reflexões sobre as urnas + uma playlist dividida entre o amor gostoso e o ódio + uma certeza: autocrítica da esquerda é o caralho.

Numa noite chuvosa de 1939, o jovem Carlos Lacerda saiu apressado da Taberna da Glória, escorregou numa casca de banana nanica e quando levantou, tomou a decisão mais importante de sua vida: largou o Partido Comunista e se bandeou pra direita. Sete anos mais tarde, ingressou na UDN, onde viveu alegre a cantar e a conspirar, até levar, em 1968, uma rasteira de seus parceiros golpistas e ser cassado. Como tudo no Brasil é relativo, entrou pra história como grande administrador. Eu fico com a alcunha que Darcy Ribeiro lhe outorgou: coveiro da educação pública.
Em 2008, num fim de tarde gelado em Chicago, o dramaturgo David Mamet empurrou a porta do restaurante Twin Anchors, escorregou na neve e bateu com a cabeça num parquímetro. Quando seu amigo Joe Mantegna o socorreu, não percebeu que algo tinha mudado para sempre. Mamet chegou em casa e escreveu o ensaio “Por que não sou mais um liberal com morte cerebral”. Alguns anos mais tarde, o autor de As Coisas Mudam, aderiu ao MAGA e de lá nunca mais voltou.
Em 1995, depois de jantar com FHC, o cineasta Arnaldo Jabor deixou o restaurante Carlota na Alameda Santos, escorregou em um exemplar abandonado de A Teoria de Dependência e bateu com a cabeça na bolsa Hermès de uma quatrocentona que tinha acabado de sair da Daslu. Mais tarde em seu apartamento, quando foi escrever sua coluna para O Globo, ele iniciou uma cruzada contra a cidade do Rio de Janeiro e a favor do livre mercado. Para o ex-cinemanovista, o lumpesinato carioca era o dragão da maldade anti-globalização que iria tranformar o Brasil numa grande Madri look terninho Ayuso.
Quinze anos depois, Ferreira Gullar deixou o prédio da rua Irineu Marinho, escorregou num poema sujo, bateu com a cabeça de vasta cabeleira branca numa pilha de jornais, abertos exatamente na página com a coluna do Arnaldo Jabor. Quando deu por si, o velho gato estava desancando a esquerda, o socialismo e a arte contemporânea.
Em 2019, num luau em Malibu John Lydon encontrou Morrisey, os dois se estranharam, escorregaram numa barra de parafina, bateram numa pilha de pranchas de surf e acordaram pensando que estavam em Londres. Gritaram vivas pra Rainha, pra Margareth e fundaram ali mesmo o Make England Great Again.
Naquele mesmo ano, o jornalista americano Glenn Greenwald, depois de levar uma bordoada de Augusto Nunes, saiu nervoso do estúdio da Jovem Pan, escorregou numa casca de banana da terra, bateu com a cabeça no capô do carro do Peter Perfeito da Revista Oeste que estava estacionado ali e desde então, virou um defensor ardoroso dos direitos da rua direita.
Em outubro de 2026, 56 milhões de brasileiros acordaram, não escorregaram em porra nenhuma e votaram em Flávio Bolsonaro para a presidência do país.
Assim como os outros 53 milhões de brasileiros eleitores de Lula, passei o dia de ontem balançando entre os sentimentos de tristeza, decepção, melancolia, desesperança, raiva e ódio total e absoluto.
Pela primeira vez na vida, meu voto não ajudou a eleger ninguém. Não me arrependo nenhum pouco de minhas escolhas. Muito pelo contrário.

Admito resignado, que sim, uma grande parte dos brasileiros, de todas as classes, concorda, apoia e se identifica com um projeto conservador, reacionário, autoritário e excludente. Filtrando tudo que li e ouvi, concordo muito com o amigo João Ximenes Braga:
A Globo omitiu todos os crimes de 01, mas a culpa é da comunicação do PT. Os imperadores Musk, Trump e Rubio declaradamente golpeando a América Latina, mas vocês querem autocrítica. A direita não aprendeu como usar as redes porra nenhuma. A direita é o grande capital internacional. O grande capital não aprende como usar as redes. O grande capital é dono das redes, cazzo.
Com Tarso Genro: Penso que a nossa relação direta com o povo deve ser caracterizada menos por uma solicitação de voto agradecido pelo que foi feito e mais por um pedido de confiança parceira, sobre como podemos nos mover juntos para um futuro muito melhor…A sociedade é outra, o século é outro, os grupos e classes populares são outros…As pessoas vivem cada vez mais no cotidiano e menos na História. E é por aí que devemos pensar em ganhar neste segundo turno decisivo para toda a América Latina.
E com a amiga Cássia Zanon: O foco precisa ser nos 33 milhões de desiludidos. Não precisa ser gênio pra saber que não é nem com xingamento, ameaça ou condescendência que se vai tirar essas pessoas da inércia…Tem jeito.
Ou seja: a missão agora é focar nos indecisos e tentar virar os votos do lado obscuro da força.
O artigo de João Moreira Salles, se não serviu pra iluminar os votos da elite, pelo menos deu nome aos bois do flavismo bozoapoiante. Considerando que ultimamente a verdade só funciona com avalista- e João é um deles- sugiro um artigo com o nome aos bois da imprensa, já que ele também está no ramo e tem lugar de fala nesta seara. Daria pra encher uma edição inteira da Piauí e o barulho seria grande. Embora a gente saiba muito bem quem são os CANALHAS.
Na minha opinião, chinelona e sem relevância, os “jornalistas da imprensa profissional”, como eles gostam de ser chamados, são um dos principais responsáveis, pela merdalhança que estamos vivendo.
Imparcialidade de cu é rola.
Pra cima com a viga moçada!
Vamos virar esta porra!
E se der ruim, eu vou seguir o conselho da Ivani Flora: Coragem. Mais lá embaixo tem texto e link sobre a sensacional e espetacular playlist na corda bamba # 187. As fotos da capa e das plataformas abaixo, eu fiz na bacia de campos em 2011.
Quem puder, assine Na Corda Bamba no wordpress e no substack. Ou apoie com qualquer valor na chave pix fabpmaciel@gmail.com
Saravá!

José Bulcão mandou avisar:
O Janones está montando uma plataforma de ação digital no Whatsapp para o 2° turno. As comunicações são unidirecionais (só dele pra o grupo) sem interação. Ambiente controlado e sem aquela encheção de saco de enxurrada de msg de “bom dia” e power point cafona com fundo musical brega. É comando > ação, comando > ação, sem frescura nem debate interminável sobre babaquices irrelevantes pro momento. O grupo zap chama-se, sugestivamente,
EXÉRCITO DO LULA.
na playlist # 187 de na corda bamba


Abrindo com faixa de um disco que há muito tempo não ouvia: mumakata, do codona, grupo que antecipou o conceito de word music, com don cherry, naná vasconcellos e collin walcott. das melhores obras lançadas pelo selo ECM. Na sequência invocando o maracatu elegante de miécio askanasy e josé prates, que vamos precisar e muito de tam tam tam…quem não conhece e quiser saber de onde jorge ben sacou o refrão de mas que nada, confira o disco de 1955. No aaaaahaayyyy um lugar pra nós, sussurra beto maia na versão brega paraense para wicked game de chris isaak e depois quero ver quem tem coragem de dizer que o som tecnorasta da chinesa mimi gan não é do balaco e pra não perder o bonde, US-3, uma faixa que ficou de fora de songs in the key of life, com o espetacular, choque de monstro, mestre de tudo, mr. stevie wonder, i zimbra do talking heads e aqui eu abro um dois pontos: a discografia completa do talking heads soa incrivelmente atual, sem nenhum vestígio de datação. single novo dos rolling stones e o urubu rei implorando nega, vamos pra boston (em 1984)…julia guedes é neta de beto guedes. e seu disco de estreia, álbum vermelho é muito bacana. coloquei logo duas faixas. descoberta: molly tuttle considerada a maior surpresa do bluegrass nas últimas décadas. não consegui parar de ouvir sua versão para white rabitt do jefferson airplane. pra seguir no clima: billy strings. pra ouvir com atenção: how do you sleep, um recado amargurado de john lennon para seu parceiro maca…nada disto importa agora, mas segue sendo um musicão.



Bonde segue e avança com duas versões da música cool jerk, primeiro com the creation e depois com the tremeloes, luna falcão e anelis assumpção, lauryn hill pra matar a saudade, john coltrane, tina brooks, esperanza spalding, milton nascimento e moacir santos, el chicano, duas do português bruno pernadas, uma dica do chapa carlos eduardo lima da célula pop: sons of sevilla; king crimson, dawn penn, a super cheque hipnótica performance do músico japonês oki com a banda irlandesa kila. parece lista de parada indie, só que não. ouçam. Bonde descarrilhando, trem descassetado, cavalos na metade do circuito: julio reny, marcos valle, marcos suzano e takashi numazea, nick drake, terry reid (foda) , terry callier (bonito demais), dione warwick, james brown (matador), doris monteiro, tortoise, stevie wonder de novo, sex pistols, a espetacular peça de stevie reich: música para pedaços de madeira; a surpresa que é tainá e i o u, letta mbulu, paroah sanders, rosinha de valença e antes do fim: joão gilberto, ao vivo no sesc, cantando bahia com h, música do paulista denis brean. o pôncio chinelo mor, rodrigo constantino deu xilique e saiu falando besteira sobre a bahia…ele não vale meio acarajé, é um zé bosta que nem merece este espaço, mas como eu não xinguei ninguém até agora, xingo este arrombadino. e encerro a playlist com hermeto pascoal encerrando tudo em montreux. só no filé.
avante.
13

e a playlist!
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