Em 1912, peões de uma fazenda na cidade de Jardim, no Mato Grosso do Sul, encontraram no meio do cerrado um buraco gigantesco, com 100 metros de profundidade e 500 de circunferência. O buraco tem classificação científica: dolina, um tipo de depressão geológica formada pelo desabamento de uma caverna, e tem um nome popular: Buraco das Araras. Protegidas dos predadores, lá elas podem descansar e procriar sem medo de que alguma gralha ou tucano apareçam pra roubar os ovos e os filhotes. Bem no fundo do buraco, tem um pequeno lago, onde jacarés do papo amarelo também fazem a festa numa relax, numa tranquila, numa boa. O que era um paraíso em 1912 virou um lixão no final dos anos 70 e as araras tiveram que procurar outro buraco pra tocar a vida. Nos anos 80, um novo proprietário com a ajuda de pesquisadores da Universidade Estadual do Mato Grosso, dos bombeiros e do exército, retirou caminhões de lixo e entulho, reflorestou e transformou o lugar numa reserva particular. As araras voltaram. Em 2017 um turista avistou com seu binóculo algo estranho se mexendo lá embaixo. Era uma sucuri gigante, com cerca de 7 metros de comprimento. Ninguém sabe explicar como ela chegou lá, mas os guias da região especulam que ela pode ter sido arrastada por uma enxurrada e nunca mais saiu.

Medo, cagaço, agonia, aflição, apreensão, pânico, pavor, decepção, desilusão, desesperança, pessimismo, raiva, ódio, frustração, desespero, tristeza, melancolia, ira. Logo depois do primeiro turno, todos estes adjetivos (minha amiga cristina schumacher, sempre de olho no lance, me escreveu: fabiano, estes são substantivos. cagado, agoniado, aflito, apreensivo, seriam os adjetivos destes substantivos. Nunca mais esquecerei, Cristina!) ficaram disputando uma corrida de revezamento na minha cabeça. Ver na TV a alegria de desqualificados como Tarcisio, Moro, Douglas Ruas e o recém eleito governador do Rio Grande do Sul, Benito Zucolini, me deixaram no modo sobrevivência básica. Fazer comida, levar e buscar os meninos na escola, tomar banho, escovar os dentes, etc. A imagem da sucuri no buraco das araras parecia animadora. Rotina básica e escapismo. Filme novo com o Darin na Netflix – a tradicional obsessão argentina com psicanálise – ou ler notícias como estas:
O pedreiro Edimar Rocha Martins de 49 anos, deixou sua cidade natal, Imperatriz, e viajou 2000 quilômetros até Belo Horizonte para encontrar Jéssica, a mulher de sua vida, com quem vinha se correspondendo e trocando juras de amor há quase um ano. Desembarcou na rodoviária e como não tinha o endereço, começou a procurar sua amada pelas ruas da capital mineira. Foi parar numa rádio, onde descobriu que Jéssica Fazendeira, uma loura potrancuda estilo GNT Poderosas do Cerrado, era uma louraça belzebu, louraça satanás criada por IA, uma Kátia Flávia do agro, desenvolvida pra vender produtos online. Edimar caiu no conto porque Jéssica nunca pediu cascalho, pelo contrário, prometia transformar o cabra num teúdo e manteúdo sinhozinho das alterosas. “Eu gosto de ajudar, mas eu quero você mesmo para mim. E to querendo um rapaz macho” Jessica tem 300 mil seguidores. O serviço social da prefeitura de BH pagou a passagem de volta de Edimar para o Maranhão.
Alexandre Asmani, celebrado cirurgião plástico alemão, especialista em moldar derrières no estilo BBL (Brazilian But Lift) vulgo Buzanfão de la Patrie, foi assassinado com um tiro na testa, disparado por um homem mascarado que invadiu seu consultório em Marbela na Espanha. O crime aconteceu na frente da equipe e da esposa do recauchutador de forevis. A polícia acredita que a morte foi encomendada por uma paciente insatisfeita com o resultado final de sua raba siliconada.
Mas Nada Supera a Vida Real não cura banzo do tamanho de dolina. Nem os convites dos amigos que estavam com filmes novos na Mostra SP: Marcos Guttmann Tudo é Tempo, Marcello Maia Pele de Rinoceronte, Rita e Júlio Carvana que produziram Cansei de Ser Galã, doc sobre Claudio Marzo, da Vania Lima que produziu o novo filme do Ruy Guerra, Tempo à Faca, do lançamento do livro da Ana Maria Magalhães, Quem é Viva Sempre Aparece, nada disto me tirou da rotina.



Até que os estudantes começaram a fazer barulho, primeiro em Niterói, depois no Rio, em São Paulo, Porto Alegre e nas outras capitais. O Janones começou a formar o seu exército no zap e eu me vi um soldado fiel de sua tropa, junto com outros milhões de brasileiros, e incorporei na rotina o copiar, colar e explodir hashtags e pesquisas no google. Muito antes do primeiro turno, meu amigo Tagore, um cara que mal frequenta as redes, já tinha me alertado pra importância de seguir o Janones e reclamava que Lula devia ouvir mais o deputado mineiro. Na noite do dia 16 de outubro, quando fui bater panela na varanda, seguindo a convocação do general, muitas pessoas também estavam fazendo isto na vizinhança. Desde 2012, esta foi a primeira vez que ouvi eleitores do Lula se manifestando no trecho onde moro no bairro da Saúde, em São Paulo. Postei o vídeo na meta e outro amigo, Luis Eduardo Ricon comentou: Viva o janonismo cultural! Na manhã seguinte, sincronizadamente, milhões de brasileiros postaram fotos fazendo L e vestindo verde amarelo. Depois de 10 anos, a camisa da seleção voltava a ser de todo mundo. Neste mesmo dia, outros milhões foram pras ruas em apoio ao Lula.

Segui no rame-rame aproveitando as idas ao mercado, açougue, padaria, metrô, pra conversar com caixas e funcionários. A pauta: a jornada 5×2 e a possibilidade de Flávio chegar junto com fim do pix, das garantias trabalhista, férias, décimo terceiro, bolsa família, SUS e reajustes de salários e aposentadorias… Não sei se virei algum voto, mas percebi uma movimentação diferente. No sábado 27, um dos funcionários do Hortifruti me disse: amanhã vai dar Lula. Pode sossegar. Peguei um ônibus Parque Dom Pedro e o motorista, uma figuraça, mandou o L quando viu meu adesivo no peito. Em São Paulo choveu muito na noite de sábado pra domingo. Dormi mal, fui votar cedo e fiquei tentando disfarçar a ansiedade. Lá pelas 3 da tarde, Miriam ligou a TV e ficamos assistindo o filme da Rolling Thunder Revue, a turnê maluca que Bob Dylan fez com seus amigos (Joan Baez, Joni Mitchel e Mike Ronson entre outros) em 1975 e 76. Tem uma cena que mostra Allen Ginsberg e Dylan improvisando um recital num retiro de idosas em Nova Jersey. Ginsberg declama seus poemas e Dylan canta, ignorados pelas velhinhas que estavam mais interessadas nos números do bingo. Naquela hora, ainda tomado pelo pessimismo, pensei que bom mesmo seria virar beat e sair por aí, recitando poemas pra velhinhas, ignorando qualquer coisa mais concreta a não ser o direito sagrado de poder viajar na maionese.


Um olho no Dylan, outro no celular, e vieram as notícias da falta de ônibus, do desgraçado do prefeito de Salvador, do cretino do prefeito de São Paulo, do Kássio, da prorrogação até as 19h e finalmente a contagem começou, primeiro com Lula na frente, depois com o miliciano virando e pouco mais tarde com Lula virando novamente e quando ele apareceu vencendo em Minas eu segurei a onda e pensei, ganhamos! O Flávio se fodeu… Assisti a apuração no ICL. Mudei pra Globonews pra ver/ouvir os muquiranas declarando a vitória do Lulão das massas. Em menos de 5 minutos Merval vomitou seu arsenal de merda. Com Lula reeleito, a gloriosa imprensa “profissional” brasileira voltou automaticamente ao modo gueixavadia-medizqueeusouseutipo do mercado financeiro, exigindo austeridade, responsabilidade fiscal, cuidado com as contas públicas e cortes de gastos (só nos programas sociais, claro). O PIG é assim mesmo: quando não tá apoiando algum golpe da direita, tá ocupado com o pau de algum banco da faria lima na boca.
Voltei pro ICL e fiquei pensando no tamanho do feito que foi esta virada. O nordeste mais uma vez salvou o Brasil, Minas virou, em São Paulo e no Rio Lula cresceu e venceu nas capitais. Porto Alegre e algumas cidades da fronteira salvaram o Rio Grande do Sul da vergonha quase que total. Mas fiquei pensando mesmo foi no exército do Janones, pra mim, o grande feito desta eleição, junto com o povão nas ruas. A meta tentou foder com Lula, Janones fodeu com a meta. Acho que o exército virtual não pode e nem deve ser desmobilizado. Ele vai ser a arma pra barrar as barbaridades deste congresso majoritariamente chinelão. O janonismo vai ser o veículo da nossa revolução cultural chinesa. Uma revolução boa de chinfra, sem o dogmatismo dos maoistas e sem dar moleza pra putada do centrão. O janonismo é coisa nossa, assim como a bossa nova e o estilo BBL (Brazilian But Lift) de bunda, exportado e analisado no ato pelas esquerdas da Argentina, Espanha, Estados Unidos e França, que já cunhou o janonisme…

Dormi muito pouco de domingo pra segunda e passei o dia em transe, vendo o chororô bozista. Fui no hortifruti e encontrei o ajudante confiante de sábado…Eu te avisei… Todos os caixas estavam sorrindo. E duas relataram agressões de clientes. A xenofobia antinordestino. Foram corridos por outros clientes. A bolsa caiu, o dólar subiu e a Folha, claro, colocou a culpa no Lula e na insegurança fiscal.
Eu quero que o Frias enfie a dívida pública no cu.
Dele mesmo.
Ninguém come dívida pública.
E aí eu já estava pronto pra voltar à vida normal, a eleição de Lula me deu um puta alívio, mas a vida segue dura, a Ancine segue sem calendário, muitos editais ainda não aconteceram, a lei do streaming ainda precisa ser melhorada e aprovada e eu ainda tenho um caminhão de boletos pra pagar.
Não existe vida mansa no bananal.
E quase tudo é imponderável no bananal.
Flávio fugiu.
Flávio cagão fugiu.
Flávio pinóquio fugiu.
Flávio frouxo fugiu.
Flávio 171 fugiu.
Flávio dark horse chicken little fugiu.
Flávio irmão do Vorcaro fugiu.
Flávio chapinha do Moro, do Dalagnol, do Nikolas, do Zucco, do prefeito escroto de Porto Alegre e do muitos outros escrotos de todos os estados, fugiu.
Flávio que recebeu o voto de 59 milhões, 826 mil e 41 brasileiros, fugiu.
Flávio é um filho da puta que vai conspirar contra o país ao lado de seu irmão, outro filho da puta.
Flávio fez de otários seus milhares de eleitores. Mais otários que o ingênuo Edimar, que deixou o Maranhão pra encontrar a Jessica Fazendeira, que sequer tentou tirar algum pixulé dele.
E hoje ainda é terça-feira.
Pra cima com a viga moçada! Foi do caralho virar esta eleição junto com 64 milhões, 256 mil e 232 brasileiros. Na Corda Bamba volta com com carga total. Quem quiser, pode assinar no wordpress e no substack. Ou apoiar com qualquer valor na chave pix fabpmaciel@gmail.com
A imagem da capa mostra a camiseta da seleção do Antonio, devidamente turbinada por ele e seus colegas de escola. Mais abaixo tem uma nova playlist, numa edição só sucesso, só balanço, só ziriguidum pra pular, dançar e rir da cara dos bozistas.
Saravá!
PS1: quem mandou mexer com Nossa Senhora de Aparecida…
PS2: todo mundo falando de novas lideranças, mas me parece que ninguém descobriu ainda o quão foda é a Fernanda Machiaveli.
PS3: a casa tem novo habitante. Ana Carolina. Teimosa como criança sindicalista, comilona como um pedreiro e bagunceira como um anarquista. Ela dá trabalho, mas é pata quente.

na playlist # 189

cidadão instigado, maria bethânia, funk como le gusta, elza soares, jorge ben jor, russo passapusso, djavan, roberta sá e marcelo d2, j.b. de carvalho, ney matogrosso, fumaça urbana, otto e edu k, wando, tim maia, lula queiroga e lenine, funk como le gusta (mais uma vez), mundo livre s/a e bnegão, the baggios com chico césar e kátia de frança, alceu valença, fausto fawcett, fernanda abreu, milton nascimento e criolo..

obina shok e gilberto gil, ed lincoln, quarteto em cy, os tincoãs, bala desejo, toni tornado, gilberto gil, gal costa e gonzaguinha, moraes moreira, jorge mautner, jards macalé, wilson simonal, erasmo carlos, los sebosos postizos, itamar assumpção, antonio carlos e jocafi, baby consuelo, luiz melodia, pepeu gomes, os mutantes, dom salvador e abolição, letieres leite e okestra rumpilez, céu, anelis assumpção, bnegão e seletores de frequência, jorge du peixe, saulo duarte e a unidade, marco mattoli, maria rita e dj dolores.

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