A vaca mansa dá leite, a braba dá quando quer. A mansa dá sossegada, a braba levanta o pé, O Globo não chuta santa, mas baba o ovo de quem quer.

Eu estudava numa escola de freiras e naquele domingo, dia de São Francisco, a missa não era opcional. Na hora da comunhão, toda turma se enfileirou pra receber a hóstia sagrada e eu, que não tinha ideia do que era aquilo, entrei na fila também, abri a boca, coloquei a bolacha na língua, achei esquisito e cuspi, para o horror e espanto de minhas colegas carolinhas. Na segunda fui convocado para uma comissão de inquérito sobre o nível de catolicismo dos Maciéis. No ato saquei a jogada e defendi a cristandade da família, inventei umas idas fictícias de dona Carmina à igreja, sem contar que minha mãe costumava carregar eu e minha irmã para todas as casas de benzedeiras, centros espíritas e terreiros de Porto Alegre; lembrei de minha vó Jandira que me levava pra pegar o pão de Santo Antônio dos Pobres e na semana seguinte eu estava matriculado na catequese. Meu avô Antônio, um calabrês bronco e mal humorado me orientou: pergunta pra freira como que Jesus veio ao mundo já que Maria era virgem…Foi com um fascio di luce???? Eu perguntei. As freiras desistiram de mim e eu fui liberado do segundo sacramento da iniciação.
Hoje é dia de Cosme e Damião, data que só descobri quando mudei pro Rio de Janeiro, se era comemorado em Porto Alegre, nunca reparei. Há poucas semanas atrás, meus filhos Antonio e Vicente foram batizados. Os dois estão fazendo a catequese na paróquia de São Francisco de Assis, que era chapa de Santo Antônio. Sempre que levo a dupla pra aula, paro e rezo, pra São Francisco, Santo Antônio, São Judas, São Jorge, São Benedito, Santo Expedito, Santa Clara e Nossa Senhora de Aparecida, a santa preta padroeira do Brasil.

Uma vez no Chile, uma inglesa, jornalista da BBC me interpelou espantada: Como você pode ser comunista, ler o Francis Wheen, defender a ciência e acreditar em todos estes Mumbo Jumbos?!? Eu sou brasileiro. Foi o que respondi pra moça.
O Simas diz que o sincretismo foi muito mais que uma equiparação entre santos e orixás. É bonito como ele conta isto, da cristianização das africanidades e da africanização do cristianismo. Por vias tortas, mas afinal, Deus não escreve certo por linhas tortas? Ser macumbeiro, católico, comunista e ecumênico ao mesmo tempo é uma das nossas conquistas civilizatórias.
Tem casa de umbanda que associa Xangô com São Francisco, outras com São Jerônimo. Exu e Ogum com Santo Antônio. Cosme e Damião com os ibejis do candomblé e os erês da umbanda. Depois do ponto de partida do Cidadão Instigado, a playlist # 186 de Na Corda Bamba abre com um canto pra Xangô, na voz da pernambucana Alessandra Leão, feita pro disco Goma-Laca, Cantos Populares do Brasil de Elsie Houston.
Zeca Pagodinho é devoto fiel de Cosme e Damião. Ontem postou vídeo em casa, acompanhado da mulher, que é evangélica e dos netos, organizando os pacotes de doces que foram distribuídos aos montes hoje em Xerém. Zeca também foi abraçar Lula esta semana e declarou: Eu, minha família, meus amigos, todo mundo é Lula, não tem outro. Ele sabe que o que está em jogo, é a nossa civilização.
Anarquistas, graças a Deus. Quem é ateu e vê milagres como eu.
Quem abriu o site do jornal O Globo ontem, leu uma sequência de chamadas assim:
Fim das bets: governo vai deixar de arrecadar milhões. Fim das bets: Futebol vai perder milhões em patrocínio. Fim das bets: Apostadores vão migrar pra plataformas clandestinas. Fim das bets: Empresas preparam ações na justiça.
O Globo ficou muito chateado mesmo com o fim das bets.
Eu não.
Os cartolas acham que o futebol brasileiro não sobrevive sem as bets. Eu acho que os cartolas não sobrevivem sem as bets e o futebol brasileiro não sobrevive aos cartolas. A seleção do coach embromatore deu dois vexames na Austrália: primeiro com os jogadores rindo numa cerimônia de boas vindas, depois, escapando da derrota no último minuto.
Temos um combinado de ungidos que não ganha de ninguém.


Trinh Thi Ngo era uma moça de boa família que sonhava em falar inglês para poder ver sem legendas no cinema, os altos e baixos de Scarlett O’Hara, que assim como Trinh, também era uma moça de boa família e uma das herdeiras da fazenda Tara em E O Vento Levou. Nos anos 50 ninguém ainda acusava o dramalhão de passar pano para a aristocracia rural racista e escravocrata do sul dos Estados Unidos e até hoje, empreendedores, coachs e motivadores profissionais usam a história como fonte de inspiração. Com 24 anos, Trinh virou a locutora da Voz do Vietnã, onde lia as notícias para a audiência estrangeira da região. Mas aí começou a guerra, não na Geórgia, mas em todo o Vietnã, e Trinh Thi Ngo virou Thu Hong – fragância de outono– ou Hanoi Hannah e deixou de narrar platitudes gringas para gravar mensagens contra o exército americano. Ela mesma escrevia os textos que ao longo de 8 anos, foram transmitidos 3 vezes por dia: Desertem, vocês serão derrotados, a guerra está perdida, as palavras de ordem se misturavam com canções americanas contra a guerra e mensagens de compatriotas pacifistas. A rede de informação vietnamita era eficiente e Hannah conseguia dar o nome dos soldados, suas divisões e muitas vezes, a localização exata das tropas.
Os soldados americanos ficavam bolados…
Tem garoa na plantation.
A Geórgia é aqui, no Morumbi. A Geórgia não é aqui, é no Morumbi. São Paulo (onde mais?) tem uma réplica da Fazenda Tara. A proprietária é devota de Nossa Senhora de Scarlett O’Hara, convertida na infância, assim que viu Clark Gable e Vivien Leigh se beijarem pela primeira vez. No link, uma matéria feita em 1997 sobre a mansão.
O bispo universal que chutou a santa em 1995, Sergio Von Hellder, trocou de franquia e durante muito tempo operou na Igreja da Restauração, uma empresa americana concorrente da Universal. Em 2018 fez campanha pro Bozo. Hoje ele vive na pequena cidade de Jefferson, na Geórgia, onde reza pro vento não levar seu rebanho e pra América continuar lavando mais branco.
Dizem que quem chuta santa o vento leva.


Lula fez na ONU um discurso foda pra caralho, daqueles que entram imediatamente pra história, sem a pecha ruibarbosiana de a europa se curvou ante o brasil. discurso de deixar Malus, Mileis, Rubios e Mervais se rasgando no forevis. Trump botou o fraldão na mesa, Nazinyahu foi ignorado e o pau comeu nas ruas de Nova Iorque. Hannah Einbinder e Susan Sarandon foram presas junto com centenas de outras pessoas que protestavam contra o genocídio na Palestina. Ao longo desta playlist, sapequei algumas bacanidades da turma do NO WAVE, um movimento que aconteceu em Nova Iorque no final dos anos 70. Era uma New Wave menos pop, menos comercial, mais experimental, mais barulhenta e mesmo assim, dançante.
Se existe esta abstração que é a MPB, consolidada nos anos 70, talvez a dupla Jaime e Nair sintetize tudo numa canção onde cabem Minas, Bahia, interior de São Paulo, Rio. Uma canção onde cabe o Brasil. Certamente a dupla só não fez sucesso, porque gravava pela CID, um selo pequeno, que aparecia somente na raspa do prato feito. Ouça Sob o Mar. Ouça com atenção, sem fazer outra coisa, sem lavar a louça, mandar mensagem ou varrer a casa. Simplesmente ouça. Sem pressa. Música embalada na combinação perfeita entre violão, percussão e orquestra, onde tudo é beleza, boniteza e levante.
O nome disto é civilização.

O Problema Final tem alguns cavalos na frente de outras séries da Netflix. Carrega todos os clichês de histórias policiais, mas neste caso, com a vantagem do ator principal ser na história, o melhor intérprete espanhol de Sherlock Holmes. Tem a Maribel Verdu. Se passa no final dos anos 50 e a produção caprichou na ambientação. O roteiro dá reviravoltas e são apenas 4 episódios. E o melhor: boleros e mambos na trilha. Na corda, Benny Moré, el sonero mayor, o bamba do improviso vocal no son cubano. De Maiorca para o Caribe, calipsos cantando bossa nova com Lord Hummingbird e reggaes com as moças do Brown Sugar.



E mais: Meshell Ndegeocello com Cat Power numa versão de Don’t you want me, super hit do Human League. Disco novo de Jalen Ngonda. Uma beleza de faixa de Muca com Roberto Menescal e a voz de Ilessi.
E ainda: The Modern Lovers, Led Zeppelin, The Beatles, Milton Nascimento, Arthur Verocai, João Bosco (do disco novo), Katia B, Arnaldo Antunes com Adriana Calcanhoto, Clementina de Jesus, The Black Keys, Cidadão Instigado, Robertinho do Recife, Julien Cope, Brown Sugar, Cézar Mendes com Marisa Monte, Marlui Miranda, Dona Edith do Prato, música nova de Tabatha Lorena, The Dance, Thefunkt, Cory Henry, Carlos Rennó com Davi e Moraes Moreira, Sérgio Sampaio, Zizi Possi, Tom Jobim, Baden Powell, Tom Zé, Cazuza, Renato Braz, Marlui Miranda, Edu Lobo, Brittany J.Green, From, Erasmo Carlos, Moacir Santos, Érika Ribeiro e João Gilberto.
Termina com Cézar Mendes e Caetano, cantando a homenagem do Arnaldo Antunes ao João.
São tantos e tão poucos têm noção
De como se inaugura uma nação
Não é bem com monumentos
Ou com balas de canhão
É quando uma brisa bate na respiração
E entra no juízo de um João
Que dedica todo empenho
E amor ao seu engenho
Para arejar os cantos da canção
E dar sentido à nossa sensação
Milhares de partículas no ar
Reviravoltam numa vibração
Para nos dar sua bênção
Para nos tirar do chão
Como se a rotação da Terra fosse então
Essa voz e esse violão
Quando uma só pessoa
No silêncio aperfeiçoa
Toda a multidão escuta o coração
E se torna civilização
CIVILIZAÇÃO. temos uma semana pra não deixar o pouco que temos ir pra casa da família miliciana.

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Saravá!

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