Pouco antes de chegar no Hotel Terminus em Maputo, vejo pela janela do carro um palacete abandonado, com muitos azulejos portugueses na fachada, inclusive no painel que lhe dá nome: Vila Algarve. Alcídio, diretor do INICC (Instituto Nacional das Indústrias Culturais e Criativas de Moçambique) percebe minha curiosidade: Esta casa é assombrada. Espíritos estão a viver aí por dentro. Pensei comigo, já é tarde, amanhã venho fotografar e, se tiver sorte, encontro algum espírito. Faço o check-in e da janela do quarto tenho os fundos da Vila. Escombros, mato escapando pelas janelas vazias e corvos. Muitos corvos. Por precaução, fecho as cortinas e desço pro bar, numa agradável varanda de frente pra rua cheia de jacarandás. Aqui não servimos bebidas com álcool. Espíritos só no bar dos fundos, na piscina. Cruzo pela explicação ao ver duas portas no caminho: espaço para oração homens/ espaço para oração mulheres. Rezo agradecendo a Guinness gelada que está na minha frente e aproveito pra divagar: um palacete em estilo neocolonial português construído no auge do estilo neocolonial (anos 30) num país que naquele momento ainda era colônia de Portugal, pode ser considerado como neocolonial? Ou é um palacete colonial? Ou seria um palacete colonial em estilo neocolonial? A Ana Paula Koury vai puxar minhas orelhas se eu começar a raciocinar por estes caminhos tortos, mas eles são irresistíveis e servem pra inventar assunto em blog.


Quem construiu a Vila Algarve foi um sujeito chamado José dos Santos Rufino, comerciante, dono de uma papelaria que rendia uma grana razoável e de uma concessão que lhe garantia uma bolada alta, chovendo ou fazendo sol: ele explorava as loterias locais. Com dinheiro sobrando, contratou dois fotógrafos amadores (um deles era padre) e depois dois fotógrafos profissionais alemães que percorreram de moto, em 1927, a colônia inteira, registrando as maravilhas de Lourenço Marques, Beira, Porto Amélia e muito mais. O resultado foram 10 álbuns impressos no filé em Hamburgo, além de centenas de cartões postais que Rufino vendia em sua papelaria. O primeiro volume da coleção está com lance inicial de 200 euros no site de leilões virtuais da livraria Vicente em Lisboa.

Quando os moçambicanos começaram a sua luta pela independência, no início dos anos 60, a PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado) confiscou a vila e transformou o palacete neocolonial-colonial em delegacia-centro de tortura e repressão aos que lutavam pelo fim do domínio colonial de Portugal. O crítico de cinema Rui Knopfli foi torturado lá. O artista plástico Malangatana também. O poeta José Craveirinha, comeu o pão que o diabo amassou na Vila Algarve:
Alguma vez, um cigarro aceso sentirá o delicioso
sabor de te fumar de repente o ombro direito?
Pois sobre isso eu juro que tudo é pura mentira.
Juro que nunca um cigarro LM
apagou sua idiossincrática boca de lume
no calor escuro da minha omoplata […]
Por acaso a mancha desta mentira está.
Não sei se é uma medalha. Mas não sai mais.
Entrevistei Craveirinha em 1996, quando fui à Moçambique pela primeira vez -na verdade quem entrevistou foi o Renato Barbieri, eu tinha virado a noite sem dormir e cochilei a maior parte da conversa- Moçambique me tira o sono, quando não é farra, é fuso, quando não é fuso, é euforia e aflição.


Os portugueses não perseguiram somente intelectuais e ativistas pela independência. Curandeiros e sacerdotes, os tyniangas, homens e mulheres que cumprem ao mesmo tempo o papel de médicos e de conselheiros, aqueles que conhecem os chás, as ervas e as plantas que curam, que fazem em suas aldeias e comunidades o papel de ponte entre o mundo terreno e o divino, entre a tradição e os ventos de hoje, estes também foram desacreditados, perseguidos e condenados. Muitos puxaram cana por vadiagem.

Na quinta 23, tentei fotografar a Vila Algarve, mas São Jorge mandou recado: melhor deixar quieto. Na sexta 24 choveu e no sábado 25, no café do Hotel Terminus, no mesmo salão onde não servem bebidas espirituosas, a tv tava ligada na CNN Portugal e as reportagens, como não poderia deixar de ser, destacavam o aniversário de 52 anos da Revolução dos Cravos. As liderenças de esquerda celebravam a data. Imagens mostravam milhares de pessoas na Avenida da Liberdade gritando 25 de abril sempre, fascismo nunca mais! Os líderes da direita faziam a tradicional cara de cu sem pestana (todo líder de direita tem, por consequência direta de sua escolha ideológica, uma cara de cu sem pestana). Os fascistas portugueses, se pudessem, nem levantariam da cama no dia 25 de abril, a data que acabou com a ditadura salazarista e acelerou a independência das ex-colônias.

O mundo gira, a lusitana roda e o tempo na África é circular. Um ano depois da Revolução dos Cravos, Samora Machel, líder da FRELIMO, tomou posse como o primeiro presidente da República de Moçambique. A Vila Algarve foi fechada. Em 1999, a Ordem dos Advogados comprou a casa com a intenção de tranformá-la na sede da turma do anel rubi. O custo da reforma ficou estratosférico, a ordem mandou um data venia máximo e cedeu a casa pro Ministério da Cultura, que desde então divulga um projeto de transformar o ex-palacete neocolonial feito no tempo colonial no Museu da Libertação de Moçambique. Enquanto isto não acontece, moradores de rua e dependentes de tudo, que estão pouco se lixando se o prédio é neocolonial ou não, aproveitam pra dormir nos escombros dos azulejos da Vila Algarve tendo a companhia dos corvos indianos que além de fazerem um barulho danado, ainda cagam na cabeça deles.

Os corvos indianos chegaram no país de carona em navios cargueiros, no final dos anos 60. Gaiatos, não entraram pelo cano e se deram bem na Ilha de Inhaca, que fica pertinho de Maputo. No início deste século houve uma segunda vaga e eles se espalharam como praga por toda a costa, voando numa relax numa tranquila e numa boa por lixões, feiras, mercados e parques. O corvo indiano é um possível transmissor da gripe aviária. Eles já voam no Brasil, e estão sendo monitorados por especialistas em Santos, na Ilha Grande e na Paraíba.
O mundo gira, a lusitana roda e o tempo africano é circular. O endereço da Vila Algarve mudou de nome. Hoje ela fica na esquina da Avenida Mártires da Machava (em homenagem aos que foram torturados no presídio de Machava) com a Avenida Ahmed Sekou Touré, o líder da independência da Guiné. Craveirinha foi o primeiro escritor africano a receber o Prêmio Camões de Literatura, concedido desde 1998 pelos governos do Brasil (ex-colônia) e de Portugal (ex-estado colonialista).

O mundo gira, a lusitana roda e o tempo africano é circular. Entre 1567 e 1569 Luis de Camões ficou exilado na Ilha de Moçambique o único paraíso terrestre que vi com meus próprios olhos. Chegou sem um tostão para sobreviver e sem um puto no bolso pra voltar pra terrinha. Foi lá que ele terminou Os Lusíadas.

Hotel Terminus é o nome do centurião que comanda a guarnição de Petibonum na primeira história de Asterix. Por quê tantos hotéis terminus pelo mundo? Do latim terminus (limite, fim, fronteira), o nome indicava que o hotel era o destino final ou um local de descanso ao término de uma jornada. O Hotel Terminus de Maputo fica pertinho do Palácio dos Casamentos, onde 9 entre 10 noivas da capital sonham em se casar. Terminus da solteirice. Em Moçambique, o noivo paga um dote, normalmente, o valor de 5 anos do salário de sua profissão, para a família da noiva. O governo revolucionário tentou acabar com a prática do dote. Não conseguiu. Também tentou usar a língua portuguesa (do colonizador) como estratégia-instrumento para criar uma unidade nacional. Conseguiram, mas não resolveram o impasse linguístico. Quase todo mundo mistura o português com ronga, macua, shangana, maconde e as outras 36 línguas de origem banta do país. Além do inglês. Maning nice.

Sim. A FRELIMO em seus primeiros anos de governo, tentou diminuir a influência dos tyniangas. Por sorte, perceberam que reprimir seria uma tremenda burrice. Em 1992 foi criada a AMETRAMO (Associação dos Médicos Tradicionais de Moçambique) que hoje tem 25 mil associados. Eles trabalham junto com o estado, tentando integrar a medicina tradicional com o sistema nacional de saúde. Escrito assim, parece um institucional. Em 2013, na minha segunda vinda por aqui, fiquei frustrado com a permanência de curandeiros. O que deveria me frustar era a pouca quantidade de médicos.

No domingo 26 o sol voltou. E era dia de voltar pra casa. Alcídio Amaral chegou cedo pra me levar -junto com uma nova amiga, a produtora e diretora baiana Vania Lima- até o aeroporto. Porra Alcídio, a gente ia pegar um táxi, não precisava. Veja bem: O Samora Machel fazia questão de receber e de se despedir de qualquer convidado na porta do avião. Assim como vos apanhei, vou lhes levar. Obrigado Alcídio. Lá do alto, na janelinha, tentei ver o palacete que eu não fotografei. Pensei que se fosse no Brasil, a gente já teria convocado a ametrama, os tynianga, os curandeiros, os feiticeiros todos, até mesmo os xeques e os padres, pra fazer um levante e uma limpeza naquele terreno. Tá mais do que na hora de fazer os espíritos que estão lá por dentro sumirem de vez. Na capa, foto que fiz do ônibus da seleção de futebol de Moçambique. Saravá!
Caros amigos: Falta um mês para fechar a campanha de financiamento para transformar este blog numa revista digital semanal e num podcast. Nas primeiras edições em junho, já temos um time da pesada conosco: Allan Sieber, Flavia Lins e Silva, Paulo Scott, Zé José, Mariana Filgueiras, Cássia Zanon, Kamile Viola, Márcio Pinheiro, Marcella Sobral, Vladimir Cunha, Tárik de Souza, Rafaela Simonati, Danilo Matoso, Carlos Eduardo Lima e Manoel Filho. Entre muitos outros ,outras e outres.
A Corda agradece os bambas Renato Barbieri e Leila Bourdokan, que apostaram com fé e com pix nesta parada tinhosa. É fácil apoiar:



Na playlist 173:

Cidadão Instigado # José Afonso # Racionais MC’s # Mateus Aleluia e Lenna Bahule # General D com Funk N’Lata # Dave & Ansel Collins # uma do novo do Mombojó # Jupiter Apple # Cidadão Instigado e Juçara Marçal # Marcos Roberto # Zizi Possi tem muito tempo que queria colocar esta música aqui na corda # Tom Zé # Lizzy Mercier Desclaux # Heshoo Beshoo Group # Fany Mpfumo # Frog # Divine Horseman # K.D.Lang # Chico Buarque # Os Mulheres Negras # um balaco latino do novo disco de Nasi # Cumbia Machuca # Sexteto Electrónico Moderno # Aretha Franklin # Xixel Langa # Kenny Burrel e John Coltrane # Jeff Beck # Alex Chilton # Keith Richards # strawberry switchblade # War # Dr.Buzzards # Lucina # Penny Arcade # Medium Medium # DJ Shadow # The Pink Fairies # Big John Hamilton # Waldir Calmon # David Johansen # Ghorwane # DJ Junior # The Durutti Column


LINKS, LINKS E MAIS LINKS!
sobre a vila algarve:
https://delagoabayworld.wordpress.com/category/pessoas/jose-dos-santos-rufino/
https://phmuseum.com/projects/vila-algarve#b-aznk0y
em breve esta boniteza de vania lima estará nas telas:
andrea dutra mandou avisar:

andré mourão mandou avisar:

e a playlist # 173!

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