puteiro eletrônico anos 20 dos anos 80, partiu aos 68. Câncer.
Shuggie Otis era um garoto prodígio que precisava colocar óculos escuros, barba e bigodes postiços para enganar o juízado e poder subir no palco junto com BB King, Al Kooper e Frank Zappa. Gravou dois álbuns e em 74, com 21, achou que já tinha tocado bastante e foi ser Shuggie na vida. Voltou pra jogada em 2018, aos 65.
Dennis Wilson morreu afogado com 39 anos e só lembraram dele 20 anos depois.
Elvis Presley deixou de ser jovem muito cedo pra virar um jovem velho. Quando morreu em 77, eu achava ele velho. E levei muito tempo pra pra entender a fase Tio Vegas. Só que diferente do Olavo, Elvis não morreu. Muita gente vai dizer que a letra de Fort Lauderdale Chamber of Commerce é machista tio sukita. Sem sombra de dúvida. Pretty girls eighteen to twenty-three/ If their technique ain’t what it should be/ Get love instruction for free from me/ Through the courtesy of the Fort Lauderdale Chamber Of Commerce Mas a música é uma delícia e é preciso muito talento pra encaixar as palavras Câmera do Comércio de Fort Lauderdale numa canção.
Jorge Mautner tá com 85. Jorge Ben Jor com 87 e Marcos Valle com 83. Hoje cedo vi um vídeo recente de Marcos Valle botando a moçada pra dançar em Buenos Aires. E dia destes vi um de Mautner cantando em Recife. Vampiro, Dorian Gray pré e pós tropicalista. Locomotiva é aquela declaração de amor que todo mundo gostaria de fazer ou receber.
Eu quero ser como um chiclé de bola/Pra estourar na sua boca/Fazendo ploft, ploft, ploft, ploft, ploft, ploft…/Vivendo contente, grudando no seu dente/Ai, que coisa mais louca/Eu quero ser como um carro de praça/Levando a multidão/Fazendo fón, fón, fón, fón, fón, fón… rrrrrrr… fón, fón…/Com o corpo cansado, com o breque quebrado/ Na avenida São João.
A dupla Los Índios Tabajaras não surgiu de nenhum país vizinho, mas do Ceará. Era formada pelos irmãos Mussaperê (o terceiro em Tupi) e Herundi (o quarto). Eles eram índios de verdade, filhos de um cacique chamado Ubajara. Foram rebatizados por um tenente e viraram Antenor e Natalício. Não falavam português. Fizeram a jornada do pau de arara: Ceará, Pernambuco, Bahia, onde descolaram com o governador as passagens de navio para o Rio de Janeiro. Cassino da Urca, depois Cassino da Pampulha em BH, São Paulo e depois se meteram pela América do Sul. No México, Ricardo Montalban chamou os irmãos de analfabetos musicais. Ao longo das viagens, estudavam, incluindo os clássicos. Foram pra Europa. Em 1957 gravaram um disco em Nova Iorque. Voltam para o Brasil e sem fazer sucesso, compram um sítio em Araruama, estado do Rio, e se aposentam. O bolero Ana Maria, gravado em 57, vira abertura de um programa de rádio americano. A RCA relança o compacto que vende 200 mil exemplares. A gravadora localiza a dupla em Araruama, manda passagem, hotel e o escambau. Gravam mais dois discos, com orquestra, shows no Japão, etc…E voltam pra Araruama.
Muitas vidas tabajaras numa mesma vida.

James Brown cresceu na casa da tia, que administrava um puteiro. Trabalhou de engraxate e fazia shows pros soldados no começo da segunda Guerra. Com 13 anos Howlin’ Wolf fugiu de casa e caminhou 85 quilômetros pra encontrar seu pai. Com 62, ganhou Honoris Causa em Columbia.
Os Rolling Stones nunca ficaram velhos.
Leonardo da Vinci morreu aos 67 anos, provavelmente de derrame cerebral. Na tv tem uma série Da Vinci’s Demons. na juventude. Ele aparece como mulherengo e genial desde sempre. É bacana visualizar como podem ter sido alguns insights. Mas é fantasia e a gente finge que acredita. Assisti numa madrugada destas Leonardo. Não tão jovem. Não tão genial. Inseguro. Obsessivo. Gay. E entediante. Seriados conseguem estas proezas. De transformar gênios italianos em James Bond ou em Jeremy Irons, dependendo dos roteiristas e de quem manda na produção.


Hoje cedo também vi o vídeo do encontro de Lula (80) com o jovem prefeito de Nova Iorque, Zohran Mamdani (34). Para Zohran, o velho sapo barbudo é um farol. Para os velhos e jovens carcomidos das redações nacionais, Lula é um velho a ser abatido. Os jornais tentam, mas não conseguem disfarçar o apoio ao jovem Flavio, um velho paga pau de miliciano e um total merda hereditário. Lula deu de presente pro prefeito uma camisa do Corinthians, que não anda lá muito bem, mas que sempre terá a Gaviões da Fiel, que acabou de chamar na chincha o presidente do clube, que assumiu um candidato bozofascista. Invejo a Gaviões. Queria uma assim pro Grêmio. Pra achincalhar o presidente bozoburrista e mandar ele enfiar o patrocínio da Havan no rabo. Torço pelo rebaixamento.
Na tv os candidatos desfilam e velhos como Suplicy, Erundina e Leci Brandão são mais jovens que todos os concorrentes dos partidos da direita (e de muitos da esquerda também).
Indiferentes à chuva e às eleições, Antonio e Vicente me perguntam no café: Em setembruxovski?
E a playlist segue com os jovens Negro Léo, Vera Fischer era Clubber e Leenalchi. E com veteranos como Beck, Guinga, Kristin Hersh, Lloyd Cole, Lucinda Williams, Richard Thompson, Metá Metá e Vivien Goldman.
E ainda: Exuma, Quiet World, Gloria Ann Taylor, Secos e Molhados, Ellen Mcllwaine, Pure Essense, Yusef Lateef, Diana Ross, The Emotions, George Clinton, Black Alien, Nouvelle Vague, The Beach Boys, Silver Apples, Ibibio Soundmachine, Clivezanda, Marijata e Jac Berrocal.
Não desanime. Não esmoreça. Não seja cretino. Vote 13 e nos candidatos da esquerda. Leia e assine Na Corda Bamba, aqui ou no substack. Você pode apoiar também com qualquer valor no pix fabpmaciel@gmail.com
A imagem da capa: foto que fiz do Ambiente Estroboscópico (1967), de Davi Boriani no Museu Novecento, Milão em 2011. Saravá!



e a playlist # 185!

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