Sábado, 9 horas da manhã numa lanchonete da Borges Lagoa. Tomo um expresso enquanto leio o Jéferson Tenório. Uma música muito boa começa a tocar. Olho pra trás, a televisão mostra um conjunto latino, todos 60 pra cima, todos em traje de gala. Demoro a sacar se eles são da bailanta ou de jesus. Talvez sejam dos dois, já que agora a turma tá fazendo pacto até com bombachudo. Um casal de meia idade levanta e começa a dançar. Confiro a mesa com as garrafas de cerveja, devem ter virado ou começado cedo. Tentei tirar uma foto da dança, mas deixei pra lá, isto ia estregar a parada. O melhor de São Paulo são estas anonimidades cotidianas.

a faria pode ser lima e cheia de prédios tortos mas antes disto ela é um tremendo torresmo de rolo no largo da batata.

gosto de descobrir o que as pessoas estão lendo no metrô. gosto de ver as mulheres se maquiando no vagão lotado. além de ser uma cena linda, ela rende uma penca de divagações óbvias como a superioridade feminina para se equilibrar no meio do caos. de vez em quando eu vou até a última estação. sempre tem um fantasma ou um tênis esquecido.

mas como é bom sair de são paulo! mesmo que por uns dias. mesmo que esteja chovendo e fazendo frio no rio de janeiro. o rio também funciona sem paisagem.

esta semana corda enxuta. mas desçam até lá embaixo que tem mais platitudes e destrambelhamentos, além da espetacular playlist # 134. quem quiser assinar, tem dois botões vermelhos lá embaixo. também pode ser por pix, na chave fabpmaciel@gmail.com
a imagem da capa desta edição mostra uma paisagem bucólica encontrada no meio do furdúncio generalizado que é a av. domingos de moraes.
saravá!
diálogos edificantes entre pais e filhos
vicente pergunta:
-o que quer dizer cativeiro?
-prisão.
-cativeiro parece nome de cidade…
-cativeiro do sul.
-cativeiro grande.
-cativeiro do norte.
-cativeiro verde!
presentes significantes de filhos
do antonio:

CinemArquitetura, ficção e documentário
uma aula com fabiano maciel
sábado que vem, 16 de agosto, 17h, ou o mês inteiro disponível no meet:
*Como o cinema se utiliza do espaço urbano e da arquitetura.
*Como ver-refletir a arquitetura das cidades através do cinema.
*O cinema ficção como inspiração para documentários sobre arquitetura
VALOR DA AULA: R$ 80,00
PAGAMENTO VIA PIX: fabpmaciel@gmail.com
(enviar comprovante para o mesmo e-mail)
AULA VIA GOOGLE MEET
GRAVAÇÃO DISPONÍVEL POR 1 MÊS NO YOUTUBE E ENTREGA DE CERTIFICADO. VAGAS LIMITADAS

Quando o Brasil era Moderno: Sete semanas em cartaz em São Paulo!

o trailer de quando o brasil era moderno:
e a entrevista que dei para o ricardo dhaen no correio braziliense:

LINKS! LINKS! E MAIS LINKS!
o velho graça:
o globo fez 100 anos. não vale a pena falar o que penso sobre o jornal. vi a turma celebrando junto nas redes a experiência de andar por lá, e deve mesmo ser ou ter sido. estou lendo a biografia do graciliano ramos. concisão, economia, secura, maestria. abaixo tem um trecho de um relato de quando ele trabalhou no correio da manhã:
“Recusava assinar artigos (no Correio da Manhã, onde trabalhava como revisor), alegando para os mais íntimos que não concordava com a linha editorial dos jornais burgueses. O máximo que admitia era colaborar com o suplemento literário. Relutava em aceitar aproximação maior com os proprietários do Correio da Manhã, embora mantivesse uma relação cordial com Paulo Bittencourt (o patrão). A ortodoxia política o levaria ao exagero de não comparecer ao jantar pelo aniversário de Bittencourt. A José Condé, que passava a lista de adesões, afirmaria:
– Não me sento à mesa com patrão. Todo patrão é filho da puta! O Paulo é o que menos conheço, mas é patrão.
No dia seguinte, Bittencourt se queixaria:
– Mas, Graciliano, como é que você me faz uma coisa dessas?
– Paulo, eu o respeito, mas você é patrão …
– Mas eu sou um patrão diferente.
– Não, Paulo. Todo patrão para mim é ..,
– … filho da puta. Já sei que você xingou minha mãe.
O comunista e o burguês acabariam rindo juntos.
Paulo Bittencourt gostava de provocar Graciliano por suas ideias socialistas. Quando o Correio da Manhã recebeu novas máquinas, Paulo o alfinetaria:
– Imagine se vocês fizessem uma revolução e vencessem. Todo esse parque gráfico seria destruído.
Graciliano o cortaria:
– Só um burro ou um louco poderia pensar isto. Se fizéssemos a revolução e vencêssemos, só ia acontecer uma coisa. Em vez de você andar por aí, viajando pela Europa, gastando dinheiro com mulheres, teria que ficar sentadinho no seu canto trabalhando como todos nós”
um bom artigo sobre a biografia de graciliano ramos:
a morte e outros mistérios:
a crítica achou deprimente, a platéia não comprou, eu achei diversão garantida e vinde a mim todos os clichês de um whodunnit. diálogos afiados e uma mocinha espetacular.
whodunnit significado :
https://pt.wikipedia.org/wiki/Whodunnit
10 grandes filmes de whodunnit:
https://www.bfi.org.uk/lists/10-great-whodunnit-mysteries
arlindo cruz!
manoel filho mandou pra corda: um depoimento incrível de jorge goulart sobre o bamba silas de oliveira:
eddie palmieri!
ay josé, asy no es, com rita montaner:
eu quero um milhão de manuelas d’ávilas:
manuela enquadra o governador bolsomoderado não é gente:
e um milhão de mavis staples:
na playlist # 134:

eddie palmieri se foi. era um gigante. gravou com todo mundo que valia a pena gravar. nas redes, além da turma do jazz e da música latina, gente como spike lee e quest love prestam homenagens. a playlist # 134 abre (e fecha) com ele, com el sonido nuevo, de um disco obrigatório gravado com cal tjader em 1966.

na sequência, nestes tempos de tarifaços, o lance é buscar novos mercados, novas parcerias. as moças do umas e outras já sabiam disto desde o carnaval de 1970, quando convocaram a unidos de oslo pra cantar a noruega querida e a festa do bacalhau, a noruega lá no alto da europa setentrional…e tudo isto sem precisar pedir pro lula ligar pro salmão. abre alas minha gente! # duas faixas do disco do bixo da seda, prog brazil, prog iapi porto alegre, prog maconhão 75. já brilhou dentro dos teus olhos. esta semana no telefone carlos alberto sion lembrou deles. depois genesis dançando no vulcão, uma faixa de a trick of the tail. quem fumou e ouviu, se lambuzou. anda circulando nas redes fotos de phil collins no hospital, com o velho paul mccartney tocando violão pra ele. eu penso no quanto de energia que está sendo gasta pra armazenar estas merdas. # radar chamando, radar chamando, objeto misterioso no radar, celio balona chamando batman, celio balona chamando batman nem só de caetanos vivia o tropicalismo # defalla # questões jurídicas com gustavo kaly e pata de elefante, questões do destino com foghat e mombojó. questões de remelexo com wanderléa


jim capaldi em casa no rio de janeiro nos anos 70 # jon batiste e randy newman. que dupla! # water from your eyes, dupla nova, com a moça cantando com aquela voz de entediada com tudo. mas funciona. # the the também conhecido por aqui como os o ou será os os? # skowa e máfia, skowa dirige o argumento de atropelamento e fuga # eugene daniels cheio de groove em lovin’ man # samantha schmutz e adrian younge pedem pra aumentar o volume do coração # doris monteiro no dia de feira e umas coisas no olhar # céu tomando tento # johnny winter! # almôndegas # antes do fim, a nova música de lô borges em parceria com zeca baleiro # the black keys mais uma do disco novo e o country-pop-baba o que quiserem, mas a ruivinha taynee lord canta que é uma beleza. a música tem até momento todo mundo batendo palma. pra grudar como chiclete # iggy pop, david bowie e tom verlaine pra curar a alta dose de glicose # mavis staples gravou discos espetaculares nos anos 60 & 70, sozinha ou com seus irmãos no the staple singers. ativista dos direitos civis, jamais baixou a guarda e ainda hoje ela segue no batente, gravando discos da pesada, praticamente um por ano nos últimos anos. mavis nasceu em 1939, mesmo ano de dona carmina, que vem a ser a minha mãe, portanto, 86 primaveras. nesta corda, duas faixas do disco dela de 2019, produzido por ben harper. esta semana vi um vídeo dela nos bastidores do festival de newport. os manos do public enemy encontram com ela e se ajoelharam em saudação. ela merece. e o public enemy também. # commodores pro rebolation # videotape music, o nome faz jus ao lance. em tóquio, um produtor garimpa velhas fitas de vhs e recicla os sons, misturando tudo, mixando tudo e fazendo música pra dançar. vale # ian mcdonald e michael giles deixaram o king crimson logo depois do primeiro álbum chegaram a tocar no segundo, mas o barato deles era outro. os italianos do bee bee sea brincam de outro jeito # ligia lazevi sambando e formigando # nina e guto wirtti bolerando em meu primeiro amor # mateus fazeno rock fazendo samba # mongo santamaria bolerando com sofrito e a dupla martina da silva e joshua lee turner admitindo que são apenas bons amigos # darondo e wanderléa pra sair seguir no blues # josé barrense-dias atira o bodoque, paul simon se jogando no pelourinho, caetano xinga e marlene pede, tira a mão do meu ombro # mocidade independente de padre miguel ensaiando pro desfile # eddie palmieri fecha a corda com café, Café, tosta’o y cola’o
a moçada da # 134:
eddie palmireri e cal tjader # umas e outras # bixo da seda # genesis # paul mccartney # celio balona # defalla # gustavo kaly e pata de elefante # foghat # mombojó # wanderléa # jim capaldi # jon batiste e randy newman # water from your eyes # the the # skowa e máfia # eugene daniels # samantha schmutz e adrian younge # doris monteiro # céu # johnny winter # almôndegas # lô borges e zeca baleiro # the black keys # taynee lord # iggy pop # david bowie # tom verlaine # mavis staples # public enemy # commodores # videotape music # ian mcdonald & michael giles # bee bee sea # ligia lazevi # nina e guto wirtti # mateus fazeno rock # mongo santamaria # martina da silva e joshua lee turner # darondo # josé barrense-dias # paul simon # caetano veloso # marlene # mocidade independente de padre miguel # eddie palmieri
e a playlist!
luiz leitão mandou:
Sem a tia
Acordou às quatro da manhã apesar de ter apagado as luzes às onze da noite. Foi à cozinha e encontrou a louça por lavar tal com a deixara antes de dormir. Acendeu as duas luzes e ninguém reclamou que bastava acender uma. Abriu as torneiras de ambas as pias deixando o desperdício correr solto. Um protesto que já não fazia sentido.
O canto da bancada onde eternamente pousavam pacotes de biscoitos pela metade e de onde nasciam trilhas de migalhas que se estendiam da cozinha ao primeiro quarto, diminuindo esse fluxo de descuido, gradativamente, à medida que se aproximavam da porta sempre fechada, passando pela fresta inferior e indo acabar ao pé da cama, agora não mais trilha e sim poeira esparsa encontra-se limpo e desocupado.
A sala, onde tudo era proibido, transformou-se primeiramente num Éden que em pouco tempo se transformava de paraíso em um território não ocupavel devido aos ecos de ordens e regras extemporâneos. O que deveria ser território livre havia se transformado em túmulo de prazeres nunca desfrutados. Apesar de agora sempre aberta, a porta era uma barreira que só permitia a passagem daqueles que não conheciam sua história.
Os quartos eram depositários de fantasmas que, se a ninguém incomodavam, viviam o medo de que certamente um dia seriam expulsos, trocados por memórias ainda incipientes.
No silêncio da manhã que ainda tinha um longo e doloroso tempo para surgir em sua plenitude e aliviar o peso no estômago deu-se conta de que pela primeira vez em mais de setenta anos tinha um casa inteira para si.

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